— Saiu cedo. — Carl murmurou quando me viu.

— Sim. Mas já estou aqui. O que quer Mini Xerife. — Tirei seu chapéu e ele fez careta tentando pega-lo de novo.

— Chata.

— Resmungão. — Entreguei o chapéu para ele.

— Enid e eu estamos bem próximos.

Lancei um olhar curioso a ele.

— Próximos?

— Não quero falar sobre isso.

— Mas foi você quem começou.

— É que eu não tenho com quem conversar.

— Claro que tem. O Rick. O Daryl.

— Não vou falar sobre isso com o meu pai. E Daryl... Não, nem pensar.

— Tenta o Glenn então. Ele vai adorar falar sobre isso com você.

— Glenn não consegue guardar segredo.

— Se você esta com vontade e ela também, faça. Mas use preservativo. Não queremos outro bebe. — Seu rosto tingiu de vermelho e eu ergui as mãos. — Viu é fácil falar sobre isso.

— Falar sobre o que? — Nos viramos assustados para Rick parado nos encarando.

— Nada. — Carl falou rapidamente.

— Ele acha que eu posso me sentir mal por falar sobre Negan. Mas já expliquei que tudo bem.

O menino me lançou um olhar agradecido.

— Mas se não quiser conversar...

— Esta tudo bem, Rick. Todos aqui sabem quem eu sou. Esta tudo bem.

— Como foi as buscas?

— Não encontramos muitas coisas. Já era o esperado. — Assentiu.

— Va descansar.

— Estou bem. Mas vou ir comer algo.

— Opa. Eu estou dentro. — Carl se prontificou e eu sorri.

— Ele gosta mesmo da sua comida. — Rick comentou sorrindo.

— Estão convidados para jantar lá hoje se quiserem.

— Vou falar com o pessoal e iremos sim.

Assenti antes de me afastar. Antes de chegar a minha casa encontrei com Thomas.

— Você não gosta muito de mim não é?

— Por que a pergunta?

— Você nunca sorri quando conversamos.

— Não é sobre gostar, é sobre confiar.

— Podemos ser amigos.

— Não estou dividindo.

— Não vou forçar nada, mas quando precisar de algo é só chamar. E sobre as buscas se quiser continuar indo seria ótimo. Você foi muito bem contra os zumbis.

— Você também.

Ele sorriu e eu acenei com a cabeça antes de seguir meu caminho. Antes de entrar na casa ainda vi Daryl me encarando. Aquela mesma irritação estampada em seu rosto. Desviei o olhar.

A noite vesti uma calça jeans, cropped preto sem mangas e tênis preto. Glenn, Maggie, Rick, Carl e Michonne apareceram com Judith.

— Isso é bem estranho. — Michonne comentou olhando em volta.

— Eu sei. Parece que estamos no mundo de antes não é?

Fui ate a cozinha para terminar o jantar. Eles se acomodaram na mesa quando terminei de arruma-la.

Conversamos coisas normais de antes. Ninguém tocou no assunto família. Só falávamos sobre o trabalho, filmes.

— Você gosta de HQ? — Carl perguntou.

— Mas é claro.

Ele sorriu animado. Bateram na porta e eu o encarei confusa. Levantei e segui ate lá. Encontrei Daryl parado. Parecia bem desconfortável. Mas estava arrumado e limpo.

— Entre.

Ele entrou e seguimos para a cozinha. Não falamos nada. Rick o convidou para vir também e ele veio. Ninguém precisava falar mais nada. Mas Maggie lançou um olhar estranho para mim que não entendi.

— Que bom que você veio. — Rick falou.

Daryl só assentiu sem falar nada.

Nos servimos e comemos em silencio. A única que fazia barulho era Judith que logo quis passar para o meu colo.

— Sempre quando esta por perto ela faz isso. — Carl comentou.

— Eu levo jeito com crianças. Quase fui professora, mas desisti no ultimo segundo.

— E por quis ser advogada?

— Na verdade meu sonho era ser policial, mas comecei por advocacia.

— Você seria uma policial bem durona.

— Talvez. Nunca saberemos.

Carl e Maggie foram lavar a louça.

— Não precisa disso.

— Precisa sim. — Maggie respondeu.

— Por que policial? — Rick perguntou.

— Eu tive uma amiga. Ela foi estuprada. Todos alegaram que a culpa era dela por estar usando um short. O cara nem chegou a ser preso. Eu fiquei indignada. Queria fazer isso por ela, por varias mulheres que eram espancadas ou estupradas. Queria defende-las. Ir afundo nos crimes e colocar os verdadeiros culpados na cadeia. Por isso aprendi a me defender e comprei uma arma. Jurei matar qualquer um que tentasse algo assim comigo. O mais irônico é que meu pai que tanto me apoiou acabou virando o que virou.

— E a sua amiga? — Carl perguntou.

— Ela ficou bem traumatizada, se mudou para a França, a ultima vez que falei com ela estava cursando psicologia para trabalhar com pessoas que passavam pelo mesmo trauma que ela. Não sei se esta viva, zumbi ou morta. E nunca saberei.

— Por que ela queria fazer isso? — Glenn perguntou.

— Psicologia? — Assentiu. — Ela queria transformar a coisa ruim em algo bom. Foi traumatizante, mas ela queria ajudar outras pessoas. Ela tinha sofrido na pele aquilo, sabia como ninguém o que os outros estavam sentindo. Queria ajudar. A vida tem disso. Nem tudo é bom, tem as coisas ruins. Temos que passar por coisas ruins para nos deixar fortes. Devemos levar isso como experiências para nós e ate para outros.

Todos ficaram em silencio.

— E namorado? — Carl quebrou o silencio me deixando desconfortável.

— Alguns. Nada que valesse a pena. A maioria dos caras da minha idade eram idiotas, babacas e imaturos.

Ainda conversamos sobre mais algumas coisas, era divertido tê-los ali. Uma família. Michonne era mais quieta enquanto Maggie falava pelos cotovelos. Rick era mais centrado enquanto Glenn era mais agitado. E Daryl como sempre fechado e desconfortável. Era obvio que não se sentia bem ali, mas eu não entendia o por que de estar ali.

Assim que terminaram a louça resolveram ir embora. Os acompanhei ate a porta.

— Carl estava errado. — Rick falou. — Sua comida não é ótima. É maravilhosa.

— É. A branquela devia voltar a cozinhar algumas vezes lá.

— É só chamar. — Sorri.

Eles se despediram e saíram. Daryl ficou ao meu lado os observando depois virou para mim.

— Achei que o namoradinho estaria aqui.

— Namoradinho?

— O cara que passa só conversando com você. Foi rápida não é? Mas pelo menos arrumou alguém da sua idade.

— Você esta falando do Thomas?

— Não me interessa o nome.

— Para quem não se interessa parece bem interessado. — Ele segurou meu braço. — Ele não é meu namorado, nem nada do tipo. Nem mesmo o vejo desse modo.

— Pois devia.

Me estiquei ficando cara a cara com ele.

— Se eu ficar com outro cara não vai diminuir o tesão que você sente por mim e o desejo que sinto por você. O único jeito de mudar o que estamos sentindo é ficarmos juntos assim logo passa.

— Você só pode estar louca.

— Não. — Bati a mão na testa. — Eu tinha esquecido. Homens com mais de 40 anos já começam a brochar não é? — Seu aperto em meu braço ficou forte.

u sabia que era a coisa mais ridícula de se dizer e uma grande mentira, mas a provocação foi correspondida.

— Não me provoque.

— Vai fazer o que? Vai dizer que não pensa em mim todas as noites? Ou enquanto esta tomando banho? Pensa não é? Todo esse tesão reprimido vai acabar te deixando louco. — Puxei meu braço. — E Daryl quem esta aqui é você. Poderia ter ido para casa, mas continua aqui.

— Eu já estou indo.

— Ótimo. Bom banho frio.

Ele rosnou vindo ate a mim, agarrou minha nuca e puxou meu corpo para o dele. Seus lábios vieram para os meus me beijando loucamente. O desejo latente. Não era carinhoso, era bruto, mas eu não esperava coisa diferente. Daryl era selvagem.

— Você é minha perdição.

— Fala como se eu estivesse bem em desejar um cara que não me quer. Sabe o que é se sentir sozinha? Saudade? Vontade? Estou louca por você, Daryl mesmo com todo esse mal humor e esses seus princípios. Não adianta. O motivo de você não me querer, só faz eu te querer mais ainda por que você é digno!

— Não sou.

— Pode pensar o que quiser. Só me interessa a minha opinião.

Voltei a beija-lo segurando firme sua nuca. Sua mão desceu para a minha barriga e encontrou minha pele exposta por causa do cropped. Beijou meu pescoço e desceu a mão para a minha coxa a puxando para cima encaixando minha perna na sua cintura. Voltou a me beijar ate que se afastou.

— Espero o tempo que for Daryl. Um dia você entendera que não há nada de errado em querer ficar comigo. — Soprei um beijo antes de entrar e fechar a porta.