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6 Capítulo 6 - A poção de Snape
Notas iniciais
Hermione caminhou em passos apressados para a masmorra.
Não gostava daquilo, mas fora um pedido de Dumbledore, então, se obrigara a
fazer. Mas, ajudar Snape? Justo ele que tanto fizera para que ela se desse mal?
Justo ele que a maltratava constantemente nas aulas de poções? Mas engolira o
próprio orgulho e iria mostrar para aquele morcego super-desenvolvido quem era
superior a quem!
Subiu os últimos lances de escadas e olhou em volta só
para ter certeza de que o professor não estava lá. Respirou fundo, se
misturando a turma de alunos que também eram obrigados a esperar.
Com a capa ondulando, os cabelos oleosos quase grudando
no rosto, Severo Snape apareceu, lançando a menina um misto de ironia com
crueldade pelo sorriso. Hermione ergueu o queixo para ele.
Sentou-se em uma cadeira próxima a mesa do professor que
havia sido colocada ali especialmente para ela naquele dia. Com um movimento da
varinha a lição começou a aparecer no quadro. Com o canto dos olhos, a menina
percebeu que sobre as bancadas não havia nenhum material para que pudessem
fazer a poção, apenas algo coberto por um manto na mesa de Snape.
Hermione não demorou mais do que um minuto para descobrir
o porquê. A poção do Incerta Futuri
era expressamente proibido pelo ministério da magia. Havia no mínimo centenas
de arquivos com fixas de bruxos que enlouqueceram por causa dele... Mas lá
estava Snape dando uma aula sobre o assunto.
-A poção do Incerta
Futuri é totalmente proibido pelo ministério da magia. –Snape começou
olhando para a turma com ar de indiferença, parecendo ler o pensamento de
Hermione. –é uma poção que prevê o futuro, e, por isso, vocês não vão aprender
como fazê-lo, apenas ouvirão atentamente.
Um menino de Lufa-Lufa ergueu o braço se esticando o
máximo possível em sua carteira. Snape passou os olhos por ele e soltou um
suspiro pesado como se já previsse aquilo.
-Young!
-Professor, se a poção é proibida, nós temos a permissão
para estudá-la? –o menino continuou com os olhos castanhos arregalados.
Hermione olhou para o professor esperando pela resposta também.
-caso você não saiba, Young, nós estamos sendo
acompanhados por um membro do ministério hoje. –ele apontou para Hermione. –e
não creio que na vida vocês vão encontrar muitos bruxos que estejam preocupados
com as regras tolas do ministério. Senhorita Granger, poderia nos explicar
porque a poção é proibida? –ele a lançou um olhar de desafio em resposta a sua
incredulidade. Então era por isso que Dumbledore a pedida para acompanhar a
aula de Snape.
-a poção não prevê nenhum tipo de futuro certo já que as escolhas
feitas estão constantemente mudando seu futuro. Centenas de bruxos a usavam
como forma de proteção para possíveis ataques, seu uso prolongado pode levar ao
enlouquecimento já que algumas coisas podem vir a não acontecer ou não aparecer
como... A própria morte. Obsessão, em outras palavras. –Hermione deu de ombros,
como se aquilo fosse apenas uma conta de dois mais dois.
-escutem bem! –Snape chamou a atenção da sala que havia
começado a ficar inquieta. –tudo o que é visto quando se toma essa poção é
apenas uma possibilidade. Se você está em um corredor e decide tomar o caminho
da esquerda pode ser devorado por um dragão e, se decidir pelo da direita,
chegará ao seu destino com segurança. É como tirar cara ou coroa! O seu eu do
presente não pode interferir no futuro, acredito que nenhum de vocês esteve
dentro de uma memória antes, mas é da mesma forma como funciona. Você agora,
daqui a cinco minutos, é apenas passado... Só uma lembrança! Não sabemos
exatamente o que veremos, pode ser algo da semana que vem ou somente dentro de
cinqüenta anos. Entenderam?
Hermione olhou para a sala. Todos os alunos pareciam
tensos, olhando dela para o professor como se esperassem que a menina se
levantasse e dissesse que não permitiria aquilo acontecer. Parece que a palavra
“morte” tinha os afetado.
Porém, Snape tirou a capa de veludo de cima de sua mesa e
revelou um caldeirão com uma substancia espelhada dentro. O professor tirou um
pouco da substancia e colocou em um vidrinho olhando significativamente para
Hermione.
-Senhorita Granger, gostaria de tomá-la ou devo chamar um
aluno? –ele ergueu as sobrancelhas a desafiando.
Hermione se levantou com um salto e pegou o vidrinho de
suas mãos, não sem antes dar uma boa olhada para dentro do caldeirão. A
superfície parecia um espelho perfeito. Um segundo depois uma gota pareceu cair
e tremulou a imagem e então seu reflexo envelheceu. Seus cabelos castanhos se
tornaram cinzentos e o rosto corado ganhou rugas e manchas. Não parecia um bom
sinal, mas ela não podia deixar Snape fazer com que um aluno bebesse.
Bebeu todo o conteúdo e esperou. Snape se sentou em sua
cadeira e ficou observando. O rosto de todos os alunos de Lufa-Lufa e Cornival
se tornaram ainda mais tensos e cheios de expectativas.
-talvez seja melhor se sentar, Granger! –a voz de Snape
ecoou longe.
-não seja...
Sua cabeça girou por um momento, fazendo a imagem em seus
olhos virar uma neblina fina. E então o que apareceu em seus olhos era mais
real, mais sólido. Era aquela mesma sala de aula, Hermione era capaz de se ver
sentada naquela mesma cadeira olhando para o professor quando alguma coisa
quebra a janela e acerta um aluno. Depois tudo voltava a ser um borrão. Via-se
andando pela rua, ao seu lado estava Malfoy com um sorriso de provocação. No
rosto da Hermione tinha uma pontada de irritação. Malfoy riu de alguma coisa e
então se apressou deixando a menina para trás.
E então, novamente a imagem desapareceu. A menina não
sentiu nada. Ela estava parada do lado de fora olhando para um grande prédio
que parecia em chamas. Quando pensou que estava voltando, viu tudo em sua volta
desaparecer e quando voltou em foco estava no meio de uma sala de estar.
As paredes eram de um verde envelhecido, havia alguns
quadros bruxos ao redor e quatro gatos brincavam no sofá estampado. Parecia a
casa de sua avó antes de morrer, mas não poderia ser. Quando seus olhos se
encontraram com os da pessoa sentada na poltrona, sentiu todo seu corpo
estremecer. Porque ali, parada como se estivesse meio morta, estava ela mesma.
A mesma imagem envelhecida que viu quando a superfície da poção de Snape se
agitou. Os olhos castanhos não tinham vida e as agulhas de crochê se mexiam
sozinhas, fazendo laços aleatórios.
Sentiu lentamente o chão lhe faltar e tentou gritar, mas
nada aconteceu. Quando pensou em correr, começou a sentir uma dor aguda atrás
da cabeça e tudo começou a girar mais uma vez. Franziu a testa e quando voltou
a abrir os olhos encontrou o rosto de Severo Snape a observando.
-eu disse que era melhor se sentar! –ele ralhou. –e
então?
-o menino de Lufa-Lufa usando óculos e segurando uma pena
prateada! –ela murmurou sentindo a dor na cabeça piorar. –é melhor ele se
afastar da janela!
O menino que Hermione descrevera arregalou os olhos e
pulou para fora de sua carteira o mais rápido que pode. No mesmo instante a
janela quebrou, lançando estilhaços para todos os lados. Outro menino, montado
em uma vassoura, colocou a cabeça para dentro.
-Desculpe, Professor, o Willians jogou com muita força!
–o menino falou com ar de riso. Hermione, se apoiando sobre os cotovelos,
percebeu que ele vestia uniforme verde e tinha o símbolo do capitão do time de
Quadribol no peito. Logo, Snape não iria fazer nada.
-não houve danos graves. –ele disse baixo. –prestem mais
atenção da próxima vez!
-tudo bem! –e então o menino correu, pegando um balaço e
voando para fora. Snape concertou o vidro da janela com um movimento da varinha
e se virou para Hermione.
-mudando o futuro, Granger? –ele perguntou seco.
-ah, sim! –ela franziu o nariz se levantando com
dificuldade.
-e o que mais você vai mudar? –ele ergueu uma
sobrancelha, quase parecendo curioso.
-definitivamente eu nunca vou pintar as paredes da minha
sala de verde! –ela fez outra careta, tirando dos alunos nervosos uma
gargalhada.
(...)
Então era aquilo. Definitivamente iria terminar sozinha,
velha e louca. Pelo sabia agora que iria ter sua varinha de volta, de que outra
maneira as agulhas poderiam tricotar sozinhas?
Tudo bem, era totalmente possível mudar o que ela tinha
visto. Tinha salvado o menino, não tinha? Isso provava muito... Mas como ela
poderia saber o que tinha que mudar para não acabar daquele jeito? Com o menino
foi fácil, só mandá-lo se afastar da janela, mas por que sua própria vida
parecia tão difícil?
Caminhou arrastando os pés para fora de sua lareira.
Quase tudo estava silencioso, se não fosse os barulhos da televisão.
Definitivamente Malfoy havia aprendido como se ligava a TV.
Caminhou até o sofá ignorando o olhar inquisitório do
loiro e se jogou, sem nem ao menos levar suas coisas para o quarto. Draco
continuou olhando para seu perfil com a testa franzida tentando entender o que
havia acontecido.
-ahn, você está bem? –ele perguntou após um momento em
silêncio.
Hermione deixou a cabeça pender e respirou fundo. Não
queria admitir, mas a visão da poção de Snape havia lhe atingido. Então, ótimo,
ela acabaria sozinha no fim e daí? Não era como se estivesse implorando por
companhia. Mas isso não era verdade. Sentia como se segurassem seu pescoço com
força.
-já sentiu como se tudo aquilo que você sempre temeu
estivesse prestes a se tornar realidade? –perguntou em voz baixa, fitando a
televisão sem realmente ver.
-ah, não! Não costumo pensar muito nesse tipo de coisas,
sabe como é... Atrai! –Malfoy riu sem desviar o olhar do rosto da menina. –o
que aconteceu?
-Dumbledore pediu que eu ajudasse Snape em uma aula hoje.
–ela suspirou. –imagine a minha surpresa quando descobri que ele pretendia me
fazer beber a poção!
Draco sentiu uma onda de pânico lhe atingir. Havia feito
algumas detenções na sala de Snape e sabia que nada que viesse dele poderia ser
bom. E, se ele pretendia fazer a Granger a beber, não duvidava que pudesse ser
veneno.
-e você bebeu? –ele perguntou com a voz no fundo da
garganta.
-sim! –ela virou para olhá-lo. –Incerta Futuri!
-é uma poção proibida pelo...
-eu sou do ministério, lembra? –Draco observou a feição
arrasada da menina por meio minuto.
-e o que você viu? –sua voz não passou de um sussurro
fraco.
-nada de novidade. –deu de ombros. –se você ficar feliz,
nós vamos recuperar nossas varinhas!
Ela não estava sendo totalmente sincera, ele sabia disso.
Mas se Granger não queria dizer, não havia modos para obrigá-la.
Hermione voltou a tombar a cabeça no sofá e fechou os
olhos. Gostaria de pensar que tudo aquilo foi só uma brincadeira de mal gosto
de Snape, que ele havia trocado alguma coisa... Mas isso não explicaria o
porquê de ela ter visto o menino ser atingido.
Sentiu o sofá ao seu lado abaixar, mas não deu
importância. Estava concentrada de mais em tentar achar qualquer desculpa para
jogar tudo nas costas de Snape e se livrar daquilo de uma vez.
-tudo bem, chega! Vem aqui! –abriu os olhos lentamente,
encontrando a mão de Malfoy estendida em sua direção.
-o que é isso? –perguntou franzindo a testa de leve.
-não vai saber se não aceitar! –ele sorriu de canto. Um
misto de malicia, sinceridade e solenidade no rosto.
Hermione observou sua mão esticada por mais alguns
segundos e pesou todos os lados possíveis. Já sabia como sua vida iria
terminar, grande coisa, então... Por que não aproveitar até lá? Sorriu
fracamente e segurou a mão do menino que a puxou para ficar em pé.
(Se
quiserem acompanhar com música: http://www.youtube.com/watch?v=ez0_8VTC2t4 )
Draco sorriu, segurando a cintura da menina há poucos
centímetros de seu próprio corpo. Hermione o olhava com a testa franzida, mas
não fazia nenhuma força para se afastar. Pegou os braços da menina e passou por
seu próprio pescoço, voltando a segurá-la e balançar de um lado para o outro.
-Take me where I’ve never been, Help me on my feet again.
–ele murmurou, tentando se lembrar do ritmo da música que há tanto tempo havia
ouvido.
-show me that good things come to those who wait. Tell me
I’m not on my own. –ela completou rindo baixinho. Não fazia idéia de como ele
poderia conhecer a música, mas pouco importava no momento. –Tell me I won’t be
alone.
-tell me what I’m feeling isn’t some mistake. –ele
completou, fazendo-a rodar em seu próprio eixo.
(Leve-me
para onde eu estive,
Ajude-me
a ficar em pé novamente.
Mostre-me
que coisas boas acontecem para quem espera.
Diga-me
que eu não estou sozinho nessa.
Me
diga que eu não vou estar sozinho.
Me
diga que o que estou sentindo não é nenhum erro)
Sorriu ouvindo a risada da menina. Antes, o que parecia
apenas um balançar desajeitado, agora tinha forma e ritmo. Hermione encostou a
cabeça no ombro de Draco e respirou tranquilamente. “A poção poderia ter
efeitos colaterais?”, pensou tentando não rir da própria besteira.
O que estava acontecendo era bem real e bem claro. Mais
uma vez Malfoy estava ali, como um porto-seguro, para sustentá-la antes que
pudesse cair. A doninha quicante, o crocodilo albino, arrogante, mimado e
prepotente. Poderia ser a mesma pessoa que estudou com ela? Teria ele se
tornado humano?
-lembra do quarto ano? –ele perguntou alisando o cabelo
castanho que caia pelas costas de Hermione.
-sim! O ano do torneio! –ela resmungou se sentindo mais
confortável do que deveria.
-exatamente. Naquela noite em que nos encontramos no
corujal, quase lhe convidei para o baile... por impulso! –ele riu baixinho.
-e o que o freou? –ela riu, curiosa.
-o mesmo impulso, eu acho! –ela sentiu ele dar de ombros.
–no fim ainda éramos Malfoy e Granger. Tipo água e vinho.
Hermione pensou cuidadosamente em cada palavra dita por
ele. Lembrava-se perfeitamente da noite que ele estava falando. Ele não a
chamara de sangue-ruim, não recitou provocações ou sequer pareceu olhá-la. O
Draco de anos atrás ficara apenas parado em sua frente, torcendo as mãos até
que por fim correu para fora sem olhar para trás.
-sabe o que é mais estranho? –ela apoiou o queixo em seu
ombro.
-ahn?
-se você tivesse pedido, tenho certeza que eu teria
aceitado! –ela riu um pouco, se afastando para olhar seu rosto.
Malfoy apenas sorria, olhando para os olhos castanhos
como se procurasse por algo ali dentro. Talvez ele quisesse saber se era
verdade ou não, ela pensou suspirando, se sentindo mais idiota após isso. Draco
sorriu abertamente.
-acho que nossa dança está atrasada alguns anos então!
–ele murmurou contra seu ouvido, pressionando mais seu corpo contra o de
Hermione.
Hermione apoiou a testa na bochecha de Draco, fechando os
olhos. O menino passeou as mãos pelas costas da menina, quase sentindo o calor
de seu corpo sob as roupas. Ela não sabia exatamente como agir, um suspiro
escapou por seus lábios, tocando a pele clara do pescoço dele.
Ambos se afastaram, olhando um para o rosto do outro com
interesse, dúvida e curiosidade. Obedecendo um impulso quase irrefreável, Draco tocou os lábios rosados de Hermione com a
ponta do indicador, a testa em um vinco. A menina entre abriu os lábios, o
segurando pela nuca.
E, antes mesmo que pudessem se dar conta do que estava
acontecendo, seus lábios estavam juntos. Hermione o segurou pelo rosto, ficando
na ponta dos pés dando passagem para a língua do menino invadir sua boca. Draco
a puxou pelo quadril, unindo seus corpos.
A mão da menina passeava entre os cabelos loiros, vez ou
outra caindo em sua nuca chegando até em seu pescoço. Se tocavam com urgência,
sem pudor, como se fossem apenas um. O coração martelando em seu peito, Hermione
tinha certeza de que ele era capaz de senti-lo também. Levou algum tempo até que percebessem que
precisavam respirar.
Hermione e Draco fitaram-se com os olhos arregalados. Não
acreditavam no que estavam fazendo e, para que não pudessem negar, o menino
ainda a segurava e os braços dela ainda estavam repousados sobre seus ombros. Ambos
engoliram em seco e pularam para a direção oposta.
-acho que eu preciso de um Firewhisky. –o loiro disse, passando
a mão pelos fios claros nervosamente. Sua voz rouca e lábios inchados pelo
beijo.
-boa idéia! –Hermione piscou os olhos rapidamente,
olhando para qualquer direção menos a dele.
Correram em disparada para a cozinha atrás da bebida e
copos. E, com alguma sorte, tomariam uma boa dose de amnésia permanente para o
que havia acontecido na sala.
Notas finais
comentem!
beijinhos
e muito obrigada pelos reviews, de verdade! ++
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