Receita para o Amor
53 Renesmee - Velório
O tempo parecia se arrastar enquanto esperávamos na sala de Carlisle. O ar estava carregado de tensão, e o silêncio entre nós era tão pesado que eu mal conseguia respirar. Eu estava sentada ao lado de Renée, segurando sua mão, tentando transmitir uma calma que eu mesma não sentia. Ao meu lado, Bella estava tão pálida quanto um fantasma, os olhos fixos na porta como se esperasse que a qualquer momento tudo isso se revelasse um pesadelo.
O restante da família tinha ficado na festa, lidando com os convidados e, talvez, tentando manter as aparências. Mas eu sabia que nada mais seria o mesmo. Chase havia conseguido o que queria. Ele arruinou o casamento de Edward, jogando toda a sujeira para fora, e agora meu pai estava naquele hospital por causa disso. Carlisle e Esme disseram que Chase seria punido, mas isso não traria Charlie de volta.
Eu tentei olhar para Bella, tentando entender o que eu sentia por ela. Raiva? Tristeza? Decepção? Não conseguia decifrar. Se ela tivesse revelado a verdade antes, talvez Charlie não estivesse ali, naquela situação. Talvez ele estivesse rindo com Renée, aproveitando a festa, em vez de lutar pela vida.
A porta se abriu, e eu me levantei de imediato, com Renée e Bella logo atrás de mim. Edward e Carlisle entraram, e o olhar que trocaram me fez sentir um frio mortal no estômago.
— Como ele está? — Perguntei, minha voz mais frágil do que eu gostaria.
Edward suspirou, a dor evidente em seus olhos.
— Tentamos reanimá-lo, mas... ele chegou sem vida.
O mundo parou. As palavras de Edward reverberaram na minha mente como um eco distante. Eu queria gritar, queria chorar, mas não consegui fazer nada. Renée desabou em lágrimas, e Bella a abraçou, tentando consolar o que não podia ser consolado.
Eu fiquei imóvel, como se o tempo ao meu redor tivesse congelado. Meu coração estava partido, e o peso da realidade começou a afundar em minha alma. Charlie estava morto. Meu pai estava morto. E a culpa, uma culpa que eu não sabia se merecia ou não, começou a me consumir.
— Isso não deveria ter acontecido... — murmurei, mas ninguém parecia ouvir.
As lágrimas que eu tentava conter começaram a escorrer pelo meu rosto, e um vazio profundo tomou conta de mim. O único homem que sempre esteve ao meu lado, que me amou incondicionalmente, se foi. E eu não sabia se seria capaz de suportar essa perda.
O silêncio dentro de mim era ensurdecedor. A viagem para Forks passou como um borrão. O velório estava decidido, seria lá onde Charlie sempre se sentiu em casa, onde suas raízes estavam firmes. Renée, devastada, fez questão de que tudo fosse feito do jeito que ele gostaria, e Carlisle e Edward ajudaram com todos os preparativos. Eu me mantive em silêncio, mergulhada em uma dor que parecia não ter fim. Não consegui olhar para Bella, não consegui olhar para nenhum dos Cullen. Esme tentou me consolar, mas eu apenas disse que estava tudo bem e me afastei. Eu precisava daquela solidão, daquele espaço para processar a avalanche de sentimentos que me envolvia.
Horas atrás, Charlie estava ao meu lado, rindo, me confortando, sendo o pai que sempre foi. Agora, ele se foi. Aquela realidade era insuportável, e a culpa, o arrependimento, eram como uma faca cravada no peito.
A viagem para Forks foi silenciosa. Ninguém tinha muito a dizer, e o ar estava pesado com a tristeza que todos compartilhavam. A casa de Renée estava cheia de amigos e conhecidos de Charlie, todos ali para prestar suas últimas homenagens. Eu recebi os cumprimentos de pêsames ao lado de Renée e Bella, mas não conseguia realmente ouvir o que as pessoas diziam. As palavras pareciam distantes, como se eu estivesse presa em um pesadelo do qual não conseguia acordar.
Quando finalmente consegui me desvencilhar daquelas interações, procurei refúgio no quintal. Peguei o boné de policial de Charlie, o mesmo que ele usava com tanto orgulho, e encontrei um tronco de árvore no fundo da casa. Sentei-me ali, o boné apertado nas mãos, e finalmente deixei as lágrimas que eu vinha segurando escorrerem.
O céu acima estava escuro, as estrelas mal visíveis através das nuvens. O mundo parecia um lugar diferente agora, vazio, sem a presença de Charlie. A dor no meu peito era esmagadora, e eu me permiti chorar como não fazia há muito tempo. Chorei pela perda, pela culpa, pela injustiça de tudo aquilo. Chorei até que as lágrimas secassem, e tudo o que restasse fosse o vazio, uma dor entorpecida que não passaria tão cedo.
O tempo passou, mas eu não me mexi. Permaneci ali, segurando o boné de Charlie, absorvendo o peso da ausência dele. Estava sozinha com meus pensamentos, com a dor que agora fazia parte de mim. E, naquele momento, a solidão parecia ser a única coisa que fazia sentido.
A manhã chegou sem que eu tivesse dormido. Permaneci ali, encolhida, abraçada ao chapéu de Charlie, como se isso pudesse manter uma parte dele perto de mim. A brisa fria da manhã passava por mim, mas eu não sentia nada além da dor que continuava a latejar no meu peito.
Foi então que vi Renée se aproximando. Ela tinha uma força que eu mal conseguia entender, uma força que parecia impossível em um momento como aquele. Mesmo em meio à sua própria dor, ela estava preocupada comigo. Renée sentou-se ao meu lado, sem dizer uma palavra no início. Eu sabia que ela estava ali para me confortar, mas eu não tinha forças para dizer nada.
— É hora do enterro, querida — disse ela com suavidade. — Todos estão indo para o cemitério.
Eu assenti lentamente, mas meu corpo parecia pesado, difícil de mover. Renée, sempre tão cuidadosa, colocou a mão no meu ombro.
— Não é culpa sua, Nessie — sussurrou ela.
As palavras de Renée eram como um bálsamo, mas não consegui evitar a torrente de lágrimas que veio em seguida. Deitei a cabeça no colo dela, deixando que as lágrimas rolassem, me permitindo sentir a tristeza que me consumia. Renée começou a acariciar meus cabelos, murmurando palavras de consolo.
— Nós vamos enfrentar isso juntas — disse ela. — Eu, você e Bella. Vamos superar, de alguma forma.
Mas a menção a Bella fez algo se contorcer dentro de mim. Sentei-me rapidamente, enxugando as lágrimas com as costas das mãos.
— Não quero falar sobre Bella — murmurei, tentando manter a raiva e a dor sob controle.
Renée tentou me acalmar, mas ela sabia que eu não estava pronta para lidar com aquilo ainda. Havia muito mais por trás da minha dor, uma mágoa profunda que eu ainda precisava entender e superar.
— Vamos, querida — disse Renée, levantando-se e estendendo a mão para mim. — É hora de se despedir do Charlie.
Olhei para a mão dela, hesitante, mas sabia que tinha que ir. Sabia que precisava estar lá, que Charlie merecia minha despedida, meu adeus. Segurei a mão de Renée, sentindo o peso de cada passo que daríamos a partir daquele momento. Juntas, começamos a caminhar em direção ao cemitério, sabendo que aquele seria o momento mais difícil de todos.
Fale com o autor