Receita para o Amor
54 Renesmee - Consolo
Quando chegamos ao cemitério de Forks, o ar parecia ainda mais pesado, como se a própria natureza estivesse de luto. O céu estava nublado, o vento frio soprava suavemente, e o murmúrio das folhas parecia sussurrar palavras de conforto que não consegui ouvir. A cada passo que dávamos, meu coração batia mais forte, sabendo que estava me aproximando do momento em que teria que dizer adeus a Charlie para sempre.
Ao lado de Renée, avistei Billy Black, o melhor amigo de Charlie e pai de Jacob. Ele estava lá, de pé ao lado de alguns outros conhecidos da família, todos moradores da reserva de La Push. Quando ele me viu, abriu os braços, e fui até ele, aceitando o abraço apertado que ele ofereceu. A dor nos olhos de Billy era visível, mas havia também uma força tranquila, algo que eu precisava desesperadamente naquele momento.
— Eu sinto muito, Nessie — disse Billy, sua voz baixa e carregada de emoção. — Charlie era como um irmão para mim. A dor é grande, mas quero que você saiba que ele te amava muito. Você era a filha caçula que ele sempre quis proteger.
Essas palavras perfuraram meu coração de um jeito que eu não esperava. Saber que Charlie me via dessa maneira, que ele me amava como uma filha, só tornava tudo mais doloroso.
— Obrigada, Billy — consegui murmurar, minha voz fraca. — Ele era tudo para mim.
Billy assentiu, seus olhos cheios de compreensão.
— Ele ainda é, Nessie. Esse amor que ele tinha por você... isso nunca vai desaparecer. Lembre-se disso nos momentos difíceis. Ele está sempre com você, de uma forma ou de outra.
Eu queria acreditar nas palavras de Billy, queria me agarrar a essa ideia de que Charlie ainda estava comigo de alguma maneira. Segurei a mão de Renée e caminhamos juntos pelo cemitério, seguindo o cortejo que carregava o caixão de Charlie. O som abafado dos passos na grama parecia ecoar no silêncio ao nosso redor, enquanto nos aproximávamos do local onde Charlie seria enterrado.
Ao chegarmos ao túmulo, vi que muitos policiais estavam presentes, todos aqueles que haviam servido ao lado de Charlie e que o admiravam profundamente. Eles estavam perfilados, uma linha de uniformes azuis, suas expressões sérias refletindo o respeito e a dor que sentiam pela perda de um dos seus.
Um dos policiais, um homem mais velho que eu lembrava de ter visto em algumas ocasiões, deu um passo à frente. Ele parecia ser o líder ali, alguém que conhecia Charlie há muitos anos. Ele limpou a garganta e começou a falar, sua voz firme, mas cheia de emoção.
— Charlie Swan era mais do que um excelente policial. Ele era um homem de caráter, um exemplo para todos nós. Sempre disposto a ajudar, a ouvir, e a proteger aqueles que precisavam. Ele serviu esta comunidade com uma dedicação que poucos conseguem igualar, sempre colocando os outros antes de si mesmo.
O policial fez uma pausa, olhando ao redor, seus olhos fixos nos rostos emocionados dos presentes.
— Mas, além de ser um grande policial, Charlie era um amigo, um pai, um homem que sabia o valor da honestidade e da integridade. Ele nos ensinou o que significa ser verdadeiramente corajoso, não apenas no trabalho, mas na vida. Ele nos mostrou que a bondade e a força podem caminhar juntas. Hoje, nos despedimos de um herói, mas levamos conosco o seu legado, o exemplo de uma vida vivida com honra e amor.
Houve um breve silêncio após o discurso, e eu pude ver lágrimas nos olhos de muitos ali, inclusive nos meus próprios. Logo depois, uma salva de tiros foi disparada, uma homenagem final ao homem que Charlie era, e a quem sempre será lembrado.
O som dos tiros ecoou pelo cemitério, e eu senti como se cada disparo fosse uma batida do meu coração, uma despedida que me rasgava por dentro. Olhei para o caixão de Charlie, e todo o amor e a saudade que eu já sentia por ele transbordaram em lágrimas silenciosas.
Charlie estava sendo levado para o descanso final, mas sua memória, suas lições e seu amor permaneceriam comigo para sempre.
A cerimônia de despedida continuou, e enquanto o caixão de Charlie era lentamente baixado à terra, senti como se um pedaço do meu coração estivesse sendo enterrado junto com ele. As lágrimas escorriam pelo meu rosto, silenciosas, quentes, implacáveis. Não havia palavras para descrever a dor que eu sentia. Era como se todo o meu mundo estivesse desmoronando, cada certeza que eu tinha, cada crença que me sustentava, tudo estava sendo sepultado junto com Charlie.
Fiquei observando enquanto a terra cobria o caixão, uma sensação de vazio crescendo dentro de mim. Todos ao redor pareciam tão distantes, tão irreais. Até mesmo Renée, que sempre fora meu porto seguro, agora estava distante, envolta em sua própria dor. Eu precisava de espaço, de tempo, de qualquer coisa que me ajudasse a lidar com o que estava acontecendo. Então, me afastei lentamente de todos, caminhando para longe, tentando encontrar um momento de solidão em meio a tudo isso.
Fechei os olhos, tentando acalmar o turbilhão de emoções que ameaçava me consumir. O som abafado das vozes ao redor, o farfalhar das folhas ao vento, tudo parecia se misturar em um murmúrio distante. Mas, de repente, uma voz familiar, uma voz que eu pensei que demoraria a ouvir, chamou meu nome.
— Nessie.
Meus olhos se abriram, e meu corpo se virou quase automaticamente em direção à voz. E lá estava ele. Jacob, parado bem à minha frente. Era realmente ele, Jacob, como se tivesse surgido do nada, como se soubesse exatamente o momento em que eu mais precisaria dele.
Pisquei duas vezes, tentando acreditar que era real, que ele estava ali, comigo. Mas quando vi seu rosto, a expressão de dor e preocupação em seus olhos, soube que não estava sonhando. Ele deu alguns passos em minha direção, e quando chegou perto o suficiente, todo o controle que eu vinha tentando manter se desfez. Sem pensar duas vezes, me joguei em seus braços, agarrando-me a ele como se fosse a única coisa que me mantinha de pé.
As lágrimas que eu segurava há tanto tempo finalmente vieram à tona. Chorei tudo que vinha reprimindo, todo o medo, a dor, a tristeza, a confusão. Chorei por Charlie, por tudo que eu estava perdendo, por tudo que havia sido revelado. Chorei por mim mesma, por não saber como seguir em frente. E Jacob estava ali, segurando-me, deixando que eu chorasse, sem dizer uma palavra, apenas estando presente, me oferecendo o consolo que eu precisava.
E por um breve momento, naquele abraço, senti que talvez, apenas talvez, eu pudesse encontrar a força para continuar.
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