Receita para o Amor

55 Renesmee- La Push


O dia parecia nunca terminar. Após o enterro de Charlie, eu me despedi de Billy e dos demais amigos da reserva de La Push. A dor estava em todos os rostos, mas ver Billy e sentir a força em seu abraço me deu um pequeno alívio. Ele segurou minhas mãos com firmeza, seus olhos cheios de compaixão.

— Nessie, estamos todos ao seu lado — ele disse, sua voz grave e reconfortante. — Charlie te amava muito, você era sua filha caçula.

— Obrigada, Billy — murmurei, tentando manter minha voz estável. Mas o nó na minha garganta parecia impossível de desatar.

Rachel se aproximou em seguida, me envolvendo em um abraço caloroso. Ela segurou minhas mãos, seu olhar firme como o de Billy.

— Se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, estarei aqui, Nessie.

— Eu sei, Rachel. Obrigada.

Ao lado de Jacob e Renée, voltei para casa. O silêncio dentro do carro era pesado, cheio de tudo o que não estava sendo dito. Quando chegamos, Renée se virou para mim com uma expressão preocupada, o cansaço evidente em seus olhos.

— Nessie, querida, você precisa descansar. Eu sei que não dorme há dois dias. Está exausta.

Eu sabia que ela estava certa, mas o sono parecia a última coisa possível no meio do caos que minha mente havia se tornado. Jacob, sempre atencioso, olhou para Renée e depois para mim, como se tentasse medir o que estava acontecendo dentro de mim.

— Nessie, você está bem? Precisa de alguma coisa, Renée?

— Estou bem, querido, obrigada — Renée respondeu, seu tom suave. Ela o chamou de "querido" e por um segundo, observei a maneira como ela o olhou com gratidão. Mas minha atenção rapidamente se desviou quando a porta se abriu.

Bella e Edward entraram, seus rostos marcados pela dor e preocupação. Algo dentro de mim estalou, um fio que estava esticado há muito tempo finalmente se rompeu. Toda a dor, a raiva, a culpa, tudo explodiu de uma vez só.

— É sua culpa! — Gritei, minha voz ecoando pela casa. Não havia mais contenção, não havia mais nada segurando todo o ressentimento que havia crescido dentro de mim.

Sem pensar, avancei sobre Bella, a dor me cegando completamente. Mas antes que pudesse alcançá-la, senti as mãos firmes de Jacob me segurarem.

— Sua assassina! — Continuei a gritar, minha voz rouca e cheia de desespero. — É sua culpa!

Jacob me puxou para longe de Bella, seus braços em volta do meu corpo tentando me conter. Eu não conseguia parar, as lágrimas desciam descontroladas pelo meu rosto, e a dor era insuportável. Finalmente, quando as forças me abandonaram, me deixei desabar nos braços de Jacob. Ele me pegou no colo, como se eu fosse uma criança, me afastando de tudo e todos, me levando para o quarto.

— Nessie, olha para mim — Disse Jacob tentando me fazer olhar para ele.

— É culpa dela... Ela mentiu... Bella... — as palavras saíam aos soluços, a voz quebrada enquanto eu olhava para ele.

Ele me interrompeu — Olha para mim, meu amor. Eu estou aqui. Bella não fará mais nada.

Jacob me segurava firme enquanto meu corpo tremia com o impacto de tudo o que eu acabara de enfrentar. Com paciência e cuidado, ele me obrigou a tomar um calmante, insistindo com uma gentileza inabalável. Sabia que ele estava certo; precisava de um descanso que meu corpo e mente já não conseguiam mais adiar.

Ele me deitou na cama com uma ternura que contrastava com a tempestade que ainda rugia dentro de mim. Deitou-se ao meu lado, me aconchegando em seus braços, enquanto sussurrava palavras carinhosas, cada uma delas uma tentativa de acalmar o caos em meu coração. Fechei os olhos, sentindo o peso do cansaço pressionando minhas pálpebras, e me concentrei na voz de Jacob, permitindo que ela fosse o último som que ouvi antes de o sono finalmente me vencer.

Na manhã seguinte, despertei com a sensação reconfortante de algo familiar. A voz de Jacob, distante no começo, foi se tornando mais nítida, trazendo-me de volta à realidade com uma suavidade que só ele poderia proporcionar.

— Acorde, meu amor, é hora de acordar — ele sussurrou, sua voz tão próxima que parecia envolver-me em um abraço sonoro.

Abri os olhos lentamente, ainda sentindo o peso da tristeza, mas ao ver o rosto de Jacob, um alívio inesperado e acolhedor se espalhou por meu peito. Não era um sonho. Ele estava ali, comigo, trazendo uma pequena fagulha de luz para o meu luto.

— Não era um sonho — sussurrei, minha voz trêmula, como se precisasse de uma confirmação.

Jacob sorriu, e aquele sorriso aqueceu meu coração de uma forma que nada mais conseguia naquele momento.

— É real — ele disse, a certeza em sua voz me ancorando na realidade que eu precisava desesperadamente acreditar.

— Então me beija — pedi, minha voz mal se elevando a um sussurro.

Jacob não hesitou. Ele se aproximou e nossos lábios se encontraram, e naquele instante, o mundo desapareceu. O beijo era tudo que eu tinha imaginado e mais. Toda a saudade, todo o amor que estava preso dentro de mim, finalmente encontrou uma saída. O toque de seus lábios era suave e, ao mesmo tempo, cheio de uma intensidade que fez meu coração acelerar.

Cada movimento era um reencontro, uma promessa silenciosa de que Jacob havia realmente voltado para mim, e que, a partir daquele momento, nada mais nos separaria. O beijo foi a certeza que eu precisava. O amor que ele me dava era real, e apesar de tudo o que tínhamos enfrentado, estávamos juntos novamente.

Quando finalmente nos separamos, meus lábios ainda formigavam com a lembrança do beijo, e meu coração, mesmo carregando a dor da perda de Charlie, encontrou um novo motivo para bater mais forte. Eu estava em casa. Estava nos braços de Jacob, e isso era tudo que eu precisava para continuar.

Depois do café da manhã, Renée e Jacob insistiram para que eu fosse até La Push com Jacob. Eu estava hesitante, ainda imersa no luto e na confusão dos últimos dias, mas a preocupação nos olhos de Renée e o carinho de Jacob me convenceram. Talvez fosse exatamente do que eu precisava para acalmar meu coração e clarear minha mente.

Aceitei, e logo estávamos a caminho da praia. Caminhar na areia úmida, sentindo a brisa do mar acariciar meu rosto, trouxe uma sensação de paz que há muito tempo eu não experimentava. A imensidão do oceano à nossa frente era reconfortante, uma lembrança de que, por mais dolorosa que a vida pudesse ser, ela também tinha seus momentos de serenidade.

Jacob e eu caminhamos lado a lado, nossas mãos se tocando de vez em quando, como se o simples contato fosse o suficiente para lembrar que estávamos ali, juntos. O som das ondas quebrando contra as rochas e o canto distante das gaivotas criavam uma melodia que nos envolvia, tornando o momento ainda mais especial.

— Jake, me conta mais sobre as suas viagens? Onde você esteve na Espanha?

Ele sorriu— Passei por Madri, Barcelona, e fiz questão de ir até a Galícia. As catedrais lá são impressionantes. E a comida... você iria adorar.

— E o Japão? — Perguntei com curiosidade. — Como foi?

— O Japão foi... diferente de tudo que já vi. A mistura do moderno com o tradicional é incrível. Fui a Tóquio, claro, e também a Kyoto, onde visitei templos antigos e vi as cerejeiras em flor. É um lugar que tem uma paz única.

— E Londres? — Continuei, animada com a conversa. — Sempre quis ir para lá.

— Londres foi como voltar para casa, de certa forma, Os pubs, o sotaque, a arquitetura... tudo me lembrava dos tempos em que morei na Europa quando era mais jovem. Visitei o Palácio de Buckingham, andei de barco no Tâmisa, e até tomei um chá da tarde em um daqueles lugares chiques que você sempre vê nos filmes.

— Você conheceu alguma mulher interessante durante essas viagens? Perguntei com medo da resposta, mas Jacob sempre estava com alguma mulher e isso me deixava um pouco receiosa.

— Bem, conheci uma loira gata em Barcelona.

Parei de andar e me deu um tapa no braço, ele só podia estar de brincadeira e ele riu.

— Jake! — Protestei e ele riu me puxando pela cintura e olhou em meus olhos.

— Só estou brincando, Nessie. — Ela disse, a voz mais suave agora. — A única mulher que ocupou minha mente durante todo esse tempo foi você. Não importa onde eu estivesse, era em você que eu pensava, era você que eu queria ao meu lado.

Senti meu coração se apertar com suas palavras. Tudo o que Jacob fazia, cada decisão, sempre parecia girar em torno de nós dois. E eu sabia que não era fácil para ele deixar tudo para trás, mas, ao mesmo tempo, estava claro que não havia lugar no mundo onde ele preferisse estar.

Jacob me observou com atenção, seus olhos castanhos brilhando com compreensão. Ele não precisava dizer nada; apenas estar ali, me ouvindo, já era o suficiente e sorriu, um sorriso que aquecia meu coração como o sol nascendo depois de uma longa noite. Caminhamos em silêncio por mais alguns minutos, deixando a tranquilidade do momento nos envolver. Mas então, ele parou de repente, me fazendo parar também.

— Nessie — ele começou, sua voz cheia de uma emoção que eu ainda não conseguia identificar —, pode parecer que esse não é o melhor momento para isso, mas eu não quero voltar a Nova York sem você... como minha esposa.

Meus olhos se arregalaram, a surpresa evidente em meu rosto. Eu podia sentir meu coração disparar, como se estivesse tentando acompanhar o que acabara de acontecer. Jacob sorriu, nervoso, mas determinado.

— Eu te amo, Nessie. E quero passar o resto da minha vida ao seu lado. Casa comigo?

Fiquei em silêncio por alguns segundos que, para mim, pareciam uma eternidade. Um turbilhão de emoções passou por mim, enquanto eu tentava processar o que ele havia acabado de dizer. Mas então, algo dentro de mim se acalmou. Um sorriso suave curvou meus lábios, e assenti lentamente.

— Sim, Jake. Eu quero ser sua esposa.

A expressão de Jacob se iluminou com uma alegria pura e sincera. Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele me puxou para seus braços e me beijou, um beijo cheio de promessas, de amor, e de uma vida que eu mal podia esperar para começar ao lado dele.

Finalmente, o peso do mundo parecia ter desaparecido, e tudo o que restava era a certeza de que, juntos, podíamos enfrentar qualquer coisa.