Receita para o Amor
68 Renesmee- Liberdade
A noite foi longa e inquieta. Eu não consegui pregar o olho nem por um segundo, com minha mente totalmente focada no que aconteceria na manhã seguinte. Charlie dormia profundamente ao meu lado, sua respiração leve e tranquila, alheia ao que estava por vir. Eu, por outro lado, não conseguia afastar o medo que corroía meu peito. Eu tinha um plano, mas ele envolvia riscos que poderiam mudar nossas vidas para sempre.
Enquanto Charlie dormia, eu me levantei silenciosamente e comecei a separar algo para ela vestir na manhã seguinte. Precisávamos estar preparadas para quando Alec aparecesse. Eu sabia que ele viria de manhã, como fazia todos os dias, e a única maneira de escapar seria pegá-lo desprevenido.
Com o coração acelerado, eu terminei de preparar as roupas de Charlie e me sentei ao lado dela, observando seu rosto angelical enquanto dormia. Eu a beijei levemente na testa, tentando me convencer de que tudo ficaria bem, mas o pavor de falhar me atormentava.
Eu não sabia ao certo se o sol já havia nascido quando Charlie começou a se mexer e, finalmente, acordou. Seu sorriso inocente e despreocupado foi um bálsamo temporário para o meu coração em frangalhos.
— Bom dia, meu amor — sussurrei, dando-lhe um beijo carinhoso.
— Bom dia, mamãe — Charlie respondeu com a voz ainda sonolenta, mas já se animando ao ver que eu estava ali com ela.
Eu lhe entreguei alguns biscoitos que havia guardado como café da manhã, e enquanto ela comia, comecei a vesti-la. Envolvi seu corpo frágil em várias camadas de roupas e finalizei cobrindo-a com meu casaco. Charlie me olhou com uma expressão confusa, seus olhos grandes e curiosos.
— Ficou grande, mamãe — ela comentou, puxando as mangas que cobriam suas mãos.
Eu sorri, tentando esconder meu nervosismo.
— É porque lá fora está frio, meu amor. Quero que você fique quentinha — expliquei, ajustando a gola ao redor do pescoço dela.
Depois de vesti-la, eu a peguei no colo junto com seu travesseiro, cobertor, e seus papéis e giz de cera. Caminhei até o guarda-roupa, tentando manter a voz calma e serena.
— Meu amor, você vai ficar aqui até a mamãe chamar você, está bem? Quando eu chamar, você vai correr e me esperar lá fora, entendeu? — perguntei, olhando fundo em seus olhos.
Charlie assentiu, embora com uma expressão um tanto apreensiva.
— Sim, mamãe.
Sorri para ela, tentando transmitir toda a segurança que eu mesma não sentia. Dei-lhe um beijo suave antes de encostar a porta do guarda-roupa, deixando apenas uma pequena fresta para que não ficasse escuro demais lá dentro.
Com um último suspiro, me afastei e caminhei até o colchão onde as facas estavam escondidas. Minhas mãos tremiam enquanto as pegava, tentando me preparar mentalmente para o que estava prestes a acontecer. Eu sabia que não havia outra saída, e o que eu estava prestes a fazer era o único jeito de salvar minha filha e a mim mesma.
Então, ouvi o som da chave girando na fechadura. Meu coração disparou. As facas estavam seguras em minhas mãos, e eu me posicionei perto da porta, esperando pelo momento certo. Quando Alec entrou, despreocupado como sempre, avancei sobre ele antes que tivesse tempo de reagir.
Ele gritou de dor e surpresa quando o atingi na nuca, caindo no chão e tentando desesperadamente se livrar do objeto que eu havia cravado em sua pele. Mas eu não hesitei. A adrenalina tomou conta de mim, e eu o ataquei novamente, com toda a força que pude reunir.
— Charlie, corre! — gritei, minha voz tremendo de urgência.
Charlie saiu correndo do guarda-roupa, seus pequenos pés disparando pelo chão enquanto passava pela porta. Alec, ferido e em pânico, tentou gritar para mim.
— Não, Nessie! Não faça isso! — ele gritou, a voz dele cheia de dor e desespero.
Mas eu o ignorei. Peguei a chave que ele havia deixado cair e saí do quarto, fechando a porta com força atrás de mim. Charlie estava parada ali, assustada e tremendo. Eu a peguei no colo, tentando transmitir toda a segurança que eu mesma não sentia.
— Tudo vai ficar bem agora, meu amor. Mas precisamos sair daqui, rápido — sussurrei, tentando esconder o tremor na minha voz.
Eu sabia que não havia tempo a perder. Com Charlie nos braços, comecei a correr pelos corredores daquele lugar, buscando desesperadamente uma saída. Cada passo que dava, eu só conseguia pensar em Jacob. Se conseguíssemos sair dali, ele nos encontraria. Ele nos protegeria. E eu daria qualquer coisa para que Charlie tivesse a chance de conhecer o mundo fora daquele cativeiro.
Correr nunca me pareceu tão vital quanto naquele momento. A cada passo, sentia meu coração martelar com a urgência de escapar daquele lugar, de deixar para trás os anos de dor e terror. Segurando Charlie com força no colo, eu subi a escada no final do corredor escuro. Quando cheguei ao topo, me vi dentro de um armário cheio de alimentos e produtos de limpeza. Meu coração quase parou de bater ao perceber onde estávamos. Ainda era a casa de Alec.
Saí do armário, a luz intensa me cegando por alguns segundos, me fazendo lembrar do quanto estava acostumada à escuridão. Instintivamente, apertei Charlie contra meu peito, tentando protegê-la do mundo que há tanto tempo não conhecíamos.
Quando meus olhos finalmente se acostumaram, pedi a Charlie que abrisse os olhos devagar. Ela estava assustada, mas fez o que pedi, e assim que conseguiu enxergar, se abraçou a mim, tremendo.
— Vai ficar tudo bem, meu amor — murmurei, beijando sua testa.
Olhei ao redor, reconhecendo a cozinha que tantas vezes temi. O pânico me invadiu novamente, e sem hesitar, comecei a correr, passando pela sala sem olhar para trás. Tudo o que importava era fugir, escapar daquele pesadelo. Quando finalmente alcancei a porta da frente e senti a chuva fria contra a pele, o alívio começou a despontar.
Levantei a mão para chamar um táxi que passava. O motorista parou, notando meu desespero.
— Você está bem? — perguntou ele, preocupado.
Eu mal consegui responder, as palavras saindo entrecortadas pelas lágrimas.
— Por favor, me leve para casa... me ajude...
Ele assentiu, e durante a corrida, entre soluços, expliquei o que havia acontecido. O choque em seu rosto era visível, mas ele se manteve calmo e pegou o celular, ligando para a polícia.
Abraçada a Charlie, tentei segurar o choro. A cada quilômetro, o medo de ser recapturada diminuía, mas só quando o táxi parou em frente à casa da minha mãe senti que finalmente estava segura.
Desci do carro, com Charlie ainda nos braços, e corri pelo gramado, sentindo a chuva molhar nossos cabelos e roupas. Quando cheguei à porta, toquei a campainha desesperadamente, meu coração quase saindo pela boca.
Após o que pareceu uma eternidade, a porta se abriu. E lá estava ela. Minha mãe.
— Renesmee! — A expressão de Renée era uma mistura de choque, felicidade e alívio. Os anos de dor e incerteza claramente a tinham marcado, mas agora tudo isso parecia se dissolver na alegria do reencontro.
— Mãe... — foi tudo o que consegui dizer antes de desabar em seus braços, as lágrimas correndo livremente pelo meu rosto.
Renée me abraçou com uma força que eu não sentia há anos. A cada segundo, o calor do abraço dela me fazia acreditar que aquilo era real, que eu estava mesmo de volta.
— Você voltou... depois de tanto tempo... — Ela sussurrou, as lágrimas também escorrendo pelo rosto dela. — Eu nunca perdi a esperança, nunca parei de procurar...
Charlie olhou para nós duas, sem entender muito bem o que estava acontecendo, e Renée finalmente a notou. Sua expressão mudou para uma confusão afetuosa.
— Quem é essa, Nessie?
Olhei para minha mãe, sentindo o peso de tudo o que ainda precisava ser explicado. Mas por enquanto, tudo o que consegui dizer foi:
— Essa é Charlie, mãe. Minha filha.
A surpresa dela foi evidente, mas o amor incondicional que sempre teve por mim brilhou em seus olhos. Ela estendeu os braços para Charlie, que hesitou por um momento antes de se aconchegar em seu colo.
— Vocês estão seguras agora. Tudo vai ficar bem — Renée sussurrou, segurando ambas com tanto carinho, que finalmente me permiti acreditar que tudo aquilo tinha acabado.
Depois de quatro anos de sofrimento e incerteza, estávamos finalmente em casa.
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