Receita para o Amor
69 Renesmee- De volta a Nova York
Os três primeiros meses após sair do cativeiro foram, sem dúvida, os mais difíceis da minha vida. Por um lado, havia a liberdade, uma luz no fim do túnel que eu pensava ter desaparecido para sempre. Por outro, havia a realidade dolorosa de tudo o que eu tinha perdido. Jacob, o homem que sempre amei, estava noivo de outra pessoa. A descoberta do noivado dele foi um golpe devastador, mas, ao mesmo tempo, eu entendia. Quatro anos é muito tempo, e Jacob tinha seguido em frente, como era de se esperar. Eu não poderia culpá-lo por isso, e muito menos atrapalhar sua vida agora.
Mesmo assim, nos primeiros dias da minha liberdade, Jacob foi meu pilar. Sua presença foi essencial para mim, e principalmente para Charlie, que não conhecia nada além das quatro paredes onde havia nascido. Ele ajudou minha filha a se adaptar ao mundo exterior, a explorar as coisas que para nós são comuns, mas para ela eram absolutamente novas e, por vezes, assustadoras.
Mas faz mais de um mês desde a última vez que nos vimos, quando nos despedimos em La Push. Meu coração ainda pertence a ele, mas eu sei que preciso de tempo. Os traumas que vivi durante aqueles quatro anos não desaparecem de uma hora para outra.
Agora, estou em Nova York, vivendo com Bella e Edward. Bella tem sido uma fonte de força para mim como eu jamais poderia imaginar. Renée também veio comigo, incapaz de se afastar de mim e de Charlie. Ela é minha âncora, sempre me apoiando e me ajudando a lidar com tudo isso. Apesar do afastamento entre Jacob e eu, deixei claro que ele é livre para ver Charlie sempre que quiser. A psicóloga tem insistido na importância da presença dele nesse momento de transição para Charlie, e eu não poderia negar isso à minha filha.
Eu estava organizando a mochila de Charlie enquanto ela era mimada por Bella e Renée. As risadas da minha filha ecoavam pela casa, enchendo o ambiente com uma alegria que eu não via há muito tempo. Jacob havia pedido para passar o dia com Charlie, e apesar de me doer deixar minha filha, acabei cedendo. A psicóloga disse que é importante dar a Charlie um pouco de independência.
Bella se aproximou e pegou a mochila, me lançando um olhar questionador.
— Você tem certeza de que não quer ir com a gente? — ela perguntou.
Suspirei, tentando ignorar o aperto em meu peito.
— Acho que é melhor não — respondi, me forçando a sorrir. — Jacob está noivo, e não quero criar nenhum tipo de desconforto.
Bella arqueou uma sobrancelha, um sorriso malicioso surgindo em seus lábios.
— Não sabia que estava com ciúmes, Nessie — ela provocou.
— Não é ciúmes — protestei, balançando a cabeça. — Eu só... eu tenho que receber a psicóloga hoje.
Bella não pareceu convencida e soltou uma risadinha.
— Ah, claro, claro. Psicóloga.
Eu ri, apesar de tudo, e me abaixei para dar um beijo em Charlie.
— Se comporte, meu amor. Eu te vejo mais tarde, ok?
Charlie assentiu, me abraçando antes de se afastar para ir com Bella. As observei saindo, e, quando a porta se fechou, senti uma presença familiar ao meu lado.
Renée se aproximou e, sem dizer uma palavra, me puxou para um abraço. Fiquei ali, sentindo o calor e o conforto que só uma mãe pode proporcionar.
— Sabe, Nessie, você pode estar jogando fora a chance de recomeçar — ela disse suavemente, passando a mão em meus cabelos.
Suspirei, sentindo o peso das palavras dela.
— Jacob tem seus planos, mãe. Não é justo mudar tudo por mim.
Ela se afastou um pouco para me olhar nos olhos, sua expressão séria.
— Você já parou para pensar que ele é um adulto, Nessie? E que ele pode tomar suas próprias decisões?
Eu não respondi de imediato. O pensamento de que Jacob poderia escolher o que realmente queria, mesmo agora, era algo que me assustava. Porque, e se ele escolhesse a outra pessoa? E se eu fosse apenas uma sombra do passado para ele?
Mas, ao mesmo tempo, e se ele não fosse? E se eu estivesse negando a ambos a chance de descobrir isso?
— Talvez você esteja certa — murmurei, mais para mim mesma do que para ela.
Renée sorriu, apertando minha mão.
— Ele é, e sempre será, a única pessoa capaz de decidir o que é melhor para ele. Só espero que você não se arrependa de deixar essa decisão passar por medo ou insegurança.
Assenti, sentindo as palavras dela penetrarem fundo em minha mente. Renée sempre soube como me fazer refletir, como me levar a ver as coisas de uma maneira diferente.
E talvez, só talvez, fosse hora de deixar que Jacob tomasse essa decisão por si mesmo.
Passei o restante da tarde tentando me distrair com alguns livros. Precisava me atualizar para retomar ao trabalho. Carlisle havia me oferecido uma vaga no hospital, e embora a ideia de voltar a trabalhar me assustasse, sabia que era um passo importante para finalmente ter minha rotina de volta. O cativeiro havia roubado anos preciosos da minha vida, mas eu não poderia deixar que continuasse a definir meu futuro.
A campainha tocou, tirando-me dos meus pensamentos. Levantei-me, ajeitando meu cabelo, e fui atender. A psicóloga tinha chegado para nossa sessão semanal. Ela era uma mulher de meia-idade, com um sorriso caloroso que sempre me acalmava.
— Boa tarde, Renesmee — ela cumprimentou, entrando na sala.
— Boa tarde — respondi, fechando a porta atrás dela. — Podemos começar?
Ela assentiu e se acomodou em uma poltrona, enquanto eu me sentava no sofá em frente.
— Como você está se sentindo? — perguntou, começando a sessão como sempre.
— Um pouco melhor, eu acho — respondi com honestidade. — Estou tentando me acostumar com a ideia de retomar minha vida. Voltar ao trabalho, cuidar da Charlie... Mas é difícil, sabe? Deixar tudo o que aconteceu para trás.
Ela assentiu, mantendo seus olhos fixos em mim com uma compreensão que só alguém com sua experiência poderia ter.
— Renesmee, não há como negar que o que você passou foi terrível. Mas você precisa se permitir recomeçar. É normal ter medo do futuro, de se machucar novamente, mas viver no passado não vai te ajudar.
Eu respirei fundo, absorvendo suas palavras.
— Eu só... Sinto que perdi tanto tempo. E agora, ver Jacob com outra pessoa, perceber que ele seguiu em frente...
Ela inclinou-se ligeiramente para frente, seus olhos suaves, mas firmes.
— O passado é uma parte de quem você é, mas não define quem você vai se tornar. E sobre Jacob, você precisa se perguntar: o que você realmente quer? O medo do que você perdeu pode estar cegando você para as oportunidades que ainda estão à sua frente.
Eu baixei os olhos, sentindo o peso de suas palavras.
— Eu só quero ser feliz de novo — sussurrei.
Ela sorriu, um sorriso cheio de encorajamento.
— E você merece ser feliz. Mas para isso, precisa deixar o passado no lugar dele e dar espaço para que novas coisas entrem em sua vida. Isso inclui dar a si mesma a chance de ser feliz, seja sozinha, seja ao lado de alguém.
Terminamos a sessão com um abraço caloroso. Eu a acompanhei até a porta e me despedi, sentindo suas palavras reverberarem dentro de mim. Deixá-la partir foi como liberar um pedaço do peso que eu carregava. Ela tinha razão: para seguir em frente, eu precisava deixar o passado onde ele pertencia.
Pouco tempo depois, Bella retornou com Charlie. Quando as vi entrar pela porta, senti um alívio imediato.
— Como ela ficou sozinha com o pai? — perguntei, sorrindo ao ver Charlie animada.
— Ficou super feliz — respondeu Bella, colocando a mochila de Charlie no sofá. — Eles se divertiram bastante.
Sorri, sentindo meu coração aquecer ao pensar na felicidade da minha filha. Bella sentou-se ao meu lado no sofá, e pude notar que ela tinha algo mais a dizer.
— Descobri uma coisa interessante hoje — disse Bella, lançando-me um olhar cheio de malícia.
Olhei para ela, curiosa.
— Que coisa?
Ela fez uma pausa dramática antes de soltar a bomba.
— Jacob está solteiro. Ele terminou com a noiva.
Por um momento, o ar pareceu se esvair dos meus pulmões. Olhei para Bella, incapaz de acreditar no que ela acabava de dizer.
— O quê? — perguntei, ainda tentando processar a informação.
— Sim, eles terminaram — confirmou Bella, seu olhar cheio de significados. — Eu não queria te pressionar, Nessie, mas talvez ainda haja uma chance para vocês.
Fiquei em silêncio, minhas emoções uma tempestade dentro de mim. As palavras da psicóloga voltaram à minha mente. Será que eu deveria realmente considerar isso? Será que Jacob e eu ainda poderíamos ter um futuro juntos?
— Eu... não sei o que pensar — confessei, sentindo-me confusa.
Bella colocou a mão sobre a minha.
— Só pense nisso, Nessie. Talvez seja hora de deixar o passado para trás e ver o que o futuro tem guardado para você.
Assenti, percebendo que talvez fosse o momento de parar de correr e começar a enfrentar meus sentimentos. Afinal, a vida é feita de recomeços, e talvez o meu estivesse apenas começando.
Charlie estava eufórica, falando sem parar sobre o passeio no parque com o papai. Suas bochechas rosadas e os olhos brilhantes refletiam a alegria que ela sentia, o que arrancava risos de todos na sala. Era um alívio ver minha filha superando tudo com tanta facilidade, adaptando-se tão bem ao mundo novo que agora fazia parte de sua vida. Ela parecia estar crescendo diante dos meus olhos, e por um breve momento, desejei poder ser criança novamente, onde as coisas pareciam tão mais simples.
Depois do jantar, levei Charlie para o quarto. Ela ainda estava cheia de energia, mas após algumas páginas de sua história favorita, seus olhos começaram a pesar. Com um beijo carinhoso em sua testa, murmurei um “boa noite” e a observei adormecer. Saí do quarto em silêncio, fechando a porta com cuidado.
No meu quarto, sentei na beira da cama, meus pensamentos inevitavelmente voltando para Jacob. Era impossível ignorar a confusão de sentimentos que ele despertava em mim, a mistura de saudade e incerteza que me fazia questionar o que eu realmente queria. De repente, uma decisão impulsiva tomou conta de mim. Levantei-me rapidamente, pegando minha bolsa e o celular. Eu precisava vê-lo, falar com ele. Precisava entender o que ainda restava entre nós.
Descendo as escadas, encontrei Renée e Bella assistindo algo na TV. Elas levantaram os olhos para mim quando entrei na sala, curiosas.
— Vocês podem ficar de olho na Charlie? Preciso sair, mas volto logo — pedi, tentando manter a voz firme, apesar da agitação interna.
— Aonde você vai? — perguntou Bella, mas eu apenas sacudi a cabeça, sem responder.
— Só... por favor, cuidem da Charlie — repeti, mais como um pedido do que uma instrução.
Elas assentiram, mesmo sem entender, e eu saí pela porta, o coração batendo descontroladamente. Peguei um táxi na rua e, enquanto o carro avançava pelas ruas iluminadas de Nova York, eu mal conseguia respirar. Cada segundo me aproximava mais de Jacob, e eu não tinha ideia do que diria quando o visse. Só sabia que precisava estar com ele.
Quando o táxi estacionou em frente ao prédio, paguei o motorista e desci, sentindo o ar frio da noite contra a pele. Inspirei fundo, tentando acalmar meus nervos, e entrei no prédio. O porteiro sorriu ao me ver, reconhecendo-me instantaneamente.
— Boa noite, senhorita Renesmee — cumprimentou ele com um aceno.
— Boa noite — respondi, forçando um sorriso e caminhando diretamente para o elevador.
Apertei o botão e esperei, o tempo passando lentamente até que as portas se abriram. Subi, meu coração batendo forte contra o peito. Quando o elevador finalmente parou no andar de Jacob, saí e caminhei até a porta do apartamento dele. Parei por um momento, tentando reunir coragem. Tomei um último fôlego e toquei a campainha.
Alguns segundos depois, a porta se abriu, e lá estava ele. Jacob me olhou surpreso, com os olhos arregalados. Ele estava com o cabelo ainda molhado, uma toalha enrolada na cintura, e meu coração quase parou ao vê-lo assim.
— Oi — consegui dizer, minha voz falhando um pouco.
Ele piscou, parecendo ainda tentar entender o que estava acontecendo.
— Nessie? O que... o que você está fazendo aqui? — perguntou, a surpresa em sua voz clara.
Eu lutei para encontrar as palavras, sentindo meu coração disparar como nunca antes.
— Eu... eu precisava te ver — admiti, a honestidade saindo em um sussurro. — Precisamos conversar, Jacob.
Ele ficou em silêncio por um momento, seus olhos buscando os meus. Então, sem dizer nada, ele abriu a porta mais um pouco, me dando espaço para entrar.
— Entra, Nessie — disse ele suavemente.
Eu passei pela porta, sentindo o peso do momento e das palavras que estavam por vir. Sabia que essa conversa poderia mudar tudo, para o bem ou para o mal. Mas também sabia que era uma conversa que precisava acontecer.
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