Receita para o Amor

67 Renesmee- Dia 1884


Estava escuro quando acordei naquele primeiro dia, as costas ainda latejando das cinturadas que Alec me deu na noite anterior. Eu mal conseguia me mexer, e a dor física se misturava com a angústia profunda que me consumia por dentro. Eu só queria que tudo fosse um pesadelo, algo do qual eu pudesse acordar e voltar para casa, para Jacob. Mas aquilo não era um pesadelo. Era a minha nova realidade.

Alec entrou no quarto e gritou comigo.

— Se você se comportasse, eu não teria perdido a cabeça daquela forma, Nessie! — bradou, a voz carregada de raiva e frustração.

Eu não respondi, apenas chorei em silêncio, encolhida no colchão sujo que ele tinha jogado no chão. As lágrimas molhavam meu rosto, e o choro parecia interminável. Chorei até dormir, sem forças para lutar contra o que estava acontecendo. O medo dominava cada parte do meu ser, e a única coisa que eu conseguia pensar era no quanto eu queria voltar para Jacob, para a nossa vida juntos.

Mas, para minha surpresa, Alec não tocou em mim depois daquela noite. Ele gritava, me ameaçava, mas nunca cruzava a linha que eu temia tanto. Dizia que jamais teria força para me ferir daquele jeito, mas isso não tornava a situação menos horrível. Eu era prisioneira em um quarto minúsculo, cercada por paredes que se tornavam cada vez mais sufocantes.

Os primeiros sete dias foram os mais difíceis. A cada tentativa de fuga, Alec ficava mais violento, me arrastando de volta para o quarto como se eu fosse um animal indomável. Eu arranhava, mordia, chutava, fazia tudo que estava ao meu alcance para escapar, mas sempre acabava sendo subjugada. Foi quando percebi que precisava mudar de estratégia. Precisava sobreviver, pelo menos até encontrar uma forma real de fugir.

Comecei a riscar os dias na parede do pequeno guarda-roupa. Era minha única forma de manter a sanidade, de lembrar que o tempo ainda estava passando, mesmo que eu estivesse presa ali. Cada risco era uma pequena vitória, um dia a menos naquele inferno.

No dia 120, acordei me sentindo estranha, um mal-estar que não parecia ter explicação. Passei o dia na cama, as costas encostadas na parede, tentando entender o que estava acontecendo comigo. Foi então que percebi que desde que acordara naquele lugar, não tinha sangrado. Meu ciclo estava atrasado, e eu já sabia o que isso significava.

Eu estava esperando um bebê. Meu bebê. O filho de Jacob.

As emoções me inundaram, uma mistura de felicidade e tristeza que me deixou sem ar. Por um lado, a ideia de carregar uma parte de Jacob dentro de mim me dava forças, algo para me agarrar, um motivo para continuar lutando. Mas, por outro lado, o medo de trazer uma criança a este mundo, sob aquelas circunstâncias, era esmagador. Eu não sabia o que fazer, e o pânico crescia a cada minuto.

Alec percebeu minha mudança, e quando soube da gravidez, ficou furioso. Tive medo de que ele fizesse algo contra mim, contra o bebê, mas sua raiva acabou se dissipando. Ele começou a me tratar de forma diferente, quase como se a gravidez me tornasse intocável. Eu não confiava nele, mas sabia que a gravidez era a única coisa me protegendo agora.

Os dias continuaram a passar, cada um riscado na parede do guarda-roupa, enquanto minha barriga crescia. Não havia felicidade, apenas a necessidade de sobreviver. Cada movimento do bebê dentro de mim era um lembrete do amor que eu tinha por Jacob, mas também da escuridão que nos separava agora. Eu falava com o bebê, sussurrando para ele histórias de como seria nossa vida quando saíssemos dali.

No dia 238, comecei a sentir as contrações. Eu estava sozinha, claro. Alec tinha se tornado ainda mais recluso, me deixando sozinha a maior parte do tempo, como se não suportasse a visão do que ele acreditava ser o fruto de uma traição. Eu sabia que precisava ser forte, por mim e pelo bebê. As dores eram intensas, mas eu não deixei o desespero tomar conta.

Foi uma luta longa e solitária, mas ao final daquele dia, minha filha nasceu. Uma menina pequena, frágil, mas perfeita em cada detalhe. Ela era a única luz naquele lugar de trevas, a única razão pela qual eu continuava respirando.

— Charlie — sussurrei, segurando-a contra o peito. — Vou te chamar de Charlie.

Lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas dessa vez não eram de tristeza. Eu tinha encontrado um motivo para continuar lutando, uma nova esperança. E prometi a mim mesma, enquanto segurava aquele pequeno ser nos braços, que faria de tudo para sair dali e dar a Charlie a vida que ela merecia. Porque agora, mais do que nunca, eu tinha algo pelo qual lutar.

No dia 1884, Charlie estava sentada no colchão ao meu lado, com sua pequena caixa de giz de cera nas mãos. A luz fraca que entrava pelas janelas altas iluminava os papéis onde ela rabiscava, e eu observava com carinho enquanto ela desenhava com uma concentração que me fazia sorrir.

— Essa é a letra A — disse suavemente, apontando para a forma que eu havia desenhado para ela no papel.

Charlie ergueu o olhar para mim, seus olhos brilhando com uma curiosidade inocente. Ela sorriu, repetindo com sua vozinha doce:

— A.

— Muito bem! — parabenizei, dando um beijo carinhoso em sua bochecha. A alegria dela era a minha alegria, e cada pequeno progresso que ela fazia era como um raio de luz em meio à escuridão que nos cercava.

Eu não sabia que horas eram, mas já estava acostumada a perceber o ritmo do dia mesmo sem ter um relógio. A qualquer momento, Alec chegaria com a nossa refeição. O pensamento fez meu estômago revirar, não de fome, mas de apreensão. Eu tinha que garantir que Charlie estivesse segura, longe dos olhos dele.

— Vamos, querida — sussurrei, pegando Charlie nos braços e juntando os desenhos, o travesseiro e o cobertor. Fui até o guarda-roupa e o abri, ajeitando o pequeno espaço para que ela ficasse confortável lá dentro. Era um local apertado, mas era a única forma de garantir que Alec não a visse.

Charlie sentou-se sobre o lençol que eu havia estendido e deitou a cabeça no travesseiro, já acostumada com a rotina. Eu sabia que não era justo para ela, mas era o melhor que eu podia fazer para protegê-la.

— Boa menina. Continue a desenhar, está bem? — sorri para ela, tentando transmitir a segurança que eu mesma não sentia.

— Sim, mamãe — ela respondeu, com uma obediência que partia meu coração.

Encostei a porta do guarda-roupa, deixando apenas uma pequena brecha para que a luz entrasse. Não queria que Charlie ficasse no escuro, mas também não podia correr o risco de Alec a ver.

Mal terminei de ajeitar tudo quando ouvi o som da porta se abrindo. Meu coração acelerou, e me encostei na parede, tentando me preparar para o que viria.

Alec entrou no quarto com duas sacolas nas mãos, a expressão fria que sempre me dava calafrios.

— Cheguei, meu amor. — Ele sorriu, um sorriso que não tinha calor. — Trouxe o almoço e o lanche, pois hoje farei plantão no hospital.

Assenti, sem dizer nada, e observei enquanto ele colocava as sacolas sobre a mesa. Alec olhou ao redor, sem notar Charlie, e então voltou sua atenção para mim, com um sorriso satisfeito.

— Você tem se comportado bem, Nessie — disse, apertando meu queixo com os dedos. — Só falta uma coisa para que eu te dê tudo que desejar.

Ele se inclinou, tentando me beijar, mas eu virei o rosto, fazendo com que ele apenas roçasse os lábios na minha bochecha. A frustração dele foi palpável, e Alec se afastou com um olhar sombrio.

— Um dia você vai entender, Nessie. — Suas palavras eram uma ameaça velada, mas eu apenas permaneci em silêncio, minha mente sempre voltada para a segurança de Charlie.

Alec deu um último olhar pelo quarto antes de sair, fechando a porta atrás de si. Eu esperei alguns minutos, garantindo que ele estava realmente fora de alcance, antes de abrir o guarda-roupa novamente. Charlie olhou para mim com um sorriso tímido, e eu a peguei no colo, abraçando-a forte.

— Ele já foi, minha pequena. — Sussurrei, tentando afastar o medo que ainda pairava em mim. — Vamos comer e depois podemos desenhar mais, que tal?

Charlie assentiu, feliz por poder sair do esconderijo. Eu sabia que aquele ciclo infernal continuaria, mas enquanto eu pudesse manter Charlie segura e distante de Alec, era o suficiente para me manter de pé.

Cada dia que passava era uma vitória, um dia a menos naquele cativeiro, e eu sabia que, por mais difícil que fosse, sobreviveria por ela. Charlie era minha luz, minha esperança, e eu faria qualquer coisa para protegê-la, mesmo que isso significasse continuar vivendo naquele pesadelo.