Estávamos sentados no chão da sala de estar, a TV ligada em algum canal qualquer, apenas para fazer barulho de fundo enquanto líamos alguns prontuários médicos. Jacob, sempre atento aos detalhes, tinha acendido a lareira, enchendo o ambiente com um calor agradável. Depois de um tempo, ele se levantou e foi até a cozinha. Eu continuei analisando as fichas, mas logo ouvi seus passos retornando.

Jacob trouxe uma bandeja com alguns sanduíches e suco, colocando-a na mesinha de centro.

— Trouxe um lanche — disse ele, com um sorriso que parecia aquecer o ambiente tanto quanto a lareira.

— Obrigada — respondi, pegando o suco e tomando um gole. O silêncio entre nós era confortável, mas então Jacob quebrou o momento com uma pergunta que me pegou de surpresa.

— Está se adaptando bem ao hospital? — ele perguntou, a voz carregando uma preocupação genuína. — Já está aqui há uma semana, e a primeira semana sempre é a mais difícil.

— Estou, sim. Afinal de contas, tenho um mestre muito bom — respondi, tentando manter o tom leve, mas algo no jeito que ele me olhava me fez sentir exposta, como se ele pudesse ver além das palavras que eu proferia.

Ele sorriu, mas o olhar que me lançou era intenso, como se estivesse tentando desvendar algum segredo. Após um momento de hesitação, ele perguntou:

— Posso fazer uma pergunta pessoal?

Eu assenti, sentindo meu coração acelerar um pouco.

— Pode, claro.

— Você tinha algum relacionamento antes de vir para Nova York? — ele perguntou, direto, mas a voz dele tinha uma suavidade que me deixou mais à vontade para responder.

Suspirei, lembrando dos meses de turbulência antes de tomar a decisão de me mudar.

— Não. Terminei com meu namorado meses antes de vir para cá — confessei, tentando não deixar a voz vacilar. — Precisava de um recomeço, e... ele não fazia parte disso.

Jacob assentiu, como se compreendesse mais do que eu estava disposta a dizer.

— Entendi.

O silêncio que se seguiu foi diferente. Não era mais o silêncio confortável de antes; agora, ele era carregado com algo que eu não conseguia identificar, mas que estava lá, flutuando entre nós. Nossos olhares se encontraram, e eu senti meu coração acelerar de novo. Havia algo na maneira como ele me olhava, algo que fazia meu estômago revirar e minha respiração se tornar pesada. Era a mesma sensação que eu tinha quando o via com Bella, aquela mistura de desejo e culpa que me assombrava.

Jacob, talvez percebendo o clima tenso, desviou o olhar para os prontuários espalhados no chão.

— Acho que é melhor nos concentrarmos no trabalho — disse ele, a voz firme, mas ainda assim carregada de uma tensão que eu sentia tanto quanto ele.

— Concordo — respondi, tentando imitar a sua firmeza, mas minha mente ainda estava presa àquela troca de olhares.

Enquanto ele lia algumas folhas, eu o observei de canto de olho. Ele parecia concentrado, mas a proximidade entre nós, a forma como ele me fazia sentir, estava me deixando inquieta. E então, a culpa me atingiu novamente. Culpada por algo que eu mesma não conseguia entender completamente, mas que estava lá, enterrado sob a superfície, esperando para emergir.

Eu balancei a cabeça, tentando afastar esses pensamentos. Precisava me focar no trabalho, no que realmente importava. Mas sabia que, por mais que tentasse, aquela noite seria longa e cheia de desejos que eu não queria sentir.

Era madrugada quando finalmente terminamos de organizar toda aquela papelada. Estava exausta, mas ao olhar para Jacob, percebi que ele estava satisfeito com o trabalho que fizemos. Seus olhos brilharam quando me elogiou.

— Você é uma ótima assistente, Renesmee — disse ele, com um sorriso que fez meu coração saltar.

Nossos olhares se encontraram mais uma vez, e, por um momento, o mundo parou. Eu senti o calor subindo pelas minhas bochechas, o ar ao nosso redor parecia vibrar com algo não dito. Rompi o silêncio antes que as coisas se intensificassem.

— Vou dormir — falei, quase como uma fuga.

Jacob assentiu, mas algo em seus olhos me fez hesitar por um segundo antes de sorrir de volta.

— Boa noite, Nessie — ele respondeu, e sua voz soou como uma carícia.

Subi as escadas, sentindo o peso da tensão entre nós. Ao entrar no quarto, encostei-me na porta e suspirei profundamente, repetindo para mim mesma que estava louca, que isso não podia acontecer. Estava tentando ignorar o óbvio, mas a verdade era que algo estava mudando dentro de mim, algo que eu não sabia se conseguiria controlar.

Tirei a roupa apressada e fui direto para o chuveiro, deixando a água escorrer pelo meu corpo enquanto tentava afastar os pensamentos que insistiam em me atormentar. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando conter os desejos que borbulhavam na minha mente.

Mas aquela noite seria longa. Rolei na cama, inquieta, incapaz de encontrar uma posição confortável. A casa estava silenciosa, mas o verdadeiro problema era saber que Jacob estava no quarto ao lado, e nós estávamos sozinhos naquela imensa casa. O pensamento dele a poucos metros de distância, talvez tão acordado quanto eu, fez meu coração acelerar ainda mais.

Sem conseguir dormir, me levantei e fui para a cozinha, esperando que uma distração me acalmasse. Abri a geladeira e peguei uma vasilha com uvas, mastigando-as lentamente enquanto me encostava no balcão, perdida em pensamentos.

Foi então que ouvi passos atrás de mim. Meu coração deu um salto quando vi Jacob aparecer na porta da cozinha, trajando apenas aquela bendita calça de moletom preta. Ele parecia saído diretamente dos meus sonhos mais secretos, e meu corpo reagiu de imediato, traindo qualquer tentativa de autocontrole.

— Sem sono? — ele perguntou, a voz rouca, como se tivesse acabado de acordar.

— Parece que não sou a única — respondi, tentando soar despreocupada, mas sentindo a tensão subir a níveis insuportáveis.

Ele assentiu e se aproximou, pegando uma uva da minha vasilha. Cada movimento dele parecia orquestrado para me desestabilizar, e eu sentia meu coração bater cada vez mais rápido.

— Por que está tão nervosa? — ele perguntou, olhando-me com aqueles olhos que pareciam ver diretamente através de mim.

Eu desviei o olhar, tentando esconder a verdade.

— Não estou nervosa — menti, virando de costas para ele e deixando a vasilha vazia sobre a pia.

Mas então, senti a presença dele se aproximando, até que seu corpo estava tão perto do meu que podia sentir o calor irradiando dele. Ele se inclinou, sussurrando em meu ouvido, sua voz grave enviando arrepios pela minha espinha.

— Será porque sente o mesmo que eu sinto desde o momento em que te vi pela primeira vez? — suas palavras me deixaram paralisada.

Virei o corpo para encará-lo, lutando contra a guerra interna entre o certo e o desejo que me consumia. A proximidade dele, o jeito como me olhava, tudo me fazia questionar meus próprios limites.

— O que você sente? — perguntei, minha voz quase inaudível.

Jacob sorriu, aquele sorriso que sempre me desarmava, e colocou as mãos em minha cintura, me puxando suavemente para mais perto.

— O mesmo que você sentia quando me via comendo a Bella — ele respondeu, seu tom cheio de uma certeza e malícia que me deixou envergonhada.

Ele sabia. Todo esse tempo, ele sabia. Senti meu rosto queimar de vergonha, meu coração disparando ainda mais ao perceber que ele tinha consciência dos meus sentimentos reprimidos.

— Você fez de propósito? — perguntei, a voz trêmula. — Deixou a porta aberta de propósito?

— Sim — ele admitiu, sem qualquer hesitação. — Queria te mostrar o que está perdendo.

O que ele estava me propondo era mais do que apenas uma atração física; era a promessa de algo que poderia mudar tudo entre nós. Estávamos na beira de um precipício, e eu sabia que, se desse mais um passo, não haveria volta.

Mas naquele momento, com Jacob tão perto, seus olhos queimando os meus, o desejo se sobrepôs ao medo. E tudo o que eu queria era me perder nesse abismo, sem pensar nas consequências.