Receita para o Amor
66 Jacob- Um dia no parque
Assim que terminei de atender o paciente e me despedi dele, senti uma pontada de ansiedade no peito. Sabia que Charlie estava a caminho, e, mesmo que o meu maior desejo fosse ver Renesmee, segurei a expectativa, lembrando-me do acordo que tínhamos feito. Dar-lhe espaço era o mínimo que eu poderia fazer, considerando tudo o que ela passou. Mas a saudade apertava.
A porta da minha sala se abriu, e antes que eu pudesse me virar completamente, ouvi uma vozinha doce gritando:
— Papai!
Charlie correu em minha direção, com os bracinhos estendidos. Girei a cadeira rapidamente e a peguei nos braços, levantando-a e a apertando contra mim. O cheiro familiar de sua pele e o calor do seu corpo pequeno em meus braços me trouxeram uma paz que há muito tempo eu não sentia.
— Eu estava com muita saudade de você, minha princesa — murmurei contra seus cabelos, beijando-a no topo da cabeça.
Bella entrou logo em seguida, fechando a porta atrás de si. Ela nos observava com um sorriso terno.
— Oi, Bella — cumprimentei, enquanto acomodava Charlie no meu colo e me levantava para apertar a mão de Bella. — Como você está?
— Estou bem, Jake — ela respondeu, o sorriso dela se ampliando um pouco. — E você? Parece que o trabalho continua a mil.
— Como sempre — suspirei, sentando-me de volta com Charlie no colo. — Mas ter a Charlie por perto torna tudo mais fácil.
Bella se sentou na cadeira em frente à minha mesa, cruzando as pernas com uma postura tranquila, mas eu podia ver o cansaço escondido nos olhos dela. Bella estava carregando um peso enorme, cuidando de Renesmee e ajudando-a a se reintegrar ao mundo depois de tudo o que aconteceu. Eu admirava sua força, e sabia que Renesmee estava em boas mãos com ela.
— E a Nessie? — perguntei, tentando manter a voz casual, embora a preocupação e a saudade se misturassem em meu tom.
Bella hesitou por um momento, como se estivesse medindo suas palavras, mas então respondeu:
— Ela está se ajustando, Jake. Sabe como é, né? Não é fácil, mas está dando pequenos passos. Tem dias melhores, outros nem tanto. Acho que ela está se esforçando ao máximo para voltar a uma vida normal.
Assenti, sentindo um aperto no peito. Queria estar ao lado de Renesmee, queria fazer parte desse processo de cura, mas entendia que ela precisava de tempo. Ainda assim, era difícil ficar à margem, sabendo o quanto a amava e o quanto queria ajudá-la.
— E ela… — comecei, sem saber ao certo como formular a pergunta. — Ela tem falado algo sobre… nós?
Bella sorriu suavemente, com aquele jeito compreensivo que sempre teve.
— Ela fala de você, Jake. Claro que fala. Nessie sabe que você a ama, e sabe que você está aqui para ela e para Charlie. Mas ela também está tentando entender como se encaixar nesse novo capítulo da vida dela. É um processo, e vai levar tempo.
Olhei para Charlie, que estava brincando com a caneta sobre minha mesa, completamente alheia à complexidade da conversa. A inocência dela era um lembrete do que realmente importava — o bem-estar dela e de Renesmee.
— Eu só quero o melhor para ela, Bella. Para as duas. — Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava, mas cheia de sinceridade.
— Eu sei que quer, Jake. — Bella respondeu, com um tom carinhoso. — E ela sabe disso também. Vai levar tempo, mas acredito que vocês dois vão encontrar um jeito de seguir em frente, de alguma forma.
Charlie, percebendo que a atenção não estava totalmente sobre ela, puxou meu rosto para que eu a encarasse, me fazendo sorrir.
— Papai, você vem brincar comigo e com a vovó? — A voz dela era cheia de expectativa.
— Claro, minha princesa. Vou passar o resto da tarde com vocês.
Bella sorriu ao ouvir isso e se levantou, dando-me um olhar encorajador.
— Vou deixar vocês dois curtirem um tempo juntos. — Ela se aproximou de Charlie, acariciando-lhe o cabelo. — A vovó vai esperar lá fora, tá bom, Charlie?
— Tá bom, vovó — Charlie respondeu com a alegria inocente de uma criança que não entendia o turbilhão emocional que nos envolvia.
Bella me lançou um último olhar antes de sair da sala, deixando-me sozinho com minha filha. Enquanto olhava para Charlie, uma determinação renovada se acendeu dentro de mim. Eu não sabia exatamente como as coisas iriam se desenrolar entre mim e Renesmee, mas uma coisa era certa: eu estaria lá para as duas, de qualquer forma. Afinal, não importa o que aconteça, nós sempre seremos uma família.
Saí do consultório com Charlie segura em meus braços, o peso leve dela era um conforto familiar, um lembrete constante do que realmente importava. Bella tinha me enviado uma mensagem enquanto eu estava com Charlie, dizendo que eu podia deixá-la em casa assim que terminássemos nosso passeio. Não havia pressa, mas eu sabia que Renesmee estava esperando por ela.
Caminhei até a mesa de Jane, onde ela estava organizando alguns papéis.
— Jane, não vou voltar mais à noite — informei. — Vou passar o resto do dia com a minha filha.
Jane sorriu e acenou com a cabeça.
— Claro, Dr. Black. Aproveite o tempo com ela.
Com Charlie ainda no meu colo, seguimos pelo corredor em direção aos elevadores. Ela estava animada, falando sem parar sobre as coisas que havia conhecido desde que saiu do cativeiro. Ouvir sua vozinha contar sobre as descobertas da infância fazia meu coração se apertar e ao mesmo tempo se aquecer. Sorvete, ao que parecia, era sua coisa favorita no mundo. Fiquei feliz por isso, por ela estar começando a experimentar a vida de verdade, mas, ao mesmo tempo, não conseguia afastar a tristeza que vinha com a lembrança de tudo o que ela e Nessie haviam perdido.
Quando a porta do elevador se abriu, fiquei surpreso ao ver Bree lá dentro, como se o destino estivesse determinado a nos colocar cara a cara a cada passo que eu dava.
— Oi — cumprimentei, tentando soar casual.
— Oi, Jake — Bree respondeu, um sorriso leve nos lábios. — Está tudo bem com você?
Antes que eu pudesse responder, Bree olhou para Charlie e disse, de forma carinhosa:
— Oi, querida.
Charlie a encarou com um olhar curioso, mas logo se agarrou com força à minha nuca, os olhos arregalados de medo. Eu podia sentir seu corpo pequeno e tenso contra o meu.
— Tá tudo bem, Charlie. — Tentei tranquilizá-la, acariciando suavemente suas costas. — Essa é a Bree, uma amiga do papai.
Mas Charlie não parecia convencida. Ela sussurrou, com uma voz trêmula e chorosa:
— Eu quero a mamãe...
O sorriso de Bree enfraqueceu um pouco, mas ela não deixou transparecer muito além de uma expressão ligeiramente embaraçada.
— Foi bom ver você, Jacob — disse Bree, saindo do elevador assim que as portas se abriram no próximo andar.
— Foi bom ver você também, Bree — respondi, observando-a sair enquanto a porta se fechava novamente.
Soltei um suspiro profundo, sentindo o peso da situação cair sobre mim. Era complicado demais, e eu sabia que teria que lidar com tudo isso de alguma forma. Mas naquele momento, o mais importante era acalmar Charlie.
— Ei, princesa — falei suavemente, beijando o topo da cabeça dela. — Está tudo bem. Vamos ao parque, e depois vamos ver a mamãe, combinado?
Charlie fungou e assentiu, ainda segurando minha nuca, mas sua tensão começou a diminuir. Sabia que essa transição não seria fácil para ela, mas estava determinado a fazer o que fosse necessário para garantir que ela se sentisse segura e amada. No final das contas, tudo o que importava era isso: o bem-estar dela e de Renesmee. O resto, eu teria que descobrir com o tempo.
Levei Charlie ao Central Park, um dos lugares mais bonitos e emblemáticos de Nova York. O parque infantil de lá era amplo, cercado por árvores e com uma grande variedade de brinquedos, perfeitos para uma tarde de diversão com minha filha. Quando chegamos, porém, percebi que não seria tão simples quanto eu havia imaginado.
Charlie se agarrou a mim assim que viu as outras crianças correndo e brincando ao redor. Seus olhos se arregalaram, e pude sentir o medo emanando de seu pequeno corpo. Ela estava assustada, e não era difícil entender por quê. Depois de tudo que ela passou, o mundo exterior era um lugar novo e, às vezes, aterrorizante.
— Está tudo bem, querida — sussurrei, segurando-a firme em meus braços. — As outras crianças não vão machucar você. Elas só estão brincando, assim como você pode brincar também.
Ela permaneceu quieta, apenas observando, mas eu continuei ao seu lado, mostrando as coisas devagar, sem pressioná-la. Apontava para os balanços, os escorregadores, e tentava explicar o que cada coisa fazia, o quão divertido poderia ser.
— Veja só — disse, apontando para um grupo de crianças que brincava de esconde-esconde. — Estão só se divertindo, correndo e rindo. Você também pode brincar assim, se quiser.
Charlie não respondeu, mas percebi que ela estava começando a relaxar um pouco. Ficamos ali por um tempo, observando, até que ela finalmente soltou meu pescoço e se aconchegou mais confortavelmente em meus braços. Isso foi um sinal para mim de que ela estava começando a confiar, começando a perceber que o mundo ao seu redor não era tão assustador quanto parecia.
Depois de cerca de uma hora, consegui convencê-la a tentar andar nos cavalinhos do carrossel. Era um brinquedo clássico, e eu sabia que Charlie poderia gostar se desse uma chance. Caminhamos até lá, e eu a coloquei em um dos cavalinhos, mantendo minhas mãos firmemente em sua cintura para que ela se sentisse segura.
— Viu só? — falei gentilmente em seu ouvido, enquanto o carrossel começava a girar devagar. — Não há nada a temer. Esses cavalinhos são muito divertidos, e você pode ir para cima e para baixo como se estivesse cavalgando de verdade.
Ela olhava ao redor, ainda assustada, mas aos poucos comecei a ver um pequeno sorriso se formar em seus lábios. O carrossel girava lentamente, e eu continuava a falar com ela, explicando cada movimento, cada som, cada coisa ao seu redor. Finalmente, ela começou a se soltar, segurando as rédeas do cavalinho com mais confiança.
— Isso, minha princesa! — elogiei, sorrindo amplamente. — Você está indo muito bem.
Quando o carrossel parou, Charlie estava sorrindo timidamente. Pediu para ir de novo, e fizemos isso mais duas vezes. Aos poucos, ela foi se sentindo mais confiante, e depois que saímos do carrossel, ela começou a explorar outros brinquedos, sempre com minha supervisão. Fomos no balanço, onde eu a empurrava levemente enquanto ela soltava risadinhas. Depois experimentamos o escorregador, onde ela desceu ainda com um pouco de receio, mas mais tranquila.
Por volta do meio-dia, fizemos uma pausa para o lanche. Sentei com Charlie em um banco à sombra das árvores, onde comprei um cachorro-quente para mim e um suco com biscoitos para ela. Enquanto comíamos, continuei a conversar com ela, fazendo perguntas simples sobre o que ela gostava de fazer, quais eram suas comidas favoritas, tentando conhecê-la melhor.
— O sorvete ainda é sua coisa favorita? — perguntei, dando uma mordida no meu cachorro-quente.
— É sim, papai — respondeu ela, com a boca cheia de biscoito. — Mas também gosto de biscoito.
Sorri e limpei uma migalha do rosto dela com o polegar.
— Que bom saber. Vamos tomar um sorvete depois, então?
Ela assentiu entusiasmada, e fiquei feliz em ver que seu humor estava melhorando, que ela estava começando a se abrir para as pequenas alegrias do mundo ao seu redor.
Passamos o resto da tarde explorando o parque. Levamos Charlie para ver os patos no lago, jogamos uma bola que comprei para ela em uma das barracas, e até compramos balões de um vendedor que passava por lá. Charlie segurava os balões firmemente, sorrindo para mim com uma expressão de pura alegria.
— Obrigada, papai — disse ela, segurando minha mão enquanto caminhávamos.
— Não tem de quê, querida — respondi, apertando a mãozinha dela. — Eu sempre estarei aqui para você, prometo.
O sol estava começando a se pôr quando decidi que era hora de levá-la de volta para casa. Não queria que o dia terminasse, mas sabia que Renesmee estaria esperando por Charlie, e também precisava descansar. Enquanto caminhávamos de volta, com Charlie segurando meu dedo e os balões em sua outra mão, percebi que, mesmo que não pudesse mudar o passado, poderia oferecer um futuro melhor para ela. A vida estava cheia de incertezas, mas havia uma coisa da qual eu tinha certeza: eu faria qualquer coisa por essa pequena garota e pela mulher que a trouxe ao mundo.
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