Receita para o Amor
27 Jacob- Despedida
Observei Nessie sair da cozinha, nossos olhares se cruzando por um breve momento antes que ela desaparecesse pelo corredor. Eu queria gritar, segui-la, implorar que ficasse para resolvermos tudo, mas Bella estava ali, e eu sabia que essa conversa era inevitável. Suspirei profundamente, virando-me para encará-la.
— Você voltou disposta a enfrentar o passado, Bella? — perguntei, tentando manter a voz firme, mas sentindo o peso das palavras.
Bella me encarou com uma expressão determinada, embora seus olhos traíssem uma leve tristeza.
— Voltei disposta a mudar o presente, Jake, porque o passado... o passado não se pode mudar — respondeu ela, com um tom firme que não deixava espaço para argumentações.
— Não estou entendendo — retruquei, sentindo uma pontada de preocupação.
Bella deu um passo em minha direção, seu olhar se tornando ainda mais sério.
— Eu conversei com Edward. Renesmee saberá o que é necessário — declarou, como se fosse uma decisão final.
Minha mente começou a processar suas palavras, e uma onda de raiva subiu por mim. Como assim, saber o que é necessário? O que mais estavam escondendo dela? Senti o calor subindo pelo meu corpo, e antes que pudesse me controlar, as palavras saíram de minha boca com mais intensidade do que pretendia.
— Você pretende corrigir os seus erros com novas mentiras, Bella? — perguntei, a raiva claramente estampada em minha voz.
Ela balançou a cabeça lentamente, seus olhos nunca deixando os meus.
— O que eu farei, Jake, não é mais problema seu — disse ela com frieza. — Eu vou entrar com o pedido de divórcio, e só voltei para essa casa para buscar minhas coisas pessoais... e Renesmee.
Não pude deixar de rir, um riso amargo e irônico. Como se ela pudesse simplesmente “buscar” Nessie como se fosse mais uma de suas posses.
— Você voltou para buscar Nessie como se ela fosse uma das suas coisas pessoais? — disparei, com sarcasmo.
Bella me olhou com um misto de tristeza e frustração.
— Não é nada disso, Jake. Não seja ridículo.
— Nessie precisa da verdade, Bella. Ela é adulta, e tem o direito de decidir onde ficar. — As palavras saíram de forma firme, deixando claro o quanto eu estava disposto a lutar por Renesmee.
Bella respirou fundo, como se estivesse se preparando para o que vinha a seguir.
— Eu percebi que tem algo acontecendo entre você e Nessie — disse ela, com os olhos fixos nos meus, tentando ler cada reação minha. — Amanhã eu vou embora, e quero você longe da minha filha.
Aquelas palavras foram como um golpe, mas eu me recusei a ceder.
— Você está mudada, Bella. Tudo isso é porque Edward Cullen voltou? — perguntei, sentindo uma mistura de incredulidade e desgosto.
— Não tem nada a ver com ele — rebateu ela, sem hesitar, mas havia algo em seu tom que me fazia duvidar.
— Sabe, Bella, hoje eu me arrependo de ter ido atrás de você dez anos atrás. Me arrependo de ter me casado com você, porque agora vejo que só me usou para fugir da sua filha e dos problemas com Charlie. — As palavras saíram antes que eu pudesse controlá-las, e o arrependimento veio logo depois, mas eu não poderia mais voltar atrás.
Os olhos de Bella se estreitaram, sua expressão endurecendo.
— Você não sabe nada sobre mim, Jacob. Nunca soube.
— Realmente, eu não sei. Mas o que eu sei é que Nessie é importante para mim, goste você disso ou não. E eu só vou me afastar dela se ela mesma pedir — declarei, com uma firmeza que não deixava espaço para mais discussões.
Bella me encarou por um longo momento, e vi a luta interna em seus olhos. Talvez ela soubesse que eu estava certo, que não poderia simplesmente arrancar Renesmee da minha vida como se ela fosse uma página que pudesse ser virada.
Finalmente, ela desviou o olhar, e, por um instante, pareceu que todo o peso do mundo estava sobre seus ombros. Mas não cederia. Eu também não. A batalha pelo futuro de Nessie estava apenas começando, e eu estava disposto a lutar até o fim.
Depois da discussão com Bella, eu precisava sair daquela casa. Minhas emoções estavam à flor da pele, e cada vez que tentava processar o que estava acontecendo, minha cabeça parecia mais confusa. Peguei as chaves do carro e saí sem pensar muito no destino. Dirigir sempre foi uma forma de clarear a mente, mas dessa vez, nem mesmo a familiaridade do volante parecia aliviar o peso que eu sentia no peito.
As ruas de Nova York passavam rapidamente ao meu redor. As luzes dos postes e dos semáforos formavam trilhas brilhantes no escuro, refletindo nas janelas dos prédios e nos carros que cruzavam meu caminho. Passei pela Times Square, onde as enormes telas publicitárias lançavam uma explosão de cores sobre a multidão de turistas. Virei à esquerda na Broadway, e segui em direção ao Central Park, onde as sombras das árvores se misturavam com as luzes da cidade. O ar fresco da noite entrou pelas janelas abertas do carro, mas nem mesmo isso ajudava a esfriar o turbilhão de pensamentos que se agitavam dentro de mim.
A cada esquina, cada cruzamento, eu tentava organizar os sentimentos que Nessie despertava em mim. A cada vez que pensava nela, minha mente voltava para o que Bella havia dito. Nessie é importante para mim, mais do que eu poderia ter imaginado. Ela é como uma droga, e isso é preocupante. Ela invadiu minha vida de uma forma que ninguém jamais havia feito, e agora, parecia impossível voltar atrás.
Depois de dirigir por quase uma hora sem rumo, me vi na frente da casa de Rachel, minha irmã mais velha. Parei o carro e olhei para a casa. Era um lugar familiar, onde sempre encontrava conforto e conselhos. Era exatamente o que eu precisava agora. Desliguei o motor e saí do carro, respirando fundo antes de caminhar até a porta.
Toquei a campainha e ouvi os passos rápidos do outro lado. A porta se abriu, revelando o pequeno Petter, o filho de Rachel e Paul Lahote. O garoto sorriu ao me ver e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele pulou em mim, me abraçando com a energia típica de uma criança de cinco anos.
— Tio Jay! — exclamou Petter, sua voz cheia de alegria.
Não pude deixar de sorrir e retribuir o abraço caloroso. Segurar Petter nos braços era como uma pequena luz em meio à escuridão que estava sentindo.
— E aí, campeão? — perguntei, soltando-o suavemente e entrando na casa.
Rachel apareceu na sala, surpresa ao me ver, mas com um sorriso acolhedor no rosto. Ela sempre foi assim, o tipo de pessoa que podia fazer você se sentir em casa onde quer que estivesse.
— Jake, que surpresa boa! — disse ela, se aproximando para me abraçar. Reparei que seus olhos estavam cheios de carinho e preocupação, como sempre.
— Paul está de plantão hoje — comentou ela, quando nos separamos.
— Tudo bem, Rach. Na verdade, estou aqui para falar com você. Preciso dos conselhos de uma irmã mais velha — confessei, tentando sorrir, mas sentindo o peso das palavras.
Rachel suspirou, percebendo que a conversa seria séria.
— Petter, querido, por que você não vai brincar no seu quarto? — pediu Rachel, com aquele tom maternal que sempre funcionava.
— Mas, mamãe... — ele começou a protestar, mas Rachel apenas o olhou com aquele jeito que não deixava margem para discussão.
Relutante, Petter subiu as escadas correndo, e eu não pude deixar de sorrir, encantado com o garoto. Ele sempre fazia com que eu me perguntasse como teria sido minha vida se tivesse tido um filho.
Rachel segurou minha mão e me guiou até o sofá, onde nos sentamos. Ela olhou para mim com aquela expressão preocupada, mas também determinada a me ajudar.
— Então, o que a sonsa da Bella fez dessa vez? — perguntou Rachel, sem rodeios, conhecendo bem a história que eu tinha com Bella.
Eu sorri, um sorriso cansado e cheio de amargura.
— Não é por causa da Bella... — comecei a explicar, mas Rachel me interrompeu com uma expressão incrédula.
— Certeza? — insistiu ela, como se soubesse que, de alguma forma, Bella sempre estava no centro dos meus problemas.
— Tem ligação com a Bella, sim, mas não é exatamente sobre ela. Bella e eu estamos nos divorciando. Na próxima semana, ela vai entrar com a papelada — revelei, sentindo uma mistura de alívio e tristeza ao dizer aquelas palavras.
Rachel, para minha surpresa, comemorou, levantando as mãos em uma expressão de vitória.
— Até que enfim você vai se livrar daquela parasita! — exclamou ela, sem nenhum filtro.
Eu a olhei sério, e ela logo percebeu que havia passado do ponto.
— Desculpa, Jake. Mas você sabe que eu sempre fui contra esse casamento. Bella nunca te amou de verdade, e te fez infeliz por dez anos — disse Rachel, tentando suavizar sua crítica anterior.
— Não é pela Bella que estou preocupado, Rach — confessei, encarando minha irmã com seriedade.
Rachel franziu a testa, curiosa.
— Então é por quem? — perguntou, tentando entender o que realmente estava acontecendo.
Eu respirei fundo, sentindo o peso da confissão que estava prestes a fazer.
— É pela filha dela — disse, finalmente, deixando as palavras penduradas no ar entre nós.
Rachel me olhou surpresa, e percebi que ela finalmente começava a entender a gravidade da situação.
Rachel me olhou com uma mistura de preocupação e compreensão. Ela sempre soube me ler como um livro aberto, e agora não era diferente.
— Jake, você tem certeza do que está sentindo? — perguntou ela, escolhendo as palavras com cuidado. — Não é possível que você esteja colocando sobre a Renesmee expectativas e desejos que tinha com a Bella e que ela nunca correspondeu?
Eu suspirei, passando a mão pelos cabelos, tentando encontrar as palavras certas para descrever o que eu mesmo ainda não conseguia entender por completo.
— Eu não sei, Rach. A única coisa que sei é que a Renesmee me deixa fora de mim mesmo, de uma forma que eu nunca senti com nenhuma outra mulher... nem mesmo com Bella — confessei, sentindo um nó na garganta ao admitir isso.
Rachel ficou em silêncio por um momento, refletindo sobre o que eu havia dito.
— Olha, Jake, eu não vou te julgar. Afinal de contas, você nunca teve nenhuma ligação com a Renesmee antes, nem quando ela era criança. Não há nada que possa colocar seu caráter em dúvida. E, independentemente de quem ela seja filha, ela é uma mulher adulta e pode tomar suas próprias decisões — disse Rachel, com uma calma que me ajudou a relaxar um pouco.
— Eu só... eu preciso pôr a cabeça no lugar, Rach. Você se importa se eu ficar aqui essa noite? — perguntei, esperando que minha irmã entendesse o quanto eu estava confuso.
Rachel sorriu, um sorriso cheio de ternura e nostalgia.
— Sabe, quando você tinha o tamanho do Petter, sempre pedia para mim e para a Rebecca para dormir no nosso quarto. Pelo jeito, as coisas não mudaram muito, né? — brincou ela, me dando um leve tapinha no ombro.
— Obrigado, Rach — murmurei, sentindo uma onda de alívio.
— Vou preparar um quarto para você — disse ela, levantando-se e indo em direção ao corredor.
Passei a noite rolando na cama, sem conseguir dormir. A cada vez que fechava os olhos, imagens de Renesmee e Bella invadiam minha mente, misturando-se em um turbilhão de sentimentos contraditórios. Quando o sol começou a aparecer no horizonte, decidi que era melhor levantar. Rachel ainda dormia com Petter, então deixei uma mensagem para ela, agradecendo pela hospitalidade, e voltei para casa.
Ao chegar, percebi que Bella e Renesmee já estavam acordadas. Havia malas na sala, o que fez meu coração acelerar. Entrei e, tentando soar casual, cumprimentei as duas.
— Bom dia — disse, tentando esconder minha apreensão.
— Bom dia, Jake — respondeu Renesmee, seu olhar distante.
Bella, no entanto, foi direta.
— Estamos indo embora — anunciou, sem rodeios.
Fiquei surpreso, meus olhos indo imediatamente para Renesmee.
— Preciso falar com você a sós, Nessie — pedi, ignorando Bella.
— Vocês não tem nada para conversar — retrucou Bella, tentando cortar o assunto antes que ele começasse, mas Renesmee a interrompeu.
— Desde quando você começou a decidir algo por mim? — perguntou Renesmee, sua voz firme, enquanto encarava Bella.
Bella ficou em silêncio, me lançou um olhar cheio de ressentimento e, sem dizer mais nada, saiu da casa, batendo a porta atrás de si.
Virei-me para Renesmee, tentando entender o que se passava em sua mente.
— É isso que você quer, Nessie? Ir embora? — perguntei, minha voz carregada de preocupação.
— É o melhor para nós dois, Jake — respondeu ela, com um tom de voz que misturava tristeza e resolução. — A Bella está de volta, e mesmo que eu não a veja como minha mãe, nós dois... isso é impossível.
— Por que é impossível? — insisti, me aproximando dela.
— Jake, por favor, não faça isso — pediu Renesmee, enquanto eu acariciava seu rosto, sentindo a maciez de sua pele sob meus dedos.
Aproximei meus lábios dos dela e a beijei, sem conseguir mais resistir ao desejo que ardia dentro de mim. Para minha surpresa, Renesmee retribuiu ao beijo, mas poucos segundos depois, ela se afastou, sua expressão confusa e dolorida.
— Vamos nos afastar, Jake. É melhor assim — sussurrou ela, com os olhos cheios de lágrimas.
Ela se virou e começou a caminhar em direção à porta, cada passo dela ecoando em minha mente como um adeus.
Fiquei ali, parado, vendo-a partir, sabendo que aquele momento mudaria tudo.
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