Notas iniciais
Gente em breve teremos pov da Nessie, e neles entenderão todas as decisões tomadas por ela.

Os dias se arrastaram com uma monotonia sufocante. A relação entre Renesmee e eu havia se transformado em algo estritamente profissional, como se todo o calor e a familiaridade que antes existiam entre nós tivessem sido congelados. Cada tentativa minha de suavizar o ambiente, de trazer de volta alguma forma de amizade ou mesmo camaradagem, foi recebida por um muro de indiferença. Renesmee parecia ter se afastado para um mundo só dela, inacessível a qualquer um, especialmente a mim.

Carlisle, por outro lado, estava satisfeito. Aparentemente, Renesmee era agora oficialmente a namorada de seu neto, e, embora fossem primos, ninguém na família parecia achar isso estranho ou absurdo. Bella, que agora morava com Edward Cullen, parecia particularmente contente com a situação. Renesmee havia se mudado para a casa deles, agora ela sabia que Edward era seu pai. Tentei descobrir que mentira haviam contado para que Nessie aceitasse essa realidade, mas ela não quis entrar em detalhes, e, ao ver o olhar dela, tive a impressão de que ela não havia acreditado em nada do que lhe disseram.

Chase estava afastado do hospital, o que deveria me deixar mais tranquilo. Mas não deixava. Eu sabia que Carlisle havia passado a administração do hospital de Londres para Chase apenas para mantê-lo longe de Renesmee e, assim, preservar a mentira que haviam construído. Nos últimos seis meses, eu a vi se afastar cada vez mais, até o ponto em que parecia que mal nos conhecíamos.

Naquela manhã, cheguei ao hospital seguindo o mesmo ritual de sempre. Passei pela recepção, fui educado, dei bom dia, e entrei no elevador. Quando cheguei ao andar do meu consultório, percebi que Renesmee ainda não havia chegado, o que era incomum. Resolvi perguntar a Jane, minha assistente.

— Bom dia, Jane. A doutora Swan já chegou? — perguntei, tentando soar casual.

Jane sorriu timidamente, um sorriso que imediatamente me deixou em alerta.

— Bom dia, doutor Black. Pensei que soubesse... — começou ela, hesitante.

— Soubesse o quê? — perguntei, a irritação começando a se instalar.

— A doutora Swan foi transferida para a cardiologia, para trabalhar com o doutor Cullen — disse Jane, observando minha reação.

Um silêncio denso pairou no ar. Meu sangue ferveu, e antes que Jane pudesse dizer qualquer outra coisa, me virei e voltei para o elevador, ignorando completamente o que ela estava dizendo.

Furioso, segui diretamente para o escritório de Carlisle. A recepcionista tentou me impedir, dizendo que ele não podia me receber naquele momento, mas eu a ignorei. Minha mente estava a mil, sentindo-me traído pelo homem que eu sempre considerara como um aliado.

Empurrei a porta do escritório de Carlisle com força, entrando sem pedir permissão. Carlisle levantou os olhos de seu trabalho, surpreendido com minha entrada abrupta.

— Bom dia, Jacob — disse ele, mantendo a compostura.

— Desde quando você toma decisões sobre os meus assistentes sem me avisar antes? — perguntei, minha voz carregada de raiva e mágoa.

— Jacob, por favor, sente-se — pediu Carlisle, mas eu não estava disposto a cooperar.

— Responda à minha pergunta, Carlisle — exigi, cruzando os braços.

Carlisle suspirou, percebendo que eu não estava disposto a ouvir explicações fáceis.

— Foi um pedido da própria Renesmee — disse ele, com um tom calmo, mas que não diminuiu o impacto de suas palavras.

Senti como se o chão tivesse se aberto sob meus pés. Renesmee me repudiava tanto que não queria mais ter nenhum tipo de contato comigo, nem mesmo profissional.

— Ela pediu isso? — perguntei, surpreso e ferido.

Carlisle parecia sincero, e a surpresa em seu rosto indicava que ele não tinha ideia de como eu estava por fora da situação.

— Jacob, eu realmente achei que vocês dois haviam conversado sobre isso. Pensei que fosse uma decisão de comum acordo — explicou Carlisle, sua voz denotando genuína confusão.

Eu não sabia o que dizer. Apenas balancei a cabeça, sentindo uma mistura de raiva e desespero me consumir.

— Eu não sabia — murmurei, quase sem voz.

Carlisle me observou por um momento, e então assentiu, compreendendo a gravidade do mal-entendido.

— Entendo — disse ele, finalmente.

Sem outra palavra, saí da sala, sentindo uma dor no peito que era impossível de ignorar.

Aquela manhã estava sendo um dos piores dias da minha vida. Estava na minha sala, desolado, sentindo o peso de tudo o que havia acontecido nas últimas horas. A notícia de que Renesmee havia solicitado para ser transferida e se afastar de mim, mesmo no trabalho, me atingiu como uma facada. Cancelei todas as consultas e reuniões, incapaz de fingir qualquer semblante de profissionalismo quando meu mundo interno estava em completo caos.

Sentei-me à mesa, tentando encontrar alguma forma de aliviar a dor que queimava dentro de mim, mas nada parecia funcionar. Pensava na proximidade que tínhamos, no quanto ela significava para mim, e no quão vazio tudo parecia agora.

Meu telefone tocou, quebrando o silêncio opressor. Peguei o aparelho com certo receio, e a voz de Jane ecoou do outro lado.

— Doutor Black, a senhora Swan deseja vê-lo. Ela disse que é importante.

Suspirei pesadamente. A última coisa que eu queria naquele momento era lidar com Bella. Não estava com paciência para mais uma das suas manipulações, mas sabia que não adiantava ignorar. Talvez fosse melhor acabar logo com aquilo.

— Deixe-a entrar — respondi, tentando manter a calma.

Minutos depois, a porta se abriu e Bella entrou, trazendo consigo aquele ar de superioridade e mistério que sempre me irritou. Ela deu bom dia com uma expressão neutra.

— Bom dia, Bella — respondi, apontando para a cadeira à minha frente. — Pode se sentar.

— Não vou ocupar muito do seu tempo, Jacob — disse ela, sem se mover em direção à cadeira. Em vez disso, abriu a bolsa e tirou alguns papéis, entregando-os para mim.

— O que são esses papéis? — perguntei, olhando para ela com desconfiança.

— São os papéis do divórcio. Você só precisa assinar — respondeu ela com firmeza.

A surpresa inicial foi substituída por uma sensação de alívio. Eu sabia que esse momento chegaria, mas o vazio dentro de mim ainda se mantinha presente.

— Claro — murmurei, pegando os papéis. Comecei a folheá-los, examinando o conteúdo. — Você abriu mão do que era seu por direito?

Bella assentiu, o rosto impassível.

— Sim. Não quero dar margem para minhas irmãs espalharem por aí que me casei por interesse. Edward me aconselhou a fazer isso.

O nome dele saiu de seus lábios, e eu não pude evitar a risada amarga que escapou de mim.

— Ah, claro, Edward. — Eu ri com desdém. — Foi ele que te aconselhou a mentir para a Nessie também, não foi?

O rosto de Bella endureceu, mas ela não recuou. Pegou o papel que eu assinei, cuidadosamente dobrando-o.

— Entendo que você se preocupe com minha filha, Jacob. Mas Nessie sofreria muito mais se soubesse que acreditou ser fruto de um abuso.

A raiva queimou dentro de mim. Eu a encarei, sentindo cada palavra dela como uma punhalada.

— E você espera que eu acredite nisso, Bella? — minha voz saiu baixa, mas cheia de amargura. — Na verdade, você omitiu essa parte porque sabe que Nessie jamais vai perdoá-la quando descobrir que você jogou sobre ela a culpa do que aconteceu. Ela era apenas uma criança inocente, e você a fez acreditar em uma mentira para proteger seu orgulho.

Bella desviou o olhar, mas logo voltou a me encarar, mantendo sua postura.

— Era só isso que eu queria — disse ela, guardando os papéis com uma frieza calculada. — Desejo que você seja feliz, Jacob.

— Isso não vai dar certo, Bella — repliquei, minha voz mais firme. — Por mais que você omita a verdade, um dia ela vai aparecer. Cedo ou tarde, tudo isso vai desmoronar.

Bella não disse mais nada. Apenas me lançou um último olhar, cheio de algo que parecia ser arrependimento, mas eu não tinha certeza. Então, sem mais uma palavra, ela virou as costas e saiu da sala, deixando-me sozinho com meus pensamentos e uma angústia crescente.

O que mais me doía não era apenas o afastamento de Renesmee, mas o medo de que, quando a verdade finalmente viesse à tona, ser tarde demais para salvar qualquer coisa entre nós.