Receita para o Amor
23 Jacob- Decisões
Passei o restante da madrugada no sofá, sem conseguir dormir. Minha mente estava um turbilhão de pensamentos e emoções conflitantes. Não sabia ao certo o que sentia—um misto de vazio, frustração, desejo reprimido, e talvez algo mais profundo. O que quer que fosse, não conseguia negar que, após anos em um casamento desgastado e de aparências, estar perto de Renesmee me fazia sentir vivo novamente. Era como se ela despertasse algo em mim que eu havia esquecido que existia.
Depois de um banho rápido, fiquei refletindo sobre o que fazer a seguir. Como seria nossa relação daqui para frente? Talvez fosse melhor para ela sair dessa casa. Não queria deixá-la desconfortável, muito menos causar-lhe mal algum. Decidi, então, que deveria lhe oferecer uma saída. Olhei para a gaveta do criado-mudo e tirei de dentro uma chave. Minha irmã, Rachel, havia desocupado o apartamento que eu lhe emprestara assim que se casou. Estava todo decorado de maneira feminina; talvez Renesmee gostasse. Mas, mesmo sabendo que essa era a decisão certa, algo dentro de mim doía com a ideia de vê-la partir.
De volta à sala, terminei de organizar alguns papéis quando ouvi os passos dela na escada. Tentei me concentrar na mochila que estava arrumando, mas mal conseguia encará-la.
— Bom dia — disse, sem tirar os olhos dos zíperes da mochila.
— Bom dia — respondeu ela, e o clima estranho entre nós era quase palpável.
Eu mantinha meus olhos fixos na mochila, como se ela fosse a coisa mais interessante do mundo. Mas, então, ouvi sua voz, suave e hesitante.
— Jacob...
Antes que ela pudesse continuar, a interrompi, sabendo que precisava ser firme.
— Vamos esquecer o que aconteceu essa madrugada.
Tirei a chave do bolso e a estendi para Renesmee. Ela a pegou, confusa, e perguntou:
— Que chave é essa?
— É a chave de um apartamento que estou emprestando a você para morar — respondi, tentando manter a voz firme. — Acho que é o melhor para você.
Ela me olhou assustada, seus olhos cheios de perguntas e dor.
— Você está me mandando embora? Por quê? Por não ter... — Sua voz falhou, mas o que ela estava insinuando era claro.
Eu a interrompi de novo, percebendo que ela havia interpretado mal minha atitude.
— Não é isso, Renesmee. Você está certa. O que sentimos é errado, e só quero te proteger. Vamos manter uma relação mais profissional a partir de hoje.
Ela pareceu considerar minhas palavras por um momento, antes de finalmente assentir.
— Entendo — disse, com uma tristeza evidente na voz. — Aceito, mas com a condição de que eu possa pagar o aluguel.
Hesitei por um instante, mas percebi que essa era a única maneira de fazê-la aceitar sem maiores discussões.
— Tudo bem — concordei, embora cada palavra saísse com dificuldade.
— Obrigada, Jacob — respondeu ela, sua voz carregada de um misto de gratidão e decepção.
Dei um passo para trás, sentindo a necessidade de criar uma distância física para manter o controle da situação.
— De nada, Nessie. Espero que você seja feliz, de verdade.
Ela não disse nada por um momento, apenas me olhou com uma expressão que eu não conseguia decifrar. Por fim, virou-se e começou a arrumar suas coisas.
— Não vou ao hospital hoje — informei, quebrando o silêncio que se instalara. — Preciso resolver alguns assuntos pessoais.
— Tudo bem, eu pego um táxi — respondeu ela, com uma tranquilidade que parecia forçada.
— Cuide-se, Nessie.
Ela apenas assentiu e saiu pela porta. Fiquei ali, parado, vendo-a ir embora, cada passo dela parecendo levar um pedaço do meu coração. Quando a porta se fechou, sentei-me no sofá e tentei me manter firme na decisão que sabia ser a certa, mesmo que meu coração implorasse pelo contrário.
No horário marcado, cheguei ao *Café Grumpy*, um dos meus lugares favoritos em Nova York para tomar um café e refletir. Era um ambiente tranquilo, perfeito para uma conversa séria. Edward já estava lá, sentado a uma mesa próxima à janela, observando o movimento da rua. Quando me aproximei, ele se levantou e nos cumprimentamos com um aperto de mão firme.
— Que bom que conseguiu vir, Jacob — disse ele, indicando a cadeira em frente à sua.
— Claro. Mas me diga, qual o motivo de marcarmos isso fora do hospital? — perguntei, sentando-me e colocando minha mochila no chão ao lado da mesa.
Edward respirou fundo antes de responder, como se estivesse escolhendo cuidadosamente suas palavras.
— Estou tentando localizar Bella — começou ele, seus olhos fixos nos meus. — E vou atrás dela. Mas até lá, quero que cuide de Renesmee.
Eu o encarei por um momento, surpreso. Não consegui evitar uma risada baixa.
— Edward, sua filha já tem 20 anos. Ela é adulta, pode cuidar de si mesma.
Ele balançou a cabeça, parecendo mais sério do que nunca.
— Tive uma briga com Chase. Não me sinto tranquilo em deixá-la sozinha com ele por perto. Chase é... baixo. Ele faria qualquer coisa para me atingir, como já fez no passado.
O nome de Chase me fez lembrar de toda a história conturbada que envolvia os Cullen, especialmente a tensão constante entre os dois irmãos. Edward continuou, parecendo mais preocupado a cada palavra.
— Sei que Renesmee confia em você, Jacob. E já percebi que há uma aproximação entre vocês dois.
Eu assenti, tentando não mostrar o quanto isso mexia comigo.
— Vou ver o que posso fazer — respondi, mantendo a voz firme. — Mas me diga, como pretende encontrar Bella?
Edward fez uma pausa antes de responder, como se estivesse considerando a melhor forma de explicar.
— Já a encontrei, na verdade. Tenho um amigo com acesso aos registros de voos dos aeroportos. Ele conseguiu descobrir para onde ela foi.
Minha curiosidade se intensificou.
— E o que você pretende fazer, Edward?
Ele me olhou com uma expressão que misturava determinação e melancolia.
— Sei que você e Bella são casados, e sempre respeitei isso. Mas...
Eu o interrompi antes que pudesse continuar.
— Não somos mais. Bella e eu estávamos prestes a nos divorciar. Não estamos juntos de verdade há alguns meses.
Edward assentiu, parecendo absorver essa informação.
— Entendo.
Minha preocupação aumentava com o que ele planejava fazer, mas outra questão se destacava.
— Minha preocupação é se Bella vai querer te ouvir. Você sabe como ela pode ser quando decide algo.
Edward deu um sorriso pequeno, quase triste.
— Ela me ouvirá.
A convicção na sua voz não deixava dúvidas de que ele estava determinado a enfrentar qualquer obstáculo. Nos despedimos, e ele saiu, deixando-me sozinho com meus pensamentos. Tomei um gole do meu cappuccino, tentando processar tudo o que acabara de acontecer. As palavras de Edward ecoavam na minha mente, mas antes que pudesse refletir mais sobre isso, uma voz feminina me chamou atenção.
— Oi, gatão.
Olhei para cima e vi uma mulher loira sorrindo para mim. Pisquei, surpreso, reconhecendo-a imediatamente.
— Caroline? — sussurrei, quase sem acreditar.
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