Receita para o Amor

44 Jacob- Café da manhã


Enquanto eu a observava, meu coração apertava. Nessie estava tão quieta, tão diferente. Ela trocava olhares comigo, mas eram olhares carregados de uma dor profunda, quase insuportável. Havia algo mais, algo que me preocupava ainda mais do que o luto: a escuridão em seus olhos.

Ela se manteve distante de Bella e de qualquer um dos Cullen, o que não passou despercebido por mim. Nessie aceitou o abraço de Rachel, Paul, Leah, Sue e do meu pai, mas era evidente a barreira que ela havia erguido entre si e os familiares de seu pai biológico.

Quando finalmente chegamos à casa de Renée, Nessie sentou-se no sofá ao lado dela, sua postura rígida, como se estivesse se segurando para não desmoronar. Renée, sempre a figura materna, olhou para ela com ternura e disse:

— Querida, você precisa descansar.

Eu estava preocupado e, querendo ser útil, me inclinei para perguntar:

— Nessie, você está bem? Renée, você precisa de alguma coisa?

Renée me olhou com aquele olhar caloroso que sempre me desarmava um pouco e sorriu gentilmente.

— Estou bem, querido. Obrigada por tudo.

Tudo parecia estar sob controle, pelo menos por alguns segundos, até que Bella entrou na sala com Edward ao lado. Eu senti o ar mudar, ficando mais pesado. Os olhos de Nessie encontraram os de Bella, e no instante seguinte, tudo desabou.

— É sua culpa! — Nessie gritou, a voz carregada de uma dor que eu nunca acreditei ser possível. Ela estava de pé, quase pronta para avançar sobre Bella.

Eu reagi no mesmo segundo, segurando-a pela cintura, tentando acalmá-la enquanto ela se debatia furiosamente.

— Sua assassina! É sua culpa! Você matou meu pai! É sua culpa!

Renée começou a chorar, incapaz de lidar com a situação, e eu vi a dor no rosto de Bella, enquanto Edward a puxava para longe, murmurando algo sobre não ser a hora certa para falar com Nessie.

Eu sabia que precisava tirá-la dali antes que as coisas piorassem ainda mais. Em um movimento rápido, peguei Nessie no colo e saí da sala, subindo as escadas apressado, com Renée logo atrás, ainda em lágrimas.

Quando chegamos ao quarto, coloquei Nessie sentada na cama e me ajoelhei à sua frente, segurando seu rosto com as mãos, forçando-a a me olhar nos olhos.

— Nessie, olha para mim — falei, tentando trazê-la de volta ao controle.

Ela finalmente me olhou, mas seus olhos estavam cheios de lágrimas e desespero.

— É culpa dela... Ela mentiu... Bella... — as palavras saíam aos soluços, a voz quebrada.

Eu a interrompi, a voz firme, mas suave:

— Olha para mim, meu amor. Eu estou aqui. Bella não fará mais nada.

Ela assentiu, mas a dor ainda estava lá, cravada em seu peito. Eu a puxei para mais perto, abraçando-a, tentando protegê-la do mundo e, principalmente, dela mesma.

Depois de alguns minutos, o calmante finalmente fez efeito, e Nessie adormeceu, os soluços diminuindo até desaparecerem completamente. Eu me levantei devagar, deixando meus materiais médicos dentro da bolsa e sorri levemente, beijando sua testa.

Renée entrou no quarto, a preocupação evidente em seu rosto.

— Como ela está? — perguntou, sua voz ainda tremendo.

Suspirei, passando a mão pelo cabelo, sentindo o peso de tudo sobre meus ombros.

— O calmante a fez dormir. Ela só deve acordar amanhã.

Olhei para Renée, vendo o cansaço e a dor estampados em seu rosto. Ela havia perdido Charlie, e agora tinha que lidar com Nessie naquele estado. Eu sabia o quanto isso devia estar sendo difícil para ela.

— E você, Renée? Está bem? Estou aqui para o que precisar — ofereci, querendo ser útil, mesmo que de uma forma pequena.

Finalmente, Renée desmoronou, algo que ela provavelmente estava segurando desde que tudo começou. Ela se aproximou e me abraçou, permitindo que as lágrimas finalmente rolassem. Eu a acolhi em meus braços, oferecendo o conforto que ela precisava, enquanto ambos compartilhávamos o peso daquela dor insuportável.

A dor dela, a dor de Nessie, agora eram minhas também. Eu faria de tudo para protegê-las, mesmo que isso significasse carregar o mundo inteiro nas costas.

Acordei bem cedo, antes que o sol tivesse a chance de espreitar pelas nuvens cinzentas de Forks. Olhei para o lado e vi Nessie dormindo tranquilamente ao meu lado, os cabelos espalhados pelo travesseiro, o rosto sereno, quase angelical. Um sorriso se formou nos meus lábios enquanto eu me inclinava para beijar seu rosto suavemente.

— Bom dia, meu amor — sussurrei, mesmo sabendo que ela não podia me ouvir.

Apesar de tudo que estava acontecendo, uma onda de felicidade me invadiu. Por tantos meses, desejei acordar ao lado dela, sentir seu calor ao meu lado, e agora, ela estava ali. Mas, ao mesmo tempo, a culpa me apertava o peito. As circunstâncias eram as piores possíveis, e eu sabia que precisaria ser forte por ela, por nós.

Com cuidado, saí da cama, tentando não acordá-la, e fui até a janela. O clima em Forks e La Push era algo que eu quase havia esquecido durante os anos em Nova York. A calmaria, o silêncio, tão diferentes dos ruídos incessantes da cidade grande. Ali, a vida parecia se mover em um ritmo diferente, mais lento, mais pesado.

Desci as escadas em silêncio, evitando qualquer barulho que pudesse acordar Renée. Quando cheguei à cozinha, me vi cercado por utensílios e ingredientes que me trouxeram memórias da minha própria casa. Decidi fazer o café da manhã; era o mínimo que eu podia fazer para ajudar Renée, mesmo que só um pouco.

Abri os armários, procurando por café, pão e qualquer coisa que pudesse servir de café da manhã. Logo, o cheiro do café fresco encheu a cozinha, misturando-se com o aroma dos ovos que bati em uma tigela. Preparei tudo com cuidado, querendo que o café da manhã fosse o melhor possível, um pequeno gesto em meio ao caos.

Estava quase terminando quando ouvi passos suaves atrás de mim. Virei-me e vi Renée parada na porta, um sorriso cansado no rosto.

— Jake — ela disse, a voz ainda rouca do sono —, não precisava se preocupar com isso.

Eu sorri meio sem jeito, sentindo-me um pouco intruso.

— Desculpe invadir sua cozinha, Renée. Eu só queria ajudar de alguma forma.

Ela se aproximou, ainda sorrindo.

— Não há problema algum. Você já é da família... ou melhor, está retornando à família.

Eu ri, aliviado por ela não se importar, mas sabia que o que estava por vir era inevitável.

— Eu sei que pode ser estranho para você, eu estar com a Nessie... considerando que fui casado com Bella.

Renée olhou para mim, os olhos cheios de compreensão.

— Jake, vocês dois vão enfrentar muitos julgamentos, de todas as direções. Vocês não precisam que eu também os julgue. Eu só quero que Nessie seja feliz. E eu sei que você a fará feliz.

Seu apoio significava mais do que eu podia expressar, então tudo que consegui fazer foi assentir, a gratidão estampada no meu rosto.

— Obrigado, Renée. De verdade. Vou levar o café da manhã para Nessie. Acho que isso vai ajudá-la a começar o dia um pouco melhor.

— Vai fazer bem a ela — Renée concordou, colocando uma mão no meu braço antes de se afastar.

Preparei uma bandeja com tudo o que havia feito: café, pão, ovos, frutas. Queria que ela se sentisse cuidada, mesmo que fosse só com uma refeição simples. Minutos depois, subi as escadas, tentando não derramar nada. Quando entrei no quarto, coloquei a bandeja sobre a mesa e voltei para a cama.

Deitei ao lado de Nessie e passei a mão em seu rosto, acariciando sua pele suave.

— Acorde, meu amor. Hora de acordar.

Ela se mexeu lentamente, os olhos se abrindo, ainda sonolenta. Quando me viu, um sorriso iluminou seu rosto.

— Não era um sonho...

Eu sorri de volta, sentindo uma pontada de emoção no peito.

— Não, eu sou real.

Nessie olhou profundamente nos meus olhos, e então, com uma doçura que me desarmou, sussurrou:

— Então me beija.

Eu não resisti. Inclinei-me para mais perto, meus lábios roçando os dela. O beijo começou suave, terno, como se estivéssemos nos redescobrindo, mas logo se tornou mais profundo, mais intenso. O gosto dela era doce e familiar, e cada toque, cada movimento, parecia carregar um mundo de emoções que palavras não poderiam expressar.

Eu a beijei como se fosse a primeira e a última vez, entregando tudo de mim, todo o amor e toda a dor, enquanto o mundo ao nosso redor se dissolvia, deixando apenas nós dois.