Recanto das Gaivotas
2 Capítulo Dois: Jantares à Rock’n’Roll - Parte 1
Notas iniciais
Quando chegamos na pousada tudo estava um caos. A placa estava se soltando, prestes a cair na cabeça de alguém. Meu pai estava do lado de fora vestindo nada além do que um cardigã e uma cueca boxer. Dois pré-adolescentes, que presumi serem os filhos de Cassie, estavam rindo junto a Lars em um canto. Enquanto Cassie corria de um lado pro outro tentando resolver a situação.
— Olha aqui, eu juro por Deus que se uma coisa esguichar, rastejar ou explodir pra cima de mim vai todo mundo ficar sem internet por uma semana! — ameaçou Cassie balançando o cabelo despenteado. Ela parecia uma louca. — Pai, pelo amor de Deus, entra em casa!
— Mas querida, nós estamos em tempo de festa! — disse meu pai balançando o corpo como se estivesse dançando.
— Eu não aguento mais! — Cassie se jogou no chão, mas logo em seguida se levantou com um grito. Um jato de tinta atingiu sua cabeça. — AAAAAAAAHHHHHHHH! EU MATO VOCÊS!
Lars, Emmaline e Phillip começaram a correr. Cassie tentou correr atrás deles, mas perdeu o fôlego rapidamente. Lágrimas em seus olhos. Lenny rapidamente foi até ela e a envolveu num abraço. Ela se assustou e olhou para ele, depois para mim e James.
— Graças a Deus, vocês estão aqui. — Cassie retribuiu o abraço de Lenny e depois veio me abraçar.
— Que saudades, irmãzinha. — disse acariciando a parte de trás da sua cabeça.
— Você não faz idéia.
Enquanto nos abraçávamos, James convenceu o nosso pai a entrar. Cassie se afastou e enxugou as lágrimas na manga da blusa ainda fungando. Até a invencível Cassie estava perdendo o controle. O que há de errado com o mundo?
— Estou feliz que estejam aqui, de verdade. — Ela começou a se explicar. — É que tá tudo tão… Eu realmente preciso de uma ajuda agora.
— Não precisa se explicar. — falei.
— Ficamos felizes em ajudar. — Completou Lenny.
— Obrigada, meninos. — Cassie fungou. — Será que vocês poderiam me ajudar com a placa? Vou pegar a escada lá nos fundos.
— Deixa que eu pego pra você. — ofereceu Lenny.
— Não, eu pego. Está num lugar meio difícil e…
— Eu te ajudo.
Cassie ficou sem fala por um momento.
— Tudo bem então.
Cassie e Lenny seguiram até os fundos do casarão antigo, enquanto eu fiquei observando a placa tombada. Algumas letras já haviam sido apagadas pelo tempo e o que restou era: R AN O A NDO NH S. Esse lugar já tinha sido incrível um dia, mas agora parecia mais uma casa mal-assombrada.
Ouvi umas risadas vindas de dentro da casa se aproximando cada vez mais. Logo um grupo de adolescentes estava diante de mim. Eu acho que preferia enfrentar uma assombração a isso. Um menino e uma menina de cabelos castanhos igual o meu, os gêmeos. Uma menina loira que estava agarrada no braço do menino e uma menina de pele escura que apoiava o braço nos ombros da minha irmã. Eles passaram por mim sem me notar, até que…
— Aí minha Deusa! — disse a de cabelo loiro fazendo todos pararem.
Fui descoberto.
— Aquele não é seu pai?
Como é que é?
— Mas ele não tava em Nova Iorque? — perguntou a outra garota.
Tudo bem. Estou ficando confuso. O que está acontecendo aqui? Sissi, a garota que é a minha IRMÃ, começou a rir histericamente. Peter, o meu IRMÃO, também parecia desconfortável. Eles estavam aprontando alguma coisa.
— Minha nossa! O nosso pai voltou! — disse a minha irmã, Sissi.
— Claro que ele voltou. É o funeral da vovó. — completou meu irmão, Peter.
Funeral da vovó? Era a mãe deles! Que raios aconteceu aqui enquanto estive fora? Sissi se soltou dos braços da amiga e correu em minha direção me dando um abraço apertado. Peter se aproximou devagar junto às outras duas adolescentes.
— Papai que saudades! — gritou Sissi enquanto me abraçava. E então ela sussurrou pra mim: — Me desculpa por isso, mas a gente te explica depois.
A garota de cabelos loiros me analisou da cabeça aos pés. Ela parecia uma réplica daquele filme “Garotas Malvadas” parada ali, bem na minha frente. Em carne e osso. Retribui o abraço de Sissi. Eles, definitivamente, me devem uma depois dessa.
— Como vocês estão? Senti tanta saudade de vocês! — Apertei Sissi ainda mais.
— Estou… Ficando… Sem… Ar… — disse ela sem fôlego.
— A saudade foi muito grande. — disse finalmente soltando ela, lançando um olhar de fúria para os dois.
— Então… — A garota loira começou a falar. — O pai de vocês é realmente Raphael Cohen? Uau, por essa eu não esperava.
— Você duvidava deles, Sawyer? — perguntou a outra garota.
— É claro que não. Mas de uma certa forma sinto pena deles agora. Afinal, o pai deles foi expulso da Exodus, não é? — Garotinha venenosa, hein?
— Olha a bomba! — gritou a filha da Cassie atirando uma bexiga d’água da janela do segundo andar em direção à Sawyer.
— Sua… — A bexiga atingiu em cheio o rosto dela. — Sua pestinha!
— Saí daqui, sua bruxa oxigenada! — gritou a garotinha mostrando a língua logo em seguida.
Que classe.
— É melhor a gente ir. O filme já vai começar. — disse Peter ajudando Sawyer.
— Olha o que ela fez com o meu cabelo! — lamentou Sawyer.
— A gente arruma no banheiro do cinema. — falou a outra garota.
— Arrumar como, Rhiannon? Aquela garotinha das trevas arruinou todo o meu visu.
— Aí vamos logo, Sawyer. — disse Sissi empurrando a amiga. — Tchau pai, depois a gente conversa.
O grupo se afastou andando pela estrada que conecta a orla da praia à cidade. Segundos depois Cassie e Lenny apareceram carregando a enorme escada de metal de nosso pai. Lenny tinha o cinto de ferramentas nas costas. Eles ajeitaram a escada embaixo da placa. Lenny ia subindo quando eu me pronunciei:
— Deixa comigo.
Comecei a subir os degraus da escada, enquanto Lenny e Cassie a seguravam. A escada, já antiga, rangia aos meus pés mal aguentando meu peso. Mas ela sempre aguentava. Tinha que aguentar. Quando cheguei ao topo Lenny me passou o cinto de ferramentas.
— Ouvimos você falando com os gêmeos. — disse Cassie.
— É. Parece que eu tenho filhos e nem sabia. — falei secamente.
— Nós vamos explicar tudo, mas vai ser melhor se eles estiverem aqui.
— Por quê? Vocês fizeram um pacto ou algo assim enquanto estive fora?
Cassie riu. Uma risada seca e sem graça.
— Algo assim.
Ficamos alguns segundos em silêncio enquanto eu arrumava a placa.
— Cassie me disse que os negócios não vão nada bem. — Lenny quebrou o silêncio. — Estava pensando que ao invés de voltar para Nova Iorque logo em seguida poderíamos passar um tempo aqui.
— Vocês não precisam fazer nada disso! — protestou Cassie.
— Que tal você só aceitar a nossa ajuda uma vez na vida!? — perguntou Lenny irritado.
Uma coisa que vocês precisam saber sobre o Lenny é que sempre foi apaixonado pela Cassie, mas nunca teve coragem de falar o que sentia. Eu não sou aquele tipo de irmão que não suporta que o melhor amigo fique com a irmã. Eu não sou assim. Lenny merece alguém como a Cassie e Cassie merece alguém como o Lenny. Mas depois que ela deu à luz, Cassie se fechou para o mundo.
Ela tinha dezesseis anos quando seus filhos nasceram. O pai deles andava comigo na escola, não éramos próximos, mas tínhamos uma banda de garagem. Esse era exatamente o tipo de cara que eu não queria perto da Cassie. Por motivos óbvios. Ele vivia implicando com Lenny e outras pessoas que considerava “inferiores”. Não posso imaginar o que Cassie viu nele.
Quando as crianças nasceram ele não queria assumir. Precisei ameaçar dar um soco nele e destruir sua bateria para que ele pelo menos aceitasse fazer o exame de DNA. Cassie ficou arrasada. Ela realmente gostava dele. Mas agora o máximo que se encontram é para falar sobre os filhos. Isso quando ele quer falar sobre alguma coisa que não seja ele mesmo.
— Eu vou ficar bem. — disse Cassie calmamente. — É só o funeral que desestabilizou todo mundo e…
— Não é só o funeral, Cassie. — interrompeu Lenny. Ele sempre sabia quando ela estava mentindo.
Terminei de consertar a placa e desci as escadas.
— Que tal a gente entrar e conversamos melhor? — Cassie assentiu com a cabeça.
Dentro do casarão a situação não era muito melhor do que fora dele. Em algumas partes os tacos do chão se soltavam, as paredes estavam descascando, a luz estava fraca e haviam mochilas, brinquedos e eletrônicos espalhados por aí. A recepção parecia ter saído de um filme de terror.
— Eu não falei pra vocês guardarem isso? — gritou Cassie para os filhos.
— Calma maninha, desse jeito você vai ter um piripaque. — Lars estava apoiado no arco que ligava a sala de estar. Os olhos vidrados no celular e um meio sorriso no rosto. Ele é o mais alto de todos nós. Sua cabeça encostava na parte de cima do arco e suas pernas estavam dobradas.
— Muito obrigada, viu Lars? Pelo excelente banho de tinta hoje cedo. — ironizou Cassie.
— De nada. — respondeu Lars sem tirar os olhos do celular.
— Isso é sério!? — Eu disse com raiva. — Todo esse tempo e você ainda não amadureceu!?
— Raphael, o que você vai fazer? — disse Lenny segurando o meu braço.
Lars parou de prestar atenção no celular e se virou pra mim. Ainda com aquele meio sorriso tosco na cara.
— Já voltou, Raphael? Nem percebi. Acho que estava acostumado com a sua longa ausência.
— Eu fui fazer algo de útil com a minha vida! — rosnei.
— Não se faça de sono. Eu vi as notícias. “Vocalista da Banda Exodus Soca Paparazzi em Saída de Bar”. É. Todo mundo ficou sabendo. Até a mamãe. Ela ficou arrasada.
— Parem com isso vocês dois! — exigiu Cassie.
— Pelo menos eu não fiquei aqui e criei mais problemas em casa. — falei.
— Não. Mas você tinha que criar problemas em rede nacional, né?
Uma onda de raiva tomou conta de mim e eu virei um tapa no rosto dele. Lars começou a rir e me socou no nariz. Em questão de segundos estávamos brigando no meio da recepção. Cassie e Lenny tentavam nos separar. James ouviu os gritos e foi ajudar a apartar a briga, mas um soco o atingiu e ele acabou entrando no meio também.
— SEUS IMBECIS! — gritou James.
— VAI À MERDA! VAI À MERDA! — eu gritei.
— MAS VOCÊS SÃO UNS IDIOTAS! — gritou Lars.
O quebra-pau estava rolando solto quando Poppy, Tessa e Moira entraram conversando e de braços dados. Primeiro elas ficaram observando a cena em silêncio, mas aí Poppy se cansou, foi até o meio da briga e catou James, Lars e eu pela orelha.
— Olha aí aqui seus imprestáveis, que droga tá rolando aqui? — disse apertando mais ainda nossas orelhas.
— Oi, Poppy. — falamos em coro com uma voz doída.
— Meu horóscopo me disse que brigas aconteceriam ao menor, mas eu imaginei uma coisa mais verbal tipo “Ô seu filho da puta! Moleque dos inferno!” coisas assim, saca? — disse Moira.
— Eu não acredito que vocês tão brigando num momento como esse! A mamãe morreu, poxa! — disse Tessa chateada.
— Tem razão, Tessa. É inacreditável mesmo! Então como se diz, meninos? — Poppy apertou ainda mais nossas orelhas.
— Desculpa, Poppy. Aiaiai. — disse James.
— Desculpa, Poppy. — falei.
— É. Tá bom. Desculpa, Poppy. — Poppy apertou mais ainda a orelha de Lars. — DESCULPAAAAAAIIIIII.
— Bem melhor. — Poppy soltou nossas orelhas.
— Psicopata. — sussurrou Lars enquanto esfregava sua orelha.
Lars subiu as escadas e bateu a porta do seu quarto.
— Meninas, que bom ver vocês! — disse Cassie abraçando as irmãs.
— Querida, mas você tá um caco, hein? Bom, não tem problema, porque agora que eu larguei a faculdade vou poder te ajudar mais. — disse Moira.
— Você o quê!? — Todos os irmãos, incluindo Lenny, falaram em coro.
— Eu não contei, não? Bom, surpresa!
— Moira, irmã querida, a sua faculdade não foi barata não. — falei tentando manter a calma.
— Como você sabe? — disse ela cruzando os braços.
— Porque fui EU que paguei.
— Ih foi mal. Mas você não ia querer que eu perdesse o meu tempo fazendo algo que eu não gostasse, né?
— E isso é hora para falar sobre isso? — falou Tessa revirando os olhos.
— Tessa tem razão. Por que não falamos sobre isso na hora do jantar? — interrompeu Cassie.
— Esse jantar vai virar uma bola de neve. — lamentou Lenny.
— É por isso que eu amo reuniões de família. — comentou Poppy.
Poppy passou os braços entre os ombros de Lenny. E sorriu para nós. Fazia um tempo que não nos reunimos. E agora estávamos todos ali. Fosse qual fosse a merda na qual estávamos enterrados. Estávamos todos ali. Pela nossa mãe. Ela teria gostado disso.
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