Recanto das Gaivotas

3 Capítulo Três: Jantares à Rock’n’Roll - Parte 2


Notas iniciais
Espero que gostem! Críticas construtivas são sempre bem-vindas!

Passamos o resto do dia reunidos no jardim. Contando só as boas memórias, porque de acordo com Cassie toda a roupa suja seria lavada apenas no jantar. Meu pai saiu algumas vezes de casa. Extremamente confuso sobre tudo que estava acontecendo. E às vezes ele perguntava de nossa mãe. Nesses momentos eu via o rosto de meus irmãos se fecharem.

Tessa não sorriu em nenhum momento. Ela sentia falta de nossa mãe. Todos sentíamos. Mas nossa mãe sempre nos disse que quando ela se fosse, ela preferia ser celebrada do que lamentada. E era isso que estávamos tentando fazer. Ao fim da tarde, começamos a nos arrumar.

Caiu a noite e nos reunimos na mesa de jantar. Nossa família sempre comeu em uma mesa ao canto da cozinha. Junto com os funcionários. A sala de jantar era reservada aos hóspedes. Mas hoje não tínhamos nenhum hóspede, além do casal de idosos que se deitava cedo.

Além dos meus irmãos estavam Lily, a namorada de Poppy, Lenny, Emmaline, Phillip e meu pai. James havia se sentado próximo ao meu pai. Pelo visto era ele quem meu pai mais escutava. Me sentei entre meu pai e Cassie. Próximo à borda da mesa.

Todos estavam extremamente arrumados como se fosse natal. Conversavam animadamente como se a confusão de mais cedo não tivesse acontecido. Poppy e a namorada se levantaram e vieram em minha direção. Poppy usava um vestido preto cintilante, enquanto a namorada vestia uma blusa de regata branca com busto e uma calça jeans rasgada. As duas estavam deslumbrantes.

— Rapha, eu queria te apresentar uma pessoa. — falou Poppy segurando o braço da namorada com as duas mãos. — Essa é a Talullah.

— Muito prazer. — disse Talullah.

— Igualmente. — respondi. — Vocês duas estão maravilhosas esta noite.

Talullah enrubesceu, mas Poppy deu risada.

— Ha, tá tentando nos elogiar por que acha que assim vai ganhar algum desconto no nosso bar? — ironizou Poppy.

— Mais ou menos isso. — falei rindo.

— Te cuida, espertinho. — disse Poppy levando a namorada de volta pro seus lugares.

A noite se estendeu sem muitas emoções até que Cassie se levantou e chamou nossa atenção batendo na taça com o garfo. Todos pararam de conversar e começaram a prestar atenção. Menos Lars. Que estava com a cara enfiada no celular outra vez.

— A noite foi ótima, mas acho que agora precisamos falar sobre assuntos desagradáveis agora. Moira, que tal começar? — falou Cassie com delicadeza.

— Começar com o quê? — perguntou Moira de boca cheia.

— Que tal pelo motivo que você largou uma faculdade super conceituada? — Eu disse.

— Parei de acreditar na ciência. — disse ela como se fosse a coisa mais natural.

— O quê!? — Lars finalmente tirou os olhos do celular e olhou para Moira espantado.

— Aí é que quanto mais eu estudava, mais deprimida eu ficava. Mas tipo, eu tava estudando psicologia, então isso não faz sentido, né? Daí eu conheci uma galerinha alternativa que me mostrou umas coisas que as grandes corporações tentam esconder da gente. Daí eu tô focando em vender chás medicinais e aromas tranquilizantes agora.

— Essa é a coisa mais idiota que eu já ouvi. — disse Emmaline atirando uma ervilha em Phillip com o garfo.

— Emmaline! — repreendeu Cassie.

— Que é? Ela disse que não acredita mais na ciência, mas a descoberta do chá só foi possível graças à ciência! Caramba eu tô na puberdade e sou mais inteligente que uma universitária.

— Ex-universitária. — corrigiu Moira.

— Como se isso te tornasse um puta gênio, né? — ironizou Phillip.

— Olha como fala, Phillip. — repreendeu Cassie mais uma vez.

— Deixa seus filhos, Cassie. Eles são boas crianças. Não fariam uma palhaçada dessas nem em um milhão de anos. — comentou Lars.

Cassie deu uma risada seca.

— Como é? Deixar meus filhos para serem iguais a você?

— O que quer dizer com isso?

— Meu Deus, outra briga. — sussurrou Tessa para si mesma.

— O que eu quero dizer é que você se acha tão espertão com a sua faculdade de T.I. e tudo mais, mas é um fracassado que não tem maturidade pra ir morar sozinho porque não sabe lavar nem a merda da privada!

— Mamãe! — exclamou Emmaline.

— Claro, para super perfeita Cassie todo mundo é um fracasso, né? Ela odeia a vida que tem e acha que tem o direito de fazer todo mundo odiar a deles!

— Cala a boca!

— Silêncio! — gritou nosso pai com a voz rouca ao meu lado. — Parem com isso!

Todos se viraram para vê-lo. Ele estava lúcido e logo após começou a tossir loucamente, James se levantou depressa para ajudá-lo a desengasgar. Todos ficaram em absoluto silêncio até que nosso pai recuperou o fôlego. James se afastou um pouco.

— Você acha que isso deixa a mãe de vocês feliz? Brigando como se fossem crianças? Nenhum de vocês tem a liberdade de dizer ao outro como viver a suas vidas. Nós como pais nunca fizemos isso. Só queremos que todos sejam felizes. Seja como for. — disse ele ainda meio abatido pela tosse. — Pra mim já chega por hoje. James, por favor me leve para o quarto.

— Sim, senhor. — James o ajudou a levantar.

— E Raphael, Tessa e Moira? — disse ele se levantando. — Sejam bem-vindos de volta, filhos.

James o ajudou a levá-lo para o quarto, enquanto isso todos ficamos no mais absoluto silêncio. Cassie e Lars se encaravam com ferocidade. Lily, Lenny e Talullah trocavam olhares de apoio mútuo. Não é fácil presenciar cenas como essa sendo de fora. Não é fácil nem pra quem é de dentro.

— Eu não quero colocar mais lenha na fogueira, mas acho que alguém me deve uma explicação sobre hoje cedo. — falei olhando para Sissi e Peter que cochichavam do outro lado da mesa.

— Certo. — começou Cassie. — Eu gostaria de começar dizendo que foi uma decisão de todos nós, incluindo a mamãe.

— Os gêmeos estavam sofrendo muito na escola. — completou Poppy. — Então acharam melhor que todos pensassem que eles eram seus filhos e nossos pais eram os pais honorários. Mas eu disse que ia dar merda.

— Eu ainda não acredito que isso realmente colou. — Eu disse perplexo. — Vocês realmente me transformaram numa estatística de paternidade na adolescência? — Cassie olhou para baixo. — E numa cidade tão pequena como Silent Shores!? Meu Deus e se… E se isso tivesse vazado na mídia? Vocês fazem ideia de como isso poderia acabar com a minha imagem!?

— Você já fazia um bom trabalho sozinho. — chiou Lars.

— Cala a boca!

— Mas se o Raphael era o pai, então quem era a mãe? — ponderou Lenny.

— Uma turista. — disse Moira. — Mamãe pensou em tudo. Uma turista que não quis assumir a responsabilidade.

— Nossa mãe… Tava envolvida em tudo isso?

— Foi ela quem teve a ideia.

Peter se levantou de repente.

— Ninguém tá pedindo pra você ser o pai do ano nem nada. — falou ele com raiva.

— Para, Peter! — repreendeu Sissi. Lágrimas em seus olhos.

— Não Sissi, já deu. Todo mundo aqui sempre se esforçou ao máximo pra cuidar da gente. Você nunca veio nem pro natal! A gente tava pensando que você não viria mais, foi assim que tudo foi feito.

— D-deixa isso quieto. — gaguejou Sissi para Peter.

— Às minhas custas! — gritei.

— Como se você se importasse com isso. — cuspiu Peter. — Se a mamãe não tivesse morrido você nunca iria saber.

— Para com isso. — soluçou Sissi.

— E isso dá passe livre pra vocês sairem inventando coisas sobre mim? Tá, tudo bem. Eu fui embora. Me embebedei. Fiz muita merda. Mas isso que todos vocês fizeram… Eu não tenho nem palavras pra explicar! Que tipo de família faz isso?

— PARA! — Sissi gritou, levantou depressa e saiu correndo da sala aos soluços. Ouvimos o som da porta de frente bater.

— Foi por ela que a gente fez isso. — disse Peter nervoso. — Você não sabe como é crescer com seus pais sendo muito mais velhos que a maioria. Ainda mais uma garota como a Sissi. — Ele respirou fundo e suavizou a voz: — Desculpe pela situação que a gente te colocou, mas se a gente pudesse voltar no tempo faríamos tudo de novo. Por ela. Pela Sissi.

Respirei fundo enquanto todos olhávamos pra mim como se eu fosse um monstro por ter feito a garota chorar. A sala estava mais escura que o normal e o clima estava mais pesado do que no começo da noite. Lenny olhava pra mim muito dividido. Ele sabia que aquela situação era tensa, mas não queria ficar mal aos olhos de Cassie.

Por fim me levantei e todos começaram a prestar mais atenção ao que iria fazer. Fui andando até a porta da frente e peguei as chaves do carro. Lenny correu atrás de mim.

— O que vai fazer? — perguntou segurando meu braço.

— Preciso de ar. — falei. — Não me siga.

Passei pela porta deixando todos para trás. A última coisa que ouvi foi Poppy começando uma discussão com o resto da família e Tessa soltando um uivo de frustração. Eu precisava sair dali. Talvez nem devesse ter voltado. Ou talvez nem devesse ter saído.

O que teriam dito todas as pessoas que eu tinha conhecido? Todas as pessoas que sabiam que eu era encrenca? Acho que fica fácil acreditar numa coisa assim quando a pessoa em questão nunca foi um exemplo de bom juízo. Eu era rebelde. Sem dúvidas. Tinha um certo desprezo pela autoridade? Isso é fato. Mas poderia eu ter um filho, ou melhor, dois filhos na adolescência?

Cassie. Cassie tinha 16 anos quando seus filhos nasceram. Me lembrei do seu olhar quando falei sobre “estatísticas de gravidez na adolescência”. Desculpa Cassie, eu sou um idiota. Mas isso não é justo.

Não era minha culpa se meus IRMÃOS mais novos estavam sofrendo na escola por causa dos nossos pais. Não era minha culpa se eu decidi sair da cidade para seguir meus sonhos. Não era minha culpa se eu estava tão envergonhado de mim mesmo, à ponto de não me reconhecer, que optei por não visitar durante todos esses anos. Ou talvez seja. Pelo menos uma parte.

Merda.

Eu estava confuso. Precisava pensar. Então quando percebi estava indo até o local onde tudo começou, literalmente. O local onde meus pais se conheceram. Meu esconderijo secreto. A Caverna de Sésamo, perto da orla da praia.

Notas finais
Até a próxima!