Recanto das Gaivotas

1 Capítulo Um: O Violão no Fundo do Armário


Notas iniciais
Espero que gostem!
Comentários construtivos são bem-vindos.

Eu me lembro de poucas coisas que aconteceram quando saí do meu apartamento em Mahattan. Eu me lembro dos flashes. Muitos deles. Me seguindo, me cegando. Eu me lembro da gritaria. E também me lembrando da mão dela segurando a minha pela última vez. O problema é ela. Eu não me lembro de nenhuma outra coisa da garota em si.

Talvez eu merecesse mesmo ter sido expulso da banda. Talvez um tempo em Silent Shores me ajude a botar a cabeça em dia. Dúvido. Pelo menos não sem a minha mãe por perto para dizer que tudo vai ficar bem. E como se não bastasse todos os problemas que deixei em Mahattan, há também os problemas que deixei em casa. Como o meu pai e meus oito irmãos mais novos.

Pelo menos Lenny estava comigo. Bom, não é nenhuma surpresa já que ele sempre esteve comigo. Desde o primeiro dia do jardim de infância até aqui. Juntos. Lenny era meu melhor amigo e meu empresário e agora estava sendo meu motorista. Me pergunto o porquê ele ainda continua aqui sendo que ele poderia e deveria procurar coisa melhor, mas fico grato por ele continuar do meu lado. Não sei o que faria se ele não estivesse aqui.

O funeral de minha mãe seria daqui há dois dias. Todos os meus irmãos estariam reunidos na velha pousada da família. O Recanto das Gaivotas. O refúgio que minha mãe sempre sonhou. Nosso lar. Ainda me lembro de brincar com meus irmãos pelos corredores do casarão, pular sobre as malas dos hóspedes, enfrentar o velho fantasma do porão. Mas agora estavamos velhos demais para isso.

— Nunca se é velho demais para uma briga de travesseiros, né? — comentou Lenny com se lesse meus pensamentos. Quebrando o silêncio. Mantendo os olhos na estrada.

— O quê? — perguntei meio distraído.

— É o que eu tava me lembrando. Das famosas brigas de travesseiro da sua família.

— Ah.

As brigas de travesseiros não eram tão famosas assim. E nem tão especiais. Mas Lenny sempre foi filho único e eu, bem, fui um filho único por muito pouco tempo. Até minha irmã Cassie nascer. Eu tinha 1 ano e meio na época. Me lembro de odiar a sensação de dividir o berço com alguém, mas logo iria me acostumar, porque aquele berço nunca mais ficaria vazio.

No total somos nove irmãos. Sim, eu sei o que vocês vão perguntar. Os seus pais não tinham televisão? É o que todo mundo pergunta. Mas sinceramente prefiro não me perguntar o motivo que levou os meus pais a terem nove filhos, se é que vocês me entendem.

Eu sou o primogênito, o mais velho, o exemplo. Ou deveria ser o exemplo. Mas quem faz esse papel é a minha irmã Cassie, a segunda filha. Sério. Ela é uma força da natureza. Ela administra a pousada desde que minha mãe ficou doente. Cassie também é a única de nós a ter filhos. Um casal de gêmeos. Dois pestinhas.

Em seguida vem o meu irmão Lars. Lars é o cara do computador, dos videogames e também o mais espertalhão. Eu posso até arrumar encrenca, mas o Lars é o rei delas. Se você ficar uma semana sem cair nas pegadinhas dele, você é uma pessoa de muita sorte.

E então temos a minha irmã Poppy. Poppy me ama e me odeia. Pra ser justo ela é assim com todo mundo. Não tem relação estável com a Poppy, você tem que pisar em ovos para deixá-la feliz. Soube que ela abriu um barzinho no centro da cidade com a namorada e que as duas estão dividindo um apartamento em cima dele. Então acho que poderia evitar algumas situações com ela, por enquanto.

Não sou muito próximo de James, Tessa, Moira e os gêmeos caçulas. Tudo o que posso dizer é que James, o quinto irmão, acabou de se formar na faculdade e pretende ir morar junto com a namorada que tem desde o ensino médio. Tessa, a sexta, acaba de voltar de uma viagem pelo mundo. Ela é fotógrafa e trabalha para uma revista de viagens. Moira, a sétima. está na faculdade então não a verei muito. Ainda bem. Da última vez que a vi ela tentou ler meu futuro nas borras de chá e confesso que fiquei um ano sem ver qualquer filme de zumbi por causa disso.

Agora os gêmeos. Peter e Sissi. Eles estão no último ano do Ensino Médio, o que significa problemas de adolescente que eu não vou saber resolver. Tudo o que eu mais precisava. Tomara que Cassie tenha algumas dicas pra me dar.

Voltando a viagem. Estávamos quase chegando a Silent Shores, quando um carro desgovernado bateu em nossa traseira e nos empurrou até o acostamento. Comecei a tremer de raiva, mas Lenny me disse pra ficar calmo e respirar fundo. “Não queremos um incidente agora”. Lenny saiu do carro para falar com o motorista do carro de trás e contrariando sua sugestão acabei saindo também.

Era um casal de uns vinte e poucos anos. Deviam estar voltando de outra cidade para fazer exames, pois a mulher estava com um barrigão de gravidez. Lenny e o homem conversavam calmamente sobre a situação. Tudo se resolveria. Eu precisava manter a calma.

Me encostei no nosso carro e analisei o jovem casal. A mulher tinha uma pele pálida, o cabelo pintado desbotado e usava um vestido longo estampado com linhas coloridas. O homem tinha um cabelo escuro encaracolado no topo e raspado de lado. Usava uma camisa havaiana de praia, óculos escuros, bermuda jeans e chinelão. Típico local.

Mas então uma coisa estranha aconteceu. A mulher olhou em minha direção e teve um espanto. Ela então se virou para o companheiro e disse alguma coisa que não consegui ouvir por causa do zunido do vento. Todos começarão a olhar pra mim.

— Maninho? — disse o homem com surpresa.

— James? — Desencostei do carro tão chocado quanto ele.

Ele veio andando em minha direção e me deu um abraço desajeitado. Retribuí o abraço.

— Minha nossa, há quanto tempo! Parece que faz um tempão.

— Quando eu fui embora de casa você tinha o quê? Uns 12?

— É, deve ser. Por aí.

A mulher e Lenny se aproximaram em silêncio, enquanto James ainda me abraçava. Todos estavam sorrindo. Menos eu.

— Nossa, imagina quando o pessoal te ver lá em casa. Eles vão pirar! Ah, mano, acho que você não conhece minha namorada. — James parou de me abraçar e pegou carinhosamente a mão da mulher. — Essa é a Lily. Minha razão de viver.

— Prazer. — disse ela estendendo a mão.

— O prazer é meu. — retribuí o gesto.

— Caraca! Ninguém vai acreditar que você veio mesmo. Você voltou! Você tá aqui! O Lenny também! Isso é um sonho?

— Vamos por partes, maninho. Temos muito o que colocar em dia. Inclusive, o seu bebê.

— Ah é. — disse ele rindo. Lily sorriu também. — Ainda não consigo acreditar. — O seu tom mudou. — Mas vamos ter muito tempo pra falar quando a gente tiver no Recanto das Gaivotas. Bom, desculpe pelo carro, tá? Mas como a gente é família e tal, você não vai cobrar indenização, vai?

Como é que é? Eu não o vejo há uns doze anos. Ele dirige como se tivesse sete anos. E agora não quer arcar com as consequências? O que meus pais andaram ensinando pra esse menino depois que eu fui embora?

— Na verdade, o carro é do Lenny. — respondi. E era verdade.

— Mas tá tudo bem. Vocês devem ter tido um bom motivo. — disse Lenny olhando para a barriga de Lily. Gravidez o deixa nervoso.

— Se vocês quiserem podemos dar uma carona. Se o carro não estiver funcionando. — sugeriu Lily com sua voz doce.

Não. Não vou entrar no mesmo carro que meu irmão estiver dirigindo. Não depois do que acabou de acontecer.

— É uma boa idéia. — Como é que é, Lenny? — E vocês sabem de algum mecânico que poderia vir pegar o nosso carro?

— A gente liga pra ele no caminho. — falou James.

— Prefiro suas duas mãos no volante, irmãozinho.

Ele riu do meu comentário.

— Pode deixar.

Com muita relutância entrei no Ford Maverick 1970. O cheiro de querosene invadindo a parte de trás do carro. Lenny e eu sentamos cada um em uma janela e seguimos viagem com os vidros abertos. O carro balançava tanto que parecia que ia despencar a qualquer momento. Lily e James colocaram uma estação de rádio para tocar que só tocava músicas antigas, enquanto Lily cantarolava algumas delas.

— James disse que você é músico, Raphael. — disse Lily entre uma música e outra.

— Eu era. — Corrigi. — Me expulsaram da banda. Achei que a cidade toda já tava sabendo.

— Mas você ainda sabe tocar?

— Sim.

— Sabe cantar?

— Sim.

— Sabe compor?

— Sim.

— Então você ainda é músico. — Lily disse como se aquilo fosse a maior verdade do mundo. Deu uma risada e voltou a cantarolar mais alguns pedaços de uma música. E ainda completou: — Eu não sou músico. Não sei cantar, tocar ou compor. E é claro, não sou homem, né? Mas eu não sou nem musicista. Isso não me impede de me aventurar nas músicas que eu gosto.

— Você faz o quê? — perguntei a ela em voz alta contra o vento da pista.

— Sou confeiteira.

— Ah é? Posso provar seus bolos um dia?

— Só se um dia você me deixar escutar sua música.

— Isso é fácil. Elas estão no youtube.

— A sua VERDADEIRA música. — Enfatizou ela.

Me calei depois disso. O que ela quis dizer com "verdadeira''? Todas as músicas da minha antiga banda são minhas músicas verdadeiras. Eu que compus todas elas. Lenny me olhou como se quisesse saber se está tudo bem. Está tudo ótimo. Apenas meus últimos doze anos de vida que de repente perderam todo o sentido pra mim.

Então me dei conta que todo esse tempo não conseguia me reconhecer no reflexo do espelho. Mas agora, dentro do carro acabado do meu irmão, escutando as músicas que costumava ouvir quando era criança, comecei a me lembrar do porque eu comecei a tocar. Fui me transportando lentamente para lembrança do dia em que ganhei meu primeiro violão.

Era natal. Eu tinha 14 anos e os gêmeos eram recém-nascidos. Lars corria atrás de Tessa e James com fitas de presentes na mão tentando colocá-las no cabelo deles. Ele tinha dito à Tessa que a colocaria dentro de uma caixa e a mandaria de volta para cegonha, assim ela nunca mais veria a mamãe e o papai. Ela estava aos prantos e o nosso pai estava furioso. Mas minha mãe me afastou de toda confusão me levando até o seu quarto. Foi quando ela tirou o violão de dentro do guarda-roupa.

— Pro nosso futuro Astro do Rock. — Ela disse passando a mão no meu cabelo. — Seja valente, Rapha.

James deixou Lily na casa dos pais dela antes de seguir para a pousada. Os dois ficaram uns dez minutos se beijando apaixonadamente e prometendo estarem novamente juntos antes que uma senhora, que julguei ser a mãe da garota, aparecesse na varanda com um balde de água fria pronta para tacar nos dois se necessário.

Lily se afastou do carro e James acelerou depressa, porém um pouco da água fria acabou me acertando. Devo corrigir. Não era uma água fria. Era uma água EXTREMAMENTE gelada. Como se aquela senhora tivesse ido até o Alasca encher um balde de água só para essa ocasião. Mas nada me preparou para o que eu ia encontrar quando chegasse em casa.

Notas finais
Até a próxima!