Rebirth
2 O Feitiço
Notas iniciais
— Caçador? – chamou uma voz doce, como um sussurro.
Ainda de olhos fechados, eu sentia um toque leve, gelado e molhado na parte dianteira do meu pescoço. Por impulso, elevei minha mão esquerda, logo agarrei o pulso de alguém. Ao abrir meus olhos, me deparei com uma jovem moça, devia ter seus dezoito anos de idade. Ela tinha cabelos castanhos e ondulados, suas bochechas eram coradas, e seus olhos azuis quase esverdeados, estavam assustados.
— Quem é você? – perguntei encarando-a com a testa franzida.
A jovem encontrava-se ajoelhada no chão ao meu lado. Percebo que ela limpava o meu ferimento com um pano esfarrapado. Constrangido, larguei o pulso da mesma. Minha expressão franzida normalizou-se, apenas fitei-a profundamente nos olhos, ela tinha olhos muito bonitos. Ao terminar, ela se levantou e andou até um balde que encontrava-se aos meus pés e torcei o pano ensanguentado, liberando um líquido avermelhado.
Eu estava deitado em uma cama de lençóis claros, minha cabeça estava encostada em um travesseiro. Minha roupa estava colada ao corpo, ensopada de suor. O ferimento ainda doía, com um gemido de dor, elevei minha mão para poder tocá-lo com o dedos, mas a moça impediu-me tocando sua mão na minha. Seu toque era suave, minhas íris azuladas elevaram-se até a mesma, fitei-a por alguns instantes.
— Quem é você? – perguntei novamente.
Ela permaneceu em silêncio por alguns instantes. Virou as costas para mim e se afastou da cama.
Cuidadosamente, me sentei e ergui as pernas girando-as para fora, me posicionei então, sentado na beirada da cama. Minha cabeça zumbia, meus olhos passearam pelo interior do recinto, as janelas estavam pregadas com tábuas de madeira. Em seguida, veio a imagem da cabana da noite anterior, mas, eu não estava convicto do meu palpite.
— Sou Diane... – falou a moça junto a lareira, ela mexia em uma panela de ferro com uma colher de pau.
— Gostaria de um pouco de sopa? – perguntou ela gentilmente.
— Não, obrigado. – respondi levantando-me da cama.
Diane abriu a panela da sopa, um cheiro delicioso subiu pela cabana. Minha barriga roncou de leve, em seguida, a mesma soltou uma risada baixa e doce, ao ouvir o ronco. Ela apanhou uma concha de ferro, e mergulhou-a dentro da panela que borbulhava. Despejou em seguida, o caldo com alguns pedaços de carne. Com ambas mãos segurando o prato, a mesma andou em direção à mesa, e acomodou-se.
— O que você fazia perto da minha propriedade? – quis saber ela antes de elevar a colher até os lábios entreabrindo-os, e mastigou pensativamente.
— Espere um instante... – comecei me erguendo da cama. – Aquele campo, com aquelas ervas arroxeadas lhe pertence? Pareciam indefesas, mas teve uma terrível reação para a vampira que me perseguia.
— Intrigante... – respondeu ela com sarcasmo.
Revirei os olhos irritado ao perceber o seu sarcasmo. Ela largou a colher no prato já vazio, arrastou a cadeira para trás empurrando-a, deslizou para fora da cadeira ficando de pé, e depositou o prato junto do talher em cima de um tipo de balcão. Em seguida, posicionou-se de frente para mim, ela era um pouco mais baixa do que eu. Sua respiração batia em meu queixo, estávamos muito próximos.
— Você é um caçador, certo? – perguntou ela ao me olhar com suas íris azul esverdeadas.
— S-sim... – eu respondi com um pouco de nervosismo.
— Poderia me dizer, por que “a vampira” te perseguia?
— Eu estava tentando matá-la, pois ela assassinou toda a minha família... – minha voz soara triste.
Diane começou a andar pelo recinto com os braços cruzados, ela parecia pensar em algo.
— Como você se chama, caçador? – indagou-me ela.
— Abraham. – respondi seguindo-a com os olhos.
— Não pode ser... – falou ela, e parou de andar. – Você... A Visão.
— Desculpe? – indaguei confuso.
A jovem andou até uma pilha de papéis, que se encontrava em cima de uma mesinha baixa, e começou a remexer nas folhas. Finalmente encontrou o que desejava, em uma de suas mão estava uma folha com alguns rabiscos feitos com carvão. Ela olhava para os rabiscos, ainda em choque andou em minha direção com o papel erguido, como se fosse para me entregar.
Elevei minha mão destra, envolvi o papel na mesma, logo consegui ver o que tinha no papel, vários rabiscos feitos a mão. Era um pouco difícil de se decifrar, mas logo consegui. Eu via um homem no papel, com uma besta na mão, uma aljava presa ao tronco. E o mais curioso, é que ele se parecia comigo, os mesmo cabelos pretos, os olhos assustados, exatamente como eu me sentia em relação a noite passada.
— C-como isto é possível? – minha voz falhou.
Um ar de mistério, subiu pela cabana. Diane, começou a limpar a louça que sujara, e começou a cantarolar, mas de boca fechada.
— Diga-me, o que você é mi lady? – perguntei educadamente.
A moça parou de cantarolar, o silêncio tomou conta da cabana. A mesma depositou a louça no balcão de madeira, e virou-se para mim. Seus olhos eram intensos. Ela parecia estar nervosa, suas mãos tremiam. Em seguida, os livros da estante começaram a cair involuntariamente e iam diretamente para o chão de madeira. Com um olhar rápido de Diane, fui arremessado contra a parede, tentei me mexer, mas não conseguia, eu estava preso.
— Mas que diabos! – exclamei assustado.
— Digamos, mi lorde... Que eu tenho um dom, muito especial... – disse ela enquanto me encarava.
Eu a encarava assustado, a mesma elevou sua mão ao ar, libertando-me.
— V-você... É uma bruxa? – indaguei com uma tom de assombro.
— Certamente, mi lorde. Mas... Não sou uma bruxa qualquer... Sou uma Bruxa Original.
Silêncio absoluto. Parecia algo normal para ela dizer aquilo.
— Quando for a hora, saberá sobre a minha origem... – disse ela, enquanto colocava os livros de volta na estante.
A bruxa posicionou-se na frente da lareira, ergueu suas mãos levemente, e começou a recitar um encantamento em uma linguagem antiga. Logo, as chamas da lareira se intensificavam mudando de tamanho, até que se reduziram e apagaram-se.
— Eu sei o que se passa por essa sua mente brilhante, Abraham... Está cansado de ser vulnerável.
Ela andou em direção ao balcão de madeira, e em cima do móvel, encontravam-se algumas velas. Eu realmente me sentia vulnerável, Diane tinha toda razão. Ao apanhar as velas, a moça foi até a estante e retirou um livro grosso, com capa de couro, só que todo detonado. Ajoelhando-se no chão, ela posicionou as velas em um círculo, e começou a desenhar alguns símbolos ao redor delas.
— Eu posso te ajudar, a não ser que não queira... – disse ela totalmente concentrada.
— O que você vai fazer? – perguntei curioso.
— Você aceita ou não? Pode confiar em mim. – respondeu ela fitando-me com suas íris claras.
Confirmei com a cabeça. Diane me orientou para me deitar no centro do círculo, sem hesitar, acomodei-me no local ordenado, minha cabeça depositou-se no chão de madeira frio. A bruxa começou a colocar um punhado de sol ao redor formando um círculo junto das velas.
— Este feitiço, é muito poderoso, e eu preciso de uma fonte... – explicava ela. – Por isso das velas e o sal.
— Phasmatos Incendia! – pronunciou ela, logo as velas se acenderam.
Deitado no chão, fechei meus olhos, tentando relaxar. A moça começou a recitar o feitiço, eu não entendia nada do que ela dizia. Uma ventania se iniciou, o que era estranho pois estava acontecendo dentro da cabana. Eu sentia meus cabelos se mexendo, conforme o vento os atingiam. Diane recitava o encantamento várias vezes, curioso, entreabri meus olhos.
Os olhos da bruxa estavam completamente brancos, os cabelos dela esvoaçavam violentamente. Até que ao terminar de recitar o encantamento, a mesma fechou os olhos, e ao abri-los novamente, eles estavam completamente normais.
— O feitiço está completo, Abraham... – disse Diane, logo as velas do círculo se apagaram.
Eu esperava que algo de diferente aconteceria comigo, mas eu me sentia normal, frustrado, me levantei do chão, impulsionando minhas mãos contra o piso de madeira. Ao me posicionar de pé, fitei-a com um olhar triste, eu havia sido enganado...
— Não acredito, você me fez de tolo! – exclamei irritado.
— Acalme-se caçador... Para o feitiço ser completado, você deverá morrer.
— C-como é? – indaguei assustado.
— Até mais tarde, Abraham... – disse a mesma com calma em sua voz.
— N-não, esp...
Antes de eu completar a frase, a mesma elevou sua mão destra ao ar, seus dedos encurvaram-se, e com um movimento rápido, meu pescoço era quebrado violentamente. Desabei no chão com um forte estrondo.
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