Notas iniciais
Como vocês devem ter notado eu não postei o capítulo semana passada. Motivo: não concluí o capítulo. Consegui avisar as leitoras que participam do grupo Faberry no FB. Caso algo assim aconteça de novo resolvi fazer uso da minha conta fantasma no Ask.fm (que é essa http://goo.gl/HsLej7). Boa leitura...

— 179 DIAS — 12/9/11, segunda-feira

Era segunda-feira de novo.

A primeira semana de aula seguiu o mesmo ritual: Aulas, em maioria, tediosas, professores quase sempre relapsos, Slushies — passei a levar mudas extras de roupa e itens de higiene no carro para não ter de ficar suja o dia todo —, evitar Rachel — terças e quintas, dias de Glee Club, eram mais complicadas— , conversas casuais com Finn quando ela estava fora de vista.

Nenhum sinal de Puckerman.

Levy parecia diferente desde que foi comigo à escola pela primeira vez. Sua linguagem corporal era muito semelhante à que ele usou em meus sonhos, para me assustar. Me perguntava se os anjos poderiam ser tão sádicos à ponto dele estar tentando me pregar outra peça.

Lucy, não esperar-te-ei hoje. – Ele disse assim que parei o carro no estacionamento da escola. Lima finalmente parecia o alegre lugar que sempre fora, o sol brilhava e a brisa trazia ar fresco. Levy, ao contrário, parecia ter sugado a melancolia da cidade para si.

— Por que?

Acredito ter assuntos importantes à tratar. Entre, não deve ser atrasar. Não hoje.

— O que tem de especial hoje? — Se ele estava se esforçando para me assustar, já saberia que obtinha sucesso.

Você verá. Agora vá.– Ele abriu a porta do carro e caminho em direção ao campo de futebol. Decidi seguir sua sugestão e corri escola à dentro.

Qual não foi a minha surpresa ao chegar próximo ao meu armário e notar a figura de Noah Puckerman inclinada sobre a porta do mesmo.

À distancia, tomei meu tempo para analisar o cara sacudiu meu mundo no ano anterior. Literalmente.

O cabelo, ou o que restava dele naquele moicano estúpido, estava definitivamente grande. Uma mexa caía na testa, quase tocando os olhos. A camisa amarrotada e a jeans rasgada que ele dizia ‘complementar o ar de bad boy’ continuavam ali. Puck continuava o mesmo, mas de alguma forma a expressão grave em seu rosto o tornava mais parecido com um homem do que à um garoto rebelde.

Puckerman olhou para cima alguns instantes depois. Seus olhos cravaram em mim como se soubesse da minha presença o tempo todo.

— Soube que andou me procurando. — Ele disse depois que eu finalmente me aproximei. Indiquei meu armário fazendo-o recuar para me dar espaço.

— É, eu… Precisamos conversar. — Eu não tinha coragem de encará-lo. Não tinha coragem de ver a reprovação e o desapontamento em seu rosto.

Noah era importante para mim. Em algum momento, no meio da confusão que eu me meti, eu realmente senti algo por ele. Não amor, mas paixão talvez.

Eu queria, precisava, que ele me acolhesse e dissesse que estava tudo bem. Que ainda poderíamos ser amigos e, quem sabe um dia, algo mais.

Minha consciência duvidava que ele fosse fazer isso. Em seu lugar eu não faria, mas Puck era muito melhor que eu e eu apostaria nisso.

— Quinn… Olhe para mim. — Quando finalmente obedeci, seus olhos não eram o que eu esperava. Eram doces e compreensivos. — Eu sei que o ano passado foi uma merda e tudo mais. Eu fiquei muito puto contigo, por muitas razões. Você me renegou como pai da nossa filha, a entregou para adoção sem me consultar, mas… Eu sei que você estava com medo porque eu também estava. Eu nunca contei a ninguém, mas eu sempre quis ser pai um dia. Só não imaginava que não poderia criar meu primeiro bebê. — Puck nunca me pareceu tão vulnerável, por um segundo achei que ele fosse deixar escorrer as lágrimas que eu via brilhar.

— Eu sinto muito, Noah. Não era para ter sido desse jeito.

— É… Não era.

— Eu gostava, gosto, muito de você. Eu não sei se poderíamos chegar a tentar de novo, do jeito certo desta vez, mas eu quero muito continuar sendo sua amiga. Me perdoe, eu nunca quis te machucar. — A essa altura tentar segurar o choro era inútil. Noah me deu o bem mais precioso da minha vida, ainda que eu tivesse que entregá-la. Uma parte dele sempre estaria comigo e eu precisava saber que ele podia me perdoar. Precisava que ele fosse capaz de me olhar, mais uma vez, como se eu fosse a pessoa mais bonita que ele já tinha visto.

— Olha, Quinn, eu sei que você não queria nada disso, eu também não queria. Mas… Aconteceram tantas coisas e- — Ele respirou fundo, parecia incrivelmente cansado. — Você foi a primeira garota que eu gostei de verdade e, por mais que dizer isso me faça parecer um maricas, você me magoou muito quando mentiu para mim, quando me negou o direito de ser o pai da nossa filha, quando deixou que um estranho levasse ela para longe sem nem que eu pudesse me despedir. Eu espero, de verdade, que a gente possa ser amigo um dia, mas não dá. Ainda não.

Puckerman virou as costas e saiu quase correndo pelo corredor.

Meu peito doía por ele. Ele não merecia o que eu o fiz passar.

xXx LEVY xXx

Esperei que a menina Lucy entrasse na escola antes de mudar o meu caminho. Contornando o prédio, encontrei uma escada de emergência e usei para chegar ao terraço.

Nenhum humano poderia vê-lo, mas lá estava. Próximo a um dos dutos de ar, uma massa de forma humanoide brilhava intensamente. Um humano jamais seria capaz de enxergar a forma, apenas o brilho cegante. Seria como tentar olhar diretamente o Sol em seu momento mais brilhante.

Anjos são apenas luz e energia, incapazes de sentir o tato e, quanto mais velho se é, menos sentimentos se sente. Essa é a principal razão pela qual muitos anjos são dominados pela inveja e pela ira. Inveja dos humanos por serem capaz de tocar e sentir de uma maneira que os seres celestes, os mais puros já existentes, podem apenas imaginar. Ira por acreditarem serem merecedores desta dádiva que lhes foi negada pelo Criador.

— Levy. — Gabriel chamou-me na língua dos anjos.

— Meu senhor. — Me aproximei lentamente antes de me curvar em respeito.

— Levante-se, filho. Conte-me sobre a alma. — A energia luminosa em suas costas se moveu. Suas asas. Gabriel estava deveras agitado. Nada bom.

— Lucy parece estar cumprindo tudo o que é necessário. Não compreende com clareza sua missão ou seu destino, porém demonstra arrependimento e pureza.

— Apareceste um pouco tarde, verdade? — Obviamente, só de estar próximo à Lucy, ele notara o quão próximo da perdição ela estava.

— De fato… A ordem de permissão demorou demasiado e creio que o submundo já tem ciência de sua presença.

— O que significa que, em breve, ao notar seu distanciamento da condenação, sua criança será atacada por seres das trevas de todas as formas imagináveis. — Gabriel andava em círculos ao meu redor. Ele sentia que o atual estado de Lucy era minha culpa. Se ela padecer, eu também o farei.

— Sim, senhor. Estou procurando pela cidade sinais da presença deles. Não os encontrei ainda.

— O que não quer dizer nada. — As próximas palavras foram nada mais que ameaças sussurradas em meu ouvido. — Você cuidará para que esta alma não se perca, Levy. Caso contrário, não serás um anjo caído cujas serão arrancadas. Cuidarei para que seu castigo seja um exemplo. Um único Espírito Guerreiro foi condenado e sabemos quem ele é hoje. Não queremos que sua força dobre, verdade?

Era uma pergunta retórica é claro.

Ele se afastou até a borda do terraço.

— A propósito… Soube que tens agido feito um tolo ao redor da criança. — A desaprovação pingava em sua voz.

— Venho tentando distraí-la para não se concentrar na própria melancolia.

— Faça apenas o seu trabalho. Bancar o bobo da corte não a salvará. E não se esqueça: Espíritos Guerreiros têm mortes prematuras e violentas.

Gabriel sumiu no infinito céu logo em seguida, deixando para trás o lembrete de que salvar a alma de Lucy era apenas uma parte de minha missão.