Reaprendendo a Amar
12 Até mais, Idiota.
Notas iniciais
Cheguei ao edifício Hokage e parei por um momento para observá-lo. Não está diferente do que eu me lembro.
Entrei e logo fui atendido por uma moça de cabelos escuros.
—Uchiha-sama! É bom vê-lo recuperado! Quer falar com o Hokage?
—Sim.
—Ele está em reunião com o Raikage, mas pode subir e esperá-lo na sala dele, não vai demorar.
Sem mais palavras, apenas sigo meu caminho até o escritório oficial, esperando que não tenham mudado de lugar. Assim que chego, abro a porta e constato um pouco aliviado que não vou precisar ficar procurando.
Entro e observo o lugar.
Está tudo surpreendentemente organizado. Eu esperava papéis jogados e potes vazios de Lámen empilhados, mas, pelo contrário, a sala está impecavelmente limpa.
Vou até a janela para observar a vista e reconheço o hospital ao longe, vendo o resultado da minha crise: parece que um pedaço dele foi arrancado, no canto superior esquerdo há uma falha, cinco andares demolidos.
A porta se abre e vejo Naruto entrando.
—E aí, Teme? — Me cumprimenta com aquele sorriso idiota.
—O que vocês dizem sobre aquilo? — Pergunto sem rodeios, indicando o estrago que causei.
—Infiltração. — Ele responde dando de ombros.
—Ninguém questiona a coincidência de eu ter acordado e esse estrago repentino no hospital.
—Ninguém sabe da sua condição, então não.
—Ninguém mesmo desconfia de mim?
—Não. Decepcionado? — Ele sorri debochado.
—Só um pouco perdido. — Respondo voltando a encarar a vista.
—Você amadureceu, Sasuke. Todos nós, na verdade, mas mais você. Você se tornou alguém admirável, respeitado por todos por ser um grande ninja e um bom homem.
Minha cabeça está confusa, quero acreditar nessas palavras, mas não consigo. É tudo bom demais pra ser verdade.
—O problema… — Surpreendo-me com a leve mudança no tom de Naruto, que vai até sua cadeira e se senta — … é que você passou por muita coisa pra se tornar esse homem. Foram anos. Com o tempo, você foi se lapidando. Aconteceram tantas coisas que o fizeram mudar… e você não se lembra de nada… é como se… — Naruto se interrompeu e ficou me encarando.
—... É como se nada tivesse acontecido. — Completo sua frase e o encaro de volta.
Imagino que seja doloroso para ele essa situação também. Ele, que sempre me viu como um irmão, depois de tudo o que eu fiz, consegue me trazer pra Konoha, e então eu acordo um dia sem lembrar do porquê de eu ter voltado, sem lembrar do que me fez querer voltar.
—O que você pretende? — Ele reinicia.
—Não tenho idéia.
—Antes de você voltar, você passou um tempo viajando. Te contaram?
—Sim. Mas não posso mais me dar esse luxo. Da última vez eu não era casado, muito menos tinha filhos. Não posso abandonar minha família.
—Claro. Tem razão. E como eles, vocês, estão? Como está lidando com tudo?
Eu apenas sorrio e caminho até a outra cadeira, do outro lado da mesa.
—Imagine você, quando tinha dezesseis, acordar um dia e ter alguém pra te dar bom dia, saber que sempre que você sair vai ter três pessoas te esperando voltar.
—Seria o melhor dia da minha vida. — Ele responde com um sorriso enorme e com os olhos brilhando. — Meus pirralhos são as melhores coisas que eu tenho e acordar ao lado da Hinatinha todo dia…
—Não preciso dos detalhes. — Interrompo antes que esse idiota se empolgue, e ele dá aquela gargalhada escandalosa.
—Verdade! Você é um virgem agora!
—Tsc. Cala a bola.
—E aí, Sasuke? Como tá a vida de casado? Não tá deixando a Sakura na mão, né? Você sabe… acabando com a alegria rápido demais…
—Vai se foder. — E ele volta a rir e eu o olho entediado. Se eu tivesse Chakra, quebraria todos os dentes dessa boca gigante.
—Parei… parei… — Ele começa a se recompor, limpando as lágrimas que escorreram. — Mas sério agora, como vocês dois estão?
—Bem… — Volto a sorrir e ele repara minha mudança de humor. — Acredita que eu já a amo?
Ele me encara com ar de orgulho e encosta pra trás, relaxado.
—Não. — Surpreende-me. — Acredito que ainda a ama. O que vocês dois têm não tem como simplesmente esquecer.
O olho pensativo, talvez ele possa me ajudar. Naruto com certeza sabe tudo sobre mim, se eu contasse o que está acontecendo…
—Eu lembro que desde quando você voltou, vocês dois não ficavam longe um do outro… — Ele volta a falar, mas não presto muito atenção, ele poderia me explicar melhor o que aquele cara quis dizer… — Você queria saber onde ela estava, com quem estava, e ela era igual… em missão, se ela sofresse um arranhão você já virava um assassino, era literalmente uma luta pra te acalmar… quando eu soube da gravidez, só achei estranho ter demorado tanto… — Ele começa a rir de novo.
—O que? Como assim?
—Vocês já namoraram por quase um ano quando você me disse que ela estava grávida e que iam se casar… acho que você só contou pra mim, ninguém mais deve saber, vocês se casaram logo depois… a Sakura-chan nem sabe que eu sei…
—Então eu já sabia que ela estava grávida…?
—Aham. Você que me falou ainda… ela não contou?
—Ela… contou sim.
Sakura mentiu pra mim.
Por que ela faria isso?
O que mais ela mentiu?
—Depois que a Sarada nasceu, eu saí da vila de novo… — Comecei, e senti que Naruto ficou um pouco tenso com o assunto. — Sabe o motivo?
—Foi uma missão. Eu te mandei pra uma missão. — Ele respondeu um pouco rápido demais, quase atropelando as palavras. Esse Dobe não aprendeu a mentir.
—Me conte mais. — Pedi, fingindo uma voz desinteressada.
—Bem… tinha… Tinha uma suspeita de que Kaguya pudesse ressurgir… havia sinais…
—A mãe do Sábio dos Seis Caminhos? Achei que tivéssemos derrotado-a.
—Pois é… então... depois de alguns meses você descobriu que era alarme falso.
—Hn. — Parecia até que ele ensaiou essa fala, pelo modo que falou. Parecia decorado. — E eu voltei assim que descobri que não era nada?
—Sim. E trouxe o taka pra Konoha também. — Dessa vez ele parecia mais relaxado, sincero.
Então eu sai, fiquei longe e voltei junto com Suigetsu, Juulgo e... Karin.
Já estou irritado com tudo.
Estão mesmo mentindo pra mim.
—Quero ver minha sala. — Tentei camuflar minha impaciência.
—Ãh?
—Eu era o Capitão da ANBU, devo ter meu próprio escritório.
—Ah tá. Fica no prédio da ANBU, há alguns quarteirões. Quer que eu te leve?
—Não precisa, pode voltar ao trabalho. — Me levanto.
—Tem certeza?
—Tenho. Só me fala a direção.
—Você quem sabe então. É por ali, pode ir reto e você vai achar um prédio escuro com o leque do seu clã em cima.
—Hn. Até mais. — Naruto se levanta também e sorri.
—Até mais, Idiota.
Uma forte sensação de Déjà Vú me toma, é uma sensação boa, como se algo muito bom estivesse pra acontecer.
—O que foi? — Naruto me pergunta estranhando meu silêncio.
—Eu… eu acho que eu lembrei de algo…
—Sério, Teme! Não acredito! O foi!? O que foi!?
—Fala baixo! Eu acho que lembrei de quando eu te contei que ia ser pai.
—AAAAAHH! NÃO ACREDITO! Eu te fiz lembrar!! Eu te FIZ LEMBRAAAAR! — Esse perdedor começou a chorar na minha frente, mas eu estava absorto demais pra ligar.
Eu… eu… me lembro da sensação… do calor dentro de mim… de quando eu descobri e fui falar para o meu melhor amigo que eu ia ser pai, e quando estava saindo, Naruto disse as mesmas palavras: “até mais, idiota.”.
—Seu desgraçado, me dá um abraço! — Naruto deu a volta na mesa e me agarrou, infelizmente foi rápido demais pra eu perceber e me afastar. Ele deita a o rosto já inchado e vermelho por causa do choro no meu ombro.
—Já chega, Dobe! Me solta!
—Você é um insensível!
—Tá tá! Eu tô saindo! — Virei-me e saí rapidamente.
—Até mais, idiota! — Sorri ao ouvir Naruto gritar da sala dele.
Tsc. Ele que é idiota.
Caminho aliviado até a saída. Estou sozinho num corredor quando sinto muito dor de cabeça de repente, a dor é tanta que perco o equilíbrio e caio de joelhos.
Estou no corredor do primeiro andar da minha casa com um copo de água gelada, sinto que passei a noite em claro — um bom ninja não fica cansado só por passar a noite, mas, de alguma forma, sente a falta de sono — entro no meu quarto e vejo Sakura sentada na cama amamentando nosso filho recém nascido e Sarada ao seu lado observando curiosa a cena.
—Okaa-san! Ele tem muita fome! É normal?
—É sim, meu amor. — Sua voz sai um pouco rouca, por ter acordado agora.
—Mas ele é tão pequenininho…!
—É que bebezinho tem muita fome mesmo. Você tinha também. — Explica calma e pacientemente.
Chego ao seu lado e minha esposa sorri pra mim, ela ganhou um pouco de peso durante a gravidez e seu cabelo está desalinhado.
Nunca esteve tão linda quanto está agora.
—Obrigada, querido. — Pega o copo que eu trouxe e bebe. — Pode ir dormir, agora.
E tudo fica escuro de novo.
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