Reaprendendo a Amar
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Segurando a respiração empurrei a porta, o que vi ali me impressionou mais do que admitiria para Kristen. A porta se abria para uma magnífica sala de jantar, que era emoldurada por uma parede feita quase completamente de vidro, deixando a mostra o céu e os altos prédios que pareciam querer tocá-lo, além de uma linda sacada. Bem ao lado da mesa de jantar havia um pequeno espaço com alguns sofás e uma escada que levava a uma sala suspensa.
– Obrigada. – Ela estendia uma nota ao rapaz que havia deixado as malas ao lado da porta antes de se retirar sorrindo, acredito que encantado com a beleza (e a gorjeta) de minha amiga.
Recompus-me antes que ela se virasse para mim, voltando a observar o apartamento (se é que aquele lugar poderia ser chamado de apartamento), comecei a andar, parando próxima às portas de vidro, olhando para fora por um instante antes de virar para Kristen que parecia extremamente apreensiva.
– Bem, eu tentei deixar bonito e confortável, mas pode mudar o que quiser. – Ela falou olhando para os pés por um curto instante.
Apenas assenti e voltei a andar, subi as escadas para olhar a bela sala de estar, sempre acompanhada por minha amiga. Após uma breve inspeção voltei a descer os degraus, indo agora para uma passagem que ficava próxima aos sofás sob a sala de estar suspensa, encontrando uma bela cozinha, com uma linda vista da cidade.
A cozinha já tinha todos os eletrodomésticos e utensílios necessários, também estava abastecida – o que notei assim que abri as geladeiras e quando visitei a dispensa que ficava atrás da ilha – teria que agradecer muito minha amiga por tudo isso, eu poderia conhecer melhor Londres antes de ter que me aventurar em um supermercado.
Sem dizer nada sai da cozinha e voltei a andar, agora em direção a um amplo corredor do lado oposto da sala. Eu evitei olhar para minha apreensiva amiga ou eu estragaria a brincadeira, mas a verdade é que eu estava simplesmente adorando aquele lugar, quando pensei em um apartamento pensei que não teria muito espaço, mas, felizmente, eu me enganei.
– O que tem aqui? – Perguntei num tom neutro para Kristen que logo estava ao meu lado.
– A porta da esquerda é um quarto de hóspedes. – Ela falou apontando.
Adiantei-me até ela e a abri, era um quarto neutro, mas bem elegante e com aspecto confortável e acolhedor, comecei a andar por ele, notando uma abertura lateral, em frente à escrivaninha, me adiantei até aquele espaço, onde me deparei com dois espaços: um deles era um closet vazio, em tons claros e com bom espaço.
Abrindo a porta do outro espaço deparei-me com um banheiro claro, bonito e bem iluminado. Voltei ao quarto, Kristen ainda esperava hesitante na porta, quando viu que eu voltara apontou para o outro lado do corredor.
– Ali fica o banheiro social. — Ela falou dando-me espaço para passar.
Atravessei o corredor e abri a outra porta, deparando-me com um pequeno banheiro em tons claros com detalhes em madeira e pastilhas avermelhadas, eu ficava cada vez mais impressionada com a casa, mas não admitiria ainda. Voltei ao corredor me esforçando para conter o sorriso que ameaçava aparecer.
– Vamos lá em cima? – Perguntou apontando uma escada circular que ficava no fim do corredor.
Dei os poucos passos que me separavam da escada e comecei a subi-la, chegando a seu topo avistei mais uma escada e duas portas, uma na parede à frente e uma na lateral. Dei um passo ao lado para permitir que Kristen se juntasse a mim. Sem dizer nada ela apontou para a porta lateral.
Empurrei a porta, tendo a agradável surpresa de encontrar uma sala iluminada pelo sol da tarde que avançava, adentrei alguns passos no cômodo, notando prateleiras com livros, uma linda lareira, sofás com aspecto confortável e duas poltronas, tudo perfeitamente decorado.
– Eu sei que gosta de ler quando tem algum tempo livre e por aqui esfria no inverno, achei que gostaria de ter uma lareira. – Kristen comentou em voz baixa.
Não pude evitar dar um pequeno sorriso, ela havia pensado em tudo! Vi que ela se animou um pouco com isso, eu estava quase correndo para abraça-la e agradece-la, mas me contive, não podia faltar muito agora, podia? Eu estava ansiosa para ver o que mais me esperava, então tentei retomar a seriedade e prosseguir.
– O que tem na outra porta?
– Seu quarto. – Ela falou com um sorriso nervoso.
Assenti e sai da sala em que estava, indo em direção à outra porta, sendo acompanhada de perto. Mordi o lábio antes de abri-la, o que foi uma boa coisa, caso contrário não conseguiria conter um arfar de surpresa e apreciação.
Era um quarto lindo, muito elegante e aconchegante, estava tentada a me jogar naquela cama para ver o quanto era macia, mas ao invés disso acariciei os lençóis, olhando ao redor: havia duas poltronas perto das portas de vidro que levavam a uma pequena sacada, cortinas que iam do teto até o chão, um estofado aos pés da cama, criados mudos... Era tudo incrível.
Havia uma porta a um canto do quarto, próxima às poltronas. Ainda mordendo o lábio olhei para Kristen apontando a porta. Ela apenas fez um sinal para que eu fosse à diante antes de levar as mãos às costas, observando. Muito curiosa para saber o que me aguardava não hesitei ao abrir a porta.
Encontrei um closet imenso e ladeado de armários com portas de espelho de ambos os lados, com um móvel no centro para acessórios e um assento tão branco quanto o carpete. Mais uma vez tive que fazer um esforço imenso para não dar um gritinho animado. Abri os amplos armários que ainda se encontravam vazios.
Quando voltei a fechá-los notei uma porta aberta ao fundo, que, na animação pelo closet, havia passado despercebida por um momento. De onde estava podia ver as paredes claras. Não demorei nada para me adiantar até a porta e apreciar um lindo banheiro, com um grande espelho, banheira e pisos e paredes em tons neutros e brilhantes. Aquilo era incrível.
Virei-me para Kristen, que esperava encostada no batente da porta, eu quase corri até ela para agradecê-la e tirá-la da expectativa quando me lembrei da outra escada, mesmo estando surpresa com o imenso “apartamento” e por sua beleza, voltei a me conter para falar.
– E aquela outra escada? – Perguntei apontando para fora.
– Ah! – Notei que seus olhos brilharam, era o mesmo brilho que adquiriram no estacionamento. – É uma das minhas partes favoritas.
Ela se virou e começou a andar, dessa vez sem esperar que eu fosse à frente, essa reação dela só me deixou ainda mais curiosa para saber o que havia depois daquelas escadas. Ela subiu a escada a passos rápidos e eu a segui, um pouco mais devagar e apreensiva. O que vi fez meu queixo cair, foi bom que Kristen estivesse de costas para mim, apontando o horizonte.
– Olhe lá, aquele prédio ali... – Ela apontou um dos altos prédios. – É lá que eu moro, é só a algumas ruas daqui.
Recuperando-me da surpresa a tempo dela se virar pra mim assenti e andei um pouco mais até passar dela, ficando de costas para ela olhei a volta, era simplesmente lindo, as cadeiras, os estofados e almofadas, as plantas, havia até uma pequena piscina! E a vista então! Não há nem adjetivos para descrevê-la. Ali, mais do que nunca, admirei o bom gosto de minha amiga.
– Foi o fator decisivo para eu escolher esse apartamento, eu amei esse lugar. – Ela falou e pude ouvir o sorriso em sua voz. – Mas... O que achou? Se não gostou podemos arrumar outro lugar... Pode ser sincera...
Sorri um pouco antes de recuperar as feições sérias, franzindo as sobrancelhas e me virando para ela. Notei que quando viu minha expressão ela ficou magoada, mesmo que tentasse esconder isso. Ela realmente não sabia mentir...
– Está brincando? – Falei num tom sério, ela fez um leve biquinho e seus olhos se arregalaram. – Amei esse lugar, é perfeito! – Exclamei sorrindo abertamente e correndo para abraça-la. Ela suspirou enquanto eu a apertava.
– Sua idiota, você me deixou preocupada! – Ela reclamou.
– Ah, não seja boba, eu sabia que ia ser incrível! Obrigada!
Afastei-me um pouco e a vi sorrir aliviada. Admiramos o lugar por mais alguns minutos antes de pegarmos minhas malas que estavam ao lado da porta, onde o rapaz as havia deixado e leva-las com alguma dificuldade até meu quarto, onde minha amiga me ajudou a desfazê-las e arrumar seu conteúdo. Estávamos na penúltima mala quando meu celular tocou.
– Alô? – Atendi-o.
– Alô? Ashley? – Perguntou a voz grave e rouca do outro lado da linha.
– Sim, quem é? – Interroguei sem reconhecer a voz.
– Como vai? Aqui é o Robert, seu agente, meu irmão me passou se número. – Respondeu a voz de forma simpática.
– Oh, sim, estou bem e você como vai? – Respondi sorrindo.
Kristen olhou-me interrogativamente. “Robert” – Formei as palavras sem som. Ela sorriu.
– Ponha no viva voz. – Sussurrou sentando-se no estofado do closet.
Sentei-me ao seu lado, ouvindo a resposta de Robert.
– Estou bem, tenho ótimas notícias para você.
– Um segundo Robert, estou te colocando no viva voz, tem alguém aqui que quer falar com você também.
Afastei o celular da orelha, pressionando o botão para acionar o viva voz e segurei-o próximo a mim e Kristen.
– Ei Rob, como está meu agente favorito? – Chamou Kristen, notei seu sorriso e ergui as sobrancelhas. Ela me olhou, corando levemente antes de balançar os ombros.
– Kristen! Que bom que está ai, ia ligar para você daqui a pouco, assim posso falar com as duas. – Respondeu a voz um pouco mais suave.
– Pode falar, estamos ouvindo. – Respondi-o.
– Vocês duas têm propostas. Kristen, você foi chamada para um desfile da Prada, aquele que falamos há alguns dias, o que me diz? – Ela olhou para mim sorrindo, os olhos brilhando.
Também sorri, animada pela minha amiga, ela havia comentado comigo por telefone que estava tentando entrar nesse desfile, seria, com certeza, uma grande oportunidade para ela, se gostassem dela ela poderia assinar um contrato maior com eles e eu estava feliz por minha amiga.
– Com certeza sim! – Ela exclamou muito animada.
– Ótimo! – Respondeu Robert contente. – Agora você Ashley...
– Estou aqui. – Incentivei-o a continuar.
– Mostrei suas fotos para algumas pessoas e você recebeu uma ótima proposta para uma campanha de perfumes da Gucci, o que acha?
Senti-me imensamente surpresa e deixei escapar um gritinho de felicidade, Kristen sorria ao meu lado, era bem mais do que eu esperava para meu primeiro trabalho em Londres.
– Claro, claro que sim! – Respondi com a voz algumas oitavas mais alta.
– Só tem um pequeno detalhe. – Ele acrescentou cauteloso.
– Qual? – Perguntei me contendo por um instante.
– Vai fotografar com um modelo, também um dos meus, isso muda alguma coisa? – Perguntou.
– Não, claro que não... – Respondi sem pensar duas vezes.
– Perfeito, vou confirmar tudo e passo um e-mail para vocês. Certo?
– Certo. – Respondemos juntas.
– Então até logo garotas. Se cuidem.
Despedimo-nos dele e logo estávamos nos abraçando, comemorando e gritando. Largamos as malas sem terminar de arrumá-las e descemos correndo as escadas, indo até a cozinha, onde pegamos duas taças e um champanhe, logo depois voltamos correndo para o terraço, onde comemoramos e vimos o sol se pôr e o céu se encher de estrelas. Eu me sentia tão leve que era quase como se não tivesse passado, era exatamente como eu precisava me sentir.
Àquela altura eu estava exausta e, pelo visto, Kristen também, ofereci para que ela passasse a noite comigo, o que ela aceitou prontamente, em pouco tempo estávamos indo dormir. Assim que deitei em minha confortável cama fui acolhida por um profundo sono sem sonhos.
...
Os dias passaram rapidamente e a cada dia eu me sentia mais a vontade em Londres, mesmo que tivesse alguma dificuldade em me adaptar ao fuso horário, era um lugar lindo e eu me encantava com cada canto que conhecia. Poucos dias depois minhas caixas chegaram, e, com a ajuda de minha prestativa amiga, coloquei as coisas em seus devidos lugares.
Espalhamos fotos pela casa, guardamos minhas coisas no closet, colocamos meus livros na estante da sala superior, encontramos lugares em que minhas coisas ficassem bonitas, enfim, transformamos o lindo apartamento em meu lar. Eu não me sentia tão bem assim fazia muitos e muitos meses... Em outra vida.
Mais alguns dias passaram até que recebi o e-mail de Robert, fornecendo mais informações sobre minha contratação e me pedindo para ir até seu escritório no dia seguinte para assinar algumas coisas, eu estava extremamente empolgada com esse novo projeto, era uma oportunidade de alavancar minha carreira e, além disso, estava com saudades do meu trabalho.
Em uma rápida ligação para Kristen soube que ela também precisava ir ao escritório de Robert, então decidimos ir juntas já que eu não fazia noção de onde era e não tinha um carro ainda. No dia seguinte, com alguma dificuldade, acordei cedo e me aprontei, vestindo algo simples, mas ao mesmo tempo de aparência profissional, logo depois fui para a cozinha tomar café.
Sentei-me na bancada que ficava na cozinha e comecei a comer torradas enquanto olhava para a bela cidade de Londres que amanhecia... Aos poucos as ruas foram ocupadas por alguns carros, ônibus e pedestres, que me pareciam formiguinhas de onde as via.
– Bom dia! – Chamou animadamente uma voz às minhas costas.
Virei-me para encontrar Kristen, – sim ela tinha minha senha e usava a “chave para emergências” sempre, mas eu não esperava que fosse de outra forma – que estava sorridente e extremamente arrumada, ergui uma sobrancelha imediatamente, não tinha visto ela se arrumar tanto pela manhã desde... Bem, desde nunca. Ela não acordava bem disposta normalmente.
– Bom dia. – Respondi desconfiada. – Para que está tão arrumada? – Perguntei indicando suas roupas e maquiagem.
– Oras! Eu sempre me arrumo. – Ela falou como se fosse óbvio, servindo-se de suco e torradas.
– A essa hora da manhã? – Perguntei desconfiada.
Ela simplesmente balançou os ombros, olhando para a parede, obviamente evitando meu olhar. Balancei a cabeça. Em todo caso, eu acreditava que descobriria logo o motivo de tanta arrumação, embora tivesse minhas suspeitas (ou meu suspeito, como preferir...).
Em poucos segundos Kristen estava em pé, apressando-me. Revirei os olhos enquanto apanhava minha bolsa e a seguia até o elevador, ela parecia impaciente enquanto olhava os números regredirem lentamente até chegarem ao térreo.
Andamos até seu carro, um pouco mais rápido que o de costume, a essa altura eu estava segurando o riso, era evidente a animação e nervosismo de minha amiga. Seguimos pelas ruas de Londres por alguns minutos até chegarmos a um belo prédio comercial todo coberto por grandes vidros espelhados que refletiam a luz do sol.
– O escritório do Sr. Pattinson. – Informou Kristen depois que respondemos à saudação da recepcionista.
A moça alcançou o telefone que estava sobre sua mesa, teclando um ramal e após poucas palavras ela voltou a erguer o sorridente e educado rosto para nós.
– As senhoritas podem subir, ele está à espera. – Ela informou indicando o elevador à sua direita.
– Obrigada. – Agradeci antes de seguir a apressada Kristen até o elevador.
Revirei os olhos enquanto ela batia impacientemente o pé ao esperar o elevador, cujo botão ela já apertara inúmeras vezes. Após curtos segundos (que para minha amiga devem ter parecido anos pelo “Finalmente!” que ela exclamou) o elevador chegou.
Entramos no mesmo, Kristen logo apertou o botão do último andar antes de se virar para a parede espelhada e ajeitar nervosamente o cabelo perfeitamente arrumado e retocar o batom intocado, eu estava segurando o riso enquanto a observava. Quando o elevador emitiu o sinal sonoro que anunciava sua parada Kristen deu um pequeno pulo se virando e disparando para fora do elevador.
Eu fui ao meu próprio ritmo, sem conseguir me impedir de rir dela. Entramos em uma pequena e aconchegante recepção, assim que passamos pela porta e que eu, felizmente, controlei-me do acesso de risos, uma elegante senhora ergueu-se detrás de uma mesa e veio ao nosso encontro.
– Kristen, querida, bom dia! – Ela saldou minha amiga com um beijo de cada lado do rosto.
– Bom dia Dianna! Como vai? – Respondeu Kristen sorrindo para a senhora.
– Oh, muito bem, obrigada! – Ela virou-se para mim. – Suponho que você seja Ashley.
– Sim, sou eu, prazer em conhecê-la. – Respondi sorrindo.
– O prazer é todo meu. – Respondeu amavelmente. – Bom, vamos andando, ele está esperando por vocês.
Dianna começou a andar em direção á porta de madeira que ficava na parede oposta à entrada. Ela bateu duas vezes na porta, uma voz grave respondeu de dentro, dizendo-a para entrar. Dianna abriu a porta para nos deixar passar. Quando nos avistou, um elegante e bonito rapaz levantou-se da cadeira, agradecendo Dianna, que se retirou sorrindo.
– Bom dia. – Ele andou até nós duas, nos cumprimentando.
O respondemos, conhecendo-o entendi os motivos de minha amiga, ele era muito vistoso e notei-o olhando Kristen de cima a baixo, mesmo que tentasse ser discreto, notei que minha amiga estava corada e repentinamente calada.
– Sentem-se. – Ele se recuperou repentinamente, e nos indicou as cadeiras à frente de sua mesa. – Fiquem a vontade.
Nós nos sentamos e logo ele começou a nos passar informações, percebi que ele evitava fixar o olhar em Kristen e quando o fazia demorava um pouco para se desvencilhar do olhar dela, isso me renderia boas provocações a Kristen, pensei travessamente.
–... Daqui a três semanas será a primeira prova, Kristen, na sexta-feira... – Ele olhou para ela mais uma vez, deixando o silêncio pairar até que ela, lentamente, assentiu. –... E você fotografa no mesmo dia Ashley, a prova de roupas será nessa segunda-feira. – Ele informou desviando o olhar rapidamente para os papeis a sua frente.
– Ok. – Respondi esperando que ele continuasse.
– Bem, acredito que eu tenha lhes passado o restante das informações... Kristen estará em um seleto grupo de 20 modelos, Ashley fotografará com Kellan. – Ele falou olhando para mim. – Ele é meu primo, precisa conhecê-lo antes da sessão para se sentir mais a vontade?
Isso era definitivamente tudo o que eu menos precisava... As lentes eram meu refúgio, o lugar onde eu podia ser espontânea, onde eu podia esquecer todos os laços pessoais e me concentrar em ser outra pessoa, alguém que agradaria a todos... Neguei com a cabeça, dando um sorriso educado.
– Não é necessário, obrigada.
Olhei para Kristen que me olhava parecendo incrédula, quando viu minha expressão de “o que eu fiz de errado” ela balançou a cabeça e revirou os olhos antes de voltar a encarar Robert, que agora parecia um pouco decepcionado.
– Certo, está tudo bem então... – Ele falou voltando aos papeis. – Acho que é isso, alguma dúvida? – Perguntou erguendo o olhar.
Ambas negamos então ele entregou a cada uma um contrato, o meu tinha cerca de sete ou oito páginas, notei que o de Kristen era um pouco maior. Uma das coisas que meu pai, como advogado, me obrigara a aprender foi a ler tudo o que eu tivesse que assinar, sendo assim comecei a ler o contrato a minha frente. Em uma rápida pausa notei Robert encarando Kristen, que lia atentamente seu contrato, mas parecia um pouco corada.
Poucos minutos depois acabei de ler e assinei as lacunas em que deveria assinar, rubriquei e escrevi meu nome onde me foi pedido, juntei as folhas e entreguei-as a Robert, que agradeceu e conferiu o que eu havia feito brevemente antes de voltar a olhar Kristen que estava na metade de seu contrato pelo que pude notar.
Uma ou duas páginas depois ela ergueu o olhar, encontrando o de Robert, o que a fez corar ainda mais. Ela piscou repetidamente antes de falar.
– Você leu isso? – Perguntou apontando para o contrato, fazendo uma careta.
– Cada linha. – Ele respondeu absorto.
– Ótimo. – Ela sorriu. – Confio em você.
E então começou a preencher o contrato, Robert parecia ter ganhado o dia por ter a confiança dela, eu abafei uma risada com uma tosse e sacudi a cabeça para ela quando ela me olhou, parecendo furiosa.
Quando Kristen terminou Robert confirmou o horário em que deveríamos estar nos locais correspondentes, dizendo que qualquer alteração nos seria informada imediatamente. O agradecemos e nos despedimos – Kristen parecia um pouco relutante quanto a fazer isso e eu tive que abafar outro riso e vê-la fazendo uma cara furiosa para mim.
Quando saímos de sua sala nos despedimos também de Dianna e voltamos para o elevador. Passamos o dia juntas, para a frustração e irritação de minha amiga provoquei-a muito por causa de Robert, mas no fim escutei-a me contar o quando ela era encantada por ele, essa conversa nos tomou toda a tarde, porém, quando a noite começava a cair o assunto mudou – para a minha frustração e irritação.
– Por que não quis sair com Kellan? – Perguntou Kristen olhando para cima.
Estávamos em meu terraço, tomando vinho e olhando o tempo passar, era um lugar pacífico e lindo, estava tudo bem para mim, até essas palavras de minha amiga. Fiz uma careta, arfando exasperada, eu estava simplesmente incrédula.
– Não acredito que está dizendo isso... Eu não consigo Kristen... Você sabe... — Instintivamente apertei meu relicário, o que não passou despercebido por ela. – E eu realmente não preciso conhecê-lo para trabalhar com ele.
– Oh, por favor! – Ela jogou as mãos para o alto. – Você tem que seguir em frente! E você não sabe quem ele é sabe? – Ela perguntou erguendo uma sobrancelha.
– Deveria? – Perguntei olhando-a pelo canto do olho.
– Claro! Ele é um dos garotos-propaganda da Gucci há anos e participou de campanhas da Calvin Klein e outras milhares... Sem contar que ele é lindo, quase tanto quando o primo e...
Foi nesse momento que encontrei a brecha para retroceder a assuntos que não me irritassem e evitei veementemente me aproximar o mínimo que seja do assunto “Kellan”.
Os dias seguintes passaram numa rotina agradável: todos os dias eu acordava, tomava café olhando a cidade, ia até a minha estante de livros e procurava algo para ler, almoçava com Kristen, às vezes em minha casa, às vezes em algum restaurante, em alguns dias passeamos por Londres, fizemos compras, ou ficamos em meu terraço, conversando.
Em alguns desses dias desviamo-nos da rotina para irmos até a Gucci para as minhas provas de roupas, eu fiquei fascinada assim que pisamos naquele lugar, estava honrada por estar ali e, além disso, estava me adaptando e me sentindo cada vez mais em casa em Londres a cada dia.
E então, finalmente, a quinta feira que antecedia nossos compromissos chegou e estávamos excessivamente nervosas, escolhemos cuidadosamente que roupas nós usaríamos, Kristen repetiu várias vezes que ônibus eu deveria pegar, já que ela iria para o lado oposto e não poderia me levar, fazia um mês e alguns dias que eu havia chegado a Londres, mas como saia sempre com Kristen ainda não sabia me localizar sozinha muito bem.
Naquela noite, quando fui me deitar meu coração estava aos saltos e consegui dormir apenas depois de muito tempo procurando a posição mais confortável, naquela noite eu tive um belo sonho: sonhei com meus pais, eles estavam juntos, de mãos dadas, sorrindo para mim...
– Estamos tão orgulhosos minha filha. – Meu pai me disse.
– Tantas surpresas boas te aguardam... Você será feliz minha querida, encontrará o sentimento mais forte de todos. – Minha mãe falou amavelmente.
Antes que eu pudesse correr para abraça-los ou perguntar-lhes o que queriam dizer com aquilo fui acordada por meu despertador. Ao passar a mão em meu rosto notei algumas lágrimas, eu sabia o motivo delas... Eu sentia falta dos meus pais... Mas isso não ia me atrapalhar, não hoje, não depois de eles me dizerem que tinham orgulho, não depois daquele sonho.
Levantei-me, sentindo-me disposta e animada, meu estômago se contraia de ansiedade, eu sentia meu coração disparado e eu tinha um sorriso que não deixava meu rosto, nunca havia me sentido daquela forma antes... Alguma coisa me dizia que aquele dia mudaria tudo...
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