Realidades - Ernesto e Ema
7 O Meio
Notas iniciais
~ Um ano depois
— Como pode ser tão cabeça dura, Ernesto?! — ela perguntou bufando, enquanto andava de uma lado para outro no quarto dele.
— A baronesinha sempre soube disso, então... — ele estava deitado na cama, olhos fechados e os braços cruzados atrás da cabeça despreocupadamente.
— Arre!! — ela catou um amontoado de roupas que estava jogadas numa cadeira, fez uma balaço e atirou sobre ele. — Pode ao menos fingir que está me ouvindo?!
— Eu estou lhe ouvindo — disse ele, ainda despreocupadamente, jogando as roupas de cima dele para o chão. — Na verdade é apenas isso que estou fazendo.
Ela bufou novamente.
— Então pode ao menos pensar na possibilidade?
— Já pensei e a resposta continua a mesma: não!
— Mas, por que não? Se é algo que é seu por direito!
Ele finalmente levantou-se.
— Vou casar com a senhorita, e não negociá-la! Tão pouco estou eu a venda! Esse tipo de negociata para mim é insultante, e sinceramente não mais pra mim do que para você!
— Isso é um costume, Ernesto, não tem nada a ver com negócios. Além do mais o dote nos seria muito útil, além de finalmente podermos nos casar, poderemos começar nossa nova vida mais aprumadamente. Nem eu, nem papai, nem vovô pensaríamos mal de você por isso.
— Mas eu pensaria!
— Porque é extremamente orgulhoso!! Não vê que é a única oportunidade que temos? Já estamos há um ano nisso e mal conseguimos juntar dinheiro para qualquer coisa? Quanto tempo mais esperaremos?
— Achei que o tempo necessário... Talvez "a vida toda"! — ele pareceu pensar. — Ao menos foi o que você disse uma vez.
— E repito! Porém, se você não for tão cabeça dura o tempo necessário esgotou-se.
Estavam naquele embate desde o dia anterior, quando receberam uma carta de Aurélio que agora marido e sócio de Julietta Bittencourt já tinha reavido parte das finanças do barão. Ele já tinha escrito a Ema antes contando que conseguiram comprar de volta a Fazenda Ouro Verde de Lord Williamson, que muito gentil entendeu que a propriedade tinha um valor sentimental para o velho "nobre". Agora com as coisas tomando prumo podiam tratar do dote para o casamento de Ema.
Já se fora muitas vezes oferecido pelo pai e pelo avô ajuda de custo tanto para ela quanto para o noivo, mas Ernesto sempre fora irredutível em tal quesito, ele não fazia questão que Ema aceitasse a pequena mesada que o pai lhe mandava, porém já lhe dissera de ante mão que não queria ver um vintém do dinheiro. Ele estava trabalhando num armazém onde rapidamente subira para o cargo administrador, já que o velho dono do lugar não andava bem de saúde e lhe dera de total confiança. Porém mesmo assim, ainda não era o suficiente para realizar os planos de ambos. No mínimo, Ernesto queria dar a Ema um lugar mais decente que um cortiço para começarem suas vidas de casados.
Ela continuava a trabalhar na casa de Jorge, era como fiel escudeira de Amélia que agora esposa do advogado sempre precisava de cuidados especiais. Ema admirava-o, o amigo se tornou um marido extremamente devotado, não media esforços para realizar os desejos da mulher. Amélia as vezes tinha certas recaídas, mas Ema tinha certeza que o carinho que Jorge dispensava a ela era seu melhor remédio. Pensou no sonho que havia tido há algum tempo, e sentiu-se mais uma vez imensamente feliz por ter sido apenas um sonho, porque na realidade tudo se encaixara perfeitamente, e ninguém estava sofrendo com coração partido, ou com amores renegados. O emprego na casa Jorge era o álibi perfeito para ela, pois misturava seu salário com a mesada que recebia do pai e no fim das contas, quando fossem juntar as finanças entregaria tudo a Ernesto que não poderia recusar já que trabalhar e juntar dinheiro fora o trato deles. Mas, um ano já havia se passado e a ansiedade em ser esposa do homem que amava só aumentava a cada dia, e as economias guardadas ainda não era o suficiente.
Do outro lado de São Paulo o sempre Barão de Ouro Verde também maquinava em seus velhos botões uma maneira de fazer o carcamano ceder e aceitar sua ajuda. Queria o melhor pra sua netinha. No quesito pretendente, apesar do ciúme e da aparente implicância, ele tinha certeza que Ema havia feito uma boa escolha, afinal ele mesmo confiara ela a Ernesto certa vez, mas o italiano era casca grossa revestida de orgulho. Então, assim que lembrou da convenção do dote, induziu Aurélio a escrever a Ema e a Ernesto, e lá estava os dois, sem chegar a lugar algum.
— Você não entende — continuou ela, aproximando-se dele com olhos suplicantes, sabendo que o embate não o faria ceder, porém ela sabia que tinha outros meios e achava que dessa vez funcionaria, sabia que Ernesto estava tão ansioso quanto ela. — Estamos a um pequeno passo, um mínimo passo de realizar aquilo que mais queremos na vida! Que é estarmos juntos, e ficarmos juntos para sempre. Não há mal algum nisso! — ela brincou de leve com um pedaço dos cabelos dele que lhe caiam sobre a testa. — Não aceitaremos nada mais do que nos é de direito.
Ele revirou os olhos.
— Não nos é de direito, Ema!
— Sim é! — ela lhe acarinhou a mandíbula. — É de direito a mim! Seria dado como presente de casamento de qualquer maneira, com quem quer que eu fosse casar-me. Não está me negociando, eu já sou sua, isso é irrevogável — Ernesto sentiu o estomago dar cambalhotas, e algo frio descer pelo seu corpo. — Aceite o presente de casamento! Apresse um pouco nossa felicidade! — ela estrategicamente preferiu não usar mais a palavra dote.
Ele fechou os olhos com força sabendo que estava tentado a ceder, e ela aproximou-se de seus lábios, roçando nos seus. Ernesto então a beijou, não resistia a ela. O beijo forte, febril e apaixonado demonstrava o quanto se segurava, o quanto necessitava tê-la. E Ema parecia querer lembrar-lhe disso. Maldita baronesinha! pensou, enquanto se deliciava no seu doce gosto.
— Você está jogando baixo, baronesinha! — murmurou rente aos lábios dela. — Sujo até, eu diria.
— Eu amo você, seu carcamano teimoso! — ela colou sua testa a dele, olhando fundo em seus olhos. — Apenas quero está com você, ser sua! Sua mulher perante Deus e perante os homens, e sinceramente eu não suporto mais esperar!
Ernesto a beijou novamente, a tirando do chão, ao mesmo tempo sufocando dentro de si o desejo arrebatador, quase desesperado que estava sentindo por ela. Amava aquela mulher mais que tudo na vida. Fazê-la sua, estava longe de ser uma perversão em sua mente, era um sonho doce, a expectativa não era só de seu corpo era também de seu coração. Então dizendo a si mesmo: "Falta pouco, falta muito pouco!" Sessou o beijo e a colocou no chão.
— Vamos escrever a seu pai!
...
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