Realidades - Ernesto e Ema
8 O Final
Notas iniciais
O casamento de Ema e Ernesto fora o mais bonito que já se vira naquela região. Ema que confessara ao noivo o desejo de se casar na fazenda, foi prontamente atendida, Ernesto também amava o Vale, além do mais queria sua família em peso prestigiando sua felicidade. Julieta se encarregou com mãos de ferro na organização de tudo, passara a admirar ainda mais a enteada pelas escolhas desafiadores que tomara e isso a impelia a dar a Ema a mais bonita realização de seu sonho.
E lá estava, o alpendre no meio do jardim da fazenda, as cortinas de tule branca voando com o vento abrasador que trazia aquela tarde de primavera, as flores de laranjeiras dos sonhos de Ema foram subsistidas por flores de macieira, um pedido estranho, pensou Julieta, mas que ela atenderia já que fora a única coisa que ambos os noivos concordaram de súbito, sem nem tencionar discutir, como faziam sempre que se era proposta alguma idéia para o casório. Até que em certo momento Ernesto desistiu e deixou tudo nas mãos da "baronesinha" como ele mesmo disse. Julieta teve a impressão que ele só aceitara participar da organização para, sempre que podia, implicar com a noiva, Ema sempre caia, porém sempre as terminava com beijos e vencendo a peleja.
Julieta sorriu para o casal no altar. Ema deslumbrante no seu vestido rendado, mais simples do que a própria Julieta suporia que ela escolhesse, uma bela e artesanal coroa de flores combinando com as da decoração lhe enfeitava seus cabelos delicadamente soltos, e um brilho intenso no olhar, tudo isso junto lhe deu uma beleza angelical. Era isso que o noivo parecia pensar também, volta e mais olhava para ela, aquele olhar encantador que só convêm aos apaixonados. E tal olhar, tal intensidade nos olhos deles não lhe deixava dúvidas, aqueles dois seriam extremamente felizes. Eram diferente, é verdade, mas porque lidar com maestria com essas diferenças. Sabiam esperar, sabiam ceder, pelo amor que sentiam um pelo outro apreenderam tudo isso.
"O amor ensina. Salva das convenções, do orgulho, do preconceito, salva de si mesmo. E nos faz aprender a sempre, sempre ser uma pessoa melhor." — fora as palavras do padre. "Eu os declaro marido e mulher. O noivo pode beijar a noiva."
E assim foi feito, e logo aplausos ensurdecedores tomou conta do local.
A festa mais animada não poderia ter sido, e qual não foi à surpresa de todos quando a própria rainha do café se apresentou com o marido na pista de dança, bailando animadamente uma tarantella.
Ema e Ernesto mais radiante não poderiam está.
— Quem diria, hein? Quem diria... — comentou Rômulo aos amigos. — E posso sentir-me orgulhoso em dizer que este rebento começou em nosso casamento — ele olhou para Cecília que também sorria.
— Sim, sim realmente seu casamento operou milagres! — comentou Ernesto. — Mas, a baronesinha já estava louca por mim, apenas não sabia.
— Ora seu atrevido! — ralhou Ema. — Recordo-lhe que foi você quem me beijou aquela noite!
Ouviram a entonação surpresa e divertida dos amigos diante daquela revelação.
— Recordo-lhe, minha querida esposa, que eu não beijei sozinho!
— Tratante! — ela resmungou corando, e ele a beijou.
Todos sorriram.
— Mas, então vão mesmo se estabelecerem em São Paulo? — perguntou Camilo.
— Sim! Já estamos com tudo planejado. — Ema respondeu empolgada!
— E agora não tendo mais que pagar o cortiço, por certo ficará mais fácil juntar a quantia que falta para fechar negócio com o Sr Bartolomeu! — disse Ernesto satisfeito, e Ema pensou quantos dias de prosa havia custado a ela aquele "entendimento" dele, pois fizera parte da árdua discussão sobre aceitar pelo menos uma casinha de presente de casamento.
— Vai mesmo comprar o armazém? — perguntou-lhe Rômulo.
— O velho é ranzinza, precisa se desfazer do estabelecimento, mas não queria vendê-lo. — respondeu Ernesto. — Porém por algum motivo insano ele confia em mim, então, unimos o útil ao agradável.
— E falta muito para...
— Nem pense nisso! — ele interrompeu o amigo, Rômulo sorriu e Ema revirou os olhos, ele continuou. — A questão é que ele está disposto a vender para mim.
— Mas que ótimo, até porque no mínimo ele fará um bom preço. — opinou Darcy. — E o estabelecimento é ótimo, bem localizado, com o investimento certo, você terá um bom resultado, Ernesto.
— Tenho certeza disso!
— E a casa? Como ficou a casa? — perguntou Jane. — Quando eu e Camilo saímos de São Paulo vocês ainda não tinham decidido.
— Ficou incrível! — comentou Ema, com o enorme sorriso.
— Ah Jane, você não tem como imaginar — disse Elisabeta. — É um mimo de casa!
— De inicio eu achei que poderíamos ter escolhido uma um tanto maior, talvez com mais um andar. — contou Ema e dessa vez foi Ernesto que revirou os olhos. — Mas o meu amado marido foi irredutível de que não precisávamos de tanto espaço...
— E por fim eu estava certo, você amou a que ficamos! — ele a interrompeu.
— É verdade! — ela continuou sorrindo entusiástica. — É linda Jane, todos vocês precisam conhecer! É tão aconchegante e tem um pequeno quintal, onde conseguimos reavivar o jardim. Às tardes ali dará um ótimo lugar para leitura.
— Sim, pensei a mesma coisa, embaixo dá macieira, não é? — comentou Elisabeta displicente. — Já estou até agendando minhas visitas!
— Ah! Tem uma macieira no jardim? — perguntou Luccino sinuoso.
— Ah sim, soube que fora item decisivo para o aval de Ema! — comentou Jane parecendo confusa.
Ernesto sorriu provocante.
— E foi mesmo — contou Elisabeta. — Foi até estranho, querida — disse ela a Ema. — Estavam você e Ernesto em meio a mais uma discussão sobre espaço, mas quando a viu... negocio fechado!
— Ora o que posso dizer? Gosto de maçãs! — ela deu de ombros, mas o rosado em suas bochechas a denunciara, ao menos para o seu marido. — O fato é a casa ficou linda!
— Trabalhamos muito para colocar tudo em ordem a tempo do casamento, já que os senhores dela não concordavam com quase nada sobre a decoração. — contou Amélia sorrindo,ao lado de Jorge que apesar de tudo não parecia tão confortável quanto a esposa. — Mas, por fim...
— Por fim, Ernesto entendeu, que estás coisas se devem a damas pensarem e deixou a mim, Elisa e Amélia trabalharmos em paz. — concluiu Ema. — E diga-me italiano, não ficou divina?
Ele lhe deu um beijo rápido.
— Sempre confiei no seu bom gosto!
A tarde passou-se e a noite se seguiu, a festa entrou pela madrugada. Os noivos já fadigados de tanta atenção tentavam esconder-se pelos cômodos da casa. Foi quando depois de usar o 'toilettes’ Ema se viu diante do espelho de seu antigo quarto. Sorriu olhando para si e depois ao redor, tanta coisa mudara desde que aquele quarto deixou de ser seu. Obviamente depois que o pai recomprou a Fazenda designaram aquele quarto como dela novamente, e ela não pôde senti-se mais feliz, alguns dos melhores momentos de sua vida fora revivido ali. Além dos primeiros vividos com Ernesto. Não podia esquecer-se de quando deitara na cama com seu italiano pela primeira, mesmo que tivesse ficado desesperada e furiosa na ocasião. Sorriu. Não podia esquecer-se de seu primeiro beijo. Não podia esquecer-se das inúmeras vezes que ele adentrou aquele lugar sem se anunciar a pegando desprevenida, seja pela porta ou...
As cortinas se moveram fortemente, e ela quase gritou de susto dando passos para trás, porém logo o cheiro dele a invadiu e ela o viu pulando a janela e adentrando o quarto. Sorriu novamente não acreditando no que via.
— O que pensa que está fazendo, italiano abusado?! — perguntou-lhe.
— Apenas para não perder o costume. — disse ele, com aquele sorriso petulante que ela tanto odiava amar. — Enfim sós!
Ema sentiu o coração dispara diante da constatação. Sim, iniciara-se sua noite de núpcias. E apesar do nervosismo aflorando ela mais uma vez agradeceu por ser naquele quarto. Ernesto se aproximou lentamente, e lhe acarinhou a face.
— Eu já lhe disse que está linda?
— Não — ela sussurrou mirando em seus olhos.
— Pois digo-lhe agora. Quando a vi no jardim, de cima daquele altar, perguntei aos céus o que fiz para merecê-la, pois era a figura mais linda e encantadora que já tinha visto em minha vida!
Ela sorriu tentando concentrar-se, pois deleitava-se com o carinho dele .
— Você também, está muito galante em trajes finos — ele trajava um terno de linho acinzentado.
— Um elogio da baronesinha! — ele provocou.
— Ernesto, não caibo em mim de tanta felicidade — ela respirou fundo. — Se isso for um sonho, eu não quero acordar... nunca! — os olhos dela marejaram, ele não entendeu por que.
Ao fundo ainda se podia ouvir, mesmo que ao longe a fadada, porém doce melodia que soava de final de festa, então a puxou para seus braços a abraçando, conduzindo-a lentamente no ritmo da música.
— Não é sonho, baronesinha! — ele disse em seu ouvido. — Apesar de ser quase inacreditável estamos aqui, marido e mulher. Essa é nossa realidade, é nosso começo, é o nosso final feliz!
— Final? Ainda temos tanto para viver! — disse ele, recostada em seu abraço.
— Mas sei que daqui por diante assim será a nossa vida! Nunca estaremos separados desde então.
Ela sorriu.
— Sabe, eu lhe disse uma vez que precisava entender o que o destino tinha reservado para mim, antes de entender o que sentia por você...
— É eu me lembro!
— A vida foi muito generosa comigo, me fez entender que o meu destino era ter você ao meu lado, e assim foi desde então.
— Você foi generosa consigo mesma. — ele levantou seu rosto delicadamente para encará-la. — Não tire seu crédito em sua felicidade, nem na minha! Foi você que se permitiu ser feliz. Fomos nós que assim escolhemos, quando escolhemos passar por cima de tudo e ficar juntos. É por isso que eu a amo tanto!
Ela o beijou e agora livremente, não precisavam mais se conter, eram completamente um do outro e assim seria para sempre, essa era a única realidade.
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