Real Bood
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A música tocava alta no cubículo abafado. Os corpos se movimentavam agitados, em geral, espalhados; nos cantos eles quase não se movimentavam. As luzes, quase alucinantes, piscavam loucamente com intervalos curtos e depois mais rápidos, acompanhando a batida da música. As pessoas pareciam estar em uma projeção de um filme antigo. Era tudo escuro, mas ao mesmo tempo, iluminado e colorido.
A porta se abriu e fechou atráz de uma pessoa. Uma garota andou cambaleante porta afora, em direção à calçada. Devia estar um pouco bêbada, pois tentava com algum desespero se segurar em alguma parede.
- Droga, não devia ter bebido aquele ponche — resmungou — Merda.
- Ei, Charlie, tudo bem? — alguém deu um grito abafado de dentro do salão.
- To ótima. Não se preocupe — respondeu meia zonza — , eu estou indo para casa.
A voz gritou mais alguma coisa, mas a garota não ouviu. Só ouvia um zumbido latejante dentro da cabeça.
Charlie começou a andar pela rua. Não se incomodava com o fato de ser ou não atropelada. Aquela altura, aliás, ela não se incomodava com mais nada. Apenas com os pés, é claro, apertados em um par de sapatos de salto alto de bico fino. Ela caminhou primeiro sobre os paralelepípedos propositalmente. Queria ver o quanto estava bêbada. Depois se esqueçeu e nem deu mais conta do que fazia.
O vento estava frio. Na verdade, congelante. Devia fazer vinte minutos que Charlie caminhava bêbada, sozinha pela rua. Sua casa era perto de onde era a festa, mas ela não estava mais se lembrando de que rua era.
As luzes da rua seguinte estavam apagadas. Estranho, pensou, nunca teve apagão nesse bairro. Deu de ombros e concluiu: para tudo se tem uma primeira vez. Continuou andando em direção à rua escura e assombrosa. Não ligava para isso também. A poucos minutos estaria em sua casa quentinha, então não teria com o que se preocupar.
Seus olhos estavam quase fechados, quando abruptamente, abriu-os em alerta. Tinha ouvido passos. Será alguém da festa que estava tentando a alcançar? Mas se fosse, já estaria do lado dela a acompanhando á algum tempo... Apertou o passo. Não queria saber quem era e nem o que era, só queria sair dali.
Escutavam-se passos apressados na rua morta e sinistra. Os passos de um salto alto quase quebrando na rua de paralelepípedos. Os pequenos passos se transformaram em uma corrida frenética
à procura de abrigo. A respiração ficou mais difícil, o pulso estava acelerado. A corrida tinha feito a garota se cansar.
Andou mais alguns metros, virou à direita e depois à esquerda. Um beco sem saída. E não tinha nenhuma porta, nem um buraco onde pudesse se enfiar. Desesperou-se diante a situação em que se encontrava. Uma voz então preencheu o ar:
- Não é muito difícil de te seguir, não?
- O que você quer? — sussurou a moça — Eu não tenho dinheiro. Não tenho nem se quer uma bolsa! E os bolsos estão vazios! — completou colocando as mãos nos bolsos e os virando do lado avesso.
- Acho que você ainda não entendeu — falou a foz vinda das sombras — Eu não quero seu dinheiro.
A mulher engoliu em seco. Assustada, deu um passo para tras, mas sentiu a parede tocar-lhe as costas, reprimindo sua tentativa de fuga.
- O que quer, então? — Falou em um tom de voz esganiçado.
- O seu sangue.
Os olhos da garota estatelaram na escuridão à procura de alguma coisa, mas apenas o que encontraram foi o vulto de um rosto com o pescoço gotejando um líquido de cor carmim.
Já devia passar das duas da manhã quando Charlie acordou. Sentiu o corpo estar rígido por não reconheçer o colchão e doído pelo esforço exercido pelo dia anterior.
Abriu devagar as pálpebras e piscou algumas vezes até se acostumar com a claridade do lugar. O teto era diferente de seu quarto e de sua casa, consequentemente não estava na mesma. Virou a cabeça para os dois lados sem se levantar. Era um quarto grande e aconchegante, decorado com móveis e objetos de luxo. Charlie nunca tinha visto em sua curta vida, um quarto tão bonito quanto aquele. Tudo era impecável.
Foi então que se lembrou da noite passada, do que havia lhe ocorrido. Ela estava voltando meia bêbada para casa, com a sensação de estar sendo seguida, e logo após, surgiu um maluco demente dizendo querer seu sangue. Charlie nunca tinha ressaca após beber. A única coisa que tinha era ilusões. Mas aquela ilusão que estava vivendo estava real demais para ser mentira.
Charlie se sentou na cama, estupefata, com os pensamentos confusos, jogando a coberta para o lado e colocando os pés no chão. Sentiu algo fofo tocar ambos os pés. Assustada, olhou para baixo e viu um par de pantufas ajeitadinhas, esperando para serem usadas. Estranhando tal coisa, empurrou-as para debaixo da cama e pôs-se em pé.
Seus olhos quase saíram das órbitas. A garota tinha-se dado conta de que não estava mais com seus trajes da noite passada; estava vestida em uma camisola de cetim vermelho, trabalhada em alguns pontos com rosas pretas. Sentiu uma grande onde de nojo, e uma ainda maior de vergonha. O que aquele canalha teria feito enquanto ela dormia?
A garota ficou encucada com a questão o suficiente para não ouvir a porta do quarto em que estava se abrir e deixar entrar o homem que a sequestrara.
- Você fica muito bonita nesta roupa.
Ela sentiu um arrepio percorrer-lhe a coluna. Aquelas palavras foram as suficientes para a deixar irritada.
Virou-se bruscamente para o homem e com a mão direita, desceu-lhe um ágil tapa, que acertou em cheio o rosto de seu sequestrador.
- É... desculpe minha falta de modos, eu realmente mereci isso. Faz muito tempo que não falo e nem vejo uma dama tão adorável quanto a senhorita, se me permite dizer. — Charlie sentiu-se constrangida com tais palavras. Seus ombros encolheram — Muito menos uma que ficasse tão linda mesmo com trajes de dormir — e os olhos dele passaram de cima à baixo, em uma última inspeção rápida sobre o corpo dela. Instintivamente ela se cobriu com a colcha da cama.
Ele deu um suspiro com os olhos fechados e disse:
- As roupas estão dentro do armário. Durma mais um pouco, e quando sentir fome, desça para tomar o desjejum.
- E minhas roupas?
- A menos que queira andar... — e abaixou a voz — nua, ou com esta roupa, aconselho-à vestir o que está dentro do guarda-roupa. — Levantou o braço e apontou o canto do quarto em que se encontrava o móvel. Charlie olhou por alguns segundos o armário, receosa do que encontraria. Virou-se para a porta e não havia mais ninguém lá. A pessoa que entrara em seu quarto tinha saído tão rápido e silênciosamente quanto entrara.
Assustada, foi até a porta, fechou-a e girou o trinco. Quem quer que fosse não entraria mais lá.
Charlie vincou a testa ao lembrar e pensar sobre a situação em que se encontrava. Tinha sido raptada por um desconhecido no meio da noite, e agora estava na suposta casa dele. Não sabia onde estava. E seus pais deviam estar muito preocupados com ela. Na certa, ela ficaria encrencada quando voltasse para casa. Isso se voltasse...
O vento soprava forte na janela. O barulho era incômodo o suficiente para acabar com a pouca paciência da garota. Foi até a janela e concluiu: estava perdida.
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Ae ae.
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