Real Bood
2 Capítulo 2
Inferno. Tudo aquilo era um inferno. Duas e quarenta e cinco da manhã e Charlie ainda estava acordada, pilhada pelo fato de ter sido sequestrada por um estranho. E o pior de tudo: ela não tinha visto o rosto de seu sequestrador. Na verdade ela tinha visto, mas na hora em que o viu, estava tão nervosa que não reparou nas feições do rosto dele. Mas a claridade do quarto era tão precária que ela quase não enxergava.
Charlie estava sentada no chão, próxima à janela, repassando tudo o que tinha acontecido, mentalmente. Não iria adiantar nada ficar andando de um lado para o outro se queixando e reclamando, e muito menos, sentindo pena de sí mesma. Já tinha acontecido e ela não podia mudar isso.
Encostou a testa no vidro e tentou concentrar-se no vazio. Lá fora ventava mais do que antes. A temperatura devia ter baixado também. Girou um pouco a cabeça, encostando a têmpora esquerda agora no vidro e olhou para o céu. Estava tudo escuro e sombrio. As nuvens estavam todas juntas em grandes bolos. Pareciam grandes nuvens de algodão doce. Cinzas. E com relâmpagos dentro delas. Lembravam-na uma tempestade de idéias.
Talvez ao ver este raro fenômeno, a garota tenha inguinado seus pensamentos para pensar racionalmente.
Ela tinha sido raptada e não sabia em que local do país estava, fato. Mas isso não a impedia de fazer uma inspeção de reconhecimento do território. Talvez, futuramente, até uma possível fuga.
Desgrudou a cabeça do vidro e levantou-se depressa. Era hora de trabalhar.
No quarto em que Charlie estava instalada tinha um mapa de toda a Europa. Um mapa bem completo. Charlie tinha aprendido com o avô que em algumas casas antigas, principalmente mansões e castelos, as pessoas colocavam nomes em determinados locais da residência e quartos. E podia ser sobre qualquer tema, dependia apenas do gosto e da imaginação do dono no imóvel. Mas, claro, isso não é mais usado, dissera o avô da menina. Não era o que parecia.
As esperanças tinham voltado. Charlie correu até o armário e o abriu, um pouco ansiosa com o que encontraria, mas o abriu.
A boca da garota se abriu, em um movimento involuntário. Ela estava incrédula com o que acabara de encontrar. Camisolas de seda clara e vestidos longos de cores variadas do século XVIII repousavam pacientemente em cabides de carvalhos esmaltados em uma cor mais escura. Estava tudo organizado por cores e tamanhos. O armário parecia ser até de outra época.
Passou as mãos por cada vestido, procurando o melhor para usar e por fim, acabou por não achar. Movimentou o último vestido e encontrou um roupão na cor creme, feito do mesmo tecido fino das camisolas. Escolheu ele.
Vestiu-o rapidamente, deu um laço no cinto e procurou um calçado. Procurou por todo o quarto, mas o que achou foi somente as pantufas em baixo da cama e vários pares de sapatos enfileirados dentro do guarda-roupa. Quase desistindo, achou em um canto escondido, fora do armário, um par de galochas pretas. Olhou-as duvidosa, mas por fim, as calçou. Seria melhor do que calçar as pantufas...
Charlie foi até a porta e girou o tricon no sentido contrário. Seu corpo inteiro tremia. A palma das mãos suavam frio. Não seria prudente sair do quarto, mas talvéz aquele fosse o único momento em que ela conseguisse sair do cômodo sem ser percebida.
Girou a maçaneta e puxou a porta. Deixou-a entre-aberta e com um olho espiou o corredor. Era extenso e estava vazio. Ele estava mais iluminado que o quarto em que ela estava.
Respirou fundo e saiu do quarto. O corredor era largo e comprido. As paredes eram de uma cor escura, aproximada do vinho. Vez ou outra aparecia um quadro com uma pintura acadêmica. O chão era todo de madeira, como no quarto em que ela acordara. Em cima do piso, um tapete acompanhava todo o corredor até as escadas. A iluminação embora eficiente, era antiga. O corredor era cheio de castiçais com velas, alguns apoiados em mesas, outros presos em paredes.
Charlie pegou um castiçal de uma mesinha próxima e voltou para a porta do quarto de onde viera. A porta tinha uma inscrição em bronze.
- Como eu pensava — falou baixinho. — Europa.
Pelo que Charlie tinha entendido, o quarto em que estava era o quarto principal do andar. Cada quarto tinha o nome de um país, e o dela o de um continente. O resto dos andares devem ser assim também, pensou.
- É, vamos brincar de gato e rato por um bom tempo. — bufou — Isso se o rato não fugir primeiro.
Virou-se e voltou a andar pelo corredor. Não subiu as escadas, preferiu desce-las. Seu estômago dava um nó cada vez mais que descia. Não sabia o que encontraria quando acabassem os degrais, só tinha medo do pior.
O andar debaixo estava vazio. Nenhuma alma viva, nem uma morta, habitava o andar. O outro andar debaixo estava na mesma situação.
Finalmente, a sala. Era gigantesca, com cara de ser extravagante, decorada com extensos armários e livros. Tinha umas três ou quatro poltronas espalhadas pelo local.
Charlie abriu um imenso sorriso ao ver a porta. Seria ótimo poder sair daquele lugar tenebroso. Correu até a porta, e com um certo nervosismo, puxou a maçaneta.
A ânsia de poder fugir era imensa. E essa mesma ânsia foi destruída quando a maçaneta foi arrancada por ela própria da porta. Não digo arrancada, mas puxada com muita força.
- Porcaria de casa antiga. — resmungou — Porque isso sempre aconteçe comigo? Que droga! — olhou com desespero em volta — E agora?
Sem como escapar, não tinha mais esperanças para nada. A porta não tinha vidro, e a sala não tinha janelas. A cozinha — se aquele lugar tivesse — estava bem escondida em algum lugar, o que Charlie certamente não iria descobrir. Uma casa bem estranha... na verdade, quase um covil luxuoso ou algo do gênero era o que parecia.
O desespero aumentou. Como poderia sair dali? A porta sem o trinco não adiantaria nada. E não tinha nenhum machado por perto para destruir a porta...
Charlie andou em volta da sala tentando descobrir alguma coisa à qual teria deixado escapar. Não havia nada ali, a não ser livros. Livros, era isso! Toda casa antiga têm de ter uma passagem por traz de uma porta, e na maioria das vezes eram livros e castiçais!
Começou pelos castiçais. Correu até cada castiçal pendurado nas paredes da sala e tentou movimentá-los. Nada. Em nenhum deles. Tentou com mais força, mas nada aconteceu. Tentou então os livros.
Com o dedo indicador, acompanhou cada título de cada livro. Anatomia Humana , Ciências do Corpo , Cardiologia. A primeira parte era só medicina, a segunda era línguas estrangeiras, ciências naturais e outros livros que Charlie deduziu ser de difícil compreensão, pois estava em outras línguas.O homem devia ser um estudioso, concluiu Charlie , e um estudioso dos bons; bem aplicado, que tem afinco no que gosta... Continuou olhando os livros, agora, desatenta. Não se lembrava mais do motivo de estar ali.
Um livro grosso como uma bíblia, ou talvéz até um pouco maior, parecia ser o mais antigo dali. As páginas eram forradas parecia ser por um couro antigo e desgastado. Charlie ficou interessada. Tentou puxar o livro, mas ele não saia do lugar. Tentou com um pouco mais de força, e o livro foi para baixo e mostrou algumas palavras: Alqu.
- Alqu? — A garota semicerrou os olhos para tentar enchergar melhor o que estava escrito. Alqu. Alqu de quê? A ligação parece, foi instantânea. Alquimia. Devia ser isso. Puxou o livro agora para baixo com mais força do que antes.
No mesmo instante, um \"clac\" fez Charlie se assustar. Tinha vindo detraz da estante. Quando tocou o livro novamente, o chão envolta daquela estante começou a rodar, levando Charlie consigo. O momento foi tão rápido e inesperado que a única coisa que a garota conseguiu fazer foi tentar se segurar nas prateleiras salientes e fechar os olhos.
Após parar de girar, a estante fez mais um \"clac\" e morreu. Charlie deu alguns passos, um pouco assustada, tentando com as mãos alcançar alguma coisa. O lugar era um breu. Começou a andar pelo local, seguindo apenas o barulho de um gotejar d\'água.
No meio da escuridão, surgiu uma fresta de luz ao longe. Charlie ficou um pouco assustada; poderia estar lá o homem. Foi andando a passos lentos e vagarosos, tendo cuidado para não emitir barulho algum.
Quando chegou próxima ao local iluminado, esperou um pouco, tentando arrumar coragem necessária para enfrentar seu sequestrador. Inspirou uma grande quantidade de oxigênio para os pulmões.
- Vejo que finalmente encontrou meu esconderijo.
E expirou até mesmo uma parte a mais desse gás.
Não conseguiu se virar, não houve tempo. Ele havia lhe colocado um lenço tampando seu nariz e sua boca, e a única coisa que ela conseguiu ver antes de desmaiar foi apenas trevas.
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Aeaeaeaeae. Mais um capítulo postado. 8DD
Está ENORME, né?D:
Não sabe quanto tempo eu demorei pra digitar essa coisa e_e\'
Sabe, eu gosto de escrever, mas as vezes essa capacidade me irrita. -q\'
Qualquer erro de digitação ou erro de português, por favor, me avise, ok?
Quero reviews! ¬¬\'
Beijooo :*
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