Razão ou Coração

2 Espadas de Prata e Línguas Afiadas


O jantar real após o baile não era apenas uma refeição; era um campo de batalha decorado com talheres de prata e taças de cristal. Charles estava sentado à direita do Rei William, com uma postura relaxada que beirava o desrespeito, enquanto Sabrina, sentada à frente dele entre Camilly e a Rainha Genevieve, tentava focar apenas em sua sopa de lagosta.

​A tensão era quase palpável, mas Charles parecia se alimentar dela.

​O tilintar dos talheres era o único som até que Charles, após um longo gole de vinho, quebrou o silêncio com um olhar fixo em Sabrina.

​— Devo confessar, irmão — começou Charles, sua voz aveludada carregada de uma ironia cortante. — Fiquei impressionado com a sua... caridade. Transformar a pequena órfã Drake em uma dama da corte parece ter exigido um esforço hercúleo dos seus tutores. Imagino que tenham gasto fortunas em etiquetas de postura, embora o olhar dela ainda conserve um certo... ar selvagem de quem prefere os estábulos ao salão.

​O Rei William franziu o cenho, mas antes que pudesse intervir, Sabrina pousou sua colher com uma delicadeza milimétrica e ergueu o queixo.

​— De fato, Lorde Charles — respondeu Sabrina, com um sorriso gélido que não chegava aos olhos. — O esforço foi necessário para que eu pudesse circular entre os civilizados. É uma pena que o senhor tenha passado dez anos fora e, ao que parece, não tenha encontrado nenhum tutor disposto a fazer o mesmo pelo senhor. O exílio costuma polir os homens, mas vejo que no seu caso, apenas reforçou a ferrugem.

​Um silêncio chocado caiu sobre a mesa. Alexander engasgou levemente com o vinho e Camilly soltou uma risadinha abafada por trás do guardanapo.

​Charles arqueou uma sobrancelha, surpreso com o contra-ataque.

​— A ferrugem, minha cara Sabrina, é apenas uma camada protetora para o aço que está por baixo — ele rebateu, inclinando-se para a frente, diminuindo a distância entre eles. — Mas compreendo sua língua afiada. Deve ser difícil viver como uma boneca de porcelana na vitrine do Rei, esperando que algum Duque entediado a compre para decorar um castelo na província.

​Sabrina inclinou a cabeça, sustentando o olhar dele. O coração dela batia forte, mas não de medo, e sim de uma adrenalina que ela nunca sentira antes.

​— Prefiro ser uma porcelana valiosa em uma vitrine do que um item de liquidação que viajou o mundo todo e voltou para casa porque ninguém quis ficar com ele permanentemente — ela disparou, mantendo a voz doce. — Dizem que o senhor é um colecionador de corações, mas pelo que vejo, sua coleção é composta apenas de descartes. Talvez por isso sinta tanta necessidade de latir à mesa; o silêncio deve ser solitário para quem não tem ninguém a quem retornar.

​Desta vez, Alexander não conseguiu se segurar e soltou uma gargalhada alta. Até a Rainha Genevieve permitiu que um sorriso discreto surgisse em seus lábios, enquanto o Rei William tossia para disfarçar o divertimento.

​— Ora, Charles — o Rei interveio, com um brilho de deboche nos olhos. — Parece que você encontrou alguém que não se deixa abater pelo seu charme de taverna.

​Charles sentiu o rosto esquentar — algo que raramente acontecia. Ele olhou para os rostos risonhos ao redor da mesa e depois voltou para os olhos desafiadores de Sabrina. Ela era petulante, irritante e absolutamente fascinante. Para ele, ela era apenas um desafio, uma joia que ele queria quebrar para provar que ainda era o mestre do jogo. Para ela, ele era o perigo em forma de homem, alguém que ela jamais deixaria entrar, custasse o que custasse.

​— Um ponto para a pupila — Charles murmurou, erguendo a taça em um brinde irônico para ela. — Mas o jantar é longo, Sabrina. E a noite na corte de Tudor está apenas começando.

​— Então certifique-se de manter sua guarda alta, Milorde — Sabrina respondeu, voltando à sua refeição com uma elegância vitoriosa. — Seria uma pena se o grande galanteador da Europa fosse derrotado por uma "boneca de porcelana" antes mesmo da sobremesa.

​O riso geral recomeçou, e pela primeira vez em anos, Charles Tudor se sentiu verdadeiramente desarmado. E ele odiou o quanto gostou daquilo.