Razão ou Coração
3 Cena 1: A Lógica da Coroa. / Cena 2: Sombra e Sedução
Aposentos Reais, Meia-Noite.
A porta de carvalho maciço do quarto do Rei fechou-se com um clique abafado. O Rei William Tudor soltou um suspiro profundo, afrouxando a gola sufocante de sua túnica real. O jantar fora exaustivo, não apenas pela presença da delegação norueguesa, mas pela tensão elétrica que Charles trouxera consigo.
A Rainha Genevieve estava sentada diante da penteadeira, sua dama de companhia já dispensada. Ela desembaraçava os longos cabelos loiros com escovadas calmas e metódicas, mas seus olhos, refletidos no espelho, estavam alertas.
— Ele não mudou nada, não é? — Genevieve quebrou o silêncio, sua voz suave, mas com um toque de aço. — Continua o mesmo falastrão arrogante que você exilou dez anos atrás.
William aproximou-se dela, parando e colocando as mãos sobre seus ombros. Ele olhou para o próprio reflexo e para o dela. Ele parecia mais velho hoje, com as linhas ao redor dos olhos mais profundas.
— Ele mudou, Genevieve. Mas não da forma que eu esperava. Ele não é mais apenas o garoto problemático. Ele é... perigoso. E ele tem direito a uma parte deste reino, quer eu queira ou não. O testamento do nosso pai foi claro.
Genevieve parou a escova. — O testamento...
— Sim. Eu preciso mantê-lo sob controle. E há apenas uma maneira de garantir sua lealdade e, ao mesmo tempo, neutralizar a ameaça que ele representa.
— Qual? — ela perguntou, virando-se para encará-lo.
— Sabrina Drake.
A Rainha franziu a testa, a surpresa cruzando seu rosto. — Sabrina? A nossa pupila? William, ela tem dezessete anos! Ele tem trinta e dois! É uma criança comparada a ele!
— Ela é a mulher mais bonita e inteligente da corte, Genevieve. Você viu o que ela fez com ele no jantar. Ela o desarmou. Ela o insultou com uma elegância que ele nunca viu antes. Ele está... intrigado. Se eu lhes der um casamento, eu dou a Charles uma herança respeitável e uma esposa que ele desejará conquistar. E Sabrina... Sabrina terá o controle que ela sempre quis, mas sob a nossa supervisão. Charles ficará focado em conquistá-la e em administrar as terras dela, não o meu reino.
Genevieve levantou-se, afastando-se dele. — Isso é cruel, William. Você está usando Sabrina como uma isca, como uma peça de xadrez para amordaçar seu irmão bastardo. E se ele a machucar? Ele é um libertino que nunca amou ninguém!
— E ela é uma Drake. Eles são resilientes. Ela não o deixará machucá-la. E, francamente, se o coração de Charles está tão frio quanto dizem, talvez Sabrina seja a única capaz de derretê-lo, ou pelo menos, de mantê-lo ocupado o suficiente para que ele não queira derreter a minha Coroa. O noivado de Alexander com a Princesa Virgínia estabiliza a Noruega, mas Charles... Charles é a instabilidade dentro da minha própria casa.
— Eu não gosto disso, William — disse a Rainha, balançando a cabeça. — É um jogo perigoso com duas vidas que amamos.
— É a única maneira — respondeu o Rei, sua voz gélida. — Sabrina Drake se casará com Charles Tudor. E a ordem será mantida.
Jardins Reais, Meia-Noite.
Sabrina Drake precisava respirar. O ar do Salão de Cristal e, pior ainda, o ar do jantar, pareciam ter consumido todo o oxigênio da corte. Ela fugira para os jardins, onde o perfume das rosas e a brisa fresca da noite eram os únicos companheiros. Ela andava apressada, seus passos leves sobre o cascalho, tentando acalmar o coração que ainda batia com o ritmo da batalha de palavras que travara.
— Uma mulher de porcelana não deveria estar vagando sozinha em uma noite tão escura — uma voz barítona e sedutora quebrou o silêncio.
Sabrina parou, seu corpo ficando tenso. Ela não precisava se virar para saber quem era. Charles emergiu das sombras de um grande arbusto de buxo, a lua iluminando o contorno de sua figura imponente.
— O que o senhor está fazendo aqui, Milorde? — perguntou Sabrina, voltando-se para ele, os braços cruzados sobre o peito. — Não deveria estar ocupado tentando conquistar a delegação norueguesa ou, quem sabe, todas as criadas do palácio?
Charles riu, um som rico e baixo que vibrou no ar da noite. Ele se aproximou dela, o cheiro de tabaco caro e sândalo misturando-se com o perfume das flores.
— As norueguesas são muito... gélidas para o meu gosto. E as criadas... — ele deu de ombros, um sorriso de lado brincando em seus lábios. — As criadas são muito fáceis. Eu sempre preferi os desafios. Como você, Sabrina.
— Eu não sou um desafio, Milorde. Sou uma mulher. E não tenho interesse em fazer parte da sua coleção de "coisas difíceis" que o senhor quebrou.
— Quebrar você? — ele riu novamente. — Não, Sabrina. Quebrar porcelana é um crime. Eu prefiro polir. Ver o que está por baixo de toda essa armadura de etiqueta. Porque você tem uma armadura, não tem? E uma língua muito afiada, para alguém que deveria ser uma "boneca de porcelana".
— Minha língua afiada é a única coisa que me protege de homens como o senhor, que acham que podem ter tudo o que desejam, apenas por causa de um título e de um rosto bonito.
Charles parou a poucos centímetros dela. Ele era tão alto que Sabrina tinha que inclinar a cabeça para trás para olhar nos olhos dele. Ele estendeu a mão, seus dedos roçando suavemente a bochecha dela. O toque foi tão leve que Sabrina mal sentiu, mas uma onda de calor percorreu seu corpo.
— Você acha que eu sou tão previsível assim, Sabrina?
— Eu acho que o senhor é perigoso, Milorde. E que o senhor não sabe o que é o amor.
— O amor... — ele suspirou, o sorriso desaparecendo. — O amor é para os poetas e para os tolos. O desejo, no entanto... o desejo é real. E eu vejo o desejo nos seus olhos, Sabrina. Mesmo quando você está me xingando.
— O senhor está vendo o que quer ver, Milorde — ela respondeu, lutando para manter a voz firme. — Não há desejo nos meus olhos por um homem que me vê apenas como um prêmio.
— Nós veremos, Sabrina. Nós veremos. Porque eu não sou o único que está fingindo aqui. Você também está fingindo que não sente nada. Mas a sua respiração... a sua respiração me conta uma história diferente.
Charles inclinou-se, o rosto tão próximo do dela que Sabrina podia sentir o hálito dele. O coração dela batia tão forte que ela achava que ele podia ouvi-lo. Ela queria se afastar, mas estava como que paralisada.
— Boa noite, Sabrina — ele sussurrou, a voz carregada de uma promessa que a fez tremer.
Ele se afastou, voltando para as sombras, deixando Sabrina sozinha no jardim, com o coração acelerado e a certeza de que o perigo que ela tanto temia estava muito mais próximo do que ela imaginava.
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