Razão ou Coração

4 ​O Preço do Retorno


O sol da manhã entrava pelas altas janelas da sala de desjejum, iluminando a prataria e as frutas frescas sobre a mesa. O clima era de uma calma aparente, quase ensaiada. A Rainha Genevieve trocava palavras amenas com a Princesa Virgínia, enquanto Alexander e Camilly discutiam baixinho sobre os planos de caça para a tarde.

​A paz foi interrompida pelo som de botas pesadas e um assobio despreocupado. Charles entrou no recinto, já sem o casaco formal, com as mangas da camisa branca dobradas, exibindo uma energia que parecia excessiva para aquela hora.

​— Bom dia à melhor família que o destino poderia me dar! — Charles exclamou, puxando a cadeira ao lado de William e servindo-se de uma generosa porção de presunto defumado. — Dormiram bem? O ar do palácio continua tão... conservado quanto eu me lembrava.

​O Rei William pousou sua xícara de porcelana e limpou os lábios. Havia um brilho de determinação em seus olhos que fez o sorriso de Charles vacilar por um breve segundo.

​— Charles, que bom que se juntou a nós — disse o Rei, sua voz projetando a autoridade de quem não está apenas conversando, mas decretando. — Estava justamente refletindo sobre o seu retorno. Dez anos é muito tempo para um Tudor ficar sem um propósito. Fico feliz que tenha voltado, irmão. E para celebrar essa nova fase e garantir que suas raízes fiquem bem fincadas em solo firme... decidi que ninguém melhor que você para desposar minha querida pupila, Sabrina Drake.

​O silêncio que se seguiu foi absoluto. A torrada que Charles levava à boca parou no meio do caminho.

​O Choque e o Escárnio

​Charles soltou um riso seco, quase um engasgo. Ele olhou para William, esperando encontrar o traço de uma piada, mas o rosto do Rei era uma máscara de seriedade.

​— Você só pode estar brincando, William — Charles disse, sua voz perdendo a animação e ganhando um tom perigoso. — Eu acabei de desmontar do meu cavalo e você já quer me colocar uma coleira? E logo com a... com a boneca de porcelana? Ela me odeia, e eu não nasci para ser marido de ninguém, muito menos para brincar de casinha sob suas ordens.

​Sabrina, que estava sentada rígida como uma estátua, não disse uma palavra. Seus dedos apertavam o guardanapo de linho sob a mesa com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ela não olhou para o Rei, nem para Charles. Seus olhos estavam fixos em um ponto invisível na toalha de mesa, mantendo um silêncio que gritava mais alto que qualquer protesto.

​Camilly, que observava a cena com um brilho travesso nos olhos, quebrou a tensão. Ela começou a rir baixinho e se inclinou para Sabrina, batendo palmas suaves.

​— Ah, Sabrina! Meus parabéns! — Camilly exclamou, a voz carregada de uma ironia deliciosa. — Imagine só: você terá o trabalho de domar o lobo da Europa todos os dias no café da manhã. Que destino emocionante!

​Alexander, que até então tentava manter a compostura, não aguentou. Ele soltou uma gargalhada alta e ruidosa que ecoou pelo teto abobadado, fazendo os criados nos cantos da sala trocarem olhares nervosos.

​— O grande Charles Tudor! — Alexander disse entre risos, apontando para o tio. — O homem que fugiu de condessas em Paris e duquesas em Madrid, finalmente capturado por uma órfã de dezessete anos que o faz gaguejar à mesa de jantar! Isso é poético, meu tio! É o castigo divino!

​O riso de Alexander foi contagiante. Até a Rainha Genevieve, apesar de sua preocupação anterior, soltou uma risada contida ao ver a expressão de puro ultraje no rosto de Charles. Os guardas e servos sorriram discretamente. O "terror das mulheres" estava, pela primeira vez, encurralado.

​Charles olhou em volta, sentindo-se o alvo de uma piada que ele não controlava. Ele bufou, jogando o guardanapo sobre a mesa e levantando-se bruscamente.

​— Isso não acabou, William — ele rosnou, antes de lançar um último olhar para a silenciosa Sabrina. — E você... espero que o silêncio seja sinal de que está planejando sua fuga, porque eu certamente estou planejando a minha.

​Ele saiu da sala a passos largos, enquanto as gargalhadas de Alexander ainda podiam ser ouvidas no corredor.

​Sabrina finalmente ergueu os olhos. Ela não ria. Ela apenas olhou para o Rei e, com uma voz desprovida de qualquer emoção, disse:

​— Com licença, Majestade. Creio que perdi o apetite.