​O confinamento em Whitehall era um tipo diferente de tortura. Não havia correntes de ferro, apenas o silêncio ensurdecedor de uma ala isolada e o som rítmico da chuva contra as vidraças. Selene passara os últimos dias em uma penumbra dourada, cercada por luxos que agora pareciam cinzas. Edward não viera. Ele a possuíra, a trancara e a esquecera, como se pudesse apagar o pecado daquela noite simplesmente ignorando a porta trancada.

​A fechadura rangeu no quinto dia. Selene esperava o guarda com a bandeja de prata, mas quem cruzou o portal foi a figura imponente de Sabrina Tudor. A Rainha Mãe trazia um sorriso que Selene nunca vira antes — um sorriso de vitória absoluta, desprovido de qualquer máscara diplomática.

​— Veja só a orgulhosa Rainha de Gelo — Sabrina começou, caminhando pelo quarto e observando os pratos mal tocados e os livros espalhados. — Onde está o fogo de Versalhes agora? Parece que o Lobo de York não apenas a domou, mas a apagou.

​Selene levantou-se da poltrona, sua palidez acentuando a intensidade de seus olhos. Ela estava cansada. A luta contra o luto de Edward, contra a política de seu pai e contra a hostilidade daquela família a havia exaurido.

​— Você veio aqui para saborear a minha derrota, Duquesa? — Selene perguntou, a voz rouca pelo desuso. — Sinta-se à vontade. Este quarto é pequeno demais para duas rainhas, e eu já percebi que não há espaço para mim nesta ilha de pedras frias.

​Sabrina parou diante dela, a satisfação brilhando em seu olhar. — Edward nunca a amará, Selene. Para ele, você é apenas um lembrete do que ele perdeu e um símbolo do que ele foi forçado a aceitar. Você é a cicatriz, não a cura.

​Selene sentiu o golpe, mas não vacilou. Ela respirou fundo, tomando uma decisão que vinha amadurecendo no isolamento.

​— Então temos um objetivo em comum — Selene disse, aproximando-se da sogra. — Eu não quero uma coroa que cheira a morte e ressentimento. Eu quero ir embora. Eu vou abdicar, Duquesa. Vou sumir deste reino e deixar que Edward apodreça em seu próprio luto.

​O sorriso de Sabrina vacilou por um segundo, substituído por uma surpresa astuta. — Abdicar? Edward nunca permitiria. O escândalo com a França seria a sua ruína.

​— Ele não precisa permitir se eu não estiver aqui para ser impedida — Selene rebateu, a determinação voltando aos seus olhos. — Eu só preciso de uma saída. Preciso de cavalos, de um navio que não responda ao selo Tudor e de um caminho livre até o porto. Você quer o seu filho de volta? Quer o controle de Whitehall sem a minha presença? Então ajude-me a desaparecer.

​Sabrina estudou o rosto da nora. Pela primeira vez, a teimosia de ambas estava alinhada. A Duquesa percebeu que aquela era a oportunidade perfeita: Selene partiria como uma fugitiva, o casamento seria anulado por abandono, e ela poderia culpar a "imprudência francesa" por tudo, mantendo Edward sob seu domínio novamente.

​— Você é mais inteligente do que eu pensava, menina — Sabrina sussurrou, estendendo a mão para tocar o queixo de Selene com uma frieza calculada. — Eu providenciarei tudo. Um navio mercante parte para a Holanda amanhã à noite. Haverá uma carruagem esperando nos portões dos jardins inferiores após a meia-noite.

​— E Edward? — Selene perguntou, o coração dando um salto involuntário ao mencionar o nome dele.

​— Edward estará ocupado demais com o conselho e com o seu vinho para notar que o "erro" dele finalmente se corrigiu — Sabrina deu as costas, caminhando para a saída. — Não leve nada que pertença à coroa. Parta apenas com o que trouxe da França. E reze, Selene, para que seus caminhos e os de York nunca mais se cruzem.

​Quando a porta se fechou e a chave girou mais uma vez, Selene desabou sobre a cama. Ela ia embora. O plano de Sabrina era perfeito, mas enquanto Selene olhava para o dossel de seda, uma dúvida amarga a corroía: será que Edward, ao descobrir o ninho vazio, sentiria o alívio da liberdade ou o desespero de perder a única chama que ainda conseguia aquecer sua alma de ferro?