Razão ou Coração livro3 O Fantasma e o Espinho de
14 O Vazio do Trono de Ferro
A tarde caía sobre Whitehall com uma luz melancólica enquanto a corte se distraía com o banquete de chá. Edward, movido por uma inquietação que nem o vinho nem o dever conseguiam aplacar, decidiu quebrar o isolamento de Selene. Mas ele não entrou como um marido em busca de perdão. Ele entrou com a brutalidade de um homem que odiava a própria dependência.
O encontro foi desprovido de ternura. Edward a possuiu com uma força cega, transformando o desejo em uma arma para punir a mulher que ousara desafiá-lo. Quando o silêncio retornou ao quarto, ele se vestiu com movimentos mecânicos, sequer olhando para Selene, que permanecia imóvel entre os lençóis desfeitos.
— Não se iluda, Selene — ele sibilou, a voz carregada de um desprezo que servia apenas para esconder sua própria confusão. — Você não é minha rainha. Você serve apenas para isso: para desestressar o Rei quando o peso da coroa se torna insuportável.
Ele saiu, batendo a porta com a mesma frieza de sempre. Selene, contudo, não chorou. Com uma calma gélida, ela se levantou, vestiu-se e sentou-se à escrivaninha. Escreveu cada palavra com uma caligrafia firme em um pergaminho, selando seu destino. Chamou o guarda de confiança na porta e entregou o rolo com uma ordem clara: o Rei deveria recebê-lo apenas no desjejum da manhã seguinte.
Ao amanhecer, a mesa de desjejum estava completa, mas o clima era de uma expectativa sombria. Quando o guarda entrou e entregou o pergaminho a Edward, o Rei o abriu com indiferença, que logo se transformou em um choque paralisante.
A carta revelava tudo: o plano meticuloso do Rei Luís para usar Selene como uma ferramenta para ter os Tudor sob controle francês. Mas o golpe final estava nas linhas seguintes. Selene anunciava sua abdicação total. Ela renunciava à coroa, ao título e ao próprio Edward. “Eu parto não por falta de afeto,” dizia o texto, “mas porque te amo com todo o meu coração, e não posso assistir você se transformar no monstro que o seu luto exige que você seja.”
Junto ao pergaminho, o guarda entregou a pequena coroa de prata e o anel de casamento. Edward olhou para os objetos na palma de sua mão, sentindo o peso deles como se fossem chumbo.
— Ela se foi — Edward murmurou, a voz falhando pela primeira vez em anos.
— É o melhor, Edward — Sabrina interveio imediatamente, a voz tingida de um alívio mal disfarçado. — Agora podemos anular essa farsa e seguir com a razão. A Inglaterra está livre desse erro.
— A razão? — Charles rugiu, levantando-se e batendo com o punho na mesa. — Olhe para o seu filho, Sabrina! Pela primeira vez em dez anos, ele não parece uma estátua de gelo, ele parece um homem destruído! Se você deixar que ela parta agora, você o matará por dentro de novo. Edward, vá atrás dela! Procure-a até no inferno, se for preciso, mas não a deixe ir com essa mágoa.
A discussão explodiu. Sabrina e Charles trocaram acusações violentas, uma briga que deixou a corte em choque. No ápice do caos, Alycia levantou-se, as lágrimas correndo pelo rosto.
— PAREM! — Alycia gritou, fazendo o salão emudecer. Ela olhou para o irmão. — Edward, olhe para mim. Por dez anos eu vi apenas sombras nos seus olhos. Mas quando você olhava para ela, mesmo com raiva, eu via brilho. Eu via vida! Aceitem todos vocês: ele precisa dela! Se você a deixar partir, Edward, você nunca mais será o Rei que este povo merece, porque você terá perdido a sua alma.
Edward não respondeu. Ele se levantou, a coroa de Selene apertada na mão, e saiu do salão. Ele não foi para os portões, nem para os estábulos. Ele caminhou, quase em transe, até os aposentos da rainha.
Ao abrir a porta, o vazio o atingiu como uma tempestade. O quarto estava impecavelmente arrumado, mas o cheiro de rosas de Selene ainda pairava no ar. Não havia mais o som da respiração dela, nem o olhar desafiador. Pela primeira vez, o Rei de Ferro sentiu o silêncio de Whitehall não como paz, mas como uma sentença de morte. Ele sentou-se na beira da cama onde, horas antes, a havia humilhado, e cobriu o rosto com as mãos. O vazio de não tê-la ali era maior do que qualquer coroa que ele já portara.
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