Razão ou Coração livro 4: Arthur e Kristine
6 O Tabuleiro de Vidro e a Dança das Sombras
O gabinete do Rei Edward estava impregnado com o cheiro de couro e cera de lacre. Lá fora, a neblina londrina abraçava as torres de Whitehall, ocultando os segredos de um reino em transição. Charles Tudor, com a postura ainda ereta apesar dos anos, permanecia diante do filho como um carvalho que se recusa a curvar-se diante da tempestade.
— Edward, olhe para além desses pergaminhos e mapas de guerra — a voz de Charles ecoou, profunda e carregada de uma urgência paternal. — Deixe-os casar. Arthur e Kristine não são apenas dois jovens apaixonados; eles são a ponte que você e Edmund nunca conseguiram construir por completo. Unir York e Bourbon pelo afeto, e não apenas pelo sangue e pelo medo, é a única forma de garantir que a paz não morra quando nós morrermos.
Edward, sentado em sua poltrona de carvalho entalhado, sentia o peso da coroa mais do que nunca. Ele massageou as têmporas, seus olhos verdes — agora cercados por linhas de expressão que narravam décadas de batalhas — evitavam o olhar do pai.
— Charles, você fala como se o mundo fosse regido apenas por sentimentos — Edward rebateu, a voz tingida de uma amargura cansada. — O Conselho Real já selou o destino de Arthur. A Espanha nos oferece uma frota e a segurança de nossas fronteiras ao sul. Casá-lo com a Infanta não é uma escolha, é uma necessidade de Estado. E Edmund? Ele é um Rei agora. Ele olha para Kristine e vê uma aliança com o Sacro Império, não uma história de amor em Whitehall. Eu sou irredutível porque a realidade é irredutível.
Charles deu um passo à frente, batendo com o punho na mesa de carvalho.
— Você está se tornando o que sempre odiou, Edward! Está se tornando o homem que nos trancou em contratos e luto. Você viu o que o "dever" fez conosco. Quase perdemos tudo. Se você sufocar a alma de Arthur agora, você não terá um Rei no futuro, terá apenas uma estátua de gelo sentada neste trono.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Charles retirou-se sem dizer mais uma palavra, deixando para trás o eco de uma verdade que Edward tentava desesperadamente ignorar.
O Refúgio da Rainha
Mais tarde, o Rei retirou-se para seus aposentos privados. O fogo na lareira estalava, mas o frio que Edward sentia vinha de dentro. Ele serviu-se de uma taça de vinho, observando o líquido rubi brilhar sob a luz das velas.
A porta abriu-se suavemente. Selene entrou, não como a Rainha que comandava o conselho, mas como a mulher que conhecia cada fenda na armadura de Edward. Ela caminhou até ele e, sem dizer nada, retirou a taça de sua mão trêmula, colocando-a sobre a mesa.
— Ele tem razão, Edward — ela disse suavemente, forçando-o a olhá-la. — Mas eu sei que o seu medo não é apenas político. Você tem medo de que o amor deles os destrua como quase nos destruiu.
Edward suspirou, desabando na poltrona. — Edmund nunca aceitará, Selene. Ele é orgulhoso demais para admitir que a Inglaterra é o melhor lugar para sua única filha. Ele quer que ela seja a ferramenta do poder dele na França.
Selene sentou-se no braço da poltrona, acariciando os cabelos castanhos do marido. Seus olhos azuis faiscaram com a mesma inteligência perspicaz que um dia desafiara o Rei de Ferro.
— Então não vamos pedir permissão ao orgulho de Edmund. Vamos negociar com a ganância e a necessidade dele — Selene sussurrou, sua voz assumindo um tom estratégico. — Edmund herdou uma França rica em cultura, mas exaurida por guerras internas. Ele precisa de ouro e de novas rotas de comércio para consolidar seu poder sobre os nobres franceses.
Edward franziu a testa, começando a entender onde ela queria chegar. — Você está sugerindo que compremos o casamento de nosso filho?
— Estou sugerindo uma aliança que ele não possa recusar — Selene corrigiu, um sorriso astuto curvando seus lábios. — Vamos oferecer a Edmund o controle conjunto das rotas comerciais do Novo Mundo. A Marinha de York protegerá os galeões franceses contra os piratas espanhóis, garantindo que o tesouro chegue intacto a Versalhes. Em troca, ele concede a mão de Kristine a Arthur, selando uma união que faz da Inglaterra e da França um bloco comercial imbatível.
— E o Conselho? E a Espanha? — Edward perguntou, o coração começando a acelerar com a audácia do plano.
— A Espanha não terá como reclamar se apresentarmos o noivado como um fato consumado, respaldado por um tratado econômico que beneficia até os nossos próprios mercadores — Selene inclinou-se, o rosto perto do dele. — Vamos usar a Razão dele para satisfazer o nosso Coração. Edmund verá o ouro e o poder; Arthur verá Kristine. É a única maneira, Edward. Vamos mudar o tabuleiro antes que ele mova a primeira peça.
Edward olhou para a esposa com uma admiração renovada. O plano era perigoso, beirava a traição aos antigos tratados, mas era a única saída que não terminava em lágrimas. Ele puxou Selene para um abraço apertado, sentindo o calor da Rosa de Fogo que, mais uma vez, incendiava o gelo de sua indecisão.
— Prepare os documentos secretos, Selene — Edward ordenou, a voz recuperando a força. — Se Edmund quer o mundo, nós o daremos a ele. Mas Kristine fica em Whitehall. E o nosso filho terá a felicidade que quase nos foi roubada.
O jogo estava oficialmente em movimento. Nas sombras de Whitehall, o Rei e a Rainha começavam a tecer a teia que protegeria o amor da próxima geração, sem saber que os jovens amantes já planejavam seus próprios movimentos no escuro da noite.
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