Razão ou Coração
10 O Gelo e a Urgência
O dia seguinte nasceu sob uma névoa densa que parecia refletir o estado de espírito de Sabrina. Ela acordou com uma resolução de ferro: se Charles Tudor queria tratá-la como um prêmio ou um desafio, ele descobriria que ela era uma recompensa que ele jamais conseguiria alcançar.
No desjejum, Sabrina foi a personificação da perfeição aristocrática. Ela usava um vestido de um azul tão pálido que parecia feito de gelo matinal. Quando Charles entrou na sala, visivelmente com olheiras e o humor de um urso ferido, ela nem sequer levantou os olhos de seu prato.
Charles sentou-se à sua frente, esperando uma faísca, um olhar de raiva, ou até mesmo um sinal de constrangimento pelo beijo da noite anterior. Mas Sabrina agiu como se ele fosse um móvel na sala. Ela conversava animadamente com a Rainha Genevieve sobre os novos bordados e ria das piadas de Alexander como se Charles fosse invisível.
— A noite parece ter sido longa para você, tio — Alexander comentou, notando o estado de Charles. — O vinho da recepção estava forte, ou foi a companhia que o deixou sem sono?
Charles lançou um olhar cortante para Sabrina, mas ela apenas pediu mais chá para a criada, com uma voz doce e calma.
— Talvez seja apenas o ar da Inglaterra, Alexander — Charles rosnou. — Ele tende a ser sufocante para quem preza a liberdade.
— Pois eu acho o ar revigorante — Sabrina interveio, falando com Alexander, mas claramente atingindo Charles. — Especialmente quando aprendemos a ignorar os ruídos desnecessários. Algumas coisas na corte são como o vento nas árvores: fazem barulho, mas não mudam o caminho de ninguém.
Charles apertou o garfo. A indiferença dela o irritava mais do que qualquer insulto. Ele tentou provocá-la várias vezes durante a refeição, mencionando "visitas noturnas" e "segredos de alcova", mas Sabrina apenas sorria para a Rainha e mudava de assunto. Ela o estava matando com o silêncio e o gelo.
A Decisão do Rei
O Rei William, que observava a interação (ou a falta dela) com seus olhos de falcão, limpou a garganta. O silêncio que se seguiu foi imediato.
— Vejo que a convivência entre os noivos está... interessante — começou William, sua voz carregando aquele tom de autoridade final. — Charles, sua impaciência é notória. Sabrina, sua discrição é louvável. Mas o reino não pode esperar por jogos de sedução ou birras de exílio.
William levantou-se e caminhou até a cabeceira da mesa.
— Decidi que o noivado será curto. Não há necessidade de meses de espera para uma união que já está selada pela minha vontade. O casamento será realizado em duas semanas.
Sabrina sentiu o mundo girar por um milésimo de segundo, mas suas mãos permaneceram firmes sobre o colo. Duas semanas. Era o tempo de preparar um enxoval e uma estratégia de sobrevivência.
— Duas semanas? — Charles se levantou, a cadeira arrastando ruidosamente no chão. — William, isso é um absurdo! Nem sequer conhecemos os termos das terras que...
— Os termos são meus, Charles! — o Rei o interrompeu com um grito. — Vocês se casarão na capela real, com toda a pompa que o nome Tudor exige. Sabrina, Genevieve cuidará dos preparativos. Charles, você passará a próxima quinzena aprendendo sobre as obrigações do seu novo título em meu gabinete. Acabaram-se as farras e as fugas.
Charles olhou para Sabrina, esperando encontrar nela uma aliada no protesto. Mas ela apenas se levantou com uma elegância assustadora e fez uma reverência profunda ao Rei.
— Como o senhor desejar, Majestade — disse ela, sua voz sem qualquer traço de emoção. — Se o meu destino é ser Lady Tudor, que seja feito logo. Tenho certeza de que Lorde Charles fará o possível para não decepcionar a Coroa... mesmo que a Coroa tenha expectativas bem baixas para ele.
Ela saiu da sala sem olhar para trás. Charles ficou ali, parado, sentindo o sangue ferver. O Rei o estava prendendo, e Sabrina o estava desafiando com sua submissão gelada.
Ela o estava ignorando, mas por trás daquele gelo, Charles sabia que havia uma tempestade pronta para desabar. E, pela primeira vez na vida, ele não tinha certeza se conseguiria navegar por ela.
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