Razão ou Coração

11 Véus de Seda e Brasa Oculta


Enquanto o palácio se preparava para a união apressada, as tradições da corte de Tudor exigiam rituais distintos para os noivos. Naquela noite, o contraste entre a elegância velada das damas e a libertinagem ruidosa dos homens desenhava o destino de Sabrina e Charles.

​Nos aposentos da Rainha Genevieve, o ar estava pesado com o perfume de óleos essenciais e o vapor das tinas de banho. Era a "Noite dos Segredos". Sabrina estava sentada em um banco baixo, cercada pela Rainha, Camilly, a gélida Virgínia Stanford e algumas das mais influentes duquesas da corte.

​— O segredo para lidar com um Tudor na alcova — começou a Rainha Genevieve, enquanto penteava os cabelos de Sabrina — é nunca entregar tudo de uma vez. Homens como William buscam o controle, mas homens como Charles... eles buscam a conquista. Se você se render rápido demais, ele perderá o interesse antes da aurora.

​— Mas ele é um lobo — sussurrou uma das duquesas, rindo por trás do leque. — Dizem que Charles Tudor tem fôlego para três mulheres em uma única noite.

​Sabrina sentiu o rosto queimar. Virgínia, que até então parecia indiferente, olhou para Sabrina com um brilho de aviso.

​— Na Noruega, dizemos que para domar um lobo, você deve ser o gelo que o queima. Não mostre prazer, Sabrina. Se ele perceber que tem poder sobre os seus sentidos, você será apenas mais uma na lista dele. Use a noite de núpcias para estabelecer quem manda na cama, ou ele a governará pelo resto da vida.

​— Ora, não a assustem! — Camilly interveio, servindo mais vinho doce. — Sabrina já provou que tem a língua mais afiada que a dele. Noite de núpcias é técnica e paciência. Deixe que ele se canse tentando impressioná-la. O silêncio de uma mulher é a arma que mais enlouquece um homem.

​Sabrina ouvia tudo em silêncio, o coração batendo contra as costelas. Ela pensava no beijo da noite anterior. O gelo de Virgínia ou o fogo de Charles? Ela não sabia qual era mais perigoso.

​A Noite dos Lobos

​Enquanto isso, na ala oposta, o cenário era de devassidão controlada. O Rei William permitira que Charles tivesse uma última noite de "liberdade". Alexander ria alto, observando as concubinas da corte dançarem entre as mesas carregadas de javali e vinho forte.

​Charles, porém, não parecia o libertino de costume. Ele bebia, mas seus olhos estavam distantes. O Rei William aproximou-se do irmão, afastando uma das jovens que tentava se aninhar no colo de Charles.

​— Aproveite, irmão — William disse, com um sorriso cínico. — Amanhã você pertence à Coroa e a Sabrina. Espero que tenha gasto toda a sua energia com essas mulheres, pois Sabrina Drake exigirá um homem de verdade, não um moleque de taverna.

​— Você fala como se estivesse me dando um presente, William, e não uma sentença — Charles respondeu, olhando para as concubinas com um desinteresse que surpreendeu até a si mesmo. Ele buscava nelas o perfume de jasmim e sândalo de Sabrina, mas só encontrava o cheiro barato de almíscar e suor. Nada ali chegava perto da altivez da mulher que o ignorara no café da manhã.

​— Alexander, aprenda com seu tio — Charles gritou, levantando a taça. — Nunca se case com uma mulher que sabe usar o silêncio melhor do que você sabe usar a espada. É uma derrota lenta e dolorosa.

​O Presente Inesperado

​Tarde da noite, Sabrina retornou aos seus aposentos, exausta pelas "lições" das nobres. Ao entrar no quarto, notou algo estranho sobre sua penteadeira. Havia uma caixa de madeira escura, entalhada com o brasão dos Tudor, mas envolta em um lenço de seda preta que ela reconheceu imediatamente: era o lenço que Charles usara no pescoço durante o baile.

​Com as mãos trêmulas, ela abriu a caixa.

​Dentro, não havia joias de ouro ou vestidos caros. Havia uma adaga de punho de marfim, pequena o suficiente para ser escondida em uma bota ou sob um espartilho, e uma rosa silvestre colhida à força, cujos espinhos não haviam sido removidos.

​Preso à adaga, um bilhete escrito com uma caligrafia apressada e masculina:

​"Para a boneca de porcelana que se acha de aço. Use a adaga se quiser me manter longe na noite de núpcias. Mas lembre-se: rosas com espinhos são as que eu mais gosto de colher, não importa o quanto sangrem as minhas mãos. Até o altar, Sabrina."

​Sabrina segurou a adaga, sentindo o frio do metal contra a palma. Ela olhou para a rosa, que exalava um perfume selvagem e perigoso. O presente não fazia sentido — era um insulto e um convite ao mesmo tempo. Ele a estava armando contra si mesmo, ou estava apenas rindo da sua cara?

​Ela apertou o cabo da arma, o coração acelerado. Charles Tudor não era apenas um lobo; ele era um enigma que estava começando a perfurar a sua armadura de gelo.