Notas iniciais
Conheçam o tormento...

Estava arrumando minhas malas para a viagem. Fazia um calor insuportável. Abri ainda mais a janela. Quando voltei para perto da cama, com o fim de finalizar minha tarefa, minha mãe entrou no quarto:

— Já está pronto?

— Quase.

Ela resolveu que eu deveria fazer alguma coisa nas minhas férias e me inscreveu em uma colônia de férias, no litoral. Não tinha nenhum motivo plausível para negar minha partida, então, fiz as malas.

Fechei-as e arrastei-as até o carro. Meia hora depois partimos. Se dentro de casa estava calor, ali parecia um forno metalúrgico.

Cerca de duas horas depois, chegamos ao lugar. Desci do carro, enxuguei o suor que escorria da minha face e fui buscar as coisas no porta-malas.

Um pouco antes de chegarmos à recepção, minha mãe me questionou:

— Lucas, pegou tudo seu do carro?

— Sim.

Por que eu pegaria só metade das coisas? Certas perguntas não deveriam ser feitas.

Ao entrarmos no hall fui atingido pelo vento frio do ar condicionado. Não há sensação melhor que esta. Minha mãe se dirigiu ao balcão à esquerda e negociou minha estadia ali por dois meses. Disse-me que ficaria instalado em um chalé com mais um rapaz.

Perguntou-me se eu preferia um apartamento. Disse que tanto fazia. Então ela achou que o chalé seria melhor e fechou o assunto. Pagou, me deu um abraço e foi embora. Recebi da recepcionista a chave e instruções de como chegar nele.

Em dez minutos estava lá. Era bem arrumado e consideravelmente confortável. Tinha uma bela vista para o mar também.

O campus da colônia era bem grande e rico em atividades, mas nenhuma me atraiu muito. Eram um tanto triviais.

Escolhi a cama na ponta direita e deixei a da esquerda para meu colega. Em frente a ela havia um armário, onde guardei minhas coisas. Deixei meu livro sobre o pequeno criado-mudo de madeira e deitei.

Havia também uma porta que dava para o banheiro entre as duas camas.

Estava observando o quarto quando ouvi um barulho de chave na porta. Entrou um garoto da minha idade, muito bem apessoado e belos cabelos ruivos. Logo que me viu veio se apresentar animadamente:

— Prazer, meu nome é Nicholas.

— Lucas.

Apertamos as mãos e ele foi arrumar suas coisas. Deixei-o no quarto e fui dar uma volta à beira mar.

Voltei, troquei de roupa e fui jantar no refeitório. A comida era normal. Evitei conversas longas com os demais hóspedes.

Estava retornando ao chalé, quando encontrei meu colega no caminho. Ele acompanhou-me. Chegamos. Entramos. E fomos dormir.

Foi então que comecei a ouvir o barulho. Um som estranho. Parecia um rato roendo plástico ou batendo a pata no chão. Aquilo estava me irritando e atordoando. Era detestável! Demorou cerca de meia hora e parou finalmente.

Logo que amanheceu comecei a procurar. Onde estaria a toca do maldito? Fui até a recepção perguntar se havia veneno para ratos. A moça me deu um pequeno pacote do elemento mortífero.

Passei o dia vagueando e observando o mar. Nicholas se sentou comigo nas refeições e conversamos um pouco. Sua companhia me era agradável. Um pouco após o pôr do sol, fomos para o chalé. Enquanto eu lia, ele escrevia. Veio-me então um lapso de curiosidade. Olhei para ele:

— O que está escrevendo?

— Digamos que são contos cotidianos.

— Interessante.

Fechei meu livro e me aprontei para dormir. Ele também deixou o caderno e a caneta de lado e deitou.

O barulho então recomeçou e perdurou. Era extremamente agonizante! Eu não conseguia dormir. Tapei meus ouvidos com o travesseiro, mas não adiantou muito.

Finalmente parou.

Notas finais
Convivam com o tormento...