Ran's Flying Mansion

1 Arco 1 - Capítulo 1


Numa manhã qualquer durante o outono, o centro comercial, assim como nos demais dias da semana anterior, estava lotado de humanos e bestiais transpassando uns aos outros em uma correria sem fim pelas calçadas de pedra, e entre estes haviam levas de dragões puxando carroças que passavam pelas ruas, uma rotina normal na vida dos cidadãos do reino. No cenário ao fundo, diversas casinhas de alturas padronizadas e arquitetura antiga pareciam formar um enorme enfileirado, como um jogo de dominó em uma escala colossal, vossos telhados de tijolos se alternavam em tons pastéis de laranja e marrom, e em frente haviam inúmeras barracas que se estendiam de uma esquina a outra. Naturalmente, eram muitos aqueles que paravam pra comprar mantimentos e levá-los até suas residências, todavia, dentre todas as pessoas que cruzavam o feirão, apenas uma notara um elemento ofuscado pela movimentação ininterrupta dos demais ao entorno.


Próxima a entrada de um beco, formado por duas casas de paredes pintadas de amarelo, havia uma garotinha aparentemente perdida, pois a forma como seus olhos apontavam para a concentração de diferentes indivíduos buscando por figuras conhecidas era evidente, sua expressão exibia tristeza e desamparo, lágrimas escorriam discretamente enquanto esta dava passos frequentes sem de fato sair do lugar. Seu cabelinho curto tinha um formato de cuia e, curiosamente, da raiz até a ponta das mechas, tudo era cor de menta, o vestidinho o qual utilizava criava não-intencionalmente um contraste devido ao rosa presente no tecido, sendo decorado com uma fita e mangas brancas.


Sem aguentar mais tamanho descaso, criando um som de estalo com a língua, incomodada ao ver que nenhum morador ou vendedor se dispôs a ajudá-la, uma desconhecida sai de seu canto solitário e vai sozinha até o paradeiro da criança, mesmo sabendo perfeitamente que sua posição era tão desfavorecida quanto ela. Percebendo sua aproximação repentina, a menininha reage na esperança de ser quem aguardava, mas se desapontou por não reconhecê-la, e vendo isso a moça tenta tranquilizá-la se curvando suavemente e dizendo:


📢 Calminha, a tia não vai te machucar, prometo – Palavras gentis, pois parecia a melhor abordagem no momento, embora o efeito ocasionado não tenha sido o que a garota esperava, ficando surpresa com o prenúncio de gemidos altos e choro incontrolável batendo na porta.


A maior, ao passo que tentava formular uma saída alternativa para facilitar sua socialização, também recordava das interações que teve com outras pessoas antes da pequenina, pensando que talvez houvesse uma aversão a estrangeiros difundida entre a população local. Examinando as cenas que presenciou recentemente é que a jovem chegou a tal conclusão, lembrando como alguns rostos grosseiramente reviravam os olhos ao se dirigirem a ela, especialmente após atestarem que tratava-se de uma turista, dado seu modo de falar e, principalmente, as vestimentas incomuns para um plebeu. Seu traje de tom azul-escuro possuía longas mangas e exibia um escudo bordado na lateral acima do busto, havia uma camiseta branca abotoada por dentro, um laço vermelho amarrado a gola baixa, uma saia na altura do joelho e um par de meias pretas.


📢 (Vou torcer pra isso aqui se aplicar as criancinhas, então talvez... eu possa tentar o método do meu velho. Sempre funcionou pra acalmar birras infantis) – Pensou a estranha, agilmente retirando uma moeda de dentro da bolsa apoiada em seu ombro e, sem demora, pôs a nova estratégia em prática, visando prevenir o escândalo ao explorar o lado lúdico da menina diante dela.


📢 Sniff! Sniff! O... o que é isso...?! – Indagou a miúda, esfregando o canto levemente úmido da pálpebra esquerda enquanto fungava com o nariz um pouco encatarrado.


📢 Preste bastante atenção. Isto é uma rara moedinha giza de dez ienes – A moça dizia de uma forma bastante teatral, segurando o pequeno objeto metálico entre seus dedos indicador e polegar – Para meu primeiro número, eu vou esmagá-la usando toda a minha força, e no instante seguinte...!


📢 Wah! Su...sumiu! Desapareceu! – Comenta a menininha em total espanto e curiosidade, aproveitando a deixa dada pela adolescente com a palma aberta, rondando várias vezes esta afim de achar a moeda, mas obviamente sem obter sucesso em achar o objeto.


Nessa hora, a desconhecida finge surpresa, usando da oportunidade para posicionar sua mão no cabelo esverdeado da pequenina, deslizando lentamente por ele até alcançar as costas da orelha e finalizando a mágica ao sacar a peça de bronze de volta a cena, revelando-a com um terno sorriso. Admirada com o truque, a menina perdida aplaude o show que lhe foi proporcionado, e a mais velha com isso a reverencia igual a um artista ao final de cada apresentação, acrescentando que não poderia se manifestar quanto ao método usado, mas se quisesse o dinheiro bastava pedir. Ainda que soubesse pelos comentários anteriores sobre a moedinha não possuir qualquer valor, a garota de pernas curtas aceitou o presente, guardando-a em seu bolso e prometendo que iria cuidar bem dela.


Agora mais calma, a criança sentiu-se mais confortável para compartilhar os detalhes acerca de seu problema com a estrangeira, dizendo que outrora ela estava passeando ao lado da mãe pelas redondezas, com objetivo de ir visitar a banca de frutas onde o pai trabalhava, contudo se separou devido a inesperada aparição de uma multidão de pessoas usando armaduras, marchando pelas ruas de Lugnica.


📢 Urgh, certo...! (Ainda não decorei esse nome, me situar por aqui vai ser complicado) – Mentalizava a moça, enquanto coçava a base inferior do queixo.


📢 A propósito, qual o seu nome irmãzona? Eu sou a Plum, Plum Risch – A baixinha pergunta inocentemente, não perdendo tempo em si apresentar, erguendo o braço para o alto empolgada, semelhante a um aluno do fundamental querendo tirar alguma dúvida com seus professores.


📢 Eita... tinha até me esquecido das cordialidades, bem lembrado, garotinha – Afirma a maior, fechando o punho próximo aos lábios e tossindo forçadamente para aquecer sua própria voz, posicionando a mão suavemente contra o próprio peito – Terceiro ano do Ensino Médio, Kisubana Tsuru, não tenho dinheiro e muito menos um mapa, que aliás seria útil pra saber onde estou, prazer.


A miúda demonstra certa preocupação ao ouvir aquelas palavras, afinal a estudante sugeriu, sem nenhuma vergonha, que seu quadro atual era ainda mais precário em comparação a princesinha de rosa, todavia esta lhe jurou que sabia lidar com as próprias complicações, estendendo a mão e afirmando que naquele instante possuía tempo de sobra pra gastar, querendo usá-lo pra realizar a sua primeira "boa ação do dia".


Não muito depois, ambas estavam caminhando juntas pelo mercado, procurando pela família misturada em meio a população, com Plum sendo guiada por Kisubana que, ao mesmo tempo, se apoiava no senso de direção da pequena, sempre perguntando sobre os pontos de referência que a primeira guardava em suas memórias. Como parte de um combinado simples, a garotinha é orientada a apontar e avisar caso achassem a mulher que procuravam entre os demais cidadãos, prontamente concordando com o plano. Enquanto a adolescente andava, deveras atenta para as descrições feitas a respeito da mãe da criança, acabou sendo surpreendida com um agradecimento desta, ouvindo novamente o carinhoso chamamento de outrora, e após isso Tsuru busca conter seus ânimos diante de tanta fofura, virando sua face para a direção oposta, evitando encará-la diretamente.


Logo após algumas andanças, as duas enfim se deparam com quem desejavam encontar, e nisso a menina solta a mão da colega e corre até os braços abertos da mulher de cabeleira roxa, cambaleando um pouquinho durante seu trajeto devido a pressa, e quando finalmente envolta do abraço aconchegante da mãe esta deixou lágrimas de alegria escorrerem. Dezenas de pedidos de desculpas foram proferidos pela senhora enquanto estava ajoelhada no chão, dizendo estar muito aliviada de reencontrá-la e prometendo que jamais a largaria de tal maneira no futuro. Comtemplando a bela cena diante dela, a colegial resolve não as interromper, permanecendo num estado de silêncio absoluto, feliz pela reaproximação tão aguardada pela sua pequena acompanhante perdida, agora desfrutando do mais sincero amor de sua progenitora.


📢 (Acho que já cumpri meu papel, ao menos agora ela está... junto a família) – Pensa Tsuru, paralelamente a um movimento sutil para trás, tentando se afastar sem chamar a atenção, porém, a visão a poucos metros também era responsável por mantê-la imóvel como se houvesse ancorado naquele lugar, uma vez que sentimentos foram trazidos à tona.


📢 Hã? Ei irmãzona, não vai embora, por favor! – Plum se pronuncia, se levantando do solo e puxando sua bem feitora para perto, apresentando-a sem pensar duas vezes e dissuadindo sua pessoa a ficar.


Ao ficar ereta assim como sua adorável cria, a mulher retribuí o gesto, mesmo que a proatividade não tenha partido da estranha, revelando seu nome depois de curvar-se rápida e repetidamente em reverência, Raksha Risch. Tomada pela gratidão, esta, desejava expressar devidamente suas gratificações pela assistência prestada à menorzinha, ao que a jovem responde ser desnecessário, sendo modesta em relação a seu feito, e referindo à própria atitude como algo ordinário, uma coisa que em sua concepção particular era digno de qualquer coração generoso e empático. Porém, a moça insistiu dizendo que poderia lhe pedir qualquer coisa, dando uma impressão de não haver outra escolha senão aceitar a oferta.


Confabulando mais sobre a pessoal história de Kisubana Tsuru, uma estrangeira desorientada e sem fundos, esta acabou sugerindo como único pedido a mãe endividada algum dinheiro pra que pudesse se abrigar numa estalagem, jurando pagar pelo empréstimo uma vez que tivesse arrumado um trabalho. Curiosa, justamente pelas partes ocultadas da narrativa, a Senhora Risch indaga mais a respeito da mocinha, a começar pela sua terra de origem.


📢 Gulp! B-Bem, eu sou de... de... de um país insular ao le... quero dizer, ao oes... não,... ao norte! – A jovem fala gaguejando, como se houvesse algo dificultando a tarefa de formular uma resposta direta, e ela olhava para o alto por um tempo considerável antes de dar qualquer satisfação – (Droga, tá tão na cara, acho que vou acabar passando vergonha de novo. Vão pensar que sou uma péssima mentirosa).


📢 Se não quiser me contar de onde veio tudo bem, não vou te julgar – Responde Raksha, retirando um peso dos ombros da jovem e fazendo seu suor frio desaparecer quase no mesmo instante, visivelmente emocionada com sua compreensão, embora ainda tentasse esconder esta faceta sentimental – Como uma contraproposta, o que você acharia se eu lhe indicasse para uma pessoa? Ela poderia te arrumar um trabalho e uma moradia fixa também.


📢 Isso... me parece um bom negócio, mas, eu poderia saber qual é o tipo de serviço, só por curiosidade? – Tsuru questiona, imaginando um milhão de tarefas diferentes as quais não se consideraria boa o bastante.


📢 Se tiveres certa experiência com o manuseio de agulha e linha, pode se considerar contratada – Diz a mulher de cabelos roxos com um sorriso astuto, percebendo a felicidade da jovenzinha ao receber uma resposta satisfatória, fazendo a mãe com a criança em seu colo imaginar que a profissão era compatível com suas habilidades – Nós estávamos mesmo precisando de funcionários novos, garanto que irá adorar o espaço.


Kisubana se anima, confirmando aquilo que Raksha esperava, acrescentando que havia desenvolvido uma boa técnica de costura com uma pessoa da família, estranhamente ficando tristonha após terminar de dizer tal frase, novamente pegando suas preocupações e as colocando no fundo de um baú, pois seria complicado mencionar a respeito de seus pais sem soar como uma pessoa louca que afirma ter vindo da chamada “Grande Queda”, como já havia lhe ocorrido. Ainda dentro de sua mente, a garota recorda dos primeiros minutos que passou neste reino, visualizando um momento onde esta foi buscar por informações, percorrendo tudo que era canto desesperada, acabando dentro de um banheiro público um período depois, tornando-se alvo de olhares desconfortáveis, assim como aqueles os quais faziam parte de sua antiga vida.


Fingindo não perceber a sua expressão desanimadora, a Senhora Risch comenta com alegria que na alfaiataria a qual trabalhava, uma loja cujo nome era Renfri, haviam vários aposentos disponíveis para os empregados do local, ficando aliviada com a resposta positiva de sua ouvinte que acabara de voltar para realidade. Ela então continuou, adicionando que a colegial não precisaria se incomodar com o chefe do estabelecimento, pois segundo a mãe o sujeito era tranquilo de se lidar, exceto na presença de clientes nobres, o que facilmente lhe arrancou um riso, justo pela maneira como a mensagem fora discretamente passada sem uma necessidade aparente. Na sequência, a pequena Plum, sugere inocentemente que a irmãzona e sua responsável fossem juntas até a loja de roupas, ao que a mulher carregando seu corpinho não foi contra a ideia, reforçando-a para Tsuru, que aceita, aproveitando pra ressaltar a expertise da menininha dos cabelos esverdeados.


Curvando-se levemente, a cidadã lugnicana em agradecimento a estudante estava pronta pra acompanhá-las, e assim elas partiram, cruzando diversas ruas da cidade grande enquanto a maior usava da situação para apresentar alguns pontos de referência importantes da capital. Inesperadamente, em uma esquina qualquer durante o trajeto, a jovem interrompeu as detalhadas explicações para perguntar sobre o marido de Raksha, percebendo o quão longe se distanciaram do feirão, uma curiosidade natural que tinha por não conhecer a pessoa. A mulher, no entanto, diz que ela irá conhecê-lo mais tarde, expressando querer ver a alfaiataria o quanto antes, pois demonstrar sua gratidão era de suma importância, não apenas uma questão de etiqueta, mas também de honra.


📢 Além disso, Kadomon não sabe desse ocorrido embaraçoso, então ele certamente não se incomodará. Quero dizer, ele provavelmente ficaria preocupado se nos atrasarmos para o almoço – Diz a esposa, dando um breve e gracioso riso.


📢 Tá bem, se o Senhor Risch não se importar... (Eles devem levar bem a sérios esse negócio de promessa e dívida) – Expressou a adolescente, que continuou a caminhar ao lado da adorável dupla.


Não muito depois, as três enfim encontravam-se em frente a loja de roupas, um simpático edifício de tons terrosos com dois andares superiores, uma vitrine decorada na entrada e com uma assinatura em vermelho sobre o vidro, além de uma placa de aço pregada na lateral acima da porta da frente. Lá, a mãe da garotinha fez um gesto induzindo a salvadora da filha a entrar primeiro e, mesmo estando hesitante diante da maçaneta, a colegial cruzou a passagem, fazendo o sininho acoplado tocar, sinalizando para sua chegada, um som agudo característico que ela ainda escutaria bastante, e se acostumaria com o passar dos dias da semana, até o momento em que a adolescente não se sentisse mais uma estranha adentrando aquelas portas, escolhendo aquele espaço para recomeçar do zero.