Ran's Flying Mansion
2 Arco 1 - Capítulo 2
Na bela cidade capital, por volta do horário do meio-dia, Tsuru vivia sua nova-velha rotina sentada em silêncio em frente a um balcão de madeira repleto de novelos e amostras de tecidos em um empilhado multicolorido, caixas com diversos botões, tesouras e réguas, manuseando as ferramentas dispostas com uma tranquilidade descomunal. A peça que prendia a atenção da jovenzinha, ao menos naquele instante, era um ornamento florido o qual ela costurava cuidadosamente sobre um paletó preto, puxando a agulha entre as pétalas escarlate e o tecido escuro com movimentos suaves e precisos, ignorando a maioria dos sons do mundo afora daquele cômodo enquanto trabalhava.
📢 I wish I was there. Oh, please don’t let me die. Waiting for your touch – A garota cantarolava despreocupadamente, até ter seu ritmo quase impecável quebrado com o som de algumas batidas fracas sobre a madeira.
Naturalmente, a ex-estudante virou-se de imediato na direção do barulho constante, apenas para descobrir que se tratava da Sra. Risch acompanhada da filha pequena e alegre. Assim que entraram, Raksha, relembrou sua colega imersa em suas tarefas que já era hora da alfaiataria fechar para o intervalo dos funcionários, e sua filhinha acrescentou com certo entusiasmo que hoje sua mãe faria seu prato de comida favorito para o almoço, questionando-a se por acaso não gostaria de acompanhá-las para encontrarem Kadomon e seguirem todos juntos até sua casa. Educadamente, a jovem dispensa a ideia de Plum que, frustrada ao escutar tais palavras, fica cabisbaixa e fazendo beicinho, porém, como uma maneira delas não se preocuparem, Tsuru afirmou que queria somente finalizar o decoro de flor na roupa e logo mais iria as encontrar, prometendo que não demoraria.
Durante a saída da mãe junto a criança de cabelos de menta, as demais empregadas também se preparavam para se retirar do local de trabalho, pedindo carinhosamente para a companheira esperar por um momento, pois uma delas havia avistado pela janela uma estranha figura vagando entre as nuvens e espalhou a notícia. Surpresas, uma vez que a maioria conhecia bem a respeito da morada voadora, ficaram fofocando alto que a chamada Borboleta Esmeralda estava sobrevoando o espaço aéreo de Lugnica. Outras três mulheres se aproximaram abrindo ainda mais as cortinas, quase as removendo do lugar com a pressa, tudo na tentativa de contemplar a tal casa do homem brevemente mencionado como um temível feiticeiro, comentando entre si entusiasmadas que nunca haviam visto o local tão perto da cidade.
📢 Aff! (Do que elas tão falando?) – Pensa Tsuru, claramente incomodada com as falácias sobre o casarão flutuante, no fim, esta também acabou por ceder para sua própria curiosidade, interrompendo seu trabalho para vê-lo de sua janela, acompanhando brevemente a trajetória ao longe antes de suas asas desaparecerem entre as nébulas brancas – (Às vezes esqueço como esse mundo é mágico, mas não pareceu nada demais).
Kisubana, ouvindo as indagações que ecoavam do outro quarto sobre as chances do proprietário da casa vir para a capital, suspirava e balançava a cabeça em negação, como se não quisesse deixar-se influenciar pelos pensamentos alheios, os quais já lhe atrapalharam o suficiente.
Agora, com a mansão fora do campo de visão das senhoritas, outra conversa surgiu em relação as suspeitas de seu dono estar propositalmente se escondendo dos cavaleiros do reino e, uma das funcionárias de aparência bestial, Echo, imaginou que a história fazia sentido, justamente por conta das várias convocações para novos soldados, coisa que vem se intensificando desde o mês passado, desenvolvendo sobre o assunto um pouco apreensiva. Uma de suas amigas humanas, usando um chapéu grande e vestido marrom, aproveitou a deixa e lhes contou algo perturbador que ouviu de alguns comerciantes que faziam negócios com os homens do palácio.
📢 Se lembram da Lady Emily de Elior, a meio-elfa? Andam dizendo que Ran... devorou o coração dela – A moça comentava sobre o relato posicionando sua mão próxima a boca, como se estivesse contando as colegas sobre algo sigiloso, embora não estivesse medindo de forma alguma seu tom de voz.
📢 Devorou?! Que assustador...! – Plum, que ainda estava presente, responde se escondendo por trás da saia da mãe, que em resposta apenas encarou a companheira, fazendo-a desviar o olhar incomodada.
📢 Não se preocupe, são só boatos bobos. Além disso, o Rei Demônio não busca pelo coração de crianças – Echo afirmou de forma despreocupada, inclinando seu rosto em direção a garotinha escorada em Raksha, lançando uma piscadinha com sua pálpebra esquerda.
Continuando o trabalho do ponto que havia parado, Kisubana Tsuru, fica aliviada por faltarem poucos ajustes necessários pra finalização da peça, e enquanto mantinha-se ocupada as funcionárias saiam em bando do lugar, fazendo o sino da entrada quase enlouquecer com aquele fluxo instantâneo. Entretanto, tal barulheira externa não foi o bastante pra impedir o progresso da jovem, que dobrava cuidadosamente a vestimenta e a posicionava numa caixa de coloração bege, contendo um nome talhado e algumas fitas azuis amarradas. Tendo terminado seus deveres, a costureira enfim pôde deixar o assento e retirar a poeira em seu avental, dando-lhe vários tapas consecutivos antes de deixá-lo sobre a mesa, erguendo os braços para cima ela se espreguiçou um pouco e logo encaminhou-se até o suporte pregado na parede, retirando um chapéu de palha decorado com uma fita preta e um broche de flor rosada.
Embora aparentemente pronta para seguir seu rumo, Kisubana sabota sua saída caminhando para outro cômodo da loja, ficando estática se admirando em frente a um grande espelho. Ao ver-se refletida em sua superfície, ela se lembra do antigo uniforme escolar, o qual teve que ser abandonado e substituído por trajes mais apropriados para a época, riu ao pensar quanto tempo levou para acostumar-se com seu novo visual, ficando impressionada que já haviam se passado quatro semanas desde que passou a usá-lo. Seu vestido, era predominantemente da cor preta, abotoado com mangas longas e pequenos detalhes em laranjas nas mesmas, golas brancas e haviam bordados nas extremidades da saia formando desenhos que se assemelhavam a brisas ou espirais de vento.
Deixando as lembranças nostálgicas de lado, a ex-estudante retoma o foco principal de encontrar-se com a família dos Risch na banca do mercado próximo ao centro, como já era seu costume ao final de cada expediente, se virando rapidamente e girando a maçaneta atrás de suas costas, fechando tudo antes de colocar os pés na rua. Kisubana, andou vários metros pelas estradas da capital até chegar perto do que parecia uma parada onde diversos cidadãos aguardavam ociosos entre duas placas de ferro, sinalizando aquele espaço como um ponto de espera de carruagens, a jovem observa aquilo e refletiu como algumas coisa são bastante similares em ambos os mundos. No momento exato em que os demais indivíduos ergueram as mãos, acenando para poder chamar por seus transportes, Tsuru repetiu o gesto apontando o polegar para cima, contudo ao imaginar que a concentração de pessoas poderia atrapalhar sua visibilidade, decidiu que necessitava de deslocar-se para frente, porém, sem tomar o devido cuidado ao transpassar seus obstáculos, acabou ocasionando numa colisão com um sujeito encapuzado, levando ambos ao chão.
📢 Arght! Mi...mil perdões, você tá bem? – A jovem fala um tanto assustada e constrangida com a situação, enquanto tenta se levantar com certa rapidez, indo até a pessoa para lhe oferecer ajuda.
Ao checar seu estado, Tsuru percebe através de seu tom de voz que a pessoa caída era uma moça como ela, ficando aliviada quando esta lhe assegurou que o tombo de outrora praticamente não a prejudicou, assistindo-a ficar de pé sozinha, dando para notar de relance algumas mechas de cabelo azuis escapando do manto marrom tremulando com o vento. Focando novamente em atrair a atenção de um veículo, Kisubana acaba notando uma oportuna parada de um destes, juntando-se com mais duas pessoas que subiram nele, ela se aconchegou bem na traseira, sabendo por sua própria experiência que o cocheiro comumente realiza pequenos desvios da rota original, o que sempre ocasiona em atrasos, mas a jovem não se incomodava, mesmo com as expressões de preocupação que sua colega faz ao se reencontrarem toda vez.
📢 (Raksha disse que, por causa de problemas internos, as relações entre Lugnica e outro reino ficou instável. Ultimamente tem ocorrido muita movimentação dos cavaleiros até as fronteiras, espero que as coisas não comecem a escalar) – Tsuru refletia em sua mente, alheia as conversas paralelas dos passageiros, meramente acompanhando a paisagem enquanto seu meio de transporte se movia, reparando em um desfile de inúmeros soldados de branco montados em seus próprios dragões e acenando para a multidão em uma rua próxima.
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