Notas iniciais
Pode me matar, torturar e mais o que quiser fazer comigo... mas eu consegui escrever! Vou começar a trabalhar no próximo! Espero que gostem desse.

Capítulo 12 – A verdade

Passaram-se duas semanas de convivência. Raiane retornou a faculdade e Ismael conseguiu um emprego de meio período como barman em um restaurante perto do apartamento. Nenhum dos dois parou para pensar em como era estranho duas pessoas que se encontraram no metrô simplesmente passarem a morar juntos.

Raiane não estava nenhum um pouco incomodada com a presença de Ismael, mas ele sentia-se inquieto com a situação. Nos dias que se passou ele não teve nenhum pesadelo significante, mas o seu medo era Raiane querer saber o que havia acontecido... Mesmo ela não tendo dito nada.

Fazia dois dias que havia começado o treinamento no novo emprego e percebeu que estava se adaptando até que bem a tudo aquilo. Rogério, o gerente, era simpático e colega de Raiane e por pedido dela o ajudou, mas não imaginou que o garoto aprendesse tão rápido e fosse tão dedicado.

Quarta-feira, sete horas da manhã, estavam os dois acordados. Raiane havia feito o café e deixou o pão na torradeira, pediu para que pegasse as torradas quando estivessem prontas e foi tomar um banho rápido. Havia mudado o horário de sua faculdade para a noite por que fora promovida na biblioteca e precisava passar um tempo maior lá. O projeto que tinha ajudou a preparar a levou a ser a assistente da organizadora de eventos da biblioteca, não havia tido um grande aumento, mas qualquer coisa já ajudava.

Tudo estava correndo muito bem tanto com Raiane e Ismael quanto as coisas entre eles. A família de Raiane não ligava mais e ela preferia as coisas daquela maneira, sentia-se mais feliz agora e as semanas que se passaram foram as mais intensas de sua vida.

Mas ainda havia algo não resolvido. Um problema esquecido pelos dois. A família de Ismael. Raiane se lembrou disso quarta-feira às onze horas, quando os dois já estavam sentados comendo uma lasanha comprada pronta.

– Ismael? – ela comeu uma garfada decidindo como abordaria o assunto.

– Sim? – ele respirou pesadamente e levantou-se para pegar mais um pedaço da lasanha. Como ele come meu Deus! – Raiane?

– Ah – ela voltou para a realidade e resolveu ir direto ao assunto. – Sua família não te procurou ainda?

Houve uma pequena pausa e Ismael suspirou virando-se para Raiane com um pequeno sorriso.

– Eu te disse que fui expulso, não foi? – pegou seu prato e voltou para mesa. – Não há motivo para me procurarem. Além de que, se quisessem saber já teriam descoberto tudo. Meus pais tem um tipo de dom para descobrir as coisas que querem.

Os dois ficaram em silêncio por mais alguns segundos até Raiane decidir que estava na hora deles esclarecerem algumas coisas. Conteve um suspiro e resolveu começar por si mesma.

– Sabe Ismael, eu tive uma infância bem solitária – ele a olhou confuso e ela apertou os lábios. – Eu era muito doente e meus pais gastavam muito dinheiro com remédios e outras coisas, não estou me fazendo de coitada, mas era como se eles estivessem preparados para a minha morte a qualquer momento... Talvez seja por isso que nunca se aproximaram de mim.

“Tália era a minha companhia mais fiel, sempre foi assim, e até os meus cinco anos eu amava meus pais devotadamente. Foi quando eu tive uma crise respiratória. Comecei a tossir sangue e vomitar... Todos acharam que eu iria morrer naquele momento, mas não foi bem assim. Acabei ficando internada e a única pessoa que estava ali era Tália. Ela dizia que meus pais estavam conversando com médicos e não podiam me ver, mas eu sabia que era mentira.”

Raiane sorriu tristemente e apoiou o queixo em sua mão e o cotovelo na mesa.

– Foi nesse momento que eu decidi que assim como eles não se aproximavam de mim eu também não queria me aproximar deles. Como você pode ver eu estou aqui inteira se não por um milagre ou pela força que minha irmã me deu... O que acha de me contar sobre como foi a sua infância?

Ismael piscou fortemente e se preparou para dizer mais uma vez “não quero falar sobre isso”, mas algo o impediu. Raiane não teve a melhor das infâncias e não havia problema de contar a ela, certo?

– Não vou te julgar... – ela disse. – Foi algo com a sua família?

Ele assentiu. Não queria falar. Raiane suspirou.

– Vamos fazer assim então. Faço perguntas e você me responde, certo? – ele assentiu. – Ok... Foi na sua infância. – ele assentia. – Foi sua mãe? – ele negou. Ela apertou os lábios. – Foi seu pai? – ele negou novamente e Raiane mordeu o seu lábio inferior.

– Foi meu padrasto – ele disse em um sussurro. – Foi ele – ao perceber o olhar dela ele riu levemente. – Não, ele não me batia.

– Mas então o que... – foi quando ela finalmente. Ela levou a mão à boca e ele não quis encará-la, não queria ver um olhar de nojo. Não queria aquilo de novo. – Ele te estuprou?

Nunca teve coragem de dar nome aquele ato e quando ela pronunciou aquela palavra ele irrompeu. A cena que se seguiu era impossível de se descrever. Estavam ali um Ismael em surto, tapando as orelhas, chorando e gritando e uma Raiane atônita sem saber o que fazer. Ela se chamou de todos os nomes possíveis pela sua falta de tato e sua estupidez. Como pode falar uma coisa daquela? Como pode deixá-lo pior do que estava quando teve aquele pesadelo? Como eu sou cruel.

Ela o abraçou e tinha certeza que iria ficar com marcas pela força que ele fazia para ela soltar ele. Tudo parecia estar em câmera lenta e os sons não pareciam existir para Ismael. Sua mente havia ficado em branco e tudo que conseguia escutar era a voz daquele homem.

Dez minutos de desespero. Dez minutos que Raiane passou tentando acalmar Ismael. Dez minutos que Ismael passou em um apagão total da realidade. Dez minutos de horror para os dois.

Acalmaram-se então. Ismael parou de gritar, mas tremia incontrolavelmente e murmurava baixinho. Raiane não sabia o que fazer, estava abraçada com ele fazia dois minutos e suas costelas estavam doloridas. Ela então o beijou.

Virou o rosto de Ismael para ela e os olhos assustados dele a encararam de forma triste então o beijou. Ele arregalou os olhos, mas foi esse o golpe de realidade que o trouxe de volta. Mas que merda eu fiz? Eu quero morrer. Eu não mereço esse beijo. Pensamentos assim corriam por sua mente, mas morreram assim que Raiane aprofundou o beijo.

Ele estava com as costas embaladas pelos braços de Raiane, mas suas pernas estavam esticadas no chão. Inclinou mais a sua cabeça, para buscar mais daquela sensação angustiante que estava sentindo. Raiane subiu as mãos e segurou a nuca dele com uma e o cabelo dele com outra, passou uma perna para o outro lado do corpo dele e sentou-se em seu colo.

As mãos de Ismael foram à cintura de Raiane e a puxou para mais perto. Nenhum dos dois planejava se separar naquela hora, mas ainda eram serem humanos dependentes de oxigênio. Separaram-se e as mãos de Ismael relaxaram e ele respirou cansado. As testas deles ficaram encostadas e parecia que ambos estavam cansados demais para falar alguma coisa.

– Desculpa – ela disse e ele gelou. – Eu não queria ter feito você passar por isso.

Ismael percebeu então que ela não estava com nojo ou querendo se afastar dele. Seu rosto deveria estar inchado e vermelho, sua garganta doía, mas seu coração estava apertado. Não estava acreditando que ela estava pedindo desculpas. Mais algumas lágrimas escorreram por suas bochechas e ele sorriu.

– Porra, como eu amo você – ele disse e a beijou.

Ela piscou e sorriu, fazendo seus dentes baterem, os dois se separaram reclamando da dor, mas logo voltaram ao que estavam fazendo. Ele conseguiu forças para se levantar com ela abraçando sua cintura com as pernas e envolvendo sua nuca com as mãos. Entrou no quarto dela batendo em algumas coisas no caminho. Ela murmurou alguma coisa que ele não entendeu e sentou na cama com ela ainda em seu colo.

Os dois estavam ofegantes, quentes e excitados. Raiane não sabia o que fazer e quais seriam as consequências do que estavam prestes a fazer.

– Foda-se – ela disse entre um beijo.

– O que? – ele perguntou confuso, ela riu.

– Só me beija.

Não era exatamente uma resposta ruim.

Notas finais
Por favor, deixem comentários... sim?