Rainy Days
3 Dia 3 - Parte um
Notas iniciais
Gotas grossas escorriam pela janela do taxi em movimento, fazendo com que a paisagem lá fora ficasse confusa. Dipper coçou a testa, tentando disfarçar o fato de que suas mãos tremiam. Seis anos... Nenhuma festa de família, nenhum telefonema, absolutamente nenhum contato. Tudo perfeitamente planejado para que fosse esquecido. Ou talvez apenas superado, considerando que ele já havia aceitado o fato de que Mabel sempre seria seu último pensamento antes de dormir para o resto da vida. E agora ela iria estar lá.
Suspirou quando as ruas e casas começaram a parecer familiares. O feriado de ação de graças seria na próxima semana, mas sua família já estava se reunindo. Talvez essa fosse a pior ocasião possível para um reencontro, com todos os parentes no mesmo lugar. Imaginou se haveria algum tempo para conversar... E, sério, eles precisavam muito conversar.
Um nó se fechou na garganta do rapaz quando um estranho pensamento lhe percorreu a cabeça, “e se ela me odiar”. Não, Mabel não era nem um pouco capaz de odiar alguém. Mas talvez ela ainda estivesse brava. Ou talvez... Dipper engoliu em seco e encarou os próprios joelhos, sem notar que os estava apertando com muita força. Talvez ela já tivesse mesmo esquecido, talvez não se importasse mais. Suspirou. Esse não tinha sido o plano desde o começo? Um calafrio lhe percorreu a espinha. E se Mabel não o reconhecesse?
— Você está bem? Parece meio... Verde.
Dipper levantou os olhos em direção à figura ao seu lado. Nancy havia acabado de acordar, mas suas olheiras continuavam acentuadas. A viagem de avião não a havia feito bem. Seu cabelo loiro e curto estava completamente bagunçado, mas ela parecia não se importar. Tinha a expressão sóbria que ele precisava para voltar à realidade. Nancy havia sido uma amiga que mesmo sem saber o que tinha se passado, o ajudou a lidar com os dias difíceis na faculdade. Era natural que estivessem namorando, certo?
— Estou bem. – Respondeu pensativo.
— Dipper, eu te conheço. – Nancy levantou uma sobrancelha. – Mas você precisa confiar mais em mim. Nós nunca falamos sobre sua família e eu respeito seus motivos. Só que já está na hora de eu saber com quem vou conversar daqui a quinze minutos.
— Você está certa. – Ele coçou a nuca, forçando um sorriso nervoso. Quando é que Nancy não estava certa? Por um instante se encararam com seriedade. Uma hora ele teria que fazer isso, de qualquer forma. – Eu conto o que quiser saber.
— Vamos ver. – Ela levantou os olhos, pensativa, para depois encará-lo. – Sobre seus pais, o que eles fazem, como eles são?
— Meu pai é um cara alto de óculos e minha mãe é bastante parecida comigo. Ambos trabalham em escritório.
— Nossa, eles definitivamente parecem pais bem normais.
— Eles são pais bem normais. – Dipper sorriu. Não pensava que um dia conseguiria falar da família sem algum remorso. Parece que estava enganado. Provavelmente seu plano já tinha dado certo há muito tempo e ele só estava pensando demais sobre tudo de novo. Na certa ele iria chegar à reunião de família e ficaria se perguntando por que os evitara todos aqueles anos.
— E sua irmã? Como é mesmo o nome dela? – O rapaz congelou, subitamente lembrando-se do motivo de tê-los evitado. Nancy deve ter percebido a sua mudança de humor, já que prosseguiu em um tom mais baixo. – Me desculpa. Não precisamos falar sobre isso se você ainda a odeia...
— Eu não odeio! – Dipper freou-se ao notar a expressão de assustada da moça. Gritar com Nancy não iria leva-los a lugar nenhum. Mas ainda assim, não pode deixar de ficar surpreso com o que dissera. Era isso que parecia, que ele a odiava? Será que Mabel pensava dessa forma também? Abaixou a cabeça, como em um pedido de desculpas, e coçou a nuca. – É que... É complicado...
— Ela é mais velha?
— Não. – Dipper conteve o riso ao perceber que sua vida familiar estava uma bagunça enorme a ponto de nem isso ele contar para a namorada. – Nós somos gêmeos.
— Sério? – Os olhos de Nancy brilharam um pouco mais. Todo mundo tem essa coisa com gêmeos afinal. – Bem, isso faz mais sentido com o lance dos nomes... Então vai me dizer que ela é uma típica irmã normal também e você só está exagerando como com seus pais?
— “Típica irmã normal” não é muito próximo da realidade da Mabel... – Ele levantou os olhos. – Espera aí, como você sabe o que eu estava pensando agora pouco?
— Dipper, eu sou formada em psicologia. Eu leio mentes, esqueceu?
— Oh sim, os estereótipos estão se concretizando no mundo. Vamos ter que investigar a causa dessas anomalias.
— Você e os seus “mistérios da natureza” – Nancy rolou os olhos com um sorriso. Obviamente ela não acreditava em nenhuma história sobre Gravity Falls ainda que ele pudesse provar algumas delas, o que era estranho, pois a pesquisa de Dipper estava diretamente ligada à anomalias. – Mas voltando ao assunto... Mabel?
— Bem. – Dipper suspirou com a imagem da irmã se formando em sua cabeça. – Ela é barulhenta, completamente viciada em suéteres coloridos, cola adesivos com glitter em tudo o que se mexe e tem um porco de estimação com o qual fala praticamente o dia inteiro.
Era estranho lembrar concretamente de Mabel depois de tanto tempo. O colégio, as tardes que passaram juntos vendo televisão quando crianças, as aventuras de verão com os tios-avôs, a forma como ela deitava a cabeça em seu ombro com o único objetivo de receber um beijo na testa, os cabelos rebeldes cheios de qualquer coisa com a qual ela estivesse se divertindo, as brincadeiras bobas, a risada...
— E ela trabalha? – Dipper piscou ao perceber que Nancy ainda o estava encarando.
— Eu não sei... – O rapaz abaixou a cabeça e franziu as sobrancelhas. – Ela estudava artes plásticas antes de... Bem, você sabe.
— Não, eu não sei. – Nancy mantinha uma expressão séria, quase como se estivessem em uma consulta. Algumas vezes essa postura o irritava, mas agora estava funcionando, talvez. – Mas pelo que eu entendi, parece o famoso e totalmente normal caso de irmãos tão diferentes que nunca poderiam se dar bem. Acertei?
— Bem... Não exatamente. – Dipper coçou a nuca. – Não que a gente não seja bastante diferente... A Mabel tem seus momentos, mas ela é uma das pessoas mais carinhosas e atenciosas que você poderia conhecer. Até com as pessoas que considera rivais ela acaba fazendo amizade. Não tem como não se dar bem com Mabel.
— Dipper, eu não estou entendendo nada. Você age como se não se gostassem, mas fala como se fossem super próximos. O que aconteceu entre você e sua irmã de tão problemático assim?
O rapaz encarou o estofado do banco da frente e por um momento se perguntou se os pontinhos eram estampa ou furos. Suspirou, levando a mão a testa. Não havia como contar a verdade. Ele havia prometido a si mesmo que não voltaria a tocar “naquele” assunto. Precisava dizer alguma coisa substancial ou Nancy não pararia de perguntar.
— Nós... Bem, nós éramos muito próximos, sabe? Gêmeos e tal... e daí, ahn... bem... Olha, é complicado, ok?
— Eu percebi. – Nancy pôs a mão no ombro de Dipper como um gesto de acalmá-lo. Funcionava melhor do que ela imaginava. – Em pouco tempo a gente vai chegar. Provavelmente a melhor solução vai ser encará-los de uma vez por todas. Você vai ver. Tudo vai melhorar assim que a gente sair desse carro.
Dipper a observou em silêncio por um instante. “Tudo vai melhorar”, era o que ele mais queria acreditar. Não sabia exatamente onde encaixar o pensamento. Mabel estaria lá. Depois de tanto tempo, era a única coisa que ele conseguia conceber sobre o evento. Forçou-se a engolir o nó que se fechava em sua garganta e manteve a cabeça abaixada e os olhos fechados até que finalmente o carro parou.
Desceram e pegaram as malas sem muitas complicações. Dipper levantou os olhos para enxergar o local onde haviam combinado de encontrar os familiares. A casa da Tia Maggie estava visivelmente cheia de pessoas que ele não conhecia. O toque de Nancy em seu ombro aliviava o fato de que cada degrau ficava mais pesado de subir. Pôs a mão na maçaneta e a girou depressa.
A conversa animada na mesa de jantar silenciou conforme cada olhar de espanto o reconhecia. Dipper sentiu uma mistura de vontade de vomitar com um impulso de sair correndo. Percorreu com os olhos toda a sala. Lá estavam sua mãe, seu pai, alguns tios e primos... A quem ele queria enganar? Só havia uma pessoa que ele procurava naquela confusão toda.
Engoliu seco quando ela entrou pela porta da cozinha, parando imediatamente após reconhecê-lo. Estava usando um suéter preto em cima de um vestido da mesma cor. Seus cabelos longos, completamente rosa. Parecia mais velha, mais adulta. Dipper estava lutando para respirar sem começar a arfar. O silêncio preencheu o ar em um instante. Precisava dizer alguma coisa, mas seus ouvidos zuniam e tudo que conseguiu fazer foi contrair os lábios.
Um par de braços o envolveu pelo pescoço. Sem notar, ele a estava abraçando também. Enterrou o rosto em cachos cor-de-rosa, enquanto a apertava contra si. O cheiro da Mabel se misturava a um perfume floral fresco. Era como se não houvesse mais ninguém naquela sala. Um instante só deles. Dipper não sabia o quanto ansiava por isso até aquele momento.
Escutou a voz de sua mãe chamando-o, quase como uma interrogação. A lembrança súbita de onde estavam os fez se afastarem tão rápido quanto conseguiram. Com a sala inteira tendo os olhos nos dois, Dipper se perguntou quantas daquelas pessoas sabiam a verdade. Pela forma como seus pais conduziram tudo, provavelmente ninguém além deles próprios.
Segurou os cotovelos, apreensivo com a aproximação dos pais logo depois da “cena” anterior. Mas é claro que tudo que ele menos esperava eram abraços calorosos e felizes por reverem o filho depois de tanto tempo. Logicamente, tudo aconteceu do modo mais normal e sensato possível e é claro que ele estava pensando demais em tudo.
— Achei que não fosse te ver outra vez. – A voz de sua mãe era exatamente igual à de sempre, mas ainda soava estranha. Na verdade, tudo parecia estranhamente igual ao de sempre. – E por falar nisso, Dipper trouxe uma moça bonita para casa.
O rapaz acompanhou os olhares, que se fixaram em Nancy. Ela estava perceptivelmente detestando a atenção, mas colocou um sorriso amarelo no rosto e acenou um gesto pequeno com a mão. Houve um momento de apresentações em que, obviamente, os encheram perguntas invasivas.
.
Não houve mais tempo para muita coisa. Tarefas começaram a ser designadas e, por boa parte da tarde, Dipper quase não conseguiu ver mais a irmã. Em algum momento, precisou entrar no quarto da Tia Maggie ou “o único cômodo magicamente vazio da casa” para respirar um pouco. Percebeu a maçaneta girando e logo ele e Mabel estavam sozinhos. Era a melhor situação que poderiam encontrar para conversar durante todo o dia. Tinha certeza de que ela própria estava lá por conta disso.
Dipper observou a irmã abrir a porta do armário de bichos de pelúcia “que jamais devem ser tocados” e retirar um cachorrinho branco com uma mancha marrom perto de um dos olhos. Ainda não havia se acostumado totalmente ao cabelo pintado, mas o que lhe chamou a atenção foi um pedaço de desenho na perna que o vestido não cobria. Quando Mabel tinha feito uma tatuagem e porque a mamãe não pirou sobre isso?
— Ouvi dizer que meu irmão é o nerd mais nerd da terra dos nerds – Ela colocou o cachorro de volta e pegou um coelho azul com duas pedras no lugar dos olhos. Dipper olhou apreensivo para a porta, imaginando o que aconteceria se Tia Maggie resolvesse entrar no cômodo. – Ainda pesquisando sobre Gravity Falls, né? Tio Stan me contou que você os telefona quase mensalmente.
— Na verdade, – Dipper esboçou um meio sorriso pela capacidade de falar sobre isso com mais alguém. Havia decidido que era muito perigoso sair mostrando suas pesquisas para todo mundo, mas Mabel era diferente. Eles haviam vivido isso tudo juntos. Praticamente correu até a mochila e enfiou a mão, apressado, sob os olhos curiosos da irmã. – Acho que você vai gostar disso aqui. – Retirou a lanterna que aumenta e diminui as coisas com cuidado. Já estava velha, mas ainda funcionava. – Eu estive estudando as propriedades físicas dessas pedras, é muito interessante, por sinal. Acho que muito em breve vou conseguir replicar em laboratório. Imagina as possibilidades de uso...
Antes que pudesse completar a frase, Mabel já havia retirado o objeto de suas mãos e estava do tamanho do armário. Dipper protestou e pulou para alcançar a lanterna na mão da irmã, mas não entes que ela o acertasse no braço, deixando-o extremamente comprido.
— Você é o slanderman. – Mabel apontou com a mão livre. Então apontou para o próprio rosto e diminuiu a própria cabeça. – E eu? Eu sou Brian Martinez do segundo ano. Olha como meus músculos são enormes.
— Mabel... – Dipper queria dizer o quanto aquilo era perigoso, mas precisou segurar uma gargalhada quando ela fez a pose de halterofilista clássica que Martinez repetia para cada garota da escola. A imitação dela estava perfeita, ok?
— Olha quem está rindo, o senhor fiquei sem senso humor depois que fui para a faculdade. Não acha que eu deveria afinar mais as pernas para ficar perfeito? – Mabel apontou a lanterna para as pernas e as diminuiu. Era nojento e engraçado ao mesmo tempo. – Da só uma olhada nesses bíceps, baby. Você já viu algo tão maravilhoso antes?
— Definitivamente não. – Ele ainda ria quando estendeu a mão para que Mabel o entregasse a lanterna. – Agora me deixa consertar a bobeira.
— Você não pode consertar a bobeira, irmãozinho. – Mabel devolveu prontamente o objeto. Ainda estavam rindo enquanto voltavam a ter as proporções corretas. – Tem que admitir que você adora a bobeira.
Dipper concordou preguiçosamente, deixando um silencio no ar. Mabel o encarou com um sorriso tímido, que ele se pegou retribuindo. Era a primeira vez em muitos anos que estavam tendo uma conversa normal, como costumava ser quando crianças. Finalmente sentiu que poderia ter sua irmã de volta, que poderiam ser uma família normal outra vez.
O par de olhos castanhos continuava sobre ele com uma expressão que já deixara de ser sorridente. Ele precisava pedir desculpas pela forma como havia ido embora aquele dia. A lembrança do som de soluços se misturando ao de chuva lhe trouxe um nó à garganta que ele já esperava ter superado.
Mabel apertou os lábios. Estava cada vez mais difícil sustentar o olhar e ainda assim ele não conseguiria desviá-lo. Teve vontade de correr e abraça-la e dizer o quanto sentira saudades. Mais do que tudo, queria que nunca mais ficassem separados daquela forma outra vez. Cerrou os punhos, temendo o que aquilo poderia querer dizer. Quase conseguia sentir o coração bater nos ouvidos.
— Ah vocês estão aí. – Nancy entrou no quarto, casualmente seguida pela sogra, que carregava uma camiseta vermelha dobrada no braço. Dipper percebeu o olhar da mãe se estreitar, em uma expressão que misturava pergunta e acusação, ao encará-los. Já Nancy não parecia nem um pouco ciente do que estava acontecendo e continuou conversando casualmente sem se importar com as respostas curtas que ele dava. – A proposito, amor, eu não consegui me segurar sobre nosso segredinho.
— O que? – Dipper quase engasgou as palavras.
— Eu não acredito que vivi para ver meu filho ser pedido em casamento assim. – Dipper viu sua mãe dar uma cotovelada amigável em Nancy, incrédulo.
— Bem... – Ele respondeu quase cuspindo. – Nós ainda estamos considerando a hipótese...
— Corta essa, Dipper. – Nancy interveio, parecendo brava. – Não tem por que esconder isso da sua família por mais tempo.
— E vocês já marcaram a data? – A voz de Mabel estava completamente normal. Dipper encarou-a receoso, mas ficou surpreso com uma expressão calma. Ela estava lidando melhor com aquilo do que ele próprio.
— Para o meio do ano que vem. – Nancy coçou a cabeça, pensativa. – Algo entre julho e agosto. Nós ainda precisamos discutir uns preparativos em família, mas é claro que você vai ser nossa madrinha, não é, irmã?
— Ah, querida. A Mabel não falou para vocês? – Dipper escutou a voz de sua mãe com um tom de tristeza e agitação ao mesmo tempo -- Ela vai se mudar para a Europa semestre que vêm. Parece que um programa de artes em Paris não se esqueceu dela... Esse é o ruim de ter dois filhos gênios, ambos acabam só voltando para casa no Natal.
Dipper olhou para a irmã, incrédulo. Sim, ele sabia que não tinha direito de discutir com aquilo, principalmente depois de tudo que tinha feito. Mas não conseguiu deixar de sentir uma ponta de decepção. Depois de anos separados, agora a única coisa que queria era ter a irmã por perto para voltarem a ser uma família. Engoliu em seco. A última coisa que tinha razão em fazer naquela situação era protestar.
— Parece incrível. – Nancy tinha um brilho a mais nos olhos. Ela secretamente adorava a França e tudo o que vinha de lá. – E você já sabe falar francês?
— Eu tenho feito cursos. Sabe como é... línguas latinas e suas dificuldades. Sabia que em francês você tem que saber mais matemática para contar do que a matemática normal de contar?
— Eu imagino. – Nancy esboçou um sorriso, quase deixando claro que não tinha entendido. – Sabe, eu adoraria poder ir visitar um dia. Quem sabe, agora que nós vamos ter uma parente para nos abrigar, essa fica sendo uma ótima chance, não é, amor?
— Quem sabe? – Dipper respondeu olhando para os próprios pés, sem se importar com o clima estranho que ele próprio havia criado sozinho.
Um pequeno silêncio se seguiu.
— Ei, que tal se você e Mabel fossem ao mercado rapidinho? Nós estamos sem leite e ovos para alimentar essa gente toda. Eu estava falando com sua mãe que nós iríamos, mas parece que vocês dois querem conversar um pouco, não é?
Antes que qualquer um pudesse protestar, Nancy os empurrava pela sala ate a porta da garagem repetindo a lista de coisas que eles precisavam trazer. Dipper tinha que concordar, se alguém tinha um poder de persuasão infalível, esse alguém era ela. Mabel já estava quieta no banco do carona quando a moça deu a volta para onde o namorado esperava de pé com uma expressão de desgosto.
— O que está fazendo? – Dipper perguntou baixinho, antes de abrir a porta do carro.
— Eu vi o climão no quarto agora pouco antes de a gente chegar. – Ela sussurrou de volta, checando a atenção da cunhada. -- Vocês estavam brigando outra vez, não foi? Vamos lá Dipper, depois de tanto tempo vocês precisam se resolver.
O queixo de Dipper caiu. Mas é claro que Nancy tinha notado. Que burrice pensar o contrário. Obviamente, porém, ela não podia adivinhar que o motivo do “climão” não era exatamente uma briga e que ela estava piorando tudo colocando os dois em um carro e mandando sair de casa. O rapaz tentou pensar em algo para responder da melhor maneira que pode, sem saber se seria melhor concordar ou discordar, mas foi empurrado para dentro do carro antes de conseguir decidir.
O tchauzinho de Nancy ficou para trás conforme se distanciavam. Dipper procurou se concentrar no ato de dirigir mais do que na presença ao seu lado. Seja o que for que Mabel estivesse fazendo, nenhum dos dois disse uma palavra durante o trajeto. Não foi preciso procurar muito até encontrarem uma vaga no estacionamento do supermercado, mas assim que o pararam, ninguém se moveu.
O barulho da chuva sobre o carro foi o único som que se podia ouvir por um bom período de tempo. A lista de compras já havia sumido completamente da cabeça do rapaz. Não demorou muito para que as janelas começassem a embaçar, mesmo com o aquecedor desligado. Dipper arriscou uma olhada para o lado e percebeu que mesmo com o suéter, Mabel se encolhia.
De súbito ela levantou os olhos, encontrando os do irmão com uma expressão de dúvida. Sentindo as bochechas queimarem, ele voltou a encarar o vidro o mais rápido que conseguiu. Mais um instante de silêncio se seguiu até que Mabel suspirou alto o suficiente para que fosse notada. Nancy tinha razão, eles precisavam conversar. E talvez aquela fosse a melhor hora. Mabel provavelmente achava o mesmo, pela forma como estava agindo. Pensou em como puxar assunto por um segundo até que algo lhe veio à mente.
— Então você vai para Paris.
— Então você vai se casar.
Os gêmeos se entreolharam ao perceberem que tinham falado ao mesmo tempo. Os olhos de Mabel pareciam querer uma resposta, mas Dipper não conseguiu dizer qual era o sentimento dela em relação a tudo isso. Talvez, se aceitasse numa boa, isso seria um ótimo motivo para resolverem tudo de vez.
— Parece que sim. – Dipper coçou a testa, tentando forçar um sorriso. – Foi tudo meio que de repente. Nós estávamos na faculdade quando nos conhecemos e acabamos ficando amigos. Ela tem boas conversas... Existenciais, sabe...
— Você a ama?
Dipper apertou os lábios diante de uma pergunta tão objetiva. Era algo que ele vinha se perguntando desde que toda a história do casamento surgira e já havia se convencido de que sim. Quer dizer, não que ele não gostasse de Nancy... Eles tinham toda uma história bonita juntos. Talvez fosse uma crise existencial vinda da pressão do que “casamento” significava.
E agora Mabel estava diante dele com um olhar sério que ele nunca vira. Ainda assim, mesmo com o cabelo pintado e cinco brincos em cada orelha, era exatamente o mesmo rosto que ele se forçou a esquecer durante muito tempo. Não conseguiu parar de pensar no quanto tudo aquilo estava sendo surreal de alguma forma.
Dipper respirou fundo, tinha o coração na boca. Apenas uma resposta simples colocaria um fim a tudo. Era o que ele precisava dizer. Era o que ele precisava dizer agora. Era a melhor forma de resolver tudo e colocar um ponto final nessa história. Era o que ele precisava dizer... para ter ela de volta.
— Sim. – Respondeu, juntando toda a força que pôde para encara-la. – Eu a amo.
Mabel abaixou a cabeça por algo como alguns segundos. Dipper se perguntou se ela estaria triste. Apertou os punhos ao notar a chuva mais uma vez. O choro desesperado da irmã, naquele dia ainda ecoava por sua cabeça. Sentiu os olhos queimarem, mas empurrou as lágrimas de volta. Tudo que ele não podia fazer era desabar naquela hora.
Mabel levantou os olhos devagar. Se havia alguma tristeza neles, Dipper não notou. Na verdade, o fato de que ele não conseguia mais notar o incomodava. Então era isso, Mabel já havia superado, muito melhor do que ele próprio, qualquer coisa do passado. Aquilo deveria fazê-lo se sentir bem, certo? Considerando que o motivo da conversa era para que ela não sofresse, certo?
— Ela parece ótima. Tão inteligente quanto você. – Mabel pontuou, com um sorriso no rosto. – E passou a tarde inteira conversando com a mamãe, algo bom deve significar.
— Nancy tem um poder de conversa que até me assusta. – Dipper olhou para o painel desligado, sem notar mais o que estava falando. – Às vezes ela lembra você quando éramos mais novos.
— Bem, então acho que vou me dar bem com a minha nova cunhada. – Mabel desenhou casualmente uma estrela no vidro da frente embaçado. – Sobre a ideia de ser madrinha, eu sinto muito, mas acho que não vou conseguir...
— Tudo bem.
Dipper admirou-se com a casualidade de suas palavras. Abriu a porta do carro e saiu para a chuva. Escutou a porta do carona bater antes de saírem correndo até a entrada do mercado. Por fim, ficaram molhados do mesmo jeito. Mabel espremia os cabelos em baixo da marquise com dedos que tremiam nervosamente.
Observá-la era como uma mistura de sentimentos indefinidos. Estava feliz, tão feliz que poderia abraça-la ali mesmo. Mabel levantou os olhos e esboçou um sorriso calmo e confortador. Sincero da forma que só ela poderia fazer. Dipper respirou fundo, sentindo como se algo estivesse lhe apertando o peito.
Ainda doía. E talvez nunca fosse deixar de doer, mas isso era algo que ele precisaria aprender a lidar. Havia criado a situação mais perfeita possível para que nada fugisse do controle. E afinal eles estariam sempre juntos. Eram gêmeos, melhores amigos desde que conseguiam se lembrar. Retribuiu a expressão, sustentando o olhar por alguns segundos.
— Mabel... – Disse com uma voz grave.
— Sou eu. – Ela respondeu no mesmo tom.
Um instante de silêncio se instalou em que os irmãos deixaram-se observar um ao outro. Estavam diferentes, mais velhos e talvez até mais sérios. Haviam perdido muito tempo e nem todas as palavras da terra poderiam trazer isso de volta. Mas sabiam, apenas pela troca de olhares, que nenhum dos dois estava disposto a deixar aquilo acontecer de novo. Não daquela forma, por mais longe que estivessem. Dipper suspirou antes de continuar a frase.
— Você se lembra do que a gente veio comprar?
— Olha irmãozinho, – Mabel girou nos calcanhares e apontou para dentro do supermercado. – Acho que vamos ter que improvisar.
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