Rainy Days
4 Dia 3 - Parte dois
Notas iniciais
Correram até o carro tentando se proteger da chuva usando as sacolas que seguravam. Colocaram as compras de qualquer jeito no banco de trás logo depois de sentarem. Dipper correu as mãos pelos cabelos molhados, que formavam ondas grudadas em sua testa. Se perguntava da onde tinha vindo tanta chuva. Seus pés estavam molhados de forma que há muito não ficavam. Ele quase não conseguia mais se lembrar da última pesquisa de campo, por exemplo, mas só a presença de Mabel já o fazia se sentir em uma aventura. Principalmente com a coletânea de boas lembranças que acabaram por citar enquanto faziam compras.
Virou a chave e esperou pouco até que o motor ligasse. Mabel fez um coque cor-de-rosa da melhor maneira que conseguiu. Enquanto arrumava alguns cachos atrás da orelha, Dipper notou outra tatuagem bem naquele lugar e não conseguiu evitar de se inclinar para enxergar. Mabel percebeu a curiosidade do irmão e se virou para mostrar o pescoço, orgulhosa. Estava escrito “oink” com uma letra corrida que terminava em um rabinho de porco.
— Agora eu sou um pouquinho mais como você – Mabel apontou para a própria testa em menção à marca de nascença do irmão. – Não sei como você ainda se preocupa tanto em esconder.
— Do jeito como fala é como se isso não estivesse bem no meio da minha testa. – Dipper respondeu com um sorriso, imitando o gesto de apontar da irmã na direção do próprio rosto. – Eu não tenho ideia de como foi que você fez que a mamãe não pirou.
— Mas ela pirou. Você precisava ver, ficou sem olhar para a minha cara durante uns três meses. Depois a agitação foi passando, ela é boa em aceitar as coisas com o tempo sabe... Bem, parece que deixou mesmo de se incomodar depois da terceira.
“Terceira”. Dipper repetiu em sua mente. Mesmo que sempre soubesse que tecnicamente Mabel era do tipo de garota que, mais cedo ou mais tarde, iria fazer uma tatuagem de verdade, ele estava impressionado com o fato de haver pelo menos três. Uma na perna outra no pescoço, pegou-se imaginando onde estariam as outras. Desceu o olhar do rosto da irmã quase que instintivamente, parando ao perceber que ela franziu o cenho.
Desviou o rosto para o volante do carro ainda estacionado e esfregou a testa quase compulsivamente. Suas bochechas queimavam e ele tinha certeza do quão vermelho ficou. Que droga ele estava fazendo? Mas que MERDA ele estava “imaginando” depois de menos de duas horas da conversa anterior?
— Tem mais uma nas costas, uma grande no braço e uma em baixo do peito esquerdo.
Mabel pontuou casualmente, entendendo exatamente o que ele tinha pensado. De alguma forma só piorou a situação. Dipper não sabia se queria ter escutado sobre aquilo, mesmo que ele próprio tivesse surgido com o assunto. Agora sua mente vagava entre coisas que ele lembrava muito bem e coisas que ele queria não conseguir imaginar.
Definitivamente era melhor falar sobre qualquer outra coisa. Coçou a cabeça e respirou fundo antes de voltar a olhar para a irmã forçando o máximo que conseguiu um sorriso. Se ele não já tinha conseguido deixar a situação obvia antes, depois de cada palavra praticamente robótica que saia de sua boca, não tinha mais como negar.
— Você ainda não me contou sobre Paris.
— Normal, normal. – Mabel deu de ombros – Eu continuo fazendo basicamente a mesma coisa, mas agora sou paga por isso. Sabe como é, bastante trabalho duro, uma ou outra exposição de vez em quando... É fato, sua irmãzinha é boa no que faz. Daí fui fazendo uns amigos aqui e ali. São caras legais. E de repente, bam, eu vou para a Europa.
— Você tem feito exposições? Das que as pessoas pagam para ver? -- Dipper se pegou curioso. Até agora não tinha visto nenhuma arte nova feita pela irmã. Não deveria ser surpresa, já que o trabalho dela era incrível desde quando eram novos, mas ainda era estranho que outras pessoas pagassem para ir a uma galeria cheia de Mabel. Sorriu sozinho ao pensar na possibilidade do conteúdo – Eu queria poder ver...
— Ah Dipper, tem razão. Você pre-ci-sa ver o meu trabalho. – Mabel se inclinou na direção do irmão com olhos brilhantes e um sorriso no rosto. Hesitou por um instante, antes de completar. – Podemos dar uma passada no estúdio que divido com minha colega. Fica aqui na cidade mesmo, bem perto de uma lanchonete de frente para a praia. É uma ótima pedida já que estou com fome e você está disposto a ficar um tempo a mais com a sua irmãzinha, não é mesmo? Que tal, eim? Pronto para umas batatinhas? Batatinhas Batatinhas Batatinhas Batatinhas!
A expressão de da moça praticamente suplicava para que ele acatasse a sugestão, enquanto repetia incessantemente a mesma palavra. Claro que o fator “me leve à lanchonete” era forte determinante naquela situação. Dipper pensou na possibilidade de se atrasar, no que sua mãe iria achar, nas coisas que estavam no banco de trás precisando ir para uma geladeira. Bem, aquela saída juntos havia sido justamente para isso. E afinal de contas, poderia ser a última vez que eles estariam fazendo algo assim nessas condições. Concordou com a cabeça, deixando-se vencer pela curiosidade.
.
A lanchonete vendia uma batata frita ótima, assim como Mabel havia dito. Era um lugar aconchegante e bem iluminado. Sentaram-se de frente um para o outro em uma mesa ao lado de uma parede cuja metade de cima era toda de espelho. Podiam falar alto e despreocupadamente sobre várias coisas, assuntos simples e divertidos. Dipper pegou-se rindo de coisas banais e falando o que lhe vinha à cabeça. Era diferente da faculdade. Era como estar em casa de novo.
Levantaram-se ao terminar de comer e foram até o balcão. Mabel insistiu o suficiente para terminar sendo ela a pagar a conta. O rapaz enfiou as mãos nos bolsos, um pouco incomodado, mas sem saber o que fazer. Olhou para a janela e percebeu que já estava escuro. Saíram para uma varanda estreita que precedia a rua. Mabel começou a procurar algo em sua bolsa até retirar um maço de cigarros e um isqueiro verde limão. Dipper ficou sem reação.
— Você começou a fumar. – Ele disse quase em tom de pergunta, sentindo-se idiota imediatamente após a colocação inútil.
— Eventualmente. – Mabel respondeu em um tom calmo, apoiando-se no guarda-corpo da varanda. – Existem certas coisas com as quais a gente para de se preocupar depois de um tempo. Ou pode ser que as preocupações apenas mudem de lugar, não sei... Quer um?
Negou com a cabeça, pensativo. A imagem da mulher encostada no guarda-corpo de uma varanda soprando uma nuvem cinza enquanto encarava o oceano o instigou. Aquela expressão calma, quase melancólica, que ele não conhecia não parecia nem fazer parte de sua irmã. E mesmo assim ela parecia tão familiarizada com tudo. Desde quando pensava daquela forma? Quantos finais de tarde ela tinha já ido àquele lugar, comer batatinhas e encarar o horizonte? Apertou os olhos, sentindo-se esquisito. Naquele momento, Mabel era quase uma estranha de verdade.
— E como foi que a mamãe não pirou sobre isso exatamente?
— Bem... – Mabel balançou a mão na direção de Dipper quase compulsivamente, derrubando um pouco de cinza sobre o piso da varanda. A expressão em seu rosto acusando “Mabel de sempre, apenas com um cigarro na mão” – Sobre isso exatamente, eu espero que ela continue sem saber.
Dipper fez o sinal de fechar os lábios com a mão que aprendera com a Wendy. Há quantos anos ele não o usava, não conseguia se lembrar. Deixou-se encarar pela irmã durante uns segundos até que ela se voltasse outra vez para a sacada. A ideia de cumplicidade incontestável que tinha com Mabel continuava lá afinal. Sorriu com o canto da boca e apoiou os braços no guarda-corpo tal qual a presença ao seu lado. O vento soprava não muito forte seus cabelos para cima, enquanto a chuva tinha dado uma trégua. De alguma forma, estava feliz.
— Mabel Pines.
Uma voz conhecida soou de dentro da lanchonete, fazendo os dois irmãos buscarem sua fonte ao mesmo tempo. Uma figura baixa de cabelos curtos completamente brancos e óculos redondos se dirigia à Mabel em um tom bastante casual. Dipper pegou-se de frente para a velha professora de artes da escola. Apesar de não ter pegado essa matéria, a reconhecia do tempo em que Mabel praticamente a perseguia nervosamente atrás de orientações diversas. Houve um tempo em que a irmã não falava em outra coisa além das histórias daquela mulher. Como era mesmo o nome dela?
— Sra. Anderson. – Mabel respondeu no mesmo tom casual. – Como estão as coisas na escola?
— Não ouse me perguntar como estão as coisas na escola quando sua passagem para a França já foi comprada. – Sra. Anderson levantou um dedo magro e comprido na direção de Mabel como em um gesto de bronca, quebrado somente pelo sorriso bobo e olhos brilhantes. – Eu não te falei que o Patrick valia a pena? E você também depois daquela ultima exposição, já era de se esperar que uma hora ou outra...
Ela parou de súbito, virando-se na direção de Dipper como se tivesse acabado de nota-lo ao lado da irmã. Sua expressão misturava surpresa e confusão enquanto olhava-o de cima até em baixo, parando no que o rapaz considerou que fossem os próprios pés. Dipper observou, sem reação, a professora encontrar os olhos de sua irmã tão inexpressivos que pareciam carregar alguma culpa, e então encara-lo outra vez com seriedade. Não era a cara de quem tinha visto uma pessoa três ou quatro vezes na vida e há pelo menos cinco anos.
A troca de olhares aconteceu mais algumas vezes. Tudo foi tão rápido que a única coisa que o rapaz conseguiu fazer foi deixar o queixo cair. Seu coração estranhamente acelerado indicava que alguma coisa estava errada. Só conseguiu imaginar o motivo mais obvio para aquela situação. Talvez ela soubesse de tudo. Bem, talvez não de tudo, considerando a confusão em seu rosto, mas alguma coisa não estava certa e Dipper estava confuso demais para pensar em uma frase de efeito. Perguntar não era uma opção válida. Concentrou-se, então, em lutar para manter-se calmo.
— Esse é meu irmão, Dipper. – Mabel interrompeu quaisquer pensamentos da mulher. – Ele esteve exercendo a inteligência do outro lado do mundo por alguns aninhos.
— Boa noite, Dipper. Há quanto tempo não nos víamos? – A expressão da Senhora Anderson amenizou conforme ela o cumprimentava com a maior naturalidade do mundo, fazendo-o se questionar até mesmo se a cena anterior havia sido exagero de sua cabeça. Sorriu de volta, por educação, retribuindo a ação com um simples “boa noite”. – Bem, eu preciso voltar para dentro. – Ela continuou, enquanto virava na direção de Mabel. – Me telefona assim que puder para nós terminarmos de discutir aquele problema.
Mabel concordou com a cabeça em um gesto grade. Breves despedidas foram feitas e os gêmeos assistiram em silêncio a silhueta desaparecer pela porta da lanchonete. Dipper desejou saber o que havia sido aquilo. Uma reação assim não era de alguém que sabia de tudo, mas de alguém que tinha acabado de perceber alguma coisa errada. Questionou-se o quanto a irmã havia contado sobre o passado, mas resolveu que não era seu direito indagá-la sobre isso.
Saíram da lanchonete, mas não precisaram andar muito até um prédio de poucos andares. Mabel informou que o apartamento era antigo e que ela e a colega precisaram reformar antes de se instalarem. Aparentemente, Chris havia sido uma das melhores amigas da moça durante a faculdade e elas tinham intimidade o suficiente para dividir o valor do apartamento e montar um bom lugar para as duas.
Dipper entrou apressado, limpando os pés no tapete de frente. Era uma espécie de sala grande com janelas de moldura verde claras e pé-direito alto. Algumas paredes finas, que não chegavam ao teto, serviam de divisórias, onde se penduravam alguns quadros. Era difícil decidir para onde olhar. Uma bagunça de mesas, materiais, cavaletes e estantes estava recheada de objetos de vários tamanhos. Ao pendurar o casaco, um conjunto de pequenas mulheres carecas e bastante coloridas em diversas posições chamou a atenção do rapaz.
— Foi você que fez? – Perguntou torcendo para que Mabel entendesse a direção na qual apontava.
— Não. – Mabel respondeu ao mesmo tempo em que soltava o cabelo e penteava com os dedos. – Essas são da Chris, as ninfas. Uma gracinha né? As esculturas que ela faz são incríveis em detalhes. Mas nem pensa em encostar ou ela vai arrancar seu fígado com uma colher. Vai por mim, eu sei o que estou falando.
— Certo. – Dipper recolheu a mão, apreensivo, e olhou em volta. – Então você vai precisar me dizer o que é da Chris.
— Eu não sabia que você tinha vindo aqui ver o que é da Chris, Dip. – Ela sorriu e mostrou a língua ao mesmo tempo. Dipper tentou pensar em algo para replicar, mas ela estava certa. Até porque, seguindo a lógica, o que não fosse de Mabel seria de sua colega. E ele não estava mesmo a fim de encostar nas coisas sem permissão de nenhuma das duas.
Deixou-se ser conduzido pela mão da irmã, que eventualmente parava para mostrar alguma coisa e contar uma história inteira sobre o motivo de ser daquele jeito. Algumas eram engraçadas, a maioria era interessante, mas com certeza todas tinham em comum um único fato, eram da Mabel que ele não conhecia.
Tentou prestar o máximo de atenção no que podia, no que ela dizia e na forma como gesticulava. Percebeu-se mergulhado no mundo da Mabel de uma forma que nunca antes fizera. Algumas coisas ele não conseguia dizer se eram novas ou não, outras podia lembrar dela repetindo desde os seis anos. Como é possível não saber que você estava com tanta saudade até que o motivo apareça bem na sua frente?
— E tem aquilo ali. – Mabel apontou para cima tão repentinamente que o rapaz foi puxado de volta à realidade. Acompanhando com o olhar, Dipper viu um ventilador antigo um tanto quanto enferrujado uns dois metros acima da mão dela. Em uma das pás, uma mancha relativamente grande de tinta azul piscina com um pouco de purpurina na ponta. Ao perceber a expressão confusa do irmão, Mabel completou – A gente ainda não tem ideia de como aquilo foi parar ali. A Chris insiste que fui eu, mas tenho certeza que aquele azul é coisa dela. Quem sabe você não descobre para a gente?
— A Chris não parece usar glitter nas coisas. – Dipper retrucou, com mais seriedade do que Mabel previra, fazendo-a apertar os olhos.
— Bem, isso pode ser. Mas em momento algum eu usaria AQUELE azul em alguma coisa, Senhor Dipper. E isso eu posso te provar. Inclusive, se você olhar aquela escultura da Chris ali, nós vamos chegar a um impasse.
Dipper franziu as sobrancelhas ao perceber uma das ninfas pintadas do exato mesmo azul da mancha no ventilador. Ponto para a Mabel. Mas ainda não explicava a purpurina. E a julgar pela organização das coisas de Chris em relação às de sua irmã, ele ainda tinha dúvidas quanto à possibilidade da colega de quarto desconhecida conseguir fazer uma mancha em um ventilador quatro metros acima do chão.
— Você pega as coisas dela?
— Não, Dipper! – Mabel se inclinou e levou a mão ao peito, parecendo ultrajada – Desde quando você pensa isso de mim?
— Você nunca ligou para as minhas coisas... – Dipper viu o queixo da irmã cair. Havia sido uma alfinetada desnecessária depois de tudo. Provavelmente ela ficou um pouco brava, pois cruzou os braços em uma expressão de desagrado.
— Mesmo que eu “tivesse” pegado as coisas dela, o que eu não fiz, eu já disse que não tenho interesse naquele azul.
— Então tem alguma informação faltando. – Dipper coçou a cabeça, sem acreditar que sua maior preocupação no momento era uma mancha em um ventilador velho que não era usado há anos. E qual era o grande problema com o azul, afinal? – Vem mais alguém nesse lugar?
— Bem... – Ela afrouxou um pouco os braços e desviou o olhar.
— Bem?
— A Chris às vezes traz algumas meninas aqui... Se é que você me entende...
— Bem... – Dipper repetiu, lutando contra a ardência em suas bochechas. – Então acho que nós já temos uma explicação de como aquela mancha foi parar lá.
— Mas para que diabos elas usariam tinta azul e purpurina?
A expressão de Mabel misturava confusão e surpresa enquanto olhava fixamente para o ventilador. Provavelmente ela estava imaginando tantas coisas quanto ele, mas ambos estavam constrangidos o suficiente para não querer colocar o pensamento para fora.
— Esse é um mistério que eu não quero resolver.
Dipper completou e não pode evitar de abrir um sorriso. Logo ambos estavam rindo sem motivo aparente até que Mabel respirou fundo e ofereceu café para mudar de assunto. O rapaz concordou com a cabeça e foi conduzido até uma porta verde, como as janelas, que ele não havia reparado que existia. Antes de entrar, deu uma última olhada para o ventilador.
Atrás da porta existia uma pia com balcão, um fogão, e uma geladeira em um cômodo um tanto apertado considerando o salão anterior. Mal havia espaço para que dois passassem ao mesmo tempo, forçando-o a se esquivar enquanto ela prendia o cabelo. No canto esquerdo, uma máquina de lavar precedia outra porta, idêntica à primeira. Se ele não tivesse visto o atelier antes, poderia até dizer que aquele era um apartamento pequeno normal.
— Vocês dormem aqui? – Disse quase sem pensar muito na pergunta.
— Eventualmente. – Mabel respondeu enquanto colocava a água na cafeteira. – Tem um quartinho atrás dessa porta. Serve mais para casos emergenciais... No meu caso, ao que parece.
— Você e a Chris já...?
— Oh não! – Mabel praticamente derrubou o pó de café inteiro da colher em cima da pia. Continuou falando apressada, mostrando as palmas das mãos. – Não não não não. Melhor amiga, só isso. Naaada além. Pode parecer meio estranho, mas eu sou hétero.
— Eu sei bem disso. – Dipper sentiu-se idiota assim que a frase escapuliu de sua boca. A resposta pegou Mabel desprevenida, pois suas bochechas ficaram tão vermelhas quanto as dele e ela não conseguiu falar, seja o que for que tentou. – Digo, você sempre teve queda por vários meninos desde que te conheço... Nunca por meninas... Então, quer dizer, você gosta sabe... É... Você entendeu. Eu vou pegar um ar.
Escapuliu pela porta aberta antes que Mabel pudesse retrucar. Quando o som da cafeteira começou e o cheiro da bebida se misturou ao de tinta fresca, foi até a janela e se apoiou no peitoril. Levou a mão à nuca e esfregou desde a cabeça até o ombro, procurando acalmar o rebuliço em seu estômago. Estava com raiva de si próprio. Como era possível que simples frases pudessem abalar o estado mental que ele havia construído durante anos? Talvez ele não devesse ter voltado.
Mabel começou a cantarolar alguma música ruim junto do barulho da cafeteira. Dipper fechou os olhos e escutou. Sentia falta daquela voz, sentia falta de estar cercado por arte, enquanto tentava fazer qualquer outra coisa, sentia falta da bagunça e da liberdade de passar os dias com mais emoção. Em todos os casos era ela quem faltava, sua irmãzinha. Não podia deixar acontecer tudo de novo.
Voltou vagarosamente até a pequena cozinha e recebeu o café das mãos de Mabel já adoçado. Doce demais, como ela achava que deveria ser. Tomaram alguns goles em silêncio até que surgisse algum assunto aleatório e eles puderam voltar a conversar normalmente. Pegou na gaveta uma faca para cortar um pedaço de pão feito em casa pela Chris, que Mabel fazia questão que todos experimentassem.
Distraído com a conversa, Dipper encontrou um jeito de fazer um corte na pele da base de seu polegar. Deixou a faca cair na mesa em um grito abafado antes que um filete relativamente grosso de sangue começasse a escorrer por sua mão. Alarmada, Mabel pegou um pano de prato sujo e enrolou na mão do rapaz sem muita destreza. Empurrou-o pela porta do quarto, dizendo várias coisas ao mesmo tempo. Dipper conseguiu entender alguma coisa sobre sangue na comida e também que havia um banheiro com um kit de primeiros socorros para onde estava sendo levado.
O quarto era pequeno e estava bastante escuro com as janelas fechadas. Era quase como uma extensão do atelier, tirando o fato de ter um armário de madeira pintado de branco e uma cama de cabeceira decorada. Nas paredes, alguns poucos e pequenos quadros pendurados nos quais ele não conseguia dizer o que estava pintado, devido à falta de luz. O cheiro de coisa guardada e o teto baixo o deixavam mais consciente de que eles estavam sozinhos ali.
Mabel pediu um segundo e se enfiou pela porta do banheiro de modo que o rapaz precisou procurar pelo interruptor. Apertou o pano contra o machucado e respirou fundo, fazendo uma careta devido à ardência, enquanto acendia a luz. Finalmente olhou em volta, se demorando particularmente nos quadros da parede oposta à que estava. Franziu as sobrancelhas e se aproximou devagar. Do lado da pintura de uma maçã, em um quadro de uns 30cm, ele.
Piscou. A imagem dele próprio com dezessete anos esboçava um sorriso que Dipper se viu imitando involuntariamente. Alguns quadros acima havia outro bastante parecido em que ele apoiava o cotovelo sobre uma mesa enquanto lia. Encontrou ainda outro em que dormia em um sofá amarelo e uma tentativa de representa-lo mais velho e com uma barba grande que Dipper provavelmente nunca conseguiria deixar crescer. Este último era particularmente divertido. Esticou a mão, involuntariamente, ignorando a regra de não tocar em nada. Era engraçado como em todas as pinturas ele parecia tão calmo.
— Este ainda está meio fresco.
A voz de Mabel atrás de si o fez dar um pequeno salto e puxar a mão repentinamente, o que doeu um pouco. Ela tinha um frasco e gazes e esparadrapo. Dipper deixou que seu curativo fosse feito, tentando disfarçar o fato de que ardia bastante. O que aquela parede queria dizer? Sentia-se atordoado e curioso ao mesmo tempo, mas esperou até que ela terminasse para começar a falar.
— Foi por causa disso aquela coisa toda com a professora? – Disse apontando para a parede sem se virar para ver.
— Coisa? – Mabel pegou o pano ensanguentado do irmão e o dobrou em quatro partes, olhando fixamente para o que fazia. – Ah sim, os quadros. Ela provavelmente te reconheceu deles. Bem, não desses aí, mas imagino que deve ter ficado bem surpresa...
— Tem mais do que esses? – Dipper tentou manter a seriedade na voz. A pergunta ecoando em sua cabeça. “Que porra aquilo queria dizer?” – Quantos?
— Alguns... – Mabel levantou o rosto. Tinha um sorriso calmo e o olhar perdido que quase fizeram Dipper estreitar os olhos. A expressão que ele não conseguia decifrar novamente. – Eu tenho feito eles há alguns anos. Nunca foram para exposição nenhuma, se está preocupado... Mas se quiser, eu posso te mostrar...
— Por quê? – Ele a interrompeu. Tentou coçar o braço em baixo do curativo, mas parou quando percebeu que tremia. – Mabel, você sabe o motivo de eu ter feito tudo isso. O que eu estou tentando fazer para que nós dois...
— Eu sei. – Ela interrompeu. O sorriso em seu rosto parecia ter ficado maior e ao mesmo tempo mais duro. Ela levou a mão à testa e esfregou uma sobrancelha. – Eu só... Estava preocupada... Eu... – suspirou, sem levantar o olhar – Olha, eu estava com medo de esquecer o seu rosto. De esquecer o quanto eu gosto de você...
Mabel secou uma lágrima com a palma da mão, mas o sorriso continuava lá. Dipper sentiu-se um idiota no momento em que o coração apertou em sua garganta. Aquela expressão, durante todo o dia, era o que queria dizer afinal. Era um absurdo. Era absurdo que ele não tivesse percebido. Quando Mabel, que sempre fora tão honesta, tinha aprendido a disfarçar as emoções daquele jeito?
“Para não esquecer”. Ele repetiu em sua mente. Esquecer era o que vinha tentando fazer durante anos. Lutava para não pensar nela, para nem falar o nome dela. Tudo isso enquanto Mabel pintava quadros com a droga da cara dele. E no fim das contas não importava o esforço que ambos tivessem feito. Nenhum dos dois poderia esquecer mesmo.
Antes que Mabel pudesse dizer mais alguma coisa, o rapaz enrolou os braços em volta de sua cintura e afundou a cabeça nos cachos cor de rosa que o coque não conseguia prender. Com os olhos fechados, sentia a textura macia do suéter sem precisar se mexer. Lentamente, as mãos de Mabel se enroscaram pelos cabelos da sua nuca. Respirou fundo enquanto a tensão em seus ombros diminuía.
Virou a cabeça na direção do pescoço da garota, que estremeceu quando ele soltou o ar devagar. Sutilmente, ela inclinou a cabeça para que Dipper beijasse a base de sua orelha e deixou escapar um gemido quando ele continuou até próximo ao seu ombro. O cheiro do xampu que ela usava desde criança estava um pouco diferente, provavelmente devido à tinta. Correu-lhe a mão boa pelas costas por dentro do casaco e sentiu a ausência de sutiã em baixo da camiseta de malha grossa.
Apertou-a contra si antes de afastar o rosto para encará-la, mais ofegante do que gostaria. Ele sabia o que estava fazendo. Naquele momento, depois de tanto lutar consigo mesmo, havia perdido. E o olhar de Mabel no seu o fazia se questionar sobre tudo o que fizera e a vida que levara durante mais de cinco anos. Ele poderia parar por ali. Ele deveria parar por ali. Estava fazendo tudo errado, estragando tudo de novo.
E no próximo instante seus lábios estavam nos dela. Mabel abriu espaço quando ele empurrou a língua para dentro de sua boca, segurando-a com tanta força que quase conseguia levantá-la do chão. Vários outros pequenos beijos se sucederam. Tinham a pressa de todo o tempo perdido. Por baixo da camisa, apertou-lhe um dos seios e o sentiu por entre os dedos. Mabel se inclinou para trás e retirou de uma só vez a sua roupa de cima. Dipper a observou. As tatuagens que ela mencionara se espalhavam por seu corpo. O braço direito fechado em desenhos, desde o ombro até o cotovelo.
Então o rapaz puxou para cima a própria camisa, deixando-a terminar de retirar apressada, para que voltassem a se beijar. Os lábios de Mabel percorreram seu queixo até a orelha, onde o mordeu. Dipper voltou com a mão ao seio e o apertou com um pouco mais de força. Brincou com o bico em seus dedos, fazendo-a dar pequenos gemidos enquanto o beijava no pescoço.
Não foi difícil abrir o fecho da saia com apenas umas das mãos e a peça caiu no chão de uma só vez. Mabel teve mais dificuldade com o zíper da calça do irmão, mas não demorou muito até que os dois estivessem completamente nus. Puxado para a pequena cama, Dipper deitou-se por cima, no meio das pernas dobradas da moça, as quais o envolveram pelos quadris. Mabel fechou os olhos e abriu um sorriso ao puxá-lo para dentro de si devagar.
Ela o controlava com os pés, demandando mais cada força e velocidade. Dipper apenas a obedecia com os cotovelos apoiados no colchão e o rosto enterrado em seu pescoço. De olhos fechados, escutou-a gemer alto suficiente para ecoar pelo quarto. Seus quadris queimavam e quase não conseguia sentir mais as pernas. Mabel apertou-o com os calcanhares e esticou o pescoço, repetindo a palavra “mais” no meio de algo incompreensível. Não conseguia mais suportar. Unhas se fincaram em suas costas quando ele forçou-se dentro dela, gemendo contra o colchão.
Um instante se passou em que se escutavam apenas as respirações aceleradas dos dois se acalmando. Levantou a cabeça para encontrar uma expressão de afeto que há muito não via. Beijou-a antes de rolar para o lado. Colocou o braço em cima do rosto e suspirou, fisicamente esgotado. Mabel virou-se em sua direção e acariciou sua bochecha com as costas dos dedos. Olharam-se sem dizer nada por um instante. Havia tanta coisa que ele precisava dizer ou pensar, mas por agora os olhos dela eram o suficiente para encher sua cabeça.
— O que nós vamos fazer? – Disse por fim, apoiando o cotovelo para segurar a cabeça.
— Sobre o que? – Mabel repetiu a ação do irmão em uma mímica exagerada, deixando seus rostos no mesmo nível.
— Sobre isso... Sobre a gente...
— Dipper, – Mabel abaixou os olhos e apertou os lábios por um momento antes de encará-lo. Sua expressão era séria. – Não tem “a gente”.
“O que?” Pensou atordoado. Tinha certeza do que tinha ouvido, mas as palavras custaram a fazer sentido em sua cabeça. Abriu a boca para falar, mas não havia preparado nada em mente para aquela situação. E as palavras simplesmente não lhe vinham, talvez pelo cansaço, talvez pela surpresa.
— Olha – Mabel tocou a testa do irmão com a ponta do dedo – Eu entendi o que esteve tentando fazer esse tempo todo. A faculdade do outro lado do país, o sumiço, até mesmo ter vindo para casa com uma garota que não sabe de nada sobre nós. Eu não sou burra. – Ela voltou a deitar de barriga para cima e esticou o braço na vertical, para olhar as unhas pintadas de rosa – Sabe, estava certo. O que a gente poderia fazer do futuro? Quer dizer, você vai se casar. E isso é ótimo! A Nancy é um amor de pessoa e gosta tanto de você quanto você dela. E a mamãe...
— Mabel...
— Vamos ser honestos, está bem? Você não veio para casa com a intenção ir para a cama com a sua irmã, não foi? Você veio atrás de uma irmãzinha de verdade para apresentar à sua noiva. Agora me diz por quanto tempo a gente conseguiria brincar de família feliz desse jeito. – Mabel gesticulou na direção da situação em que estavam. – Nem um dia.
Dipper a observou se sentar na cama e abraçar os joelhos. Sentiu que deveria fazer o mesmo e logo os dois estavam lado a lado de uma forma que poderia ser perfeitamente cotidiana de sua juventude, tirando a nudez, o fato de que não tinham uma conversa de verdade há quase dez anos, compromissos futuros totalmente contrários ao que haviam acabado de fazer e o fato de que Mabel acabara de dizer algo perfeitamente racional.
— A forma como a gente se ama não é a forma como a gente deveria se amar e talvez um dia isso mude, mas ainda não é agora. – Ela fez uma pausa em que encarou os próprios joelhos com as sobrancelhas franzidas. – E é por isso que você vai pegar o carro e voltar para o seu futuro casamento, e eu vou ficar aqui durante esses dias até a minha viagem.
— O que? – Dipper levantou a cabeça no intuito de protestar, mas foi interrompido outra vez.
— Você merece ter um bom momento de família, Dip Dip. Estar com nossos pais um pouco. Você lutou por isso, afinal. Eu passei o dia matutando a melhor forma de lidar com essa situação e essa foi a melhor alternativa que encontrei. Você... Pode interpretar hoje como egoísmo meu, e talvez tenha sido mesmo, mas eu gostaria que pensasse que foi uma boa despedida.
Mabel jogou a coberta para o lado e saltou da cama. Dipper a observou dar alguns passos até onde estavam espalhadas as suas roupas. Ao abaixar para recolhê-las, o rapaz viu os dois desenhos gravados nas costas da moça, mas estava atordoado o suficiente para não conseguir distinguir sobre o que se tratavam.
— Bem, eu vou tomar um banho. – Mabel girou nos calcanhares. – Você sabe o caminho até a saída...
Ele concordou com a cabeça antes dela entrar no banheiro e fechar a porta atrás de si. Dipper ficou olhando fixamente até notar que não sairia antes que ele já tivesse ido embora. Era o certo a se fazer. Era o que ele vinha fazendo durante todos aqueles anos e Mabel tinha a consciência disso. Respirou fundo e se vestiu, anestesiado pela enxurrada de pensamentos que lhe passavam pela cabeça.
Não prestou atenção na chuva que pegou durante a volta até o carro. Deu partida e saiu dirigindo mecanicamente. Não estava na rota certa de volta para a casa de Tia Maggie. Terminou estacionado próximo a uma árvore numa ruela que bifurcava mais na frente em que ele nunca havia estado. O cheiro de terra molhada o lembrava do dia em que havia saído de casa, mas não sabia que podia vir a detestá-lo ainda mais.
Encostou a testa no volante, repetindo mentalmente as palavras de Mabel. Ela estava certa. Estava fazendo a coisa certa, então deveria estar certa. Tudo aquilo era havia sido sobre ele. Afinal, ele estava fazendo tudo errado o tempo todo. Um soluço queimou em sua garganta, seguido de um segundo e um terceiro. Ele tinha estragado tudo de novo. Havia criado uma farsa e não sabia se conseguiria voltar a ela, mas também não podia mais desfazê-la. Estava sendo um maldito injusto, um maldito traidor e um maldito covarde.
Lembrava-se do rosto de Mabel quando nova, de como ele pensava que iriam ficar sempre juntos. E agora ele a tinha perdido. Talvez para nunca mais rirem juntos outra vez, nunca mais passarem horas à toa, nunca mais se aconchegarem nos braços um do outro. Fechou os olhos e levou as mãos ao rosto. Por que ele? Por que não podia ser uma pessoa normal com uma família normal? Com um gosto amargo na boca, esfregou os olhos. Só lhe restava voltar para casa.
Fale com o autor