Notas iniciais
Olá pessoinhas lindas. Lembram quando eu falei que estava na dúvida sobre esse capítulo? Então, eu ainda estou hehe. Mas eu escrevi e fiz com bastante amor e carinho, então aceito muito críticas sinceras quanto a existência mesmo disso aqui :) Outra que fiz uma parada meio arriscada no meio do texto em relação à narrativa. Espero não deixar ninguém confuso. Enfim, eu acho que vocês vão gostar. Porque né... Grande parte me pediu continuação. Vocês são uns amorezinhos. ♥

O velho jogo de agulhas de tricô não parecia caber em lugar nenhum. Os bolsos dos lados estavam muito cheios, a parte de cima era muito pequena e se ela tentasse espremê-lo junto das roupas o zíper simplesmente não fechava. Mabel levantou a mala com dificuldade e colocou no chão sem muito cuidado. Infelizmente, levar mais bagagem estava fora de cogitação. Empurrou para dentro da melhor forma que conseguiu e usou seu próprio peso para compactar tudo até o último puxão do fecho, esperando que tudo não explodisse ali de dentro.

Estava mais suada e ofegante do que gostaria quando levou a mala para perto da parede. Vasculhou o pequeno quarto, buscando com os olhos algo que pudesse ter esquecido. Limpou o suor da testa com as costas da mão e suspirou. Tudo pronto. Era como se seu coração estivesse batendo na garganta, no momento no qual notou que a única coisa faltando era juntar as malas e sair.

O toque alto de seu celular ecoou pelo quarto. Uma música lenta e alegre, que ela mesma nunca teria escolhido, denunciava a origem da ligação. Tinha estabelecido uma estranha amizade com Nancy durante os poucos dias de sua estadia na cidade. Não podia evitar se sentir um pouco mal pela situação na qual a havia posto, mesmo que em segredo. A moça era legal, divertida e bem humorada, afinal. Não se surpreendia pela escolha de Dipper por ela.

Mas aquela definitivamente não era uma boa hora. Não que Nancy pudesse saber o momento exato da arrumação de malas estando do outro lado do país. Mabel atendeu a chamada, esperando receber uma enxurrada de novas informações sobre a cerimônia de casamento. Até que não era tão ruim assim. Ela mesma já havia se pegado com vontade de ajudar a arrumar a festa, algo no qual era realmente boa, e de vez em quando arriscava dar umas sugestões à distância. Toda essa situação a deixava ainda mais confusa, porque de jeito nenhum conseguiria se imaginar presenciando a cena, mesmo que ela própria a tivesse montado.

Um estranho silêncio se prolongou do outro lado da linha. Talvez alguma falha na ligação. Ou talvez Nancy tenha se ocupado com outra coisa e não percebera que ela havia atendido. Repetiu o “alô” em um volume mais alto e em tom de pergunta para chamar a atenção. Estava prestes a fazer outra tentativa estridente, quando a voz que a respondeu fez sua espinha gelar. De repente seu coração parecia querer sair pulando do peito.

— Alô.

A voz de Dipper era mais arrastada que o normal, quase como se tivesse se arrependido de ter ligado. E ele tinha bons motivos para isso mesmo. Não haviam se falado direito desde “o incidente”. Por mais que Nancy os forçasse a habitar o mesmo espaço até voltar para casa, o rapaz não trocou mais do que algumas palavras com a irmã e raramente olhava diretamente para ela. Tudo feito com a sutileza que os dois sabiam muito bem utilizar, é claro, e ninguém desconfiou de mais nada.

Mabel entendia a necessidade daquela distância para os dois e de como ela própria havia proposto isso. Mas céus, como doía. Quando foram embora, imaginou que tudo voltaria a estar adormecido como havia sido nos últimos anos. O ponto final que havia posto deveria ser suficiente para acabar com tudo de uma vez. Deveria ser assim, não é? As constantes ligações de Nancy não estavam ajudando nem um pouquinho.

Apertou o celular com força. A última coisa a se fazer agora era ter uma crise por causa de um telefonema, dona Mabel. Era Dipper na linha, afinal. Alguma explicação razoável deveria se seguir. Perguntou a primeira coisa que lhe veio à mente, tentando se convencer do que dizia.

— A Nancy te pediu para me ligar? Ela tinha algo para falar sobre você escolher a caligrafia dos convites e me pediu para te mandar algumas opções de...

— A Nancy não está aqui. – Dipper interrompeu ligeiro. Mabel trancou os dentes sem ter como responder àquilo. Sentiu a garganta arder, tentando espantar de sua mente alguns pensamentos indevidos sobre o real motivo da ligação. Já passava do limite do ridículo nutrir alguma forma boçal de esperança. – Eu queria falar com você...

— Sim, pode falar. – Respondeu de forma quase robótica, apoiando-se na parede com o cotovelo.

— A mamãe falou que você vai viajar ainda esse mês. Eu queria... Eu precisava dizer que, bem... – Mabel escutou, aflita, o rapaz suspirar do outro lado da linha. – Eu queria saber se você consegue me mandar uma Torre Eiffel de mais ou menos uns 20 cm até o final de maio.

— Para o aniversário da Nancy? – Mabel não sabia se o que transpareceu em sua voz foi mais alívio ou decepção. Uma decepção que não deveria nem estar ali em primeiro lugar.

— Sim – respondeu. Sua voz parecendo relaxar enquanto prosseguia. – Você sabe o quanto ela gosta de lá. Não para de me falar um minuto sobre a sua viagem, então quem sabe não seria legal... Talvez... Uma surpresa?

— Ah, eu sei. – Mabel deu continuidade à conversa, usando a “voz normal” mais convincente que conseguiu. – Mas você acha que uma só é bastante? Tem várias outras lembrancinhas legais que eu posso mandar no mesmo pacote. Tem algo em que esteja pensando para você ou algum conhecido? É só me falar que eu envio sem problemas.

— Não, tudo bem. Não acho que eu tenha condições de comprar mais nada por agora, se é que me entende... – Dipper deu uma risada curta, que foi imitada pela irmã. Enfim eles estavam se falando. E era um momento agradável até. Seria bom que pudesse ser sempre assim a partir de agora. – Mas se você puder fazer esse favor para mim, eu posso depositar o dinheiro na sua conta.

— Então vamos fazer o seguinte – A moça fez questão de cortá-lo naquela parte. –, deposita o dinheiro do presente da Nancy e escolhe mais alguma coisa que fica por conta da sua irmãzinha aqui.

— Mabel, eu... Não precisa mesmo, de verdade.

— Ora vamos! Qual a outra chance que você vai ter de receber um presente maravilhoso vindo diretamente da França?

— Bem – Dipper respondeu com o tom de voz que ele costumava usar quando estava raciocinando. – você vai ficar lá por algum tempo, então acho que se eu realmente precisar de mais alguma coisa, eu posso...

— Peen! Acabou o tempo. – Mabel mal se deu conta de que estava sorrindo, ainda que a sensação em seu peito não fosse lá muito agradável. – Perdeu a oportunidade, agora vou comprar alguma coisa e você só vai saber o que é quando chegar.

— Ah, Mabel...

— Sem choramingar, bobão. Você teve sua chance.

— Então, acho que não tenho escolha. – Dipper tinha um ar de insatisfação na voz ao se dar por vencido.

— Não. Nenhuma escolha. – Ela complementou, por hábito. – Mas sério Dipper, você precisa decidir por uma das letras que te mandei por e-mail até o fim de semana, senão o convite pode não ficar pronto na data certa.

— A segunda está boa – ele respondeu casualmente. – Foi você que fez todas elas?

— Mais uma das minhas incríveis habilidades artísticas, eu sei.

Mabel se espreguiçou antes de mudar o telefone de orelha. Uma das últimas coisas que ela esperava daquela noite era ter uma conversa descontraída com seu irmão por uma quantidade considerável de tempo. O sorriso em seu rosto foi desaparecendo conforme o silêncio começou a se estender por um período maior do que o normal.

— Bem. – Dipper recomeçou tão subitamente que ela deu um pequeno salto de susto. – Eu preciso desligar aqui... A gente se fala...

— Até mais, então.

— Até mais... Ah, Mabel? – O rapaz disse apressado antes que ela desgrudasse o celular do rosto.

— Oi.

— Foi bom... Falar com você.

— Sim. – Mabel respondeu com sinceridade. Afinal, a experiência toda tinha sido bastante estranha, mas não totalmente desagradável. Se o plano deles desse certo, era para aquilo que iriam evoluir, não é mesmo? Irmãos normais que se ligam de vez em quando para pedir uma Torre Eiffel. – Você pode me ligar mais vezes... Se quiser, sabe?

— Eu vou. – Dipper abaixou o volume da voz para continuar. – Eu... Sinto sua falta.

— Eu também.

Mabel lutou contra o suspiro que lhe veio. Encarou os quadros na parede, lembrando-se da sensação que teve quando pintou cada um. Sentia tanto a falta dele... Tanta que se submeter àquela situação ainda era a única oportunidade de tê-lo de volta por perto. Estava feliz de poder escutar sua voz outra vez, mesmo por telefone. Um instante de silêncio seguiu, fazendo-a notar a tensão no ar, bem mais alta do que um minuto atrás.

— Então... – Dipper prosseguiu. – Beijo.

— Beijo. Te amo.

Levou a mão à boca após notar o que havia falado. A pequena frase soava tão natural em sua cabeça, mas depois de dita em voz alta, parecia extremamente estúpida naquele minuto em particular. Especialmente porque havia uma diferença entre “como deveria ser interpretada” para “como ela queria que fosse interpretada”.

— Mabel, -- Dipper assumira novamente o tom de voz do começo da ligação, baixo e ligeiro. – O motivo de eu ter ligado... Eu precisava falar com você antes de ir embora. Eu não queria que você fosse sem que eu tivesse dito... Eu... Eu nunca deixei de amar você. Nunca teve um dia que eu não tivesse me arrependido de tudo isso. Eu tenho feito as coisas pensando em algo diferente, mas eu não sei mais o que posso fazer sobre isso... Eu não sei se você guarda alguma mágoa... Mas a verdade é que cada vez mais nada parece certo e não quero que você vá sem saber...

— Eu sei. – Ela interrompeu o mais rápido possível, assim que notou o rumo que aquilo estava tomando. – Eu sei o que eu sei e sei o que você sabe.

— Não, Mabel, eu...

— Essa conversa acabou.

Apertou o botão vermelho do celular e praticamente jogou-o em cima da mesinha. Abriu a gaveta em busca do maço de cigarros e percebeu que estava tremendo ao usar seu isqueiro verde. Respirou fundo, deixando a fumaça preencher seus pulmões e acalmar o turbilhão de pensamentos em sua cabeça. Olhou mais uma vez para o aparelho, apreensiva. Era obvio que ele não voltaria a ligar.

Foi até o parapeito da janela, por onde apenas a fraca luz das lâmpadas de rua entrava. Tudo parecia parado no tempo, nem mesmo as nuvens cobrindo todo o céu davam sinal de que queriam começar a chover. Piscou para fora as lágrimas que lhe vieram aos olhos. Queria que tudo pudesse ficar sempre assim, como já estava acostumada. Por que cada hora precisava acontecer algo diferente para estragar o estado mental minimamente estável que achava ter construído? Ela mesma havia escolhido seguir sozinha com a própria vida, não podia mais duvidar de si dessa forma.

Um barulho na pequena cozinha de seu estúdio a fez apagar o cigarro, correr para secar o rosto e voltar para a mala, se abaixando ao fingir mexer em um zíper. Chris deveria chegar mais tarde hoje. Havia planejado meticulosamente aquele encontro durante toda a semana. O que poderia estar fazendo tão cedo em casa? Virou-se, como se estivesse distraída, quando a moça entrou apressada no quarto e parou logo em frente a ela.

Era uma mulher baixa, não muito magra de pele avermelhada e olhos pequenos. O cabelo preto muito liso que quase sempre mantinha preso com um rabo, hoje estava solto por cima de uma jaqueta de lona verde que Chris não saberia viver sem. Por insistência de Mabel, até tutorial de maquiagem na internet ela havia assistido naquela noite para ter uma “boa primeira impressão”. Mas agora sua cara dizia algo como “deu tudo errado”.

— Quer conversar? – Mabel levantou-se e pôs uma mão na cintura. Esboçou um pequeno sorriso de consolo no qual provavelmente nem ela mesma teria acreditado.

Chris deu de ombros casualmente. Podia-se ver o quão frustrada estava, mas a última coisa que ela queria naquele momento era desabafar. Parecia furiosa por conta do encontro não ter dado certo. Não seria Mabel a insistir no assunto. Durante os anos em que dividiram aquele espaço, aprendera a entender que a moça precisava de um pouco de tempo antes de conseguir conversar sobre qualquer problema amoroso.

— E você? – Chris coçou a nuca enquanto olhava para a mala florida que dera de presente à Mabel – Vai me contar o motivo do olho vermelho constante ou vou ter que verificar meu estoque de baseado?

— Você agora tem estoque, por acaso? – Mabel se pegou rindo junto da moça por alguns segundos. Chris tinha uma aura simplista e positiva que podia contagiar rapidamente. Era de se espantar que nenhuma garota legal tivesse percebido isso ainda. Talvez porque, em questão de relacionamento, conseguia se atrapalhar com as coisas mais básicas. Bem, não que Mabel tivesse o maior exemplo de romances bem sucedidos a se seguir...

— Será vai finalmente me informar sobre o que está te deixando com essa cara murcha durante os últimos meses ou eu vou ficar na curiosidade depois que for embora? – Chris continuou sem dar bola para a pergunta anterior – Mabel, eu sei que você não gosta muito de jogar além do que pode ver, mas precisar ir embora contra a vontade não pode ser a única coisa a te fazer chorar desse jeito que está tentando disfarçar... Tem alguma coisa acontecendo e você não me conta. Alguma coisa importante o suficiente para te obrigar a terminar de arrumar as malas antes dos últimos cinco minutos para o voo partir.

— Meu irmão. – Mabel esfregou a palma da mão pela alça áspera da mala, enquanto desviou o olhar. Mal podia acreditar no que estava falando em voz alta. Mexeu com os próprios dedos, a urgência de ter outro cigarro entre eles. – Ele veio aqui no feriado de ação de graças.

— O que? O garoto dos quadros? Aqui no estúdio? Por que você não me contou?

Chris não disfarçou a feição surpresa e um pouco contrariada. Ela sabia que era Dipper nos retratos nas paredes, sabia da ligação familiar entre os dois, mas nunca havia conseguido retirar de Mabel qualquer outra informação sobre o motivo de tudo aquilo. Era óbvio que notava algo de errado na situação por completo, mas deixou de perguntar depois de perceber que não daria em nada. Ainda assim, na primeira oportunidade, sempre pontuava sobre aquelas pinturas lhe darem uma “sensação estranha”.

— É que... Bem...

Mabel suspirou sem saber o que dizer. Por muito tempo o “não poder dizer” estivera preso em sua garganta e isso a estava matando por dentro. Tinha vontade de gritar a plenos pulmões, com um megafone, um anúncio na televisão ou qualquer coisa que chegasse perto de expressar o que estava sentido. Tornar público o quanto eles se amaram e ainda se amavam, tudo que haviam feito, o que haviam escondido. Queria tomar um avião para o outro lado do país e furtar Dipper para uma Mabeland onde tudo seria colorido e feliz para os dois.

E agora ela sabia que ELE também queria isso. Ele tinha ido lá e sugerido coisas que sonhara ouvir durante tanto tempo... E ela havia dito não. Ele tinha acabado de telefonar praticamente perguntando o que fazer. E ela desligou antes mesmo dele conseguir concluir. Não pôde lutar contra a careta que se formou em seu rosto. Sentia o corpo pesado pela culpa de ter traído a si mesma. Mas o que mais podia querer? Como eles poderiam continuar? O que realmente iria sair de tudo aquilo além da discórdia que Dipper passara tanto tempo tentando amenizar?

Seus olhos embaçaram em lágrimas, as quais tentou segurar da melhor maneira que pôde. Era como se o chão estivesse se forçando contra seus pés. Fechou os punhos com força, sentido como se fosse cair a qualquer instante. Os pensamentos iam e vinham em conflitos na sua cabeça e nada mais fazia tanto sentido. Repetiu-se que tinha que aceitar aquilo de vez, tinha que aceitar, tinha que aceitar...

O toque de Chris em seu ombro a puxou de volta para o pequeno quarto. Percebeu como estivera encarando os próprios pés e levantou a cabeça na direção da moça a sua frente. Parecia um pouco assustada e Mabel não podia culpa-la por isso. Deixou-se ser conduzida até a cama por palavras que a pediam calma enquanto direcionavam ações simples que ela obedeceu sem questionar. Sentar. Respirar fundo.

Jogou-se no colo de Chris, quase institivamente, quando esta se sentou ao seu lado, e passou os braços em torno dos ombros da moça, que respondeu com um abraço quase tão apertado quanto o dela. Havia feito uma escolha. Precisava ser fiel ao que decidira. Doía tanto que era difícil até de chorar.

No fundo, sabia que a distância era o único remédio para os dois. Não haveria mais “construir memórias” para além das quais já haviam se perdido, afinal. A solução para ficarem próximos era minguar o amor que sentiam até não restar mais nada. E saber disso era tão terrível quanto a própria separação.

Chorou em resmungos altos nos ombros que a amparavam. Todo o tempo sentiu uma mão percorrer repetidamente seu cabelo desde a nuca até as pontas. Chris havia sido sua melhor amiga durante anos e ali estava ela agora como única pessoa em que ela conseguia confiar. Continuaram abraçadas até os soluços diminuírem e ela conseguir voltar a respirar normalmente. Afastaram-se devagar e Mabel limpou o rosto com as costas da mão, sentindo-se mal por ter deixado o ombro da outra molhado.

— Você ama muito esse cara, não é? – Chris desgrudou uma mecha de cabelo do rosto da moça com delicadeza, esboçando um meio sorriso que combinava com a tristeza da situação. – O que foi que aconteceu entre vocês, amiga? Eu vou ficar do seu lado se não quiser me contar, mas eu quero ter certeza de que não vai explodir a qualquer momento e fazer uma besteira. Eu só tenho curiosidade em saber que tipo de cara ele é pra deixar assim a própria irmã só por causa...

— O Dipper e eu namoramos. – Mabel soltou as palavras um pouco mais rápido do que o de costume, por isso não soube dizer se a confusão nos olhos da outra eram por não entender o que tinha dito ou pelo que tinha dito em si. O instante de silêncio que se seguiu não a ajudou a decifrar, por isso abaixou os olhos e respirou fundo antes de encará-la e repetir tudo devagar. – O Dipper e eu, ainda na escola, estávamos em um relacionamento. Entre nós dois, no caso.

Chris pareceu demorar um tempo entre processar o que tinha escutado e pensar no que dizer a seguir. Mabel a observou enquanto coçava os dois olhos de uma vez com a ponta dos dedos fazendo um biquinho.

— Bom, por essa eu não esperava. – Ela continuou esfregando o nariz mesmo enquanto falava. – Me deixa adivinhar, alguma coisa deu errado e ele terminou com você...

— Nossos pais descobriram e o mandaram para outro estado. – Mabel interrompeu outra vez. Era verdade que Dipper havia terminado com ela, mas não por vontade dele. Isso era algo que Mabel não entendera muito bem, até precisar fazer o mesmo há poucos meses. Sentiu uma estranha necessidade de defendê-lo. – O Dipper tem tentado construir essa estabilidade... Para nós podermos viver como irmãos normais.

— Mas parece que não deu muito certo até agora, não é?

Mabel apertou os olhos, pensando na conversa que acabara de ter com o irmão. “Parece que não deu certo” era basicamente um eufemismo. Suspirou. Se era para começar a falar, melhor dizer logo tudo de vez. Sentiu-se mais leve a cada palavra que saia de sua boca, desde a piscina até o telefonema de agora pouco. Chris escutou tudo com calma, sem interrupções até a amiga terminar. Por fim, coçou a nuca, mantendo uma expressão séria.

— Eu não acredito que você conseguiu manter isso em segredo de mim até hoje, sinceramente. – Falou, por fim. Mabel abaixou os olhos. Não era a primeira vez que se sentia mal por ter escondido essa história. A coisa toda era quase como confessar uma traição. Não sabia nem como começar a se desculpar. –Deve ter sido horrível ter que segurar uma coisa dessas. Você disse que ele acabou de te ligar agora mesmo... O que você fez?

— Eu desliguei o telefone. – Mabel ainda estava se questionando se aquela tinha sido a reação mais inteligente a se ter. Mas ela tinha entrado em pânico, ok? Pânico não deixa nada mais divertido.

— Bom. – Chris colocou a mão no ombro da outra em um gesto curto. – Vocês precisam se resolver e para isso precisam conversar. Mas antes você tem que definir o que está disposta a deixar ir antes de ser muito tarde. É esse mesmo o seu desejo, uma estabilidade para viver como irmãos normais?

— E o que mais eu posso querer, Chris? – Mabel encarou-a quase se sentindo brava. – Que bem eu vou conseguir lutando por alguma coisa que ninguém vai aceitar e só vai nos afastar da nossa família? Que vai fazer todo mundo ver nós dois como duas aberrações? A minha mãe já deixou bem explícito ser contra tudo isso. Por mais que eu queira muito, não posso simplesmente fugir com ele e deixar todo mundo para trás assim...

— Mabel. – Chris suspirou antes de continuar, talvez com a voz mais dura que a amiga a tinha visto falar. – Você sabe que eu vim do interior para cá fazer faculdade, não é? Algo que eu nunca te contei é que na verdade eu vim dois anos antes, viver na casa da minha tia. Onde eu morava as pessoas eram bastante conservadoras... Um dia, minha mãe me pegou de mãos dadas com uma garota em uma praça perto do colégio. E bem, você já deve saber. Ela basicamente me deu uma surra. Quis me mudar de escola, quis me levar em uma igreja... Ela disse na minha cara que ia me curar da “aberração” que eu sou.

“Sabe o que eu fiz? Juntei tudo que consegui em uma mochila, peguei o dinheiro que ganhei trabalhando meio período em uma mercearia e me mudei para a casa dessa tia. E aqui estou eu sã e salva. Talvez nem tão sã, mas bastante salva... Bem, seu problema é meio diferente do meu, mas o que eu quero dizer é: nem sempre o que é bom para a gente é o que a nossa família quer que a gente faça da nossa vida. Sempre vai ter alguém que nos apoia e nos ama, independente do que a gente escolha. E essas pessoas também são nossa família.”

— Chris, eu sinto muito. – Mabel desviou o olhar, sentindo-se estúpida. – De verdade.

— Você não tem nada que pedir desculpa para mim. – Chris a repreendeu com uma voz suave. – Sabe, eu achei que nunca mais fosse falar com minha mãe depois daquilo... Mas ano passado ela me ligou perguntando sobre mim e a faculdade. Desde então a gente conversa às vezes. Eu sinto que um dia ela ainda vai me aceitar do jeito que sou, sabe?

— Você é tão forte, Chris...

— Você também é, maluquinha.

Mabel se inclinou em outro abraço, que a outra respondeu prontamente. Era bom ter contado toda a história para alguém. E também ter escutado algo que não sabia sobre a vida da moça com quem convivera durante toda a faculdade. Afinal, não era a única a guardar um segredo tão importante assim sobre problemas familiares. Chris se separou do abraço e ajeitou o próprio cabelo com uma das mãos.

— Garota, desde que eu e vi totalmente confiante apresentando a pintura de um pato de tênis, eu soube que queria ser sua amiga. Conviver contigo é uma surpresa por dia, como eu poderia não te considerar da família já? Como uma irmãzinha. Agora mais ainda, na verdade.

— Com certeza. – Mabel concordou com um sorriso. – É como se a gente fosse irmã.

— Mas não vai querer me namorar por causa disso, eim. Mesmo depois desse fiasco de noite, eu ainda tenho meus padrões.

Com a língua para fora, Chris piscou um dos olhos, sorrindo enquanto empurrou a outra pelo ombro, fazendo-a cair de costas na cama. Mabel colocou os pés para cima e se deixou contagiar pela risada da colega. Naquele exato momento, sentiu-se leve como não havia estado em muitos anos.

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O grande dia tinha chegado. Vestiu seu suéter feito à mão com a figura da Mona Lisa de bigodes bordada por ela própria. O lugar se encheu do cheiro do café que Chris levou até o salão, onde Mabel estava sentada. Metade das coisas já havia sido retirada dali e a outra metade estava sendo encaixotada para entregarem o imóvel no final do mês. Um filete de fumaça subia desde o cinzeiro prateado. Jogaram um pouco de conversa fora enquanto esperavam.

A mala já perto da porta, uma bolsa cheia de documentos importantes em seu colo, a necessidade de prestar atenção ao horário. Símbolos um tanto quanto desagradáveis. O fato de que elas estavam ali para “aproveitar as últimas horas” só piorava a sensação da despedida. E Mabel detestava dizer “adeus” com todas as suas forças.

O tempo pareceu voar até o instante no qual ouviram uma buzina soando do lado de fora, anunciando que o taxi tinha chegado. Levantaram-se de onde estavam, deixando as xícaras sujas em cima de mesas separadas. Mabel pegou a bagagem, sem muito jeito, e a carregou até o lado de fora, onde o taxista parara sem sair do carro.

Respirou fundo e soltou o ar devagar ao olhar para o veículo. A partir dali estaria sozinha por terras europeias desconhecidas.

Chris abriu os braços para que a amiga pudesse ser envolvida neles uma última vez. Ambas haviam cortado o cabelo na altura do ombro como “símbolo de despedida”, mas os cachos de Mabel não estavam lidando tão bem quanto o cabelo liso da outra com o tamanho menor. Por isso tinham basicamente o mesmo rabo de cavalo alto, o que deixava a tarefa de esconder as lágrimas um pouco mais complicada.

— Você vai me contar cada mínimo detalhe assim que conseguir acesso à internet, está me escutando? – O rosto de Chris já estava inchado, quando enxugou os olhos com as costas do braço. – Não se esquece de seguir as recomendações da sua mãe. Se você morrer em Paris, eu vou até lá e vou bater no seu cadáver.

Mabel sorriu, por mais que aquele momento fosse tudo menos alegre. Encararam-se mais uma vez antes de a garota dar as costas para a sacada e abrir seu guarda-chuva de bolinhas roxas com babados em todos os lugares possíveis. Caminhou poucos passos até o taxi, puxou a maçaneta da porta e apoiou um dos pés para dar impulso.

A menção de seu nome fez com que se virasse repentinamente para a esquina, ainda com a mão em cima da porta aberta. A figura de Dipper ficava maior conforme subia a rua correndo debaixo da chuva. Paralisada, os olhos de Mabel se fixaram na figura ofegante agora a poucos metros na sua frente, enquanto ele apoiava as duas mãos nos joelhos de olhos fechados.

— Dipper...

— Só um instantinho...

A voz do rapaz quase falhou completamente enquanto levantava um dedo no ar, sem mudar de posição, a respiração alta e acelerada. Demorou quase um minuto até que conseguisse recuperar o fôlego o suficiente para levantar a cabeça. Pff, nerd. Talvez aquela situação fosse engraçada, mas Mabel estava muito surpresa e confusa para desfrutar o momento.

— Eu vim dizer tchau.

Dipper endireitou as costas, já quase respirando normalmente. Abriu os braços em um convite e mordeu o lábio enquanto a encarava com uma expressão de cachorro perdido. Ainda segurando o guarda-chuva, a moça largou a porta aberta e se dirigiu ao irmão devagar. Um abraço estranho. Mabel se afastou antes que o toque do rapaz em suas costas a fizesse perder a noção da realidade.

— Como soube que eu iria hoje? – A moça franziu o cenho. Ainda que já estivesse ensopado, o manteve de baixo do guarda-chuva. Já estava acostumada a emoções como nervosismo ou frustração, a ter olhares de julgamento sob si, os quais provavelmente definiriam sua carreira, mas há muito tempo suas mãos não suavam daquela forma. – Como sabia que eu iria estar aqui e não em casa?

— Sua amiga me ligou semana passada. – Mabel virou-se para ver a figura de Chris exibindo um sorriso. – Ainda bem que consegui chegar antes de você sair.

— Sim... – Encontrou outra vez o par de olhos redondos. Como se pudessem enxergá-la por completo. Seria bom se pudessem mesmo enxergá-la por completo. Não queria dar fim àquele contato tão frágil, porque no momento que o fizesse, ele não voltaria mais a acontecer. Não mais daquela maneira. Apertou com força o cabo do guarda-chuva e engoliu seco. – Então... Até outro dia...

Suspirou enquanto se virava, esperando que as lágrimas que lhe vieram não tivessem sido notadas. Empurrou-as de volta para andar em direção ao carro, decidida a não olhar mais para trás. Era tão doloroso quanto ter sido deixada há sete anos. As coisas pareciam estranhamente menores do que o normal e ela sentia como se fosse vomitar a qualquer momento. Deu um passo para frente e depois outro e então parou, sentindo a mão, por cima do suéter, envolver seu pulso.

— Fica. – Dipper começou antes que ela pudesse reagir. Sentiu os músculos do braço da irmã tencionarem em baixo da roupa, conforme fechava a mão em um punho. Mal podia acreditar que aquelas palavras saíam o mais rápido possível de sua boca. – Eu não deveria estar te pedindo isso. Eu não tenho direito de te pedir isso depois do que fiz contigo... Com a gente. Mas... Eu estava errado, Mabel. Nós não estávamos vivendo uma mentira naquela época, mas sim agora. Nós não gostamos do que estamos fazendo. Nem eu nem você. Por que ainda continuamos com isso? Por que não podemos lutar por nós, conversar com todo mundo, dar um jeito?

— Dipper – Mabel negou com a cabeça sem se atrever virar o rosto. – Eu não posso...

— Eu sei. Eu sei, eu estraguei tudo. Eu fui embora, magoei você e sumi. E depois de anos eu volto aqui te pedindo para desistir e mudar outra vez por minha causa. Eu fui muito burro, mas... – A voz do rapaz começou a falhar conforme lágrimas escorriam por seu rosto junto às gotas que pingavam de seus cachos. – Mas eu só queria poder ficar perto de você de novo. Quando soube da data do seu voo e percebi que ia te perder, eu não consegui... Não sei mais o que fazer. Eu posso perder qualquer coisa, Mabel, menos você. Eu te amo.

O rapaz sabia que estava fazendo outra besteira, mas dessa vez não tinha noção de sua extensão. Deixou o braço cair ao largar o suéter da moça. Que direito tinha de segurá-la, afinal? As costas, a poucos centímetros, pareciam tão frias e distantes. Piscou a água que estava deixando sua visão turva para fora, com as bochechas quentes. Ótimo, ele tinha feito uma cena e agora chorava feito criança na frente de todo mundo da rua.

Mabel se afastou com um passo, e então outro. Estava indo em direção ao taxi. Assistir aquilo era como levar um soco no estômago e outro no peito. Por mais que quisesse, ele não podia mais fazer nada. Era isso, fim da história. Com uma careta, enterrou o rosto nas palmas das mãos e se agachou. Ouviu o som da porta batendo, seguido pelo motor ao dar partida. Não tinha direito de ir atrás, nem mesmo de gritar o nome dela, de impedir que fosse embora.

Já não se importava mais em soluçar alto. Era assim que ela tinha se sentido naquele dia, completamente inútil, completamente perdida? Era esse o desespero que ele tinha causado? A imagem dos quadros na parede, da garota mais alegre e espontânea que ele já conhecera encarando o mar com um cigarro na boca, o jeito que ela sorriu mesmo enquanto chorava... Ele merecia aquilo, cada minuto. Mas mesmo assim... Mabel...

Um toque no ombro o fez tirar as mãos do rosto e notar que o barulho da chuva tinha ficado mais alto sobre si. Botas marrons apontavam na sua direção, mas levou um tempo de confusão para ele entender e levantar a cabeça. O taxi havia ido embora. Mabel estava agachada na sua frente com os olhos molhados e uma expressão terna. Antes que pudesse pensar, a estava envolvendo com os braços.

— Desculpa. Mabel eu sinto tanto. Eu... Me desculpa... As coisas que eu disse, que eu fiz. Eu estraguei a nossa vida. Desculpa... Me desculpa.

— Não tem nada para ser desculpado, Dip Dip. – Ela soltou-se dos braços do rapaz, que se contraíram para se segurar. Com os polegares, esfregou-lhe em baixo dos olhos inchados, a encarando nervosos. Esboçou o melhor sorriso que conseguiu no meio do próprio choro ao continuar. – Você não fez nada de errado.

— Mas eu...

— Shh. – Mabel interrompeu, sentindo-se estranhamente calma. Correu a mão pelo rosto do rapaz começando na testa até a ponta do queixo – Eu já falei que entendi o motivo de tudo isso, não foi? Você queria o nosso bem, nossa felicidade. Estava fazendo de tudo por isso...

— Não, eu não estava. – Dipper cortou. A voz aguda e um pouco ofegante. – Eu não estou feliz. Você não está feliz. Nós não temos mais controle das nossas vidas e eu não sei mais como consertar isso.

— Não precisa consertar. – Mabel pôs uma das mãos sobre as do rapaz. – Nós vamos dar um jeito. Juntos. Da forma como a gente sabe fazer desde pequenos. Que tal?

— Dar um jeito. – Dipper concordou com a cabeça em um gesto pequeno. – Eu te amo, Mabel.

— E eu amo você, bobão. – Mabel mostrou as palmas das mãos, se esforçando para não cair sentada durante o movimento. – Que tal, abraço de irmãos?

— Não. – Mabel se sentiu aliviada quando a expressão dele se suavizou. – Bem mais do que isso.

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Sentaram-se no sofá de tecido impermeável preto que ficava em um dos cantos do salão, depois de Chris ter dado qualquer desculpa esfarrapada para sair de casa. Mabel precisaria encontrar algum jeito de agradecer à ligação da amiga depois que toda a agitação passasse. Porém, no momento o que mais importava era a cabeça do rapaz sobre o seu colo. Descolou-lhe os fios molhados da testa, e tocou com a ponta do dedo em cada um dos pontos da constelação recém-revelada. Eles careciam de uma bela conversa.

— E a Nancy?

Mabel perguntou em um tom casual enquanto passava o indicador pela ponta rosada do nariz do irmão. Dipper abriu os olhos e observou por um instante em que ambos ficaram imóveis. Tinha sido muito repentino? Talvez ele não quisesse falar sobre isso. Mesmo assim aguardou em silêncio até que começasse. Era uma coisa que precisava ficar entendida de uma vez por todas.

— Eu falei com ela que viria aqui. Eu disse “o motivo” pelo qual viria. Eu contei tudo. – Dipper suspirou. Antes que a irmã pudesse dizer uma palavra, continuou. – Bem, parece que ela não quer mais olhar para a minha cara. Me falou que era muito estranho para ela aceitar, que isso não era normal, você sabe...

— Bem, não é todo dia que seu noivo te larga no altar para ficar com a própria irmã gêmea...

— Eu não a larguei no altar. Colocando assim parece que eu sou pior do que já estou me sentindo. – Dipper se pôs sentado. O par de olhos castanhos baixou para algum ponto do sofá, enquanto suas sobrancelhas franziam. Mabel pode sentir a tensão em sua voz quando continuou. – Talvez eu tenha levado essa coisa de casamento longe demais.

— Ah, eu entendo. – Mabel agitou a mão no ar, chamando a atenção do rapaz. – Da pra acreditar que eu ia pegar um voo para outro continente, ficar em um lugar que eu nem conheço e receber críticas que eu não conseguiria nem entender?

— Sinceramente, eu não consigo entender como você não foi. No seu lugar...

— No meu lugar qualquer pessoa estaria superanimada. – Mabel interrompeu, lutando para não virar os olhos. Quantas vezes ela já não tinha escutado aquilo? Era óbvio que a cabeça prática de Dipper iria pensar daquela forma. Mas era estranho que ele ainda se surpreendesse depois de tudo. – Eu não queira ir. Desde aquela época, eu nunca quis. Mas, você sabe, as coisas foram acontecendo e acontecendo, as pessoas foram tomando decisões que me incluíam e, quando percebi, bam! Minha passagem já estava comprada e não havia mais o que fazer. Eu já estava torcendo por um milagre me tirar daquele taxi...

— Bem, se você considerar “um milagre”, nós dois estarmos sem casa, sem emprego e possivelmente sem família, eu acho que fiz um bom trabalho. – O rapaz contou nos dedos enquanto falava, finalizando com uma espécie de sorriso sarcástico. – Alguma ideia do que fazer agora?

— Será que eu entendi certo? – Mabel aumentou o volume da voz, como se estivesse falando para uma plateia invisível. – Por acaso o Senhor Dip veio me buscar sem um plano que inclui todas as nossas atividades até daqui a três anos?

— Para começar eu nem sabia SE conseguiria te encontrar hoje. – Dipper colocou a mão no peito, e assumiu um tom defensivo. Era engraçadinho o jeito que ele levava umas coisas bobas como ofensa. – Além do mais, eu estava nervoso o suficiente, ok? Agora que estou aqui, a gente só precisa pensar em algo juntos, talvez.

— Hum... – Mabel fez menção de estar pensando com a mão no queixo. – Que tal se nós nos desapegarmos dos bens materiais e formos viver pelados em um acampamento comunitário no meio do deserto?

— Mabel, você ao menos está levando isso a sério?

O rapaz observou-a inexpressivo e ela não pôde evitar de esboçar um sorriso malicioso. Mas é claro que não estava levando isso a sério. Depois de quase sete anos finalmente estavam ali, só os dois de verdade. Será que não podiam levar a sério alguma outra hora? Inclinou-se na direção do irmão e se aconchegou em seu peito de uma forma que pegou Dipper se surpresa.

Sem muito jeito, ele a envolveu com os braços e Mabel fechou os olhos, apreciando o toque em suas costas. Sentiu o calor de um beijo no topo da cabeça se alongar por alguns segundos. Levantou o rosto devagar e tocou-lhe o queixo com dois dedos. A mancha acinzentada no lugar onde cresciam pelos era bem maior do que ela conhecia, mas Dipper ainda era uma graça visto daquele ângulo. Esticou o pescoço e ele respondeu colando os lábios nos dela de um jeito suave e vagaroso. Respiraram algumas vezes antes de abrirem os olhos.

— Nós vamos encontrar um lugar para onde ir, irmãozinho. – Mabel esticava para o lado a gola da camisa do rapaz, lutando contra a vontade de encher tudo ali de beijos. – Um lugar estranho o bastante para aceitar um casal de gêmeos que por coincidência também é um casal de verdade.

— Gravity Falls. – Dipper segurou a mão em seu pescoço e a afastou o suficiente para que seus rostos ficassem no mesmo nível. Tinha os olhos brilhantes que a garota conhecia muito bem – Nós podemos falar com o Soos e a Melody para nos deixar ficar na cabana por enquanto. Se eles permitem uma pessoa se casar com um pica-pau, acho que não vão ter muitos problemas em lidar com irmãos...

— Se casar? – Mabel retirou aquela parte da conversa em um tom sarcástico. Era obvio que estava apenas implicando, mas as bochechas e orelhas de Dipper ficaram completamente cor-de-rosa. Certamente tentava matutar um jeito de responder àquilo. Sorrindo, segurou o rosto do irmão com as duas mãos e trouxe-o para perto de forma que suas testas se tocaram. – Nós nos casamos no momento em que nascemos, senhor cabeça grande. Temos até o mesmo sobrenome, olha só. Se burocracia nenhuma.

— Sem burocracia. – Repetiu.

Ainda com as testas grudadas, Mabel fez um movimento para cima e para baixo, forçando-o a concordar com a cabeça. A expressão do rapaz denunciava que não concordava exatamente com aquilo, mas se tinha algum protesto a fazer, não disse nada.

Enrolou os braços em volta de seu pescoço e Dipper respondeu com o mesmo gesto na cintura da moça. Apertaram os lábios até sentir a língua do irmão junto da sua. Antes de notar, estava deitada sobre ele no pequeno sofá. Encarou-o, sorrindo. As batidas de seus corações eram as únicas coisas com pressa naquele lugar. Tudo iria se resolver depois. Eles dariam um jeito. Mas enquanto ninguém ainda sabia de nada, tinham todo o tempo do mundo.

Notas finais
Então gente, é isso. Um beijo, tchau.... Brincadeira. Final feliz hum? É, eles podem existir! Eu falei que poderia ficar um cadinho clichê, mas talvez seja porque eu acho "final feliz" algo clichê. Que vocês acharam? Ficou bom? Estragou tudo? Podem dizer que eu aguento o tranco. Enfim. Agora é tchau mesmo. Acabou eeeeeee depois de tanto tempo... Vou sentir saudade dessa fic e principalmente dos leitores maravilhosos. Desde os que comentavam "amei" até os que fazem altas análises, que me deixam super animada na hora de responder. Amo vocês ♥ Esse provavelmente não vai ser o último Pinecest que eu vou fazer. Se quiserem mais, logo alguma coisa vai surgir de mim. Além disso, já tenho outra fic postada também chamada Grieve. Se ainda não leu, da uma olhadinha no meu perfil que você vai amar ;) Beijos. Muito obrigado por todo esse tempo, por aguentarem os longos períodos de atualização e por estarem sempre comigo. Até~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!