Notas iniciais
Caraca mano, finalmente, mano. Como que você pode deixar tanta gente te pedindo pra continuar uma história na mão assim, mano? Qual é seu problema mano? Chegay nessa bagaça então, postando o capítulo 2 escrito com muito carinho e muitasss dificuldadessss, que vocês não querem saber mesmo. Já vou avisando que tem dor e sofrimento para ninguém me bater. Não tenho certeza se consegui dar fidelidade aos personagens (sério, é MUITO difícil escrever na visão da Mabel. Toda hora eu mudo alguma coisa, mas agora resolvi que ta bom e que saturou de mudança). Se tiver AOC, comenta aí que nois se resolve.

Mabel pôs a língua para fora, tentando cuspir a purpurina que tinha entrado em sua boca. Tinha os dedos sujos de cola e seu cabelo quase parecia ter saído de um quadro modernista de tantas cores de tinta seca, com a qual ela andara trabalhando durante toda a manhã. Olhou para a sua produção, uma pequena tela quase terminada, e sorriu satisfeita. Arte era seu pequeno dom natural, no fim das contas. E sinceramente, ela arrebentava.

Teria que esperar tudo secar até continuar na semana que vêm. O problema de ser sexta-feira era que o estúdio da escola ficaria fechado até o próximo dia de aula. Olhou em volta e depois para suas mãos e suspirou com ar de chateação. Glitter era uma das melhores coisas já inventadas, mas aquilo simplesmente grudava em tudo e, por ser a última a sair, o trabalho de limpeza tinha caído inteiro em suas mãos. Além disso, como aquela mancha de tinta foi parar no teto? Talvez Dipper fosse gostar de resolver aquele pequeno mistério.

Foi até a pia, onde uma fresta de luz amarela atravessava o canto da cortina, esquentando a bancada cheia de copos com pincéis mergulhados em diversos solventes. A água da torneira começou a sair quente. Tirou a sujeira das mãos, dos braços, do rosto, das pontas dos cabelos... Bem, o resto teria que esperar até ela chegar em casa, com certeza. Pegou qualquer flanela limpa para enxugar o rosto, quando escutou o barulho da maçaneta girando, seguido pelo rangido da porta.

Girou nos calcanhares para encarar a senhorita Anderson parada em frente à pintura, com um rosto pensativo. Era uma mulher de uns 40 anos, talvez. Alguns cabelos brancos no meio a um castanho bem curto e óculos redondos de armação roxa. Ela passou a língua nos lábios, como tinha mania de fazer e encarou a garota que secava as mãos na bermuda. Mabel, pela primeira vez se sentiu insegura sobre a tela. Aquele tipo de olhar, aquela crítica que não era dita, faziam seu coração saltar na garganta. Cerrou os punhos, tentando disfarçar qualquer expressão, e se perguntou se iria ser sempre assim daqui para frente.

— Sente-se, senhorita Pines. – A professora começou, casualmente. – Nós precisamos ter uma pequena conversa.

Mabel lutou contra o impulso de morder os lábios. Não sabia o que dizer para contornar a situação, então deixou-se pegar uma cadeira de metal e colocar em frente à mulher, que fez o mesmo. Ela sabia sobre o que seria a conversa. Ah se sabia. Esteve tentando evitar aquilo a semana toda.

— Mabel... Você é uma ótima aluna e sabe disso. Talvez uma das melhores que eu já tive em muitos anos. – Ela apertou os óculos no rosto enquanto franzia as sobrancelhas. – Por quanto tempo vai continuar escondendo essa situação dos seus pais?

— Situação? – Mabel alisou as pontas dos cabelos, ansiosa. – Eu não sei se posso dizer que sei do que está falando...

— Ah você sabe sim. – A professora apoiou as mãos nos joelhos. Sua expressão era de alguém que estava realmente furiosa. – Mabel, você foi aceita nos dois melhores programas de arte na Europa e não contou para ninguém. Se realmente vai destruir seu futuro, me de um bom motivo para eu deixar.

— Eu prefiro deixar as coisas... Você sabe, mais próximas da minha família...

— Se isso for por causa de namorado, sabe que pode parar por aí.

— Pff namorado. – Mabel abanou a mão, tentando disfarçar a mentira. – Como seu eu tivesse um.

Um longo e desconfortável tempo se passou enquanto as duas se encaravam. A expressão firme da Senhorita Anderson a fazia querer enfiar a cara em um balde. Lutou para manter a compostura, nada muito diferente do que vinha fazendo quase todas as vezes que ficava sozinha com a professora e alguma obra sua naquela sala.

Percebeu que não era de todo falsa a ideia de ficar perto da família. Afinal de contas, toda aquela pressão já a estava matando no ensino médio, imagina na universidade. Ela só queria poder colocar a alma no que fazia sem se preocupar com uma coisa tão secundária quanto proporções ou técnicas perfeitas... Quem precisa de técnica? Onde está o amor, a diversão? Qual é a graça se você não gosta do que está fazendo?

Engoliu em seco e arriscou quebrar o silêncio.

— Eu prefiro ficar perto de casa. – Repetiu com uma voz mais metódica do que achou que poderia reproduzir. Respirou e levantou os olhos, precisando tirar uma mecha ondulada do rosto com a mão suja de tinta. – Nós sabemos que é o aluno que faz a faculdade. Eu sou boa no que faço, não é? Se eu tenho uma habilidade, com certeza é a arte. Essa é minha paixão.

— Não da para viver de paixão, Mabel. Tem que ter estabilidade...

— Tudo que eu preciso está bem aqui. – A garota apontou para o próprio peito. – Se meu coração está feliz então eu estou feliz. – Levantou-se apressada. – Preciso ir, meu irmão está me esperando...

— Mabel...

— Está tudo bem. – Apontou com as duas mãos para a professora, dando um passo apara trás. – Eu vou arrebentar, você vai ver.

Praticamente correu até a porta e girou a maçaneta gelada. Não parou ao escutar a voz da sua professora lhe dizendo que, se mudasse de ideia, poderia procurá-la. Não iria mudar de ideia. Sem novas ideias para você, Mabel. Deixou-se andar mais devagar conforme se afastava pelo corredor da escola. A maioria dos alunos já tinha ido para casa, por isso seus passos ecoavam mais altos pelo corredor vazio.

Parou em frente ao portão e sorriu. Sua pequena dose de estabilidade mental. Dipper estava exatamente onde disse que a esperaria, próximo à entrada, sentado no chão com um caderno em cima das pernas e fones de ouvido. Parecia bastante entretido em que quer que seja o que escrevia a ponto de não notar a presença da irmã.

Mabel agachou-se a sua frente e enfiou a cabeça entre o irmão e o caderno, com um sorriso largo. Dipper soltou a caneta e retirou os fones da orelha enquanto a encarava. Ele ficava tão bonitinho daquele ângulo que poderia observá-lo o dia inteiro. Na verdade, na maior parte dos ângulos Dipper era bonito, mas poder ver os pequenos fios de barba querendo sair de seu queixo tão de perto, a fazia se sentir um tanto quanto especial.

Sem se dar conta, estava próxima o bastante para que pudesse sentir a respiração quente e acelerada direto em seu rosto. Ele continuava encarando, como se aqueles olhos castanhos a estivessem vendo por inteiro. Mabel já não conseguia mais desviar a atenção. Já não queria mais desviar a atenção. Fechou os olhos e sentiu seu nariz tocando a bochecha de Dipper, enquanto roçava suavemente seus lábios nos dele, até que um par de mãos a segurou pelos ombros e a afastou.

— Mabel, aqui não. – Os olhos redondos de Dipper vasculhavam em volta, só parando quando tiveram certeza que o lugar estava mesmo vazio. Sua voz, alguns tons mais alta, ecoou a si própria. – Aqui não.

— Desculpa. – Mabel repetiu apressada. – Foi sem querer, eu só... Na hora eu não pensei...

— Tudo bem. – Dipper adotou um tom mais tranquilo. Coçou a nuca com um meio sorriso constrangido – Eu também...

Um silêncio desagradável pairou, fazendo-a se sentir ainda mais culpada. Ela ainda tinha noção do que deveria ou não esconder, certo? Aquilo ainda não era totalmente, completamente, talvez nem um pouco aceito pelas pessoas, certo? Certo. Nada de beijos em público para você, Mabes.

— Bem, então. – Dipper se levantou e bateu nas próprias pernas para tirar a sujeira, dando a mão para que a irmã fizesse o mesmo logo depois. – Para o carro?

— Para o carro. – Mabel esticou o braço com o punho na direção do estacionamento, imitando um super-herói. – Eu dirijo! Se prepara, porque a super piloto está no comando hoje.

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O tempo estava ficando cada vez mais fechado, deixando as cores da pracinha um pouco mais apagadas que o de costume. Já conheciam bem aquele lugar. Todas as sextas e possivelmente alguns sábados ou domingos, pegavam o carro juntos e iam até a pracinha mais afastada de toda a sua vida social que conseguiram encontrar.

Mabel gostava de pensar que era um espaço do mundo só deles. Um lugar de bancos deserto com algumas árvores maiores atrás de uma quadra, onde crianças bem pequenas corriam por aí. Mas o que mais gostava era a barraquinha de cachorro quente, um verdadeiro achado.

Cantarolou a música mais antiga de Sev’ral Timez que conhecia com o único intuito de perturbar o irmão, enquanto caminhavam de mãos dadas. Porém precisou parar quando ele cantou de volta. Um sorriso se formou no rosto de Dipper, provavelmente ao vê-la de queixo caído. Golpe baixo, Dipstick, golpe baixo...

Sentaram no mesmo banco de sempre, o mais escondido e entre árvores, mas que tinha uma boa visão da praça inteira. Segundo Dipper, o mais seguro, já todo o cuidado era pouco... Mabel suspirou. Claro que se beijar em frente ao portão da escola não era exatamente o mais inteligente, mas se preocupar com uma pracinha quase abandonada do outro lado da cidade já era exagero da parte dele.

Qualquer situação, porém, que pudessem estar completamente juntos sem maiores preocupações era bem-vinda. Entrelaçaram os dedos apertado o suficiente para que pudessem sentir o toque um do outro. Mabel encostou a cabeça no ombro do irmão, que lhe deu um beijo na cabeça em retorno. Ela tocou-lhe o queixo, sentindo com as pontas dos dedos a aspereza da pele naquela área.

— Da para acreditar que daqui a pouco já é verão? – Dipper começou, suspirando. – Parece que faz pouco tempo que fomos a Gravity Falls pela primeira vez. Você teve tanto medo do ensino médio... E agora está acabando.

— É. – “Mais uma coisa que está acabando.” – Você já decidiu para qual faculdade vai? Eu vi aquela tonelada de cartas chegando. Aposto que tudo positivo para esse meu irmão nerd.

— Não sei, Mabes. Tem muitas coisas para considerar, sabe como é? Pesquisas a fazer e tal. Acho que vou acabar ficando por aqui mesmo...

— Dipper, você sabe que não precisa deixar de ir para onde tem vontade por minha causa, não é?

— Não, é sério. Eu considero essa uma ótima oportunidade para mim. – Ele a encarou por um instante. – Além do mais, você não está fazendo exatamente a mesma coisa? Quer dizer, é obvio que você está escondendo algo dos nossos pais.

— Eu, esconder? – Mabel mostrou as palmas das mãos, nervosa. – Não sei do que está falando...

— Para onde? – Dipper levantou uma sobrancelha.

— Não sei... Talvez... Paris... – Ela assistiu ao queixo do irmão cair, tentando manter um sorriso inocente no rosto. Colocou os cabelos para frente e passou os dedos por toda a sua extensão. – Bem, você não pode me culpar por estar escondendo... A mamãe ia pirar se soubesse que eu tenho essa chance. Eu praticamente não teria a mínima possibilidade de escolha.

— Realmente. – Dipper respondeu, com aquele ar de pensativo de quando mil coisas estão se passando por sua cabeça. – Mabel, essa é uma oportunidade incrível e...

— Maaas eu prefiro ficar perto de casa com a mamãe o papai e o meu namorado. Sem mais perguntas, senhor.

Dipper pareceu querer protestar. Seja lá o que foi que ponderou, ele se limitou a acenar uma concordância, ainda que visivelmente contrariado. Decidiram comprar um refrigerante para aliviar a conversa estranha. Andar de mãos dadas era uma das partes de “serem namorados normais” que Mabel mais gostava. A barraca estava com uma fila de três pessoas, os fazendo ter que ficar parados em baixo do sol por alguns minutos.

Uma bola veio rolando até os pés de Dipper, que olhou para baixo surpreso. Quase que instantaneamente apareceram um menino e uma menina de no máximo uns 8 anos, visivelmente irmãos. O rapaz chutou a bola, de modo descompromissado, na direção de qualquer um dos dois. Mabel não pode deixar de pensar que pareciam ser uma versão pequena dela mesma com Dipper enquanto os via sumir por entre as árvores.

O refrigerante já tinha acabado e agora eles só estavam andando sem rumo, enquanto conversavam sobre o que fazer da última festa de aniversário antes da faculdade. Um trovão ecoou no céu. Mabel olhou para as nuvens, que já tinham dominado completamente qualquer pedacinho de azul, e percebeu o cheiro de chuva começar a dar as caras. Estava na hora de irem para casa.

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Dipper se contorceu ao ter as costelas tocadas. Era bom ir se preparando, pois lá vinha um ataque de cócegas dos grandes. Mabel deixou escapar uma risada quando ele segurou suas mãos sobre a cama, impedindo-a de se mexer. Sempre se surpreendia com o quanto que, em um piscar de olhos, seu irmão tinha ficado tão mais forte que ela. Mesmo que quisesse se soltar não conseguiria.

Mas é claro que havia outros métodos. Inclinou a cabeça, fazendo menção de beijá-lo, precisando esperar pouco até a reação vir em forma de um toque de leve em sua boca. Segurou o lábio de Dipper entre os dentes e puxou com certa força. Ele permaneceu encarando um tanto quanto ofegante, uma mancha vermelha começou a se formar no lugar da mordida, mas foi logo desfeita pela ponta de sua língua. Mabel franziu a sobrancelha.

— O que foi isso? – Dipper imitou a expressão da irmã.

— Você não vai... Sabe, dar um gritinho e reclamar?

— Um gritinho? – Ele levantou uma sobrancelha, com meio sorriso no rosto – Mabel, quantos anos mesmo você acha que eu tenho? – Ela manteve a expressão. A história da idade não era nem um pouco suficiente para justificar aquela reação estranha. Dipper desviou o olhar e levou a mão à boca, lambendo a ponta do dedo junto com a ferida. – Vamos dizer que talvez... Eu tenha gostado...

— Opa opa opa! -- Mabel lançou uma perna em volta do torso do irmão, forçando-o a rolar para baixo de si. – Quer dizer que o Senhor Dip gosta de umas mordidas? Que mais será que ele gosta e eu não sei?

Seu cabelo formando uma cortina ondulada em volta de tudo que não fosse aquele rosto, do qual se aproximava cada vez mais. Mordeu-o com um pouco menos de força. Dipper a encarou com olhos castanhos e redondos. Era como se pudesse enxergá-la, cada pedaço de desejo, a ânsia por cada toque. No momento seguinte era ela quem ofegava. Beijou-o, partindo da bochecha até a parte de trás da orelha. O cheiro de Dipper encheu-lhe o nariz. Sorriu quando sentiu os músculos tencionarem em baixo de si. Claro que sabia como ele gostava, mas resolveu tentar algo um pouco mais... Intenso.

Tomou-lhe a pele entre os lábios e chupou com a força que conseguiu. Dipper tentou suprimir um gemido, o que tirou um sorriso dos lábios da irmã. Ela repetiu o processo, intercalando com pequenas mordidas, para vê-lo se contraindo até que não pudesse mais segurar os sons que produzia. Sentiu a mão do rapaz se enterrar em sua nuca, enroscando-se em pequenos cachos.

Mabel separou-se com um último beijo no osso da clavícula e se pôs sentada. Tirou a camisa sem cerimônias, revelando-se nua por baixo dela. Dipper a olhou com a boca entreaberta e as bochechas avermelhadas. Ele estava uma gracinha daquela forma. Mabel agarrou-o pela gola de sua roupa e puxou até que levantasse para tirá-la. Aproximou-se do ouvido do irmão, sem deixar de notar duas grandes manchas arroxeadas onde ela esteve.

— Hoje você vai me dar prazer. – Sussurrou e então o encarou, fazendo-o levantar a cabeça para encontrar seus olhos. Segurou-lhe o queixo com uma das mãos e mordeu o lábio. – Meu.

— Seu. – Dipper sussurrou de volta, parecendo satisfeito.

Ao que parecia, ele gostava de um tratamento mais... intenso. Bom, Mabel não tinha do que reclamar, ela estava adorando. Sentia seu corpo arder por todas as vezes que precisara se reprimir, todas as vezes que seus olhos se encontravam e seu único desejo era arrancar-se de si própria. Se ele queria isso selvagem, ela iria lhe dar toda a selvageria.

Alcançou-lhe os lábios, sem se importar em empurrar a língua para dentro da boca do rapaz. Dipper segurou-a pela cintura. Um toque perfeitamente calculado. Não estava certo, hoje não era dia de ceder. Queria tirar dele toda a certeza, todo o controle, até que sobrassem apenas os dois. Começou um movimento cíclico com o quadril, enquanto tomava-o entre os dentes. Dipper apertou os olhos, as mãos a envolvendo com mais força, da forma como ela queria.

Levantou-se sobre os joelhos e com a mão na nuca do irmão, forçou-o contra um de seus seios. Estremeceu enquanto a língua brincava com seu mamilo. Agarrou-se aos cabelos de Dipper e puxou-o, instigando os chupões a ficarem mais fortes. Sentiu uma mordida e trancou os dentes. Ele a encarou por um instante, como se pedisse permissão. Pela primeira vez em bastante tempo, ela o via sem ter ideia do que fazer. Era incrível.

Foi até o fecho da calça de Dipper com a mão livre. Rapidamente estavam tirando as próprias roupas de baixo e jogando-as em qualquer lugar que não importava. Com as mãos apoiadas dos lados da cabeça do rapaz, colocou-o para dentro de si com um beijo. Parou quando chegou ao fundo, sentindo seus quadris queimarem de vontade. Moveu-se o mais lentamente que pode, contendo qualquer participação da parte do irmão. Sem deixar de encará-lo por nenhum instante e viu uma expressão quase desesperada de súplica.

Ele a desejava. Tanto quanto ela sentia o mesmo. Era incrível, pois nunca tinha pensado que iria amar tanto alguém daquela forma. Fez um movimento brusco com o quadril para baixo, enterrando o garoto em si própria. Repetiu, uma, duas, três vezes. Mais rápido, mais fundo. O calor irradiando por suas pernas. Arqueou as costas, enquanto entrava em sincronia com Dipper, e permitiu-se gemer alto até que sua vista estivesse embaçada e a tensão do seu corpo fosse insuportável. Agarrou-se ao lençol e fechou os olhos.

E então um clique, e o barulho da porta se abrindo.

Mabel abriu os olhos para enxergar a expressão de terror no rosto do irmão. A luz acesa não escondia absolutamente nada. Não que tivesse mais como esconder qualquer coisa. Afastou-se de Dipper o mais depressa que pôde e olhou para a entrada do quarto. A figura de sua mãe, com os braços ao lado do corpo parecia transtornada. Os dois permaneceram estáticos, enquanto viam a expressão da mulher mudar várias vezes até que ela desse o primeiro passo para dentro do quarto.

Antes que pudesse perceber, Mabel estava tentando falar qualquer coisa. Qualquer desculpa que viesse a sua cabeça iria servir. Queria piscar e fazer tudo desaparecer, nunca antes um suéter lhe fez tanta falta. Sua cabeça parecia girar, as palavras saíam como se não fossem dela. “Mãe, nós só estávamos...” Antes que pudesse completar alguma frase, sentiu-se puxada violentamente pelo braço para fora da cama, parando no meio do quarto.

— Eu sei o que vocês estavam fazendo. – A resposta veio numa voz ríspida e mais alta do que o de costume. Aquela com certeza não era uma bronca comum. – Vistam-se os dois.

— Mãe, a gente precisa falar com calma. – A sensação de não ter ideia do que estava falando costumava ser normal. Agora era terrível.

— Agora.

Sem discutir, Dipper começou a pegar as próprias roupas do chão o mais rápido que podia. Mabel percebeu que as mãos dele tremiam enquanto desviravam a camiseta. Ela mesma agarrou-se à primeira camisa do irmão que conseguiu pegar. Teve que dar dois passos na direção da cama para pegar seus shorts. Levantou a cabeça, na busca de um encontro confortável de olhares com o rapaz, mas ele mirava fixamente a outra figura presente com uma expressão quase petrificada.

— Desde quando? – Mabel mordeu os lábios, deixando o silêncio preencher o ar. Viu os olhos de sua mãe se estreitarem. – Desde quando, Dipper?

— Um ano. – Ele respondeu em um tom muito fino.

— Um ano? Vocês pretendiam me contar? – Ela virou-se na direção do rapaz. – Têm noção do que estão fazendo? Eu achei que pelo menos você fosse sensato. Eu chego em casa um pouco mais cedo para pegar você agarrado com sua própria irmã. – Mabel a viu tremer enquanto passava os dedos pelo cabelo curto. – Isso... Isso é... Dipper onde está sua responsabilidade? Você tem noção das consequências disso, não tem? Tem noção do que está fazendo com a sua família?

Mabel cerrou os punhos, percebendo a tensão crescer nos ombros do irmão. Ele não respondeu. Dipper sempre fora engenhoso, por que não estava falando nada? Provavelmente ele já tinha pensado em várias coisas e mesmo assim continuava calado enquanto sua mãe berrava várias coisas em relação ao que ELE estava fazendo. Mabel teve raiva da sua própria ingenuidade. Era obvio que a culpa iria cair mais para cima de Dipper. Não podia deixar isso acontecer. Não iria deixar que ele pagasse pelos dois.

Defendê-lo era a única coisa a se fazer. Deu um passo na direção da mãe, disposta a colocar toda a culpa em si própria. Se alguém tinha que ouvir sobre responsabilidade aqui, esse alguém seria a dona Mabel. Pôs a mão no ombro da outra, mas não precisou dizer nada antes que algo acertasse a lateral de seu rosto, seguida pela dor que a fez recuar incrédula. Tocou a região onde havia levado o primeiro tapa de sua vida, assustada.

— Cala a boca Mabel. – A mãe pressionou a própria têmpora e suspirou. Tinha lágrimas nos olhos e uma expressão severa. Dirigiu-se outra vez para Dipper, que continuou sentado imóvel. – Meus próprios filhos... Na minha casa. Não posso... Isso não é normal. Eu... tenho nojo de vocês.

— Mãe, nós não...

— Cala a boca Mabel. – Ela agarrou-lhe o braço com força, arrastando-a em direção à porta. – Nós vamos para o seu quarto agora. É onde vocês vão ficar até seu pai chegar e nós chegarmos a um acordo sobre o que fazer.

Não havia o que discutir. Mabel deixou-se ser conduzida até o cômodo ao lado. Assim que a porta se fechou, escutou o barulho da tranca atrás de si. Sentou-se sobre a cama, sentindo a cabeça girar e os olhos encherem de água. Estava com medo. Não tanto por si própria, no entanto. Dipper deveria estar aos pedaços. Se estivesse tudo bem ele teria dito algo. Não teria? Queria abraça-lo, dizer a ele que iriam sair dessa. Queria juntar as próprias coisas e fugir. Queria gritar.

Atolou a cabeça entre os joelhos e chorou. “Tenho nojo de vocês.” As palavras ecoavam em sua cabeça. Como será que ele estava reagindo? Não conseguia pensar em mais nada além de como a mente inquieta de Dipper estava processando aquilo tudo. Com certeza das piores formas possíveis. Se ela ao menos não fosse tão egoísta de ter começado aquele namoro... Não. Não podia pensar assim. Eles ficariam bem, conversariam com seus pais sobre isso tudo e eles teriam que entender, com certeza.

Duas horas de espera pareceram uma eternidade. Mabel ficou deitada, imaginando formas de convencer sua mãe de que estava certa em amar seu próprio irmão. O que poderia ter de tão errado nisso afinal? O poder do amor deveria vencer de qualquer maneira.

Desceu as escadas, assim que seu pai apareceu diante da porta, completamente sem expressão. A tensão no ar era assustadora quando chegou à cozinha, onde os outros dois já estavam. Dipper olhava fixamente para o chão e não levantou a cabeça em momento algum. Mabel mordeu os lábios, nervosa. Ele estava com medo, certamente, mas isso não a faria desistir de conversar com todo mundo. Iria fazer tudo sozinha, mostrar a jovem responsável por baixo das mãos sujas de tinta. Iria cuidar dele o quanto precisasse.

— Vocês entendem a gravidade da situação, não é? – Seu pai perguntou em um tom tão neutro que soava tenso.

— Sim. – Dipper respondeu antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.

— Sobre o que nós conversamos mais cedo, filho. – Mabel virou o rosto na direção do irmão, confusa. O que eles tinham conversado mais cedo? – Sabe o quanto isso vai contribuir para o seu futuro.

— Sei...

— O que? Do que vocês estão falando? – Mabel se intrometeu.

— Dipper vai estudar em Harvard ano que vem. – Dessa vez foi sua mãe que falou em um tom neutro estranho.

— Mas isso é tipo... Do outro lado do país.

— E também a melhor universidade do mundo. – Seu pai completou. – As passagens já estão compradas para daqui a três dias. Sua tia vai ficar feliz em recebê-lo até o final das férias. Até lá...

— Vou ficar na casa do George. – Dipper respondeu.

Parecia que todo mundo resolveu usar o mesmo tom de voz naquela casa. Mabel demorou um tempo para processar a informação. Três dias... E as férias de verão? E sua última festa de aniversário antes da faculdade? Não era possível que ele tivesse concordado com isso. Encarou rosto a rosto na cozinha, percebendo o quanto tudo já estava perfeitamente acordado. Dipper estava vestido para sair. Notou uma mala recém feita perto da porta. Ele não iria esperar nem uma noite? Não haveria tempo para se despedir direito?

Assistiu-o passando pelo batente com uma bolsa pendurada em um ombro e a bagagem maior no outro. Já havia anoitecido. A tempestade lá fora o forçou a pegar um guarda-chuva pendurado. A casa do George ficava próxima o suficiente para ir andando. Dipper pediu para que não chamassem um taxi. O coração de Mabel parecia se apertar mais a cada segundo até que a porta finalmente se fechou diante de seus olhos.

Não, ela não podia deixar. Desvencilhou-se da mão em seu ombro e, antes que pudesse ser parada, correu em direção à saída. Estava descalça e não demorou muito tempo até que suas roupas ficassem encharcadas. Não podia deixar que ele se fosse assim. Enrolou-se em seus próprios braços, tremendo enquanto caminhava. Encontrou a figura do irmão a alguns metros e correu ao seu encontro.

— Mabel, o que você está fazendo? – O rapaz estendeu o guarda-chuva em um movimento que ela fez questão de recusar. Aquela era uma péssima hora para começar a ser protetor.

— O que eu estou fazendo? O que você está fazendo? – Por algum motivo ela estava gritando. Tinha vontade de jogar qualquer coisa na direção dele. Suas bochechas estavam quentes e a água que escorria por elas não era apenas de chuva. Não conseguiu entender como Dipper, aquele que sempre pensava em uma solução para tudo antes de desistir, estava indo embora assim. Tinha a pergunta quase entalada na garganta. – Por que, Dipper?

— Por que nós estamos vivendo uma mentira. – A voz dele soava quase robótica, mas um pouco mais aguda e alta. -- O que você acha que iria acontecer? Não da para disfarçar algo assim para sempre. O que você queria que eu fizesse?

— Conversasse com eles, me deixasse falar alguma coisa. – Mabel fez gestos grandes enquanto tentava expressar tudo aquilo que pensava. – Dipper, nós podemos resolver isso, nós podemos dar um jeito.

— Eu conversei com eles. Você viu o que ela disse... Ela está certa. Nós não podemos continuar com isso. – Ele franziu as sobrancelhas e abaixou os olhos, como se estivesse com dor. – Não tem como eu deixar você desistir de tudo por minha causa.

— Desistir do que? Não sou eu quem está desistindo de tudo aqui. – Ela fechou os punhos com força. Estava com raiva. Do que ele estava falando? Quem aqui tinha falado algo sobre desist... Seu queixo caiu com o súbito entendimento daquela frase. – Dipper se isso for sobre a faculdade...

— Não é só sobre a faculdade. – Ele piscou. O vento bagunçava seu cabelo e, mesmo com o guarda-chuva em mãos, estava tão ensopado quanto a irmã. – Nós precisamos ter nossas próprias vidas. Como vai ser daqui a vinte anos? Não posso proibir você de ter sua própria família assim. Pensa que eu não noto o jeito que você gosta de crianças?

— Mas que crianças? Ok, Dip, você oficialmente extrapolou o limite do excesso de pensamento. Danem-se os vinte anos. Não tem nada para se preocupar aqui, irmãozinho. Você É a minha família.

— Exatamente, Mabel. – Ele a encarou por um espaço de tempo desconfortável. Seus olhos estavam vermelhos, mas sua expressão era algo como dura demais. – E não tem absolutamente nada que eu possa fazer ou dizer que vá mudar isso.

Mabel observou-o, boquiaberta. Tinha vontade de gritar “não vai”, “nós vamos dar um jeito”. Mas não iria adiantar, ia? Nunca havia visto Dipper agir daquele jeito. Ele estava errado, mas estava certo. Podia sentir que dessa vez ele não iria segui-la no que quer que pedisse, como sempre fora. Viu a última pergunta que ela queria fazer na terra escapar por seus lábios quase como uma labareda.

— É o que você quer? Viver uma vida própria, ter sua própria família, mesmo que isso não me envolva?

— Sim, é o que eu quero.

Era como se alguém estivesse beliscando o seu coração e ela não pudesse socar essa pessoa por isso. Aquele tom de voz seco não ajudava em nada. Se Mabel estava tentando disfarçar o choro antes, agora já não havia mais jeito. Enterrou o rosto entre as mãos e deixou-se soluçar. Não importava onde ela estava, queria que uma fenda se abrisse e a engolisse.

— Você vai encontrar alguém. – A voz de Dipper quase parecia vir de dentro da sua cabeça. – Vai começar a gostar de algum cara aleatório e vai fazer de tudo para atraí-lo, sem muito esforço. Sempre foi boa nisso.

Não queria ouvir aquilo. Precisava de um abraço, não daquelas palavras de “conforto”. Seus soluços ficaram mais altos e a força de suas pernas estava se perdendo. Agachou, sem olhar para cima, afundando a cabeça no meio dos joelhos. Percebeu que o guarda-chuva foi deixado ao seu lado de um jeito que a protegia parcialmente. Ela só queria que aqueles braços a envolvessem e que a mesma voz de segundos atrás lhe dissesse que tudo voltaria ao normal.

Mas ele não disse. Junto ao barulho da chuva, Mabel escutou o som de passos se distanciando.

Notas finais
Voilá. Não tavam querendo capítulo novo? Segurem essa marimba agora.