Ragnarok

I

The Awakening

Episódio 3 – Heróis

O irmão mais novo do atual rei de Rune Midgard vivia em um enorme castelo nos arredores de Izlude. Ele morava lá com a sua mulher e criados, e desejava um filho homem para dar continuidade a sua família. Ele e sua esposa tentaram por vários anos, sem que a mulher engravidasse. Quando o dia em que elafinalmente deu a luz chegou o fato foi comemorado como sendo um milagre: Era um menino!

O próprio Tristan III compareceu a festa de comemoração, e durante a celebração do nascimento da criança, o pai desta prometeu ao irmão, destinado ao trono, a vida de seu próprio filho para servi-lo como cavaleiro, no futuro. A promessa foi bem visto pelo príncipe, e dizem que foi graças a este gesto simbólico que o irmão de Tristan ganhou o posto de governador de Izlude, a cidade satélite da capital.

E foi assim, tão levianamente, que a infância de um garoto com todo o futuro pela frente foi vendida por prestígio político.

Desde o berço, o bebê foi acostumado ao seu futuro.O carinho da mãe lhe era negado, não lhe era permitido chorar. Brinquedos, apenas uns poucos, todos imitando armas que no futuro ele viria a empunhar. Siegfried Alsvid se tornou um jovem frio e ríspido que não brincava nem mantinha amizades. Com oito anos já iniciava os cursos de esgrima e equitação.

Um dia, no caminho para os estábulos, o pequeno Sigfried avistou uma garota apoiada na cerca que limitava o terreno. A pequena tinha mais ou menos a mesma idade dele, e acenou ao perceber que ele a tinha visto.

-Oi!- A garota era ruiva, com cabelos longos e revoltos, e olhos azuis do tom do céu sem nuvens que cobria os campos de Izlude . Parecia amigável. Sigfried se aproximou da cerca.

- Quem é você?- A pergunta, um tanto rude, foi dita com tanta ingenuidade que a desconhecida riu. O garoto estranhou a reação.

-Desculpa, esqueci de me apresentar. Meu nome é Arianne... Arianne S. Sauer. Pode me chamar de Anne. Eu moro aqui perto, e meu pai disse que morava um menino da minha idade nesse castelo, então eu vim ver. Estou morrendo de tédio desde que mudamos para cá. — A garotinha deu um sorriso. –E o seu nome, qual é?

Sigfried, ainda sem expressão, apresentou-se:

-Me chamo Siegfried Alsvid.

Anne olhou para o castelo ao fundo.

-Então esse é o castelo dos Alsvid... Seu pai é o governador, né?

-É... Desculpe, eu estava a caminho do estábulo, tenho aula de equitação.

Foi a vez da garota de ficar confusa.

-O que é equi... equi...

Sigfried riu, uma visão rara.

-Equitação. É como se diz quando agente se aprende a montar no Peco-peco.

-Então porque não falam simplesmente “montar Peco-peco”, em vez dessa palavra difícil?

A conversa continuou por algum tempo. Sem perceber, Sigfried criava uma relação de amizade com a recém chegada com a facilidade que apenas as crianças pequenas possuem. Arianne era uma camponesa, filho de um tratador de Peco-Pecos. Ela e o pai se mudaram para Izlude há pouco tempo, e viviam em um rancho nas redondezas.

Infelizmente, Sigfried teve que seguir para a sua aula, mas, no dia seguinte, Anne estava no mesmo lugar. Assim como no dia seguinte, e no próximo, e no dia depois daquele... Por um bom tempo os dias se seguiam assim. Anne sempre o esperava no mesmo lugar, naquela cerca, às vezes trazendo jogos ou brinquedos. Sigfried comentava com ela sobre as suas aulas e tentava ensinar algumas das coisas que aprendia com os tutores para ela. Assim, os meses e anos se passaram. O jovem, já com 15 anos, conhecia o pai da amiga. Arianne também já freqüentava o castelo, apesar do pai de Sigfried ter mostrado desaprovação á sua presença, diferentemente da mãe do herdeiro, que convidava a jovem para o jantar sempre que podia.

Foi nessa época que, um dia, começaram a discutir sobre o futuro.

-...E é por isso que eu quero se veterinária. Meu pai sempre me ensinou a amar e respeitar os animais, e além do mais, eu não agüento ver um ser vivo sentindo dor... E você, o que quer ser quando crescer?

Sigfried parou para pensar seriamente no assunto.

-... Eu... Eu não sei... – Foi tudo o que ele disse.

-Mas com todas essas aulas de esgrima, equitação, artes marciais... Sempre pensei que você quisesse ser um guerreiro. Estou errada?

-Não é isso... É que... Eu nunca cheguei a pensar muito sobre isso. A verdade é que o meu pai fez estas escolhas por mim. Ele me disse que o meu futuro já está determinado.

Um silêncio desconfortável se seguiu a esta fala.

-Sieg... Você gosta de mim?

A pergunta pegou o garoto de surpresa.

-É claro, Anne! Eu gosto... Eu gosto muito de você!- Sigfried ficou confuso com o rumo que a conversa tomou.

-Então vamos fazer uma promessa! No dia que você se tornar um cavaleiro grande e forte, nós vamos nos casar. Mas só se você der tudo de si para se tornar muito forte! Assim, você vai ter um objetivo para o futuro! A não ser... A não ser que...

Como resposta, o jovem abraçou Anne e a beijou. Aquela garota tinha dado a ele um sonho, uma finalidade na vida. Ele não era mais o garoto preso pela promessa do pai.

Observando a cena de uma janela do castelo, a mãe de Siegfried secou as lágrimas e sorriu.

~

Um garoto de uns 17 anos treinava no pátio da guilda, com outros membros. Ele, porém, era visivelmente muito mais jovem do que os outros, todos com mais de 20, mas ainda assim mostrava uma habilidade muito superior a dos colegas. Ele era alto, de cabelos castanhos escuros e espetados que batiam na altura do seu ombro e olhos azuis de um tom desbotado. Já era bem conhecido pelos outros espadachins da guilda, principalmente graças sua família. Todos acharam que o sobrinho de Rei seria um fracote, um mimado. Estavam redondamente enganados.

Ele derrubou os três adversários de treino com um último movimento de sua espada, uma lâmina quase tão grande quanto o próprio jovem. Ao final do treino, os companheiros já estavam arfando. Ele, por outro lado, mal suava.

-Muito bem, Siegfried Alsvid, muito bem.- Um homem de meia idade adentrou no campo de treinamento, batendo palmas. Era o instrutor encarregado do grupo, o senhor Yasod- Tenho uma carta para você.

O espadachim se aproximou do senhor, embainhando a espada. Ele puxou a carta das mãos do homem e se retirou sem dirigir a este nenhuma palavra.

-Ele sempre fica assim quando recebe correspondência... – Reclamou o instrutor.

Os outros três, que ainda sem arrastavam, foram avistados pelo homem. — Vamos, deixem de moleza, vocês ainda tem muito treino pela frente!

Nos seus aposentos na guilda, Siegfried sentou-se para abrir a carta. Já fazia um ano que ele tinha entrado na guilda dos Espadachins, mas ainda era o mais jovem entre eles. Com apenas 17 , ele já tinha o posto de guerreiro mais poderoso, tendo completado várias missões e destruído muitos monstros.

Ele abriu o envelope e reconheceu a assinatura de Arianne. Desde que ele se retirou do castelo e se mudou para a guilda, eles tinham se falado muito pouco. Por outro lado, eles trocavam cartas semanalmente. Esta, porém, era singularmente curta.

Querido Sieg

Temo que essa seja a última carta que mandarei para você. Eu e o meu pai vamos voltar para Einbroch, por razões que não posso expressar em papel. Posso expressar apenas minha profunda tristeza em saber que ficaremos separados mais tempo.

Nossa promessa ainda está de pé. Quando você for um Cavaleiro Real, quando for verdadeiramente forte, venha me encontrar. Juntos, mudaremos o destino.

Com amor, ‘Anne.

Siegfried voltou para o campo de treinos, decidido, onde os três espadachins de antes ainda treinavam com o instrutor. Ele se aproximou do homem mais velho, ainda segurando a carta aberta fortemente entre as mãos.

-Senhor, eu quero me tornar um Cavaleiro. Agora.

~

Já fazia muito tempo que Siegfried não ia até Prontera. Na sua infância, ele tinha ido até lá para alguns bailes no castelo do tio, mas nunca andara pelas ruas da cidade. De qualquer forma, ele não estava nem aí para o turismo. Ele estava na cidade com um objetivo.

-Acalme-se, estamos quase na cavalaria. — O instrutor Yasod deve ter visto sua impaciência em seu rosto. Ele e Sigfried cavalgavam seus Peco-Pecos pelas ruas da maior cidade de Rune Midgard, a capital Prontera. O homem mais velho mostrava a direção e o jovem candidato a cavaleiro o seguia. Sua mente, porém, viajava longe. Sigfried sentia-se assim desde a semana passada quando recebeu a última carta de Arianne. Porque será que ela deixou o Reino? Será que estava tudo bem com ela? Ele não conseguia deixar de se preocupar.

-Chegamos.

Sigfried quase caiu do Peco-Peco. Estava tão distraído em seus pensamentos que não percebeu o enorme Quartel General da Cavalaria Real de Rune Midgard, bem na sua frente. Era realmente uma visão bastante ostensiva de poder militar, e bem no meio da cidade! Ele e o instrutor guardaram suas montarias no estábulo, o maior que Sigfried já vira, antes de rumarem para o salão principal.

Por dentro, o prédio lembrava Sigfred de seu castelo, cheio de flâmulas e armas decorativas nas paredes. Esta estrutura, porém, era muito maior do que seu lar. Vários Cavaleiros trajando armaduras pesadas transitavam pelos corredores, assim como escudeiros, ferreiros... O lugar com certeza era movimentado.

Eles finalmente chegaram ao salão principal, onde um homem de pele escura, com aparência importante, mexia com alguns papéis e arquivos atrás de um balcão. Quando Sigfried se aproximou, ele parou o que estava fazendo.

-Bem vindos a Cavalaria. Em que posso ajudá-lo?

O instrutor tomou as rédeas da conversa.

-Boa tarde, eu sou Leon Yasod, instrutor chefe da Guilda dos Espadachins. Como sabe, nossa guilda possui um pacto com a cavalaria, mandamos os melhores lutadores da nossa guilda para vocês em troca de suporte. Bom, esse jovem aqui está aqui para isso: Ele é o melhor recruta que treinamos há algum tempo.

O homem olhou para Sigfried com mais atenção, medindo-o da cabeça aos pés. Parecia intrigado. Ele pegou alguns formulários e uma pena.

-Tudo bem, qual o nome do recruta?

-Sigfried Alsvid.

-ALSVID!?- O homem deixou a pena cair no chão, devido ao choque. Pessoas que estavam na sala viraram-se para o balcão, curiosas.

-Mas... Mas esse é o sobrenome do rei!

As pessoas em volta começaram a cochichar. Leon pôde entender, afinal, teve a mesma reação quando o governador veio a sua guilda inscrever o filho no programa.

-Bom, sim. Continuando...

-Não posso deixar um parente do rei entrar na cavalaria!

Siegfred voltou seu olhar para o homem. Ele falava sério. Leon tentou remediar a situação.

-Olha, ele não quer nenhum tratamento especial, mas...

-Não quero saber! Não vou deixar um nobrezinho entrar nas fileiras desta organização porque seu pai é parente do rei e têm contatos! Temos uma imagem para manter aqui!

Então era esse o motivo da surpresa. Leon continuava frio, mas Siegfried começava a perder as estribeiras: ele sempre teve pavio curto.

-Não admito que vá me recusar assim, sem nem testar minhas habilidades! Isto é um absurdo! Você faz idéia por quanto tempo em treinei para chegar aqui?

-Tudo bem. Então eu vou te dar uma chance... Que tal um teste? Eu quero que você vá até a vila dos Orcs nos arredores de Geffen e me traga um elmo cerimonial. Mas você devia desistir logo e voltar para o castelo de onde veio. Aposto que você tem bailes e festas para...

Siegfried cortou a fala do homem com uma batida no balcão e partiu sem mais nenhuma palavra, deixando o senhor Yasod, muito confuso, para trás.

~

As lanças de fogo voaram pelo ar e atingiram o alvo. O ser que tombou, incinerado pelas chamas, lembrava uma espécie de monstro canino.

-Pronto. Esse foi o último Kobold.

Gillian ajeitou as luvas. Estava um pouco cansado, mas nada que alguns minutos de descanso não dessem conta. Mais importante que isso, ele realmente sentia que o treinamento com Dark estava dando resultados.

-Ok, vamos continuar. A vila dos Orcs não fica longe.

-Espera só um pouco, preciso repousar... Usar magia é cansativo.

Gillian sentou-se ali mesmo no chão, enquanto o assassino vigiava a presença de mais algum monstro na área. Os Kobolds, porém, pareciam ter sido verdadeiramente exterminados.

-Olha, se você não quiser ir, eu entendo. Eu vi o que você fez na ponte naquele dia, mesmo estando congelado. Você já é muito forte.

O mago olhou feio para o mercenário. Dark sabia que Gillian não gostava de se recordar daquele evento duas semanas atrás, mas ele queria esclarecer aquele ponto.

-Não posso simplesmente colocar minhas esperanças em poder aleatório do qual não tenho nenhum controle! Você mesmo viu. Eu estava fraco, e a habilidade só voltou para mim quando era tarde de mais... Preciso me fortalecer, ser capaz de invocar aquele nível de poder naturalmente. Não vou permitir mais fatalidades.

Dark assentiu.

-Entendo. Bom, vamos andando então.

Há duas semanas, quando fugiu da sua prisão onde esteve retido por 50 anos, seu poder tinha revertido ao nível de um mago. Com a ajuda de Dark, pouco a pouco, ele recobrava os seus poderes atrás do meio de treino mais eficaz: Experiência verdadeira de combate. Por isso ele acompanhava o assassino para o antro de monstros que era a Vila dos Orcs. Aqueles seres humanóides brutais seriam um teste verdadeiramente desafiador. Livrar-se daqueles monstros, que habitavam tão perto de Geffen, poderia trazer uma boa recompensa, ainda por cima.

-Mas se as coisas ficarem perigosas vamos fugir imediatamente. Ouvi dizer que existem alguns Orcs muitos fortes naquela aldeia.

Gillian concordou. Ele também não queria arriscar tanto naquele treinamento. Se as criaturas se revelassem muito mais fortes do que ele, a fuga seria prioridade.

-Tudo bem, mas não podemos ter certeza se não tentarmos.

~

O espadachim agradeceu a Kafra por seus serviços de teleporte e adentrou em Geffen. Era a primeira vez que visitava a cidade, por isso se surpreendeu com a quantidade de magos, bruxos e outros usuários de magia pelas ruas. O céu estava congestionado de gente que usava os mais inusitados artefatos para voar, desde vassouras a tapetes encantados. Naquele lugar, a mágica parecia fazer parte do dia-a-dia. Siegfried, porém, não observou por muito tempo. Estava ali em missão, não deveria se distrair. O espadachim procurou um guarda, a procura de direções para a Vila dos Orcs.

A informação não foi difícil de conseguir. Após descobrir a localização do lugar que procurava, Siegfried preveniu-se comprando mantimentos e poções. Depois de concluir aquela tarefa, ele deixou a cidade. A Vila dos Orcs realmente não ficava muito longe, e o espadachim não encontrou muitos desafios pelo caminho, o que era estranho. O guarda o advertiu da existência de uma perigosa matilha de Kobolds naquela área.

Apenas algumas horas de caminhada foram necessárias para que Siegfried começasse a ver as trincheiras de madeira e as barracas rústicas dos monstros que procurava. Quase imediatamente, ele escutou as bestas: Seus gritos guturais eram facilmente inidentificáveis. O espadachim desembainhou sua arma, preparando-se para a luta.

~

Runa não parecia estar nem um pouco satisfeita. Sua beleza em nada amenizava sua fúria. Pelo contrário. Para Barry, a Paladina lembrava uma deusa contrariada: Perfeita e perigosa. Ele baixou a cabeça, preparando-se para mais um sermão. Elissa, ao seu lado, também se encolhia diante da superior.

Os três estavam em uma espécie de sala de administração: um recinto com escrivaninha, arquivos e papéis por todo o lado. Uma pequena placa em cima da mesa informava que aquele era o local de trabalho de Barry Lyork. O alquimista aparentemente tinha um cargo bem importante ali. Bem, não importante o bastante para safar ele e sua colega Elissa dos desaforos da Paladina.

-Vocês dois são um vergonha. Uma completa e total vergonha. Total desperdício de material orgânico. Total desperdício. São covardes, insubordinados, indisciplinados... — Ela bateu na parede, enfatizando sua fala. –Desonrosos!

Barry queria não ter fugido naquela manhã duas semanas atrás. Ele preferia ter sido soterrado com a AMRC do que tolerar aqueles insultos de Runa... Ok, talvez estivesse exagerando, mas um monte de entulho sobre a cabeça parecia uma boa alternativa á aquela sessão de insultos.

-...Mas mesmo vocês sendo completamente incompetentes, ainda são úteis a missão. Para desfazer seu erro, vocês vão me ajudar a recapturar o fugitivo.

-Mas...- O alquimista se arrependeu de ter aberto a boca.

-CALADO! Não dei permissão para que falasse. Vocês não irão discutir, apenas farão o que eu mandar. O mestre Vôdan conta conosco, uma vez que a maldita Bruxa também falhou. Sinceramente, estou cercado de incompetentes... Apenas encontrem o fugitivo onde quer que ele esteja. E o assassino também. Nada de desculpas, apenas façam.

A sábia e o alquimista se entreolharam, e voltaram a baixar as cabeças, temendo represálias se falassem algo.

-O que estão esperando?! AO TRABALHO!

-Er... Senhorita Runa... Bem, se me permite...- Elissa olhava para os dedos, sem coragem de encarar a superior.-Bem...-

Runa já estava perdendo a paciência.

-DIGA LOGO, PELO O AMOR DE FREYA!

-Err... Nós já localizamos o fugitivo.

A Paladina se surpreendeu sinceramente, coisa que raramente acontecia. Bom, parecia que aqueles dois não eram tão inúteis assim, não é?

~

Gillian sentia seu cansaço aumentar a cada magia que lançava. Os Orcs com certeza eram oponentes valorosos, e estavam em grande número. O mago se ocupava com os arqueiros, enquanto Dark lutava com os Orcs guerreiros, usando sua agilidade superior como principal arma contra aqueles monstros grandes e desajeitados.

-Estou começando a achar que esta não foi uma idéia muito boa... Cuidado Dark, atrás de você!

O assassino se virou, automaticamente decapitando o Orc que o espreitava. Era evidente que ele estava em melhor forma do que Gillian, o que era esperado do treinamento a qual foi submetido desde a infância. Já o mago não tinha tanto preparo, além de ter ficado preso em um tubo de ensaio gigante por cinqüenta anos. Porém este era o objetivo daquele ataque a vila dos monstros: Preparar-se fisicamente para os próximos desafios.

O número de inimigos foi aumentando: apareceram também alguns Orcs bem mais fortes, de pele azul, piorando ainda mais a situação dos dois.

Ele lançou mais uma magia e sentiu que não tinha muito poder sobrando.

-Dark, vamos recuar! Fire Wall!

O mercenário não reclamou, aproveitando a cobertura das chamas para fugir, junto com Gillian, para um local seguro onde pudessem reagrupar.

-Aquela cabana ali parece estar vazia.

O mago olhou para a direção que Dark apontava e constatou que aquela barraca velha e caindo aos pedaços não estava em uso, até porque aquele ponto era muito afastado do centro da vila. Os dois adentraram rapidamente, deixando para traz a corja uivante de monstros que ainda procuravam suas presas.

~

A habilidade de Siegfried com a espada larga era surpreendente, até mesmo os Orcs com os quais lutava reconheciam a aptidão do oponente. O espadachim era incansável, derrubando os inimigos um por um à medida que iam aparecendo. Ele usava a lâmina da arma tanto para ataque quanto para defesa.

Ele retalhou um Orc e ia se virar para matar outro, quando sua espada foi parada no ar por uma mão verde, monstruosa. O dono do membro era um Orc imenso que estava atrás de Siegfred, um espécime especialmente feio, forte, e antigo. O espadachim podia ver pelas suas cicatrizes que aquele monstro tinha grande experiência em batalha... E era obviamente muito mais poderoso do que ele. Isso era visível apenas pelo fato dele ter parado a espada larga de Siegfried com tanta facilidade. A diferença entre este e os Orcs que enfrentara até agora era absurda. Para completar, o ser estava acompanhado por uma pequena elite de Orcs, da variedade com pele azul, muito mais forte do que um guerreiro Orcs normais.

Mas, por alguma razão, nenhum deles atacava.

Siegfried estranhou muito a falta de reação dos monstros. O Orc maior, que parecia ser o líder, fez um movimento com a mão livre e os seus súditos se afastaram alguns passos: o que acontecia ali?!

-Humano, você mostrou grande poder! Você ter força de Orc!

O monstro falava! Muito mal, é verdade, mas o simples fato dele entender e de se expressar na língua humana eram um indicio de ser poder e inteligência. Siegfried não conseguiu não se sentir lisonjeado pelo elogio do Orc.

-Eu ser o Lord dessa Vila. Valoroso guerreiro diga o que procura. Se deseja continuar a lutar, eu irei combatê-lo!

-Er... Sua majestade, não é luta que procuro, até porque reconheço sua força como sendo superior a minha. O que eu procuro é... Um capacete especial que soube que existia aqui.

-Sim! Você ainda fraco comparado a mim!- O Lorde Orc riu, sua gargalhada rouca mais parecendo um rugido.

-Se é um dos nossos Elmos cerimoniais é o que procura, você deve ir as catacumbas. Este capacete é dado apenas aos nosso mais poderosos guerreiros quando são enterrados.

Siegfried não cessava de se surpreender com o comportamento dos Orcs. Aparentemente sua fama como monstros sem alma era tingida de preconceito. Eles eram uma raça guerreira que valorizava a força e a honra acima de tudo. Tanto que ele foi bem recepcionado pelo líder dos seres pelo próprio fato dele ter dado cabo de vários dos seus guerreiros. Eles até enterravam seus mortos... Muito estranho, com certeza.

-Então pegue o que procura e vá, e volte quando for mais forte!

O espadachim curvou-se em frente ao Lorde, e seguiu para o caminho apontado por ele, pensando que aqueles foram os minutos mais estranhos e tensos de sua vida.

Ele encontrou a entrada para as catacumbas, descendo uma escura e apertada escada de pedra que levava ao subsolo. Sendo um aventureiro precavido, Siegfried trouxe uma tocha para aquele tipo de situação, o que foi muita sorte: Lá embaixo não havia nenhuma fonte de luz. Com cuidado para não escorregar, Siegfried chegou ao fundo escuro e úmido, logo avistando as covas dos Orcs. Suas suspeitas eram salientadas pelo mau cheiro que saia dos túmulos.

Sendo Siegfried um garoto prático, de religiosidade nula, ele não se importava realmente em violar os corpos, mas algo o fez parar antes de abrir as covas. Era impressão, ou ele havia sentido uma brisa? Mas como poderia haver uma corrente de ar tão debaixo da terra?!

Foi quando ele ouviu um grito.

-ARGH!!

Sem hesitar, o espadachim abandonou os caixões. Ele poderia abri-los outra hora. Ele tinha certeza que o grito que ouviu veio de uma garganta humana.

Siegfried tinha saído há apenas alguns segundos, quando os caixões de pedra começaram a tremer... Como o que quer que houvesse lá dentro estivesse tentando escapar.

~

Meia hora antes, na cabana abandonada...

-Gillian, eu acho que eles já saíram... Gillian?

Dark parou de observar pela janela empoeirada para observar o mago. Ele estava estudando uma pele de animal no chão, algo semelhante a um tapete.

-Tá, esse Orcs tem senso de decoração, muito interessante. Podemos dar o fora agora?

-...

Gillian, não respondeu. A pele era obviamente de boi esfolado, ou outro animal aparentado, mas não era isso que prendia sua atenção. Ele estava tendo uma espécie de premonição, da mesma natureza da sensação que ele teve quando fugia de Yuno...

“O homem olhou para o horizonte, tinha pressentido algo. Alguém como ele, alguém com o poder para mudar o destino. Alguém nascido para matar. E estava vindo em sua direção.”

Agindo principalmente por instinto, Gillian puxou o “tapete” bizarro com força, revelando um alçapão oculto. Dark pestanejou diante da descoberta do mago.

-Uma passagem secreta! Ótimo, tomara que nos leve para fora daqui.

O Assassino desceu na frente, cuidadosamente tateando seu caminho na escuridão. Gillian, feliz por poder colocar sua magia em uso, invocou uma pequena bola de fogo que o rodeava, iluminando o caminho.

-Sight!

Eles desceram mais alguns degraus, chegando a uma espécie de caverna subterrânea. O chão estava coberto de corpos de Orcs, Todos em estágio avançado de decomposição. Dark não esboçou reação alguma, mas Gillian não escondeu suas emoções. Uma expressão de nojo e repulso tomou seu rosto.

Expressão esta que foi substituída por medo quando os cadáveres, lentamente, começaram a se levantar, como se atraídos para a energia vital daqueles dois visitantes. Dark rapidamente sacou suas katares e se preparou para lutar.

Gillian virou-se para traz, com a intenção de voltar correndo por onde ele acabou de entrar, apenas para ver a passagem bloqueada pelos zumbis.

-Droga!

Não havia opção alem de ficar e lutar. O mago lançava suas magias, mas sua energia estava quase esgotada desde a luta contra os Orcs na superfície.

Dark, assassino treinado, não se deixou levar pelo pânico. O numero de inimigos era muito superior, mas ele lutava bravamente. À medida que a adrenalina aumentava e a luta se tornava mais árdua, um estranho fenômeno acontecia ao mercenário. Correntes de vento pareciam nascer do nada, formando um redemoinho a sua volta.Ele reconheceu que acontecia com ele o mesmo que aconteceu a Gillian na luta da ponte. Seu poder oculto acordava.

Os olhos do assassino tornavam-se totalmente brancos, à medida que sua força aumentava exponencialmente.Um poder muito além do seu próprio potencial podia ser sentido naquele momento. Usando apenas seu instinto, Dark levantou as duas mãos, concentrando ali sua energia recém descoberta. O poder condensado emitia uma estranha luz arroxeada.

-...Meteor... Assault...

Ele liberou a energia de uma só vez com um movimento circular de suas katares, “varrendo” toda a área a sua volta com o feroz ataque. Gillian, por sorte, estava afastado o suficiente para não ser atingindo. Aparentemente a energia violeta tinha elementos venenosos em sua composição. Quando a fumaça baixou, apenas Dark estava de pé, no entro de uma pequena cratera sangrenta. A maioria dos zumbis foi destruída naquele ataque. Mas...

-ARGH!!

Gillian não pode acreditar no que vira: Um pequeno ser, semelhante a um Orc, porém mais baixo e de pele marrom, tinha surpreendido Dark por traz. O ombro do assassino foi perfurado pelas garras afiadas do estranho Orc demônio. Dark sentiu seu poder se esvair quando sua concentração se desfez graças à dor do ferimento. Ele se ajoelhou, derrotado.

O monstro horrendo se preparava para o golpe de misericórdia, quando sua cabeça foi decepada por um golpe de espada. O corpo secionado caiu no chão, jorrando sangue negro.

O salvador que matara o demônio era um espadachim misterioso, que viera de algum lugar no outro extremo da caverna. Gillian sentiu um alivio momentâneo, mas não havia tempo para apresentações: Do ponto de onde o espadachim veio, mais uma horda de criaturas se aproximava. Siegfried não pode deixar de agradecer aos céus por não ter aberto os caixões: Aqueles esqueletos saíram de dentro deles, aparentemente. Outros Orcs como o que atingiu Dark engrossavam as fileiras.

O assassino levantou-se, mas seu braço direito estava inutilizado. Sua maestria com a katar, porém, era igual na em ambas as mãos. Gillian começava a recitar seus feitiços, enquanto Siegfried tomava a linha de frente.

Ele provocava os monstros, atraindo-os para si, enquanto Gillian terminava seu encantamento.

-Soul Strike!

Era irônico destruir aqueles mortos vivos usando o poder dos fantasmas, mas esse era o jeito do Gillian: Sua magia invocou cinco esferas espirituais que destruíam os esqueletos. Dark fatiava-os com os golpes cirúrgicos de sua katar, ou com chutes certeiros. Os inimigos caiam um por um.

-Magnum... BREAK!

O golpe giratório de Siegfred causava atrito suficiente para arrancar faíscas de sua espada. Todos os mortos vivos a sua volta sucumbiram ao seu ataque explosivo. Infelizmente, a cada monstro que derrubavam, outro levantava totalmente reconstruído. Aqueles esqueletos eram persistentes.

Eles recuaram até o alçapão, abrindo caminho a força pela escada que Dark e Gillian desceram para chegar ali, escolha da qual eles provavelmente se arrependiam amargamente.

Desesperado, Gillian fechou a porta do alçapão quando chegou ao topo, jogando por cima a pele de animal no seu lugar de origem e arrastando um armário próximo por cima, só para garantir. Quando finalmente acabou aquilo, ele se jogou no chão, arfando. Estava exausto, assim como os outros dois.

-Eu tenho que voltar para lá.

Gillian olhou assustado para o guerreiro. Porque, em nome de tudo o que há de mais sagrado, alguém iria querer voltar para aquele inferno?!

-Estava lá embaixo procurando por algo, mas na hora da fuga as coisas estavam tão confusas que eu me esqueci.

Um suspiro triste foi ouvido, vindo de Dark.

-Por acaso não era isso que você estava procurando, era?

Ele segurava um elmo, do qual dois chifres despontavam.

-Eu peguei isso da cabeça de um dos esqueletos enquanto fugíamos, achei que pudesse ser valioso. Tomara que pague a dívida que temos com você.

Siegfried não pode acreditar em seus olhos. Ele finalmente poderia se tornar um cavaleiro! Estendendo as meus, ele aceitou de bom grado o presente.

-...Muito obrigado. Você não faz idéia de quanto isto é importante para mim. A propósito, meu nome é Siegfried.

Eles trocaram as devidas apresentações, quando Gillian finalmente perdeu a paciência.

-Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas como saímos daqui?

~

Gillian e Dark se estavam mais uma vez nos campos verdes de Geffen, observando o pôr do sol. A ferida no ombro do assassino já estava devidamente tratada (“graças pelas poções potentes dessa era” pensou Gillian.)

-Queria poder ter agradecido melhor... Graças a ele saímos vivos daquela catacumba, e chegamos a salvo aqui. Da próxima vez, tenha mais cuidado com o lugar que escolhe para treinar. — Falou Dark.

Gillian fez uma nota mental para perguntar a alguém como funcionava a mágica daquelas tais “asas de borboleta” que o Espadachim emprestara. Ele bloqueou a luz do sol com os dedos, enquanto olhava para o horizonte.

-É... “Siegfried”... Algo me diz que ainda o veremos de novo.

Nota: a arma que Siegfried usa é uma Katzbalger, o que explica como ele usa a arma para defesa (essa arma concede bônus em vit e def no jogo). E quanto ao fato dela ser uma arma rara, bem, lembrem-se que Sieg é sobrinho do rei! xD~