Radioactive
18 Chapter XVII: Hunt Or Be Hunted
Chaoter XVII — Hunt Or Be Hunted
Merida
Abri os olhos e um sorriso imediatamente nasceu no meu rosto. Eu iria caçar pela primeira vez em Atlantis, e estava muito ansiosa. Tiana me dissera que os arredores são fartos de animais selvagens suculentos, como esquilos gordos e até mesmo veados. Sairia com a mulher negra pela manhã, assim que o Sol nascesse. Levantei, estralando os ossos, e armei-me com o arco automático que ganhara de Kida. Na fuga do Castelo, acabei por perder a minha amada besta, e ainda não perdoei os Guerreiros por isso. Cara, era a minha besta, ela era praticamente uma extenção dos meus braços!
Tiana esperava paciente do lado de fora do chalé, com um sorriso no rosto. Ela me deu um tapinha no ombro e arrumou sua katana, que era bem parecida com a de Mulan, na bainha presa as suas costas. Com um pulinho, ela correu até os estábulos, onde dois cavalos marrons comiam a grama verdinha tranquilamente. Meus olhos arderam ao lembrar de Angus, meu tão fiel alazão. Sacudi a cabeça, me aproximando da negra, que sorria animadamente enquanto arrumava a sela em cima do lombo do cavalo. Acenando com a cabeça, ela indicou a outra sela e o outro cavalo.
– Sabe montar?
– Sei sim. Eu tinha um cavalo na fazenda onde morava.
– Pois bem. — ela subiu no animal com agilidade – Vamos lá Ray. Este aí é o Louis, Meri.
O cavalo relinchou, satisfeito pelo reconhecimento. Tiana apertou um botão e um portão pequeno, porém largo e alto o suficiente para os animais, se abriu, no lado Sul do parque. Demos uma corridinha até lá, e quando passamos, a portinhola de ferro se fechou rapidamente. Eu tinha esquecido de como é bom ter tecnologia por perto. Dei uma batidinha no lombo de Louis, o indiciando a correr, assim como Tiana e Ray. Em poucos minutos, estávamos nós quatro correndo pela estrada vazia, os trotes ecoando pelo vácuo contínuo que era o mundo. Eu me sentia livre de novo, como na época em que fugia pra floresta com Angus para treinar arco e flecha.
Entramos na mata fechada, onde havia três armadilhas logo na entrada. Um coelho gordinho estava pendurado de cabeça para baixo, o sangue vinho pingando de onde o pequeno punhal o acertara. Tiana correu até ele, o segurando pelas patas. Jogou sobre o lombo de Ray, dentro da bolsa de couro, e verificou as outras duas ciladas, que estavam vazias. Ela empunho sua katana e me chamou com os dois dedos para mata a dentro. Armei uma flecha e a segui, olhando pra todos os lados, atenta a qualquer barulho.
– Cuidado com os porcos-espinhos, ruiva.
– Porcos-espinhos?
– Aqui tem um monte. Me passa a pá, por favor?
Tirei-a da mochila que carregava e lhe entreguei. Tiana começou a cavar num único pique, e quando reparei, ela deveria ter feito um buraco de seis ou sete metros. Fantástico cara. Nem meu pai, que foi aprendiz de garimpeiro, conseguiria cavar tão rápido assim. A negra riu ao ver meu estado surpreso e jogou um punhado de terra no meu rosto, me acordando do transe momentâneo em que eu entrara. Aproximei-me do buraco e estiquei o pescoço, querendo ver o que ela iria fazer, curiosa. Pegou a katana e a segurou acima da cabeça com as duas mãos, olhando firmemente pra toca redonda e escura a sua frente.
– Isso — Ti estreitou os olhos — é uma toca de porco-espinho. Eles são deliciosos.
– Não são venenosos?
– Ah não, só os seus espinhos. Nada o que uma boa faca de pesca não faça.
Um ruído agudo veio da trincheira. Com um chute certeiro, Tiana conseguiu expulsar o bicho da toca e cravar sua espada bem na cabeça do pobrezinho. Era um modo brutal de se conseguir comida. Mas o que é fácil nos dias de hoje, além da sua morte? A negra conseguiu pegar mais dois e usou sua katana como uma vara, prendendo os três porcos-espinhos na lâmina afiada. Montamos uma pequena barraca perto da estrada, para podermos nos estabelecer rapidamente enquanto em movimento. Sentei no colchão de ar que Milo nos dera, soltando um suspiro alegre quando Ti apareceu na abertura, rodando a faca nas mãos e com um sorrisinho malvado no rosto.
Oh meu Deus, essa será uma manhã realmente cansativa.
***
Tirei o coelho da fogueira e o enrolei em folhas de bananeira. Levantei-me, estralando as costas, e observando o horizonte. O Sol já estava se pondo, deixando o céu com uma linda mistura de laranja e amarelo, além que alguns pontinhos rosas aqui e ali. Acariciei o pelo de Louis e me sentei em cima de um carro abandonado, apoiando a cabeça e os cotovelos nos joelhos. Suspirei, sentindo uma tristeza repentina preencher o meu corpo. Sentia falta de alguma coisa. Não, eu sentia falta de alguém. Os cabelos castanhos cobrindo seus olhos verdes-floresta brilhantes e amorosos, as mãos quentes e caleijadas cobrindo a minha, o sorriso doce e gentil que sempre me dava.
Eu estava sentindo falta de Hiccup.
Parece bobagem, afinal eu sai a menos de vinte e quatro horas de Atlantis, mas por causa da correria, eu já não o via a dois dias. E eu temia estar me... Apaixonando por ele. Desde pequena, sempre sonhei em achar o amor da minha vida, me casar e ter uma família feliz como a minha era. Meus pais se amavam, e isso era algo muito influenciável na minha vida. Mas acabei por sofrer decepções amorosas na adolescência e passei a desacreditar no amor. A frase de um livro marcou esse fato: amar é destruir, e ser amado é ser destruído.
Com um suspiro, desci do carro, evitando olhar pro verde tão vivo da floresta que me lembrava os belos olhos de certa pessoa. Tiana acabara de se deitar na sua barraca e parecia estar em um sono profundo. Observei o horizonte alaranjado, pensando no que deveria existir além dos prédios mórbidos e vazios que era aquela cidadezinha em que estávamos. Roubei uma caneta do bolso de um walker morto e uma folha de jornal do chão, me apoiando no capô do carro a frente. Minha letra estava meio clara, mas era bem legível.
"Tiana, fui verificar o lado Sul. Se acordar e eu ainda não tiver chegado, pode ir pra Atlantis, eu sei o caminho.
Merida"
Coloquei o bilhete na sua barraca e arrumei brevemente a sela de Louis, com meu arco, minha aljarva, a faca de pesca e a bolsa de couro que a negra havia me dado. Montei no cavalo com um pulo e o atiçei, fazendo-o correr a toda velocidade. Dei uma gargalhada enquanto o vento veloz engolia minha voz e os trotes fortes do alazão. Eu não me sentia assim, livre, a muito, muito tempo.
***
– Eia!
Louis freou com violência, me jogando praticamente do outro lado do riacho. Ri e dei dois tapinhas no seu lombo, tirando o cantil que tinha guardado na bolsa. Minha boca estava seca e ansiava desesperadamente por água gelada e limpa, como a daquele rio. Encontrar falanges d'água estava cada vez mais fácil, visto que o município de Arcade, onde Atlantis se encontrava, era abundante em rios e riachos. Mergulhei as mãos e enchi o cantil, raspando-o no cascalho do fundo do riozinho. Tomei longos goles, enquanto Louis tomava os seus, mais acima. Com uma lata de olivas velha, molhei meu rosto, os braços e as pernas, tirando parciamente a sujeira de terra e suor do meu corpo.
Engatinhei até uma macieira e roubei uma maçã vermelha, dando um boa mordida. O estado da Georgia era o rei dos pêssegos, mas isso não significa que não podemos ter outras frutas. Escorei minhas costas no tronco e fisguei os papéis bem dobrados no bolso do short. Ali, havia a foto dos meus pais e meus irmãos, sorrindo pra câmera, como uma família feliz. No outro, havia um desenho meu, feito por Hick, enquanto eu praticamente dormia no muro de madeira do Castelo Branco. Suspirei, sentindo meu coração apertar e lágrimas ameaçando pular dos meus olhos. Não, eu não vou fraquejar agora. Eu não posso fraquejar agora.
– Ora, ora, ora, se não é a filha da puta que me deu um tiro!
Virei o pescoço, assustada, dando de cara com Tinker Bell. Ou o que era pra restar dela. Um dos olhos tinha um tapa-olho sinistro, enquanto uma das pernas era de pau. O braço esquerdo era apenas uma prótese de ferro, com uma lâmina afiada no topo. Ela sorriu maldosa e cortou a correia de Louis, arrancando minha arma do seu lombo e lhe dando um tapa, fazendo-o se assustar e correr floresta à dentro. Me levantei, arfando, e guardei rapidamente os papéis nas minhas mãos, aproveitando que a loura analisava meu arco.
– Você não morreu, sua vadia?
– Ah não, seus tiros me deixaram bem destruída. — ela riu, pondo o arco no ombro e apontando a sua Smith cromada pra minha cabeça — Mas eu não morri, baby.
– Que pena. Teria sido melhor assim.
– Bom Merida, querida. — com passos rápidos, ela acertou a prótese no meu lado esquerda da cabeça — Bons sonhos, amorzinha.
Minha mente rodou e meu corpo cedeu. Senti a consciência se esvaindo de mim enquanto Tinker Bell me arrastava sabe-se-lá Deus pra onde.
***
Abri meus olhos, esperando-os se adaptarem a escuridão. O lugar fedia a podridão, suor, sangue e mijo. As paredes eram acinzentadas, porém começavam a escurecer até chegar ao chão, e eu esperava que aquilo fosse qualquer outra coisa do que eu pensava. Ergui o tronco pra cima, sentindo as cordas apertarem meu corpo com força e queimarem minha pele enquanto eu me movia. Esquadrinhei o lugar, tentando entender o que era tudo aquilo, e onde eu estava. Minha mente estava nublada e minha cabeça doía, algo quente escorria por ela. Arrastei-me até algum canto e escorei minha testa na parede, me amaldiçoando por ser tão idiota.
– Não tem saída, garota. Vamos morrer.
Uma voz rouca, cansada e profunda sussurrou. Ergui o pescoço, assustada e alarmada. Do outro lado havia um homem, aparentemente ruivo, também amarrado. Por uma pequena brecha de luz, pude ver seus olhos castanhos tristes e cansados, além de uma tremenda aflição que rondava suas orbes. Remexi-me desconfortável e resolvi pressioná-lo, talvez ele pudesse saber onde estávamos.
– Onde estamos?
– No Vale das Sombras. A prisão dos Guerreiros. Te trouxeram pra cá antes de ontem.
– Dois dias... Você está aqui a muito tempo?
– Olha garota, eu já perdi as contas de quantos dias passei aqui. Só sei que perdi minha esposa e meu filho pra esses filhos da puta.
Ele olhou para os próprios pés, triste, enquanto algumas lágrimas escorriam pelo seu rosto. Suspirei, cansada, voltando a encostar na parede. Fechei os olhos, pensando em todos os meus amigos, meu provável último amor, antes de morrer. Senti uma lágrima solitária descer minha bochecha. Eu estava ali pra morrer.
Eu vou morrer. E meu único pedido é de Deus tenha piedade da minha alma, e que Hiccup me perdoe por ter sido tão idiota.
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