Radioactive
19 Chapter XVIII: The Letter and The Rescue
Chapter XVIII — The Letter and The Rescue
Hiccup
– Como assim você a deixou na estrada?!
Eu estava por um fio de enlouquecer. Uma semana havia se passado desde que Merida e Tiana saíram para caçar, e a ruiva ainda não havia voltado. Estava nervoso, ansioso, e pedindo a Deus que a mantesse salva. Rapunzel apoiou minha cabeça no seu ombro, enquanto eu ainda encarava furiosamente a expressão devastada de Tiana. A mulher tinha os olhos vermelhos, bolsas roxas acima da maçã do rosto, as sobrancelhas franzidas em conjunto aos lábios. Talvez eu estivesse pegando pesado demais com ela. Talvez eu estivesse exagerando, Merida sabe se cuidar, ela vai ficar bem.
– E-ela falou que sabia o caminho de volta. — a negra fungou — Ela disse que sabia.
– Hick, não foi culpa dela. Você sabe o quão teimosa Merida é. Iria sair do acampamento mesmo que Tiana dissesse não.
– Ela deveria ter evitado.
– EU ESTAVA DORMINDO!
Simba colocou a sua mão gigante no ombro da irmã, colocando-a para perto do peito. Nala apenas sacudiu a cabeça e deu dois tapinhas nas minhas costas, levando o marido e a cunhada pros chalés. Suspirei e dei um abraço em Punzie, me separando da mesma e resolvendo seguir pra qualquer lugar de Atlantis. Jack estava finalmente dormindo, depois de quatro noites inteiras acordado, nos portões principais, esperando a ruiva voltar. Caminhei tão distraído que mal reparei que meus pés me levaram diretamente até os estábulos. O cavalo marrom sacudiu o pelo sedoso e esticou o pescoço na minha direção, pedindo carinho. Com um suspiro melancólico, passei a mão delicadamente pela sua crina, que passou pelos meus dedos com delicadeza.
– Onde é que você tá, Meri?
Eu nunca havia me sentido tão triste em toda a minha vida. Era como se eu não tivesse um propósito pra viver. Em tão pouco tempo, aquela ruiva havia se tornado muito importante na minha vida, e eu sentia que não podia mais viver sem ela. Eu estava perdidamente apaixonado por ela. E isso é algo restritamente perigoso no mundo em que estávamos vivendo, onde qualquer um pode morrer. Ergui os olhos até o céu da tarde, que tinha um alaranjado harmonioso em relação ao azul. Era agoniante não ter noção dos dias ou das horas, estávamos perdidos no tempo, presos em uma dimensão paralela a vida normal e feliz que Deus tenha nos preparado. Larguei a crina sedosa e virei-me pra ir embora quando um gemido chamou minha atenção.
O walker era diferente. Usava roupas de carteiro e tinha uma bolsa de couro pendurada no ombro esquerdo. Dentro desta, um papel se equilibrava precariamente entre o corpo podre e o próprio couro. Uma espécie de selo vermelho estava ali, e a provável carta era recente, pois o papel ainda era branco. Peguei uma estaca de ferro e cravei no crânio do pobre homem, fazendo-o cair numa baque mudo e mútuo. Estiquei o braço e recuperei a carta sem maiores danos. O selo continha um grande "G" no centro, com algumas fitas se desenrolando pelo fundo. Um belo trabalho, eu me atrevo a dizer. Mas aquilo era algo mal, sádico, cruel.
Aquela carta viera dos Guerreiros.
Corri até Hutaka, onde todos se reuniam numa festa pequena, porém animada. Me cortou o coração acabar de forma tão brutal a felicidade deles, mas era preciso. Bati delicadamente no ombro de Kida e pedi permissão para falar, fazendo com que ela chamasse a atenção dos outros para mim. Cocei a garganta, com certa vergonha, e abri cuidadosamente o selo, evitando rasgar trabalho tão bem feito como aquele. Esquadrinhei a carta, lendo-a rapidamente, e lágrimas grossas começaram a escapar das minhas orbes. Rapunzel tomou a carta das minhas mãos e também a leu, ficando no mesmo estado que eu. Finalmente, Hayley pegara a maldita carta e resolvera ler em voz alta, para que todos nós escutássemos.
– "Olá, caros habitantes de Atlantis. Vim aqui, por meio desta carta, avisar-lhes que estou com um dos seus, uma ruiva irritante e valente demais para o meu gosto. Esta garota insolente merece uma morte lenta e dolorosa, mas claro que não farei isso, afinal, não seria divertido sem ter uma platéia. Ela será morta, e eu apenas queria lhes dizer que reuni o mais agressivos mordedores para despedaçá-la e arrancar cada um dos seus pedaços. Talvez mande-lhe-mos um dedo ou uma orelha, como um souvenier. Será um prazer incrível. Assinado: Hades."
– AQUELE FILHO DA PUTA! Nós não vamos deixar isso assim! Temos de encontrá-la!
– Jack, eu sei disso. — Kida passou as mãos pelo rosto — Irei falar com Milo para pegarmos armas. Sairemos ao amanhecer. Hayley, poderia ficar com Finn? Não é seguro que ele vá para batalhar nesse estado.
– Tudo bem Kida, ficarei com ele.
– Maravilha. Todos os outros, preparem-se. Nós vamos para a guerra.
***
Assim que o Sol surgiu no céu, seguíamos até o Sul de Atlanta. O calor estava nos matando, mal havíamos avançado direito e suavamos como porcos dentro dos carros do resgate, que Milo blindara com algum ferro vindo do nada. Minha mente trabalhava a mil, pensando num modo de tirar a ruiva de lá de dentro sem feri-la. Seria perigoso se entrássemos e simplesmente arrancássemo-na das mãos dos Guerreiros. Isso seria imprudente. E por mais que meu coração berrasse para fazermos isso, o bom senso falou mais alto. Não agiria sem pensar, e não falharia com Merida mais uma vez. Punzie sacudiu meu ombro, avisando que havíamos chegado. Respirei fundo e empunhei a Browning 270 que me entregaram. A mira estava precisa e calibrada para a minha visão, o que me ajudaria e muito nessa maldita missão de resgate.
– Iremos fazer o seguinte: eu e Malévola iremos distrair os principais sentinelas, enquanto vocês dois — Kida apontara para mim e Jack — buscam a ruiva. Procurem possíveis lugares onde poderiam esconder reféns, como galpões ou porões. Alice, você, Peter e Rapunzel fiquem aqui com os carros prontos, qualquer problema eu vou usar o sinalizador.
– Certo. Por Deus, tomem cuidado.
Assim que Kida nos deu o sinal, Jack e eu disparamos pelo buraco na cerca, desviando de guardas e armadilhas bem organizadas. Esquadrinhei o lugar com o olhar, na procura de um possível cativeiro. Um galpão velho, um pouco mais afastado da prisão, se erguia entre as árvores marrons mortas. Dei um passo a frente, e por pouco um tiro perdido não me acertou. Os disparos preencheram o ar, e quando pude perceber, eu arrastava o albino em meio ao fogo cruzado na direção do galpão abandonado.
– Direita. Eu fico com a esquerda.
Jack assentiu com a cabeça. Olheiras roxas coloriam sua pele branquela, enquanto os olhos adquiriam a cor vermelha do cansaço. O cara passou três dias sem comer, preocupado e preso no quarto. E Punzie berrava e chorava na porta do chalé, o mandando sair e comer alguma coisa. Segurei sua mão e dei um curto abraço no albino, que devolveu com batidinhas nas minhas costas.
– Vai ficar tudo bem, Frost. Nós vamos trazê-la de volta.
O soltei e corri até a porta de madeira podre, que com um único chute, cedeu seu lugar a escuridão e ao ambiente fétido que era lá dentro. Segurei a carabina com mais força, calafrios subindo pela minha espinha, o suor quente escorrendo pelo meu pescoço. Não podia ver quase nada ali dentro, exceto por silhuetas escuras e disformes encolhidas nas paredes. Caminhei devagar pela extenção do lugar, os tiros ainda sendo disparados lá fora, enquanto procurava por Merida. O cheiro forte me deixava tonto e nauseado, além de me dar uma enxaque extremamente forte em segundos. Estava prestes a desistir e dar meia volta quando algo acertou minha canela, me fazendo agachar e segurar um urro de dor. Virei o pescoço e contorci meu rosto por inteiro ao ver o que havia me acertado.
– Nunca ia me reparar aqui, não é, Hiccup?
– Merida! Meu Deus, Meri, como eu senti sua falta! — com a faca de caça, cortei as cordas que a mantinham presa no chão e ergui seu corpo pra cima, passando seu braço pelos meus ombros — JACK, JACK, EU A ENCONTREI!
As lágrimas já cegavam o pouco de visão que eu tinha quando o albino irrompeu o galpão, sujo de sangue, bile e pólvora. O sorriso cresceu em seu rosto e ele fez a menção de correr para abraçá-la, mas com a mão livre, o avisei de que não era uma boa ideia.
– Salvar... Marlin...
– Quem?
– Aqui embaixo!
Um homem ruivo estava amarrado no chão, ao nosso lado. Ele era magrelo e suas roupas estavam em frangalhos, respirava fraco e descompassadamente, mas ainda mantinha seus olhos abertos, transbordando súplica, tristeza e dor. Jack entendeu o recado e arrancou suas cordas, apoiando o homem nos ombros. Nós quatro nos arrastamos até os carros estacionados do outro lado, enquanto os tiros ainda corriam soltos pelo ar. Alice, Peter e Rapunzel acenaram alegres pra nós, até verem o estado dos dois sobreviventes que nós carregávamos. Só então, na luz do Sol do meio dia, pude ver o quão péssima Merida estava.
Seus cachos foram presos em um rabo de cavalo apertado, que puxava as laterais da cabeça com violência. Os olhos estavam inchados, assim como a bochecha direita. Os lábios rachados indicavam que ela havia passado sede, e sua barriga introvertida mostrava que havia passado fome. Os braços estavam com marcas vermelhas de queimaduras das cordas e de bitucas de cigarro. Um dos joelhos tinha uma ferida aberta e um corte profundo se estendia pelo lado esquerdo do rosto, além de um galo proeminente e ensanguentado próximo a sua testa. Mesmo ferida, ela ainda era a mais bela garota que eu havia conhecido, e não a trocaria por nada neste mundo. Punzie e Alice, que choravam descaradamente, a puseram sentada no banco de trás e começaram os primeiros socorros ali mesmo, enquanto a alimentavam. Virei-me para o homem ruivo que estava com ela, e ele estava tão mal quanto Merida. Encarava o chão, tristonho, enquanto apertava a blusa entre as mãos.
– Qual seu nome?
– Marlin. Marlin Ocean. Eu não fiz nada com a garota, eu juro. Só quero meu filho de volta.
– Tudo bem. Sabe onde ele possa estar?
– O cara de cabelo azul o levou pra lá. — ele ergueu o dedo trêmulo na direção de uma construção intitulada "bloco A". — Olha garoto, só me dá essa arma e me deixa morrer. Por favor, eu não aguento mais. Não aguento mais sofrer, não aguento mais.
– Eu não vou deixar você se ma...
– Você não entende?! Nós não temos propósito! Vamos todos morrer nas mãos de filhos da puta como os desse lugar, ou nas mãos mortas dos barracudas! Vamos todos morrer! Mas eu, eu vou herdar a Terra. Desistentes vão herdar essa merda. Só me deixa morrer. É tudo o que eu te peço.
– Não Marlin, eu não posso...
Ele avançou contra mim e tomou a Browning das minhas mãos. Com o rosto em lágrimas, ele apontou o cano para a sua cabeça e me encarou com seriedade, apesar dos soluços escalarem sorrateiramente da sua garganta.
– Qual seu nome?
– Hiccup.
– Por favor, Hiccup, cuide do meu filho, se o encontrá-lo. Seu nome é Nemo, ele só tem seis anos e é ruivo como eu. Por favor, me prometa que vai cuidar dele.
– Eu... Eu prometo, Marlin. Mas há outro jeito, não é necessário a morte.
– Eu já vivi bastante. Fui feliz, e pude construir uma boa mente ao meu menino. Meu Nemo, o meu bolinha... Eu te amo, filho. E que Deus tenha piedade da minha e da sua alma.
O gatilho foi puxado, o tiro disparado. O corpo magrelo e inerte de Marlin caiu com um baque mudo na grama cinzenta. O sangue manchou o chão de vinho, o cheiro de ferro tomando o ar. Peguei novamente a arma e joguei uma das lonas abandonadas em cima de um caixote sobre o corpo do ruivo, como um sinal de respeito. Voltei aos carros e vi Malévola correndo com um garotinho ruivo nos braços, desmaiado. Nemo... Então, é ele que eu terei de cuidar. Que Deus realmente tenha piedade da sua alma pura de criança. Comecei a me desesperar quando não vi Kida em lugar nenhum, e a preocupação estava roemoendo todo meu ser, afinal, nosso tempo era curto. Em um milésimo de segundo, Hades poderia nos achar e nos dizimar. Quando sua cabeleira branca surgiu no horizonte, ordenei que todos se preparassem para sair.
Entramos todos nos carros e zunimos pela I-743, em uma velocidade tão alta que deixaria qualquer motorista da Indie 500 com inveja. Kida apertou um botão e cinco segundos depois, o chão tremeu e o dia clareou ainda mais. Uma explosão em forma de cogumelo se ergueu no céu, o fogo se alastrando por cada centímetro do Vale das Sombras. Sorrimos aliviados, felizes e esperançosos. Será que finalmente o destino seria bom para nós?
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