Rachel Allard
2 O velho amigo
Não posso dizer que Charlie foi um pai pra mim, por que não foi. Ele fez questão de deixar claro isso para mim enquanto me treinava e me ensinava... Era como um professor ensinando seu aluno a fazer tabuada o obrigando a repetir as contas como eu repetia as combinações de golpes, ou ensinando a ler como eu aprendia as palavras certas para persuadir uma vitima na hora da caçada. Alguns anos depois da minha criação e do meu treinamento, tempo suficiente para que eu conseguisse, a contragosto, me alimentar sem destroçar os pescoços na frente de varias testemunhas, Charlie me chamou para tomar vinho com ele na sala da mansão que morávamos numa área perto de Paris, cautelosa aceitei a taça que me oferecia e me sentei ouvindo atentamente o que ele dizia:
–- Querida Rachel, agora que você está treinada o suficiente para não cometer uma carnificina, gostaria que conhecesse um antigo aprendiz meu, o único que se mostrou leal e que está comigo até hoje.
A porta atrás de Charlie se abriu e eu pude ver o tal aprendiz... Era o homem mais lindo que já tinha visto em toda a minha vida, o observei dar dois passos e me olhar nos olhos, seus olhos eram de uma escuridão encantadora, frio como os corpos quando sugamos sua vida, sua postura era determinada e seu queixo erguido, eu sustentei seu olhar até ouvir a voz do meu criador e mestre e desviar os olhos até ele enquanto o seu aprendiz caminhava até seu lado.
–- Johan Bayleaf, meu velho amigo!
Charlie o abraçou com um sorriso no rosto, depois desta demonstração de afeto inédita para mim, me apresentou como sua mais nova aprendiza, Johan esticou seu braço e segurou minha mão com delicadeza enquanto sua boca desenhava um sorriso de lado, que confesso, era encantador. Terminei rapidamente meu vinho e deixei os dois amigos conversando enquanto me retirava para meu quarto, coloquei uma música suave apenas para bloquear as vozes que vinham lá de baixo, como Charlie havia me ensinado. Confesso que quando desci para o café da manhã na manhã seguinte, esperei ansiosa ver Johan novamente, me sentei no meu lugar de sempre e aguardei Charlie como fazia todos os dias. Meu mestre não se atrasou e se sentou à mesa junto com seu amigo que me desejou um bom dia caloroso, bebemos nossas bolsas de sangue e nos alimentamos de uma pequena porção de comida humana; Charlie sempre insistiu que eu comesse para me acostumar, já que em certas ocasiões teria que fazer isto com plateia, e aparentemente Johan foi ensinado da mesma maneira.
–- Rachel querida, Johan precisará de uma companhia para sua caçada hoje à noite, disse a ele que poderia contar sem duvidas com você.
Charlie me surpreendeu já que ele nunca permitiu que eu fosse junto caçar, nunca nem mesmo foi comigo caçar, ele ensinava e quando eu voltava, ele sempre sabia se eu tinha conseguido ou não antes que eu proferisse uma palavra sequer.
–- Claro, será uma honra acompanhar o senhor Bayleaf.
–- Por favor, me chame de Johan, conviveremos por algum tempo e creio que a formalidade pode ser dispensada, certo senhorita Rachel?
Sorri e assenti com a cabeça, me virei para Charlie a sentir seu olhar pesado.
–- Tenho certeza de que irão se entender, porém se me der a licença Bayleaf, preciso conversar com Rachel a sós.
Franzi a testa enquanto Johan concordava e saia pela porta da frente em direção ao jardim, andando calmamente na velocidade humana pelo vasto campo que Charlie fazia questão de ter para que pudesse correr quando tivesse vontade, em menos de um segundo Johan correu para a floresta que eu tanto gostava.
–- Rachel Allard...
Voltei minha atenção para Charlie assim que disse meu sobrenome.
–- Johan vai ficar aqui por duas semanas até aquela nossa viagem, a qual também irá, porém eu precisarei fazer uma pequena viagem amanhã e então deixarei seus treinamentos com Johan. Espero que o respeite, pois é um velho amigo que sabe absolutamente tudo o que sei e um vampiro tão perigoso quanto eu, se preza sua imortalidade Rachel, não brinque com Johan Bayleaf.
Seus olhos estavam frios enquanto dizia palavra por palavra olhando em meus olhos, olhei pela janela por onde Johan correu e assenti com a cabeça novamente olhando para Charlie. Eu tinha entendido o recado, e eu não queria morrer. Não de novo.
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