Rachel

2 Mamãe...


Acordamos todos cedo, como era de costume. Sorrimos uns para os outros e meu pai começou a torturar eu e a mamãe com cosquinha! Quando nós duas já estávamos fracas de tanto rir, nos levantamos meio cambaleantes e fomos tomar o café que mamãe tinha preparado. Eu queria tomar leite, mas o meu pai insistiu para eu beber suco, porque tem mais vitaminas, dá mais energia para começarmos bem o dia e não é tão pesado quanto o leite. O meu pai sempre foi bastante coruja e preocupado comigo, apesar de (tentar) disfarçar para ninguém descobrir. Só que ele não engana os outros... Pelo menos não engana a mamãe, que sempre gostou de fazer piadinhas para ver meu tão imponente pai sem jeito.

Depois do café ficamos conversando um pouco. Como é bom conversar com meus pais! Mamãe é desencanada e fala de umas coisas que meu pai não quer que eu saiba, porque ele a olha bravo e ela sorri, mudando de assunto.

Passado algum tempo de conversa, meu pai e disse que ia sair para fazer compras. Beijou a mamãe como sempre fazia e me pegou no colo, abraçando forte ao dizer que já voltava. Pegou suas coisas e saiu em direção à Kafra. Pagou o teleporte e logo desapareceu. Mal ele sumiu e eu gritei animada:

— Mãe, o papai já foi!! Vamos?

Sorrindo como uma criança que coloca um inseto nojento na cama da mãe só para assustá-la, mamãe me pegou pela mão e corremos para a Kafra, pagando o teleporte até Morroc.

Que lugar quente! Quase não posso acreditar que a fresca e ventilada Geffen fica no mesmo planeta que esse lugar árido e escaldante que é Morroc! As pessoas? Eu hein! São todas muito diferentes das que eu conheço e a maioria delas possui uma aura de mistério ao seu redor. Não, nenhuma delas sequer lembrava os bruxos e magos, nem mesmo os cidadãos comuns de minha bela e exuberante Geffen. A minha gente era asseada, cheia de pudores, tradições, tabus, valores e tudo mais.... Os daqui não! Alguns andavam até sem camisa! Tá certo que o lugar é quente como nenhum outro, mas qualquer pessoa de Geffen (com exceção do meu pai) morreria de calor antes de andar por aí tão despudoradamente. Afinal, andar desnudo é um absurdo!

Mais absurda ainda era a falta de respeito para com as pessoas. Eu estava morrendo de medo de ser atacada por um maníaco tarado. Os homens e rapazes de lá comiam a mamãe com os olhos, e falavam coisas obscenas. Alguns fizeram gestos que eu acredito terem sido indecentes também, porque mamãe fazia uma cara de raiva e desagrado, seguida pela frase “não ligue para eles Rachel, apenas continue andando”.

Ainda andamos mais um tempo naquela desconfortável situação até que finalmente chegamos à entrada da pirâmide... Senti um frio sinistro e mais gelado que o normal na barriga. Era um medo novo e desconhecido, mas eu julguei ser medo daquela novidade, uma ansiedade por tentar algo que eu nunca tinha feito, ou medo de não passar no teste. Quando percebeu meu estado e meu rosto sem sangue nenhum, mamãe me olhou e disse com carinho.

— Quer desistir, filha?

Por um momento quase não pude crer que ela era minha mãe. Não dava para acreditar que meu pai tinha se casado com uma mulher que conhecia a palavra “desistir”.

— Mas é claro que não, mãe!! Eu vou voltar hoje mesmo para casa como uma gatuna, ou eu não me chamo Rachel!

Mamãe sorriu e entrou na pirâmide comigo. O frio tomou conta das minhas entranhas mais uma vez.

Um labirinto! O que a gente ia fazer agora? Todas as profissões tinham guildas em lugares normais e arejadas, veja a guilda dos magos ou a dos arqueiros! A gente não esperava por isso... Não sabíamos o que fazer agora... Por um momento até pensei em desistir, mas seria uma vergonha para mim mesma! Mas como íamos chegar a guilda agora? Comecei a pensar que os cidadãos de Morroc eram mesmo perigosos, já que até uma guilda de ladrões ficava escondida deles dentro de um labirinto. Novamente pensei em desistir, mas afastei tal idéia da minha cabeça. Adentramos o labirinto e começamos a andar.

Para ser sincera, nem lembro quanto tempo passamos andando ali perdidas. Acho que ficamos andando em círculos, porque todas aquelas paredes avermelhadas e destratadas pelo tempo pareciam as mesmas, não importava quantas voltas a gente desse. Como eu ainda era muito fraca, mal conseguia me defender dos Familiares sem a ajuda da minha mãe. Aquela vergonha de não poder matar nem um maldito morcego em segurança fazia eu me sentir cada vez mais motivada e me tornar logo uma gatuna! Só que dentro daquele lugar abafado, escuro e malcheiroso, não dava para ter noção de nada! A gente não sabia a quanto tempo estávamos lá, nem se o labirinto era grande ou pequeno, nem se andávamos em círculos, nem nada. Só sabíamos de uma coisa: não sabíamos onde estávamos.

Depois de algumas horas (pelo menos eu acredito que tenham sido horas) vimos o que tanto almejamos nesse tempo de deriva: um portal!! Nós duas nos sentimos como um viajante perdido no deserto que encontra um oásis!! Eu a olhei sorrindo e a abracei, e ela me abraçou reciprocamente. Logo depois das comemorações, corremos animadas para dentro do portal.

...

O que aconteceu...?

...

Onde estamos...?

...

Não era para ser assim...

Foi tudo muito rápido. Não sei de onde, um monte de esqueletos soldados nos atacou. Minha mãe rapidamente pegou seu chicote e com suas danças e suas chicotadas, e muita dificuldade, deu conta do monte de monstros que nos cercavam. Mamãe era muito forte e se estivesse sozinha facilmente teria dado conta de tudo, mas a minha presença ali a atrapalhava... Ela não daria conta de proteger a mim e a si mesma daquela forma, então eu decidi me esconder para que minha mãe pudesse se salvar, já que àquela altura estávamos longe do portal. E esse foi o pior erro da minha vida.

Eu não podia imaginar que a tragédia me aguardava atrás daquela parede...