Rachel
3 Lyu
A última coisa que me lembro foi de não ter conseguido me mover por alguns segundos que para mim pareceram, no mínimo, dias. Como que em câmera lenta, fiquei observando aquela criatura se aproximando de mim. Aquele monstro maldito metade mulher, metade cobra, que rastejava na minha direção, cada escama rosa ávida pelo meu sangue.
Meu pai já havia me falado delas. Sempre tinha me alertado para tomar muito cuidado com essas criaturas, por serem extremamente ágeis e fortes. Me contava que, uma vez que elas pusessem aqueles olhos em você, nada poderia te salvar. Elas te perseguiriam indefinidamente, não importava que distância você percorresse para tentar salvar sua vida. Me alertava que essas criaturas procuravam por confusão e atacavam você mesmo que não tivesse feito nada. Só o fato de estar perto já servia de provocação para elas.— MÃÃÃÃEEEEEEEE!Foi tudo o que consegui gritar quando vi que duas Isis estavam perigosamente perto de mim. Corri quase chorando de medo para perto de mamãe, buscando sua proteção. Quase tão assustada quanto eu, ela olhou para as duas Isis que me seguiam e falou comigo com uma voz trêmula para ficar atrás dela. Então, com seu chicote e suas belas danças, ela pôs-se a tentar derrotar aqueles demônios.... Mas...Mamãe não era forte o bastante para duas Isis juntas. Esses monstros a atacavam sem nenhuma piedade, e eu já estava desesperada de tanto ver minha mãe apanhando e já sangrando, gritando de dor ao receber os golpes. Eu estava em pânico, estava vendo minha mãe morrer!!! Eu mal podia me mover de tanto medo, mas não queria ela morrendo, e pior ainda, sem ter feito nada para ajudar!Foi quando vi minha mãe ser atingida em cheio e cair no chão. Ela lutava para beber uma poção e se recuperar para pelo menos poder continuar lutando. Nesse momento eu não pude me conter. Peguei a minha faca e fui para cima da Isis que minha mãe não conseguira matar. Tentei um golpe e cravei a faca em sua cintura. Como eu era muito fraca, ela mal sentiu e o meu pequeno golpe quase não a fez sangrar. Mas mesmo assim ela veio para cima de mim e me deu um tapa no rosto, tão forte que eu cheguei a voar alguns metros de distância. Enquanto eu me arrastava pelo chão, eu senti que o lacinho que tinha ganhado de meu pai fora arrancado de meus cabelos, junto com eles, aliás. Estava quase inconsciente quando um grito da minha mãe me trouxe de volta à realidade.— Não!!! Rachel!!........................................................ Foram as últimas palavras da mamãe...Na tentativa de me salvar da Isis que se aproximava para terminar de me matar, mamãe se colocou na minha frente e recebeu um golpe poderoso no rosto, dando a vida por mim, rolando alguns metros de distância... Eu me levantei e ia correr para perto dela, desesperada e assustada, mas ela com um gesto fraco da mão me mandou sair dali, já que, devido ao golpe da Isis, estava perto do portal de novo. Olhei chorosa para mamãe e cambaleante entrei no portal, poucos segundos antes de ouvir um último grito desesperado de dor... Assim que passei o portal, caí desmaiada no chão. Assim que acordei novamente, fiquei de pé num pulo e olhei em volta. — ... Mãe? Me apoiei na parede, e olhei ao meu redor. Pairava um silêncio gélido e sinistro no ar. Com o coração muito apertado, passei pelo portal e caí ajoelhada no chão, completamente desnorteada pela visão que me recebia. — MÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃEEEEEEEEEE!!!!!!!!!! Minha mãe estava imersa numa poça de sangue, com os olhos fechados. Pelo corpo cujas roupas pouco faziam para esconder, eram muito nítidas as marcas de espancamento, os hematomas. O rosto gelado e pálido ainda expressava o sofrimento de seus últimos segundos de agonia na mão da Isis... Corri até ela e a peguei em meus braços trêmulos. Olhando em volta, reparei em um diamante quebrado caído no chão, sinal de que alguém ainda tinha lutado com a Isis e vencido, mas não a tempo de salvar mamãe. Esperançosa, mandei mensagens para o meu pai, mas ele não respondia... Entendi que tinha sido ele a vencer a Isis, mas não conseguiu fugir e foi morto por outra coisa no caminho... Comecei a chorar... Chorei muito e a abracei longamente, escondendo meu rosto no peito dela. E foi chorando daquele jeito que passei longos minutos, até que não me restaram mais lágrimas no corpo... E enquanto este fabricava mais para eu poder chorar em todos os outros dias de minha vida, eu a deitei no chão e cruzei suas mãos sobre o peito. Estranhei a aliança dela não estar em seu dedo... Mas nem fiquei pensando sobre isso, não tinha ânimo... Beijei minha mãe no rosto como ela sempre fazia antes de eu dormir e sorri com tristeza. Ainda com o rosto próximo ao dela eu disse baixinho, com a voz rouca. — Até mais mamãe... Durma bem...! Me levantei. Desejei do fundo do meu coração que mamãe fizesse o mesmo também. Saí cabisbaixa e voltei ao primeiro andar da pirâmide. Estava completamente desolada e não sabia nem para onde ir... Não sabia de nada, só sabia que jamais voltaria a sorrir na vida. Meus pais estavam mortos. Caminhei indefinidamente dentro daquela pirâmide, sem ao menos ver para onde eu estava indo. Descontava minha raiva matando todos os Familiares que cruzavam meu caminho. Até que quase dei um pulo de susto quando escutei uma voz masculina falando comigo.
— Ei garota, está perdida?Olhei na direção da voz. Era um sacerdote. Ao seu lado estava uma mulher, uma cavaleira, e me chamou muito a atenção porque seus cabelos eram brancos como um cisne. Do alto de seu Peco Peco ela me olhava compadecida.— Você está bem? Parece estar tão triste...Balancei a cabeça negativamente, para dizer que não tinha me acontecido nada e que não se preocupassem. Como eu queria que aquilo fosse verdade...— O que está fazendo aqui sozinha? É muito arriscado vir às pirâmides sem companhia... Elas são muito perigosas!Passada a vontade de cravar uma faca no pescoço do infeliz que me falava aquilo como se eu já não soubesse, olhei na direção da terceira voz. Era um garoto, e pelo jeito devia ser filho do casal, já que tinha os mesmos cabelos alvos da mãe, mas os olhos azuis do pai. Ele continuou a falar.— Meu nome é Hër Lyuben! E esses são meus pais, Apollyon e Lachesis! Vou fazer o teste de gatuno, e você?Senti lágrimas voltarem aos meus olhos quando aquele garoto falou tal coisa com um sorriso. Por que para mim aquela tentativa de teste tinha sido o fim de tudo e para ele não passava de um passeio em família?!— Garota, como você se chama? Você fala?Olhei para o sacerdote, mas logo baixei o olhar. Não conseguia fazer nada além de chorar em silêncio. O garoto se aproximou de mim e me pegou pela mão.— Você parece ser tão triste e sozinha... Vem fazer o teste comigo! Assim nos tornaremos gatunos juntos e treinaremos juntos! E vamos ficar amigos!Olhei para ele. Eu ainda estava triste, mas concordei porque não tinha mais nada a perder... Se eu tinha perdido os meus pais para fazer aquele maldito teste, o mínimo que eu podia fazer por eles era me tornar uma assassina poderosa para vingar os dois. Eu ia matar todas as Isis de Rune Midgard!Isso era uma promessa.Continuamos a caminhar. Eles iam na frente conversando animados e sorridentes. Eu ia atrás chorando calada. Observava o casal um pouco intrigada: o homem era um frágil e puro sacerdote e a mulher era uma frente de batalha, uma cavaleira? E o filho ia ser um gatuno?Que família maluca...Depois de mais um tempo andando, chegamos a uma escadaria. O estranho é que chegamos relativamente rápido... Provavelmente a cavaleira já tinha memorizado o caminho para chegar em segurança e agilidade à guilda.Descemos as escadas,e chegamos a um lugar onde não tinha nada. Eu e o garoto olhamos em volta e Lachesis apontou sorridente para uma passagem à minha direita.— Crianças, é por aqui!Entramos. Lá dentro estavam duas pessoas, um homem e uma mulher. Eles me olharam com um pouco de descaso e eu devolvi o olhar da mesma forma. Quem, afinal, eles acharam que eram para me olharem assim?A cavaleira desmontou o Peco e segurou na mão do filho. Ele parecia assustado... Acreditei que fosse um garoto muito covarde para ter medo daquele pessoal. Mas antes que eu pudesse ficar especulando, ele perguntou.— Você quer ir primeiro?Ah! Foi só então que entendi o que estava acontecendo. Então ALI era a guilda. Que lugar asqueroso! A guilda dos magos em Geffen era muito mais bela, asseada e arejada. Mas convenhamos, ela não ficava no subterrâneo de uma pirâmide no meio do deserto de Sograt.Me aproximei do homem. Com impaciência, ele me mandou ir falar com a mulher, e então eu fui. Aquela mulher me tratava como uma menininha fresquinha, mimada e nojenta! Mas conversamos um pouco e ela concluiu que eu era mesmo apta a me tornar uma gatuna e me mandou falar com um sujeito que atendia por “Irrelevant Man”. Depois de me passar as coordenadas de onde eu poderia encontra-lo, ela me disse que eu deveria invadir uma fazenda e roubar os cogumelos que lá eram cultivados. Me explicou que havia cogumelos de maior qualidade (os venenosos) que valiam mais, e outros de menor qualidade (os borrachudos) que valiam menos, e que eu deveria somar 25 pontos, de acordo com a qualidade do cogumelo... Os melhores valiam três pontos e os piores valiam um.Saí daquela sala. O casal e seu filho me desejaram boa sorte. Agradeci com um sorrisinho e corri para fora da pirâmide... Procurei pelo tal homem e não demorou muito para que eu o encontrasse escondido perto de um oásis. Mesmo sendo quase noite (não tinha percebido o tempo que passei dentro da pirâmide), eu conversei com ele e o homem me fez segui-lo por até uma passagem secreta que dava para a fazenda. Então, depois de invadir, reparei no lugar. Era escuro e muito úmido. Eu via os cogumelos e alguns monstros que guardavam os cogumelos.O teste havia começado.
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