Rachel

4 O homem misterioso


Não soube exatamente o que fazer de imediato. Eu me lembrava que meus pais me diziam que alguns monstros são ladrões, e comem os itens que estão no chão. Eles me disseram alguns, e sempre me recomendavam que matasse esses monstros antes de matar algum que deixasse algum item valioso. E naquele caso, os cogumelos eram muito preciosos, mas os monstros estavam por toda parte! O dono da fazenda realmente tinha acertado em colocar aquelas pragas por lá, vigiando seus cogumelos.

Peguei a única coisa que tinha à mão, que era a minha adaga. Segui para perto de um cogumelo que estava mais isolado um pouco dos monstros e comecei a golpeá-lo. Com dez golpes, consegui matar e ele não me deixou nada. Eu não entendi, mas deixei para lá e me aproximei de outro. Novamente, desferi os dez golpes, e ao fim deles consegui um cogumelo! O peguei na mão e dei uma apertada... Que sorte! Não parecia borrachudo, então só podia ser um dos venenosos! O guardei comigo quando vi uma larva de besouro ladrão se aproximando avidamente de mim, e segui em frente. Só faltavam mais vinte e cinco pontos!

E assim fui seguindo o meu teste. Aquele lugar úmido e escuro me deixava com a sensação de estar dentro da boca de um dragão baforento. Destruí vários cogumelos e por vezes eles não me deixavam nada, e por mais vezes ainda só me deixavam um borrachudo. No fim, eu já estava cansada demais, tanto física quanto mentalmente, e só tinha quinze pontos. Ainda precisava de dez para passar...

Mais à frente avistei um outro cogumelo, e corri para quebrar e ver se derrubava alguma coisa. Estava tão louca para passar no teste que não percebi vários chonchons perto dela. Cheguei a matar, mas antes que pudesse pegar o cogumelo, um dos chonchons o levou embora.

— Ei! Volte aqui com meu cogumelo!

Estava tão louca para terminar o teste que não percebi que seria muito mais fácil matar outro cogumelo do que tentar tomar aquele do chonchon. Quando alcancei o chonchon ladrão, o matei, não sem levar algumas picadas. Só que novamente, antes de conseguir pegar o cogumelo, outro monstro o levou. Me deixei cair deitada no chão... Já estava exausta, não sabia se ia ter forças para continuar o teste. Mas só faltavam mais dez pontos... Só dez... Eu tinha que conseguir!

Voltei caminhando para onde estava antes. E com aquilo ainda consegui uma outra preocupação... Como eu ia sair daquela fazenda? Era um labirinto escuro, e eu não sabia onde era a saída! Mas decidi que ia me preocupar com isso mais tarde... Antes, ia me preocupar só com os cogumelos! E foi pensando nisso que segui atrás de mais alguns... Cheguei a ser surpreendida por alguns monstros mais fortes que por pouco não me mataram também, mas consegui escapar de todos. O que eu não achava mais eram cogumelos... Já tinha derrubado uns cinco e nenhum deles me deixou nada! E esses dez pontos começavam a parecer demais para mim... Estava pensando em desistir de tudo... Foi quando vi um cogumelo à minha frente. Pensei um pouco antes de ir lá derrubar... Se não viesse um cogumelo venenoso, eu ia desistir...

Comecei a atacar... Contei os golpes até que finalmente o destruí. Caiu um cogumelo! Meio hesitante, o peguei nas mãos... Senti uma coceira e que ele era mais rijo. Era um venenoso! O guardei rapidamente e com aquilo fiquei animada. E mais ao longe (bem ao longe) avistei uma clareira. Era a saída da fazenda!

Resolvi correr até lá, e derrubar todos os cogumelos que encontrasse pelo caminho! Algumas vezes tinha que enfrentar alguns monstros, mas foi tranqüilo. Só fiquei meio perdida porque a clareira estava cercada de paredes praticamente invisíveis por causa da escuridão, e só havia um meio de chegar até ela, pelo centro. Mas finalmente consegui sair! Fiquei um tempo descansando, e tremendo, pois um deserto à noite é extremamente frio. Mas, uma coisa me preocupava.

Eu teria que levar os cogumelos para aquela mulher. Isso significava... Que eu teria que atravessar o caminho da pirâmide de novo?

Sim... Era triste, porém verdade... Eu teria que enfrentar aquele caminho que tinha me separado dos meus pais, e sozinha, dessa vez. Senti medo... Mas pensei melhor. Se fosse para eu morrer, já estava passando da hora. Afinal, o que eu ia fazer sozinha no mundo?

Segui de volta para a pirâmide... Cabisbaixa e tomada pela desesperança. Até que ouvi uma voz familiar.

— Olha papai, mamãe! Ela voltou!

Olhei na direção da voz. Lyu e seus pais estavam na porta da pirâmide. Antes que eu conseguisse falar algo, a mulher se aproximou de mim.

— Estávamos todos preocupados com você Rachel! Ficamos te esperando para te acompanhar até a guilda. Então, como foi o teste?

Eu apenas balancei a cabeça, dando a entender que tinha corrido tudo bem. Ela sorriu e para minha felicidade não insistiu em fazer perguntas... Me pegou pela mão e me colocou sentada junto com ela sobre o Peco. Eu agradeci... Estava mesmo cansada demais para andar.

Lyu e seu pai estavam animados. Por alguma razão aquele sacerdote parecia ter interesse em mim. Mas não pensei sobre. Deitei a cabeça nas costas de Lachesis e quase adormeci no caminho para a guilda. Aquela família tão peculiar parecia ser tão animada. Era diferente da minha. Não que a gente não se amasse, mas todos nós éramos recatados e mantínhamos uma elegância, uma formalidade. Afinal, morávamos em Geffen. Tínhamos o glamour no sangue. Pelo menos, era o que eu pensava...

Chegamos na guilda. Com dificuldade, desci do Peco e caminhei até a mulher. Entreguei meus cogumelos e me larguei sentada no chão mesmo... Ela começou a contar os cogumelos e os pontos, e logo exclamou.

— Trinta e sete pontos! É muito mais do que o necessário para passar! Parabéns Rachel!

Eu nem falei nada. Lyu e seus pais também vieram me cumprimentar, e eu apenas agradeci a ajuda. Lyu segurou na minha mão meio coradinho e falou.

— Parabéns pelos pontos! O que acha de amanhã a gente ir brincar e treinar?

Eu concordei sem nem saber o que estava fazendo. Lachesis sorriu e falou com todos.

— Então Rachel, a gente já vai para casa, o meu bebê aqui precisa de um banho! –abraçou Lyu... Eu preferi não olhar para aquela cena, mas ela logo continuou- Amanhã, se quiser vir até nossa casa em Prontera, sinta-se à vontade!

Novamente concordei. E depois de me despedir deles, olhei para a mulher e pedi minha roupa de gatuna. Ela me fez algumas recomendações, algumas até meio maldosas, mas me entregou a roupa e me apontou uma sala par eu me vestir... E foi o que eu fiz. Depois de me vestir, não consegui deixar de pensar em meu pai... Aquelas roupas exibiam muito o meu corpo, com certeza ele estaria me recomendando ter virado pelo menos uma noviça...

E logo voltei para a sala. Ela elogiou e me disse bons lugares para treinar, e me deu dicas, mas eu nem estava ouvindo. Foi quando ela me perguntou.

— Garota, você está bem?

Olhei para ela. Aquela pergunta parecia piada...

— Não, não estou bem! Eu vim fazer esse teste hoje de manhã com minha mãe e nos perdemos dentro dessa maldita pirâmide! Fomos parar no meio de um monte de Isis e a minha mãe acabou não escapando! Minha mãe morreu! E eu nem sei do meu pai... Deve ter vindo procurar a gente e morrido também... Eu não tenho mais ninguém! Estou sozinha e nem tenho para onde ir! Não estou nada bem!

Acabei desabafando com ela. A mulher e o homem se entreolharam... Não gostei da pena que tinham nos olhos, mas nada mais me importava. Eu estava pensando pelo menos em onde ia passar a noite. Pensei na família de Lyu... Eram legais e tinham se preocupado comigo, talvez, por algum dinheiro, me deixassem morar com eles...

— Garota... Temos um quarto vago aqui na casa guilda. Era meu, mas eu consegui um outro lugar para morar. Não é bonito, mas... Se precisar de um lugar para morar... Sinta-se bem vinda, não vamos cobrar nada, falou?

Olhei para ela. Pensei por um instante, mas me decidi rápido.

— ... Seria ótimo...

A mulher sorriu. Pegou em minha mão e me levou até um quarto. Ou pelo menos, teoricamente era um. O lugar era escuro e fedido! Mal tinha iluminação, apenas uma única vela iluminava o lugar que não tinha nem janelas. A cama era apenas um amontoado de palha sob alguns lençóis e cobertores. As paredes nem tinham pinturas, e dava para ver ratos passando. Baratas... Eu senti vontade de ir embora, mas logo a mulher começou.

— Aquela porta é um banheiro, mas não tem água, se quiser tomar um banho, me avise que eu te digo onde buscar água. E essas duas aqui são um armário. Se sentir fome, pode me avisar, certo? Vamos deixar comida suficiente para você fazer três refeições por dia, combinado?

Eu concordei com a cabeça... A mulher simplesmente me disse boa noite e saiu, fechando a porta que rangia irritantemente. Eu coloquei minhas antigas roupas dentro do armário e segui até o banheiro, só para dar uma olhada. E bati a porta. Aquilo ali não podia ser chamado de banheiro nem de brincadeira! Tinha apenas uma banheira vazia e cheia de lodo, e um buraco no chão que talvez servisse para fazer o papel de um sanitário! Mas, eu não ia reclamar. Aquilo ali era minha nova casa. Eu ia morar ali sabe-se lá por quantos anos, então, era bom eu me conformar...

Deitei na cama. Fechei os olhos e senti vontade de chorar, mas aparentemente não tinha mais nada para chorar. Apenas me deixei vencer pelo cansaço, querendo descansar e esquecer do pior dia da minha vida... Durante a noite, pesadelos horríveis me impediram de dormir. Eu fechava os olhos e via meus pais sendo assassinados. Acabei não conseguindo dormir.

No outro dia, acordei e vi três refeições embaladas sobre uma mesa. Nem quis comer nada... Apenas fui para o lado de fora, e cheguei a me assustar ao ver que já passava de uma da tarde quando vi a luz do sol! Estava esfregando os olhos por causa da claridade quando ouvi a voz de Lyu.

— Rachel! Você apareceu!

Ele vinha correndo em minha direção. Um pouco distante, dava para ver um grupinho de gatunos e gatunas reunidos, empolgados e decidindo onde treinar. Conversei um pouco com Lyu, e ouvi onde eles pretendiam treinar... Enquanto marcavam de fazer parties e tudo mais, eu segui sozinha para treinar... Lyu ainda pediu para me acompanhar, mas eu realmente preferia fazer isso sozinha. E “sozinha” era a palavra que ia me acompanhar pelo resto da vida.

Jurei a mim mesma que jamais ia gostar de alguém de novo. Jurei que nunca mais ia fraquejar na vida.

Com o passar dos anos, eu me tornei uma gatuna muito hábil e poderosa. Tinha conseguido dinheiro para reformar aquele meu quarto, comprar equipamentos e comida boa nos restaurantes. Tinha feito alguns amigos, mas todos só por interesse, tanto da minha parte quanto da deles. Lyu sim era sempre grudado comigo. Sempre querendo agradar e ser legal. Me dava presentes, me chamava para comer na casa dele, me convidada para aniversários. Até que eu simpatizava por ele. E assim estava sendo a minha vida. Até que um dia conhecemos uma garotinha. Ela parecia ser tão deslumbrada que não parecia ser capaz de prestar atenção em coisa alguma. Era uma garota ruiva, de cabelos longos e cacheados. Por alguma razão, grudou em mim também, me dando um apelido irritante, “Kekel”. E nos viciou em chamar Lyuben apenas de “Lyu”. Também tinha vindo se tornar uma gatuna, mas não falava do teste. Só falava de um homem alto e ruivo que a tinha ajudado a chegar com vida na pirâmide. Não sei o porquê, mas acabamos nos tornando grandes amigos. Ela me dizia o tempo inteiro que um dia, ia me apresentar o tal homem que a ajudou. Eu até que ficava curiosa... Como será que aquele homem seria? Espero um dia realmente poder conhecer esse cara... Parece ser um homem muito legal! Será que um dia nos encontraremos?

Notas finais
Rachel é minha personagem original de um RPG de Ragnarök que eu jogo. Fiz essa fic para explicar o passado dela, e aqui vão umas considerações:

- Com o tempo, Rachel se torna algoz, e começa a namoraro Lyu.
- Lyu, apesar de amar Rachel, realmente não tem nada a ver com a guilda dos Assassinos. Apesar de ser treinado pelo líder da guilda (que se casará com Lachesis, pois Apollyon morre logo no começo do jogo), ele acaba trocando de profissão e virando Templário.
- O tal "homem misterioso" é na verdade, Iori, pai de Rachel. Os dois se reencontram em Morroc mesmo e passam a viver juntos para sempre =)! Iori inclusive se casa com Aeron, uma arquimaga, que é mãe de Nara!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!