Race in Heels - Corrida em saltos
26 Vingt-cinq
14 de outubro
Suzuka, Mie – Japão
Suzuka é uma cidade japonesa que fica na província de Mie, cujo destino é relativamente conhecido entre turistas, mas que geralmente é desconsiderada em vista de lugares mais aclamados como Tóquio, Kyoto e até mesmo Osaka.
Sua importância para a população local e visitantes dava-se por, além de situar o santuário Tsubaki que é um dos mais antigos do Japão, também abrigar um dos autódromos mais conhecidos e importantes do mundo. O famoso circuito de Suzuka.
Em final de semana de corrida a singela cidade é tomada pelo público apaixonado pelo esporte e consequentemente dos que viviam por meio daquele espetáculo; equipes, montadores, mecânicos, engenheiros, entre muitos outros.
A pista se fazia muito especial, para os brasileiros em particularidade, uma vez que fora onde Sampaio teve vitórias e provas espetaculares além de ser o palco de onde o piloto consolidou os três títulos de sua carreira.
Por este fato pode-se encontrar diversos adereços em homenagem ao piloto espalhados pela cidade, tanto no museu do autódromo quanto na loja de souvenires ou mesmo nas ruas, com bandeiras brasileiras e pôsteres erguidos durante todo o final de semana.
Os fãs do esporte locais exaltavam os brasileiros e para Liza – como sua primeira vez ali – o ambiente se fez por acolhedor, com toda essa dedicação e excitação que só os japoneses sabiam fazer.
No dia do reconhecimento de pista os fãs a seguiram por fora de todo o circuito, segurando cartazes espalhafatosos e coloridos com dizeres amorosos. Eles ficavam radiantes quando conseguiam fotos e a agradeceram fervorosamente quando ela cedeu autógrafos. Também a presentearam com diversos adereços, dentre eles comidas, vestuário e acessórios típicos do lugar.
Liza nunca fora tão aclamada, o que fazia seu peito se aquecer como há tempos não sentia. Ela passou a amar o Japão e toda a sua cultura fascinante.
No entanto, mesmo com todo esse alvoroço, não se fazia por despercebido o fato do circuito ser grandiosamente desafiador. O trajeto podia ser usado em três configurações; Suzuka Completo, Suzuka Leste e Suzuka Oeste, e aquele ano eles teriam o mais árduo com as curvas mais rápidas e intensas, que chegavam á 300 km/h, e sem grandes áreas de escape. O que era uma das maiores ameaças de uma corrida.
Vários acidentes históricos já ocorreram naquele circuito, até trágicos. Fora justamente naquela pista que June tivera o seu acidente em 2013, o que deixava a parte técnica, segurança, além dos pilotos mais apreensivos, mas principalmente Cris.
Da última vez que a empresária havia estado ali fora junto de seu melhor amigo e cliente, e tinha sido o palco da tragédia que mais havia a marcado na vida.
Por aquela razão Liza determinara que executaria o plano de Charlie o quanto antes, a tempo de evitar o risco ou ameaças a qualquer um do grupo que pudesse transformar um clima tão cativante em um traumático.
Enquanto gravava um vídeo promocional provando comidas japonesas com Orlando para o canal da McDraguen, Liza tentava ser o mais descontraída possível, o que o parceiro notara e se animara pela espontaneidade que há algum tempo não vira – fora o episódio do Holanda, claro.
— Não acredito que você não gosta de sushi. – ela diz segurando o enroladinho de peixe cru entre os palitinhos e direcionando à um Orlando já com o rosto verde devido ao enjoo. – Você até me indicou um restaurante uma vez.
— Só porque a textura da comida é nojenta não quer dizer que não a acho bonita. – ele diz com a mão na boca – Por favor, tira isso de perto de mim. Esse cheiro de peixe...
Ela ri e direciona o sushi até a própria boca.
— Maravilhoso. – ela elogia depois de engolir.
— Qual a graça de comer comida crua, sendo que existem os fornos e fogões para assá-los? – Orlando questiona. – Até na época das pedras o homem fez o fogo para assar essas coisas, eu não sou obrigado à gostar dessa regressão.
— Você come peixe assado? – ela questiona.
— Não. – ele diz sorrindo.
Liza ri.
— Então esse argumento não funciona para você. – a jovem debate – Por que você não gosta de peixe?
— Só não gosto. – ele dá de ombros.
— Mas já provou?
— Não.
— Então precisa provar. – ela direciona outra peça na direção de Orlando, que tapa a boca no mesmo instante pela sonora ânsia que sobe pela sua garganta.
— Pelo amor de Deus. – o rapaz pede aos grunhidos. – Tragam outra coisa, os japoneses não comem só sushi. Eu sei disso.
Liza abocanha a peça novamente aos risos.
— Isso, tragam um rolinho primavera de porco ou um Cup Noodles para o bebezão. – ela diz e eles rirem abertamente.
Terminada a gravação a tensão de Eliza se restabelece por todo o seu corpo. Dali a poucos minutos ela estaria na presença da figura amedrontadora de John e o desafiaria.
Só de pensar o seu estômago cheio de comida revirava e por pouco ela não estava igual à Orlando.
Liza estava determinada sim, decidida á acabar com aquela situação de uma vez por todas. E apesar de pensar que o plano realmente poderia dar certo, os arrepios causados pelas possíveis ameaças implícitas do homem eram inevitáveis.
Quando chegou ao restaurante suas pernas estavam tremendo e o coração palpitando freneticamente. Ela precisava se acalmar.
Urgentemente.
Não demonstrar medo era um ponto forte da sua estratégia e ela tinha que controlar o seu emocional.
Por isso logo que entrara no restaurante de decoração típica – com paredes de madeira, aberturas laterais grandes que deixava o ambiente arejado e iluminado, além de ser agraciado com paisagens no seu exterior de plantios verdes – antes mesmo de retirar os sapatos na entrada devido a tradição, ela já pede um suco de maracujá para a gentil garçonete.
Enquanto a atendente à levava até a mesa reclusa onde John estava, Liza apreciava o tatame de tecido bordado em bege e preto que revestia o chão abaixo de seus pés, já com o copo pela metade em mãos.
As mesas eram separadas por shōji, que nada mais são do que as portas deslizantes feitas com um papel translúcido emoldurado em uma armação de madeira, que davam mais privacidade aos clientes. A pilota só conseguia ver a sombra dos corpos das pessoas refletida no papel, indicando que o local estava cheio.
Chegando à sua mesa de pernas curtas, ela se direciona às almofadas bem aconchegantes e finas ao chão, sentando-se em frente ao homem que sorriu em sua direção.
Liza sequer fizera questão de corresponder à falsa simpatia, ela simplesmente termina de beber o seu suco e bate o copo na mesa antes de declarar: — Eu vou declarar a mídia que eu estou namorando com Charlie Lacroix e que a FIA permitiu isso.
— Como é que é? – John questiona com o cenho franzido ao ser pego de surpresa.
Ela toma ar para declarar de uma vez: — Segundo o que prevê no artigo 5º, inciso X da Constituição Federal Esportiva que rege judicialmente as fundações, incluindo a FIA, a instituição empregatícia não pode proibir relacionamentos amorosos entre funcionários uma vez que são invioláveis a intimidade e a vida privada das pessoas. – ela sorri de lado – Ou seja, a empresa não pode impedir o relacionamento mesmo que seja uma regra institucional.
John ri fraco.
— Quanto ao regimento interno e código de ética da empresa? – ele arqueia uma sobrancelha– Mesmo que vocês sejam empregados por diferentes construtoras elas seguem o nosso regulamento porque convenientemente elas são nossas colaboradoras.
Liza umedece os lábios antes de continuar: — Não há lei que proíba um relacionamento entre funcionários da mesma empresa, ainda mais de diferentes escuderias, pois a Constituição prevê o direito à intimidade, à honra e à vida privada. Portanto não havendo excessos nas condutas impróprias no ambiente de trabalho não há previsão de justa causa ou punições. – ela suspira – Isto é, a empresa não pode proibir o relacionamento, somente limitar as condutas em ambiente de trabalho.
John fica um tempo refletindo naquele discurso, assentindo com a cabeça vagarosamente com olhos perdidos.
Liza respira fundo, controlando a sua ansiedade e apreensão esperando por uma reação do homem.
— Essa sua fala se assemelha muito à de uma advogada, — ele a encara nos olhos – ou de uma empresária que está à tempos procurando por uma cláusula no contrato para safar a sua cliente.
Ela engole em seco.
— Ela só não poderia prever que estaria lidando com um homem que pode usar de seus muitos meios para queimar aqueles que se opõe à sua vontade. – John pronuncia entre dentes, já irritado – Você se esqueceu disso? E de que havíamos falado sobre restringir o nosso acordo somente á nós dois para dar com a língua nos dentes para a italiana?
— A partir do momento em que você ameaça meus amigos e quase causa um acidente contra o meu namorado eu tenho que repensar sobre esse acordo, o qual eu nunca concordei por livre e espontânea vontade.
— Ir por esse lado, da justiça, não vai te beneficiar. Você não aprende com os erros do passado, Benedetti? – ele indaga aos risos – Eu posso comprar qualquer júri de qualquer ação que queira mover contra mim. Eu faço as regras do meu jogo.
Inesperadamente Liza abre um sorriso confiante, aumentando a irritabilidade do homem.
— Exatamente. – ela declara. – Pretendo jogar conforme o seu jogo. Mas quem vai ditar as regras agora sou eu.
Liza enfia a mão na gola da camiseta que usava e de dentro do sutiã tira um pequeno aparelho. Quando coloca-o na mesa John nota ser um tocador de música moderno.
— O que vai fazer, colocar uma música para aliviar a tensão? – ele debocha.
— Sim, — ela sorri enquanto clica na tela do aparelho – e você vai adorar essa sinfonia. Eu particularmente adoro.
Quando ela dá play não demora-se muito à ouvir-se a voz do próprio homem dizer: — “O dinheiro pode comprar uma boca calada, informações privilegiadas, o melhor advogado, uma decisão do júri ou qualquer coisa que eu precisar.”
No final da gravação o homem arqueia suas sobrancelhas, estupendo, e ergue a mão rapidamente até o gravador, mas Liza o recolhe primeiro.
— Nã, nã, ni, nã, não. – ela cantarola e os olhos do homem se tornam furiosos – Você e seus homens são completamente cautelosos sim ao pegar o meu celular durante as nossas conversas e fiscalizar as minhas ligações ou mensagens, mas quem diria que seriam abatidos por um simples e inofensivo gravador?
Liza ri.
John direciona o olhar aos seus seguranças e indica a mulher á sua frente, no mesmo instante os homens grandes se aproximam dela. Mas Liza se adianta em dizer: — De onde veio essa tem muitas outras, especificamente de todas as nossas conversas, com cópias espalhadas em diversos dispositivos com pessoas de confiança. Se eles não tiverem noticias minhas daqui vinte minutos vão soltar na mídia o monstro que você é.
Mesmo contrariado, com um aceno de mão John pede que os homens voltem a se afastar.
Liza sorri satisfeita.
— Eu sou uma mulher precavida John e, por mais que na época eu não tivesse os meios certos de usá-los porque saberia que você colocaria essas gravações contra mim, hoje eu tenho apoio das pessoas certas porque simplesmente deixei de ser teimosa em querer segurar a bronca só comigo. Eles me lembraram de que somos os melhores em trabalho em equipe e que juntos podemos fazer alguma coisa.
— Com quem você falou? Zach, Lacroix, Cristiane, seu tio? – o homem questiona com ar gozador – Os meus contatos são infinitamente mais respeitáveis e influenciadores que eles.
Liza contém o seu riso e John suspira pesadamente.
— Independente dos meios, os métodos, as conversas ou artimanhas que tenham feito, deve ser insignificante já que não chegou ao meu conhecimento. – ele declara – Se prosseguir por esse caminho isso pode te levar á prisão por causar acidentes intencionais. Isso sim é crime. Minha coerção é o de menos. – John ri – E mesmo que não for, não há como me manter em uma prisão por muito tempo. Meus advogados são os melhores.
— Oh não, eu não quero te jogar na prisão. – Liza nega com a cabeça lentamente – Homens como você não tendem a ficar muito tempo lá. Fianças, privilégios e entre outros, eu não sou idiota. – ela sorri – Mas com certeza esse tipo de atitude pode fazer a Constituição te destituir desse cargo.
— A Constituição só pode me destituir se os chefes de equipe das dez escuderias me denunciarem e fizerem uma votação unanime para a minha substituição.
Liza alarga o seu sorrido.
— Exatamente.
E então, no mesmo instante, o shōji é aberto pela garçonete. No entanto ela não estava ali para trazer a sua comida e sim para indicar à sala ao grupo de homens que estavam à aguardar ansiosamente e separadamente pelas demais salas do restaurante de forma discreta.
Os dez homens tomam a sala e John automaticamente se levanta com a expressão aturdida.
— Senhores... – ele começa – A que devo a honra?
— Acho que você já sabe a razão, Toddy. – Tucker William, o obstinado comandante da Mustof, fala com a voz dura. Sua estatura alta já impunha respeito, somado à seu semblante sério era quase assustador. No entanto, era um dos chefes mais admirados do grid.
— Pois bem, Benedetti, se nos permitir gostaríamos de assumir ás negociações. – Christian Robertt declara gentilmente à mulher, que assente e se levanta da mesa, dando espaço para que eles tomassem os lugares próximo à mesa.
Liza fica no canto da sala assistindo a troca de fala no debate e por vezes até se perdia entre um e outro que assumia o direito da fala. Mas nada era melhor do que ver John Toddy ser colocado contra á parede.
Os homens disseram que haviam tido ciência das ameaças tanto à Liza quando Marcus e diversos outros funcionários do meio e que não tinham motivos para não fazer á delação à Constituição.
— Vocês me tiram e eles colocarão outro igual, se não, pior do que eu. – John rebate – Depois de tudo o que eu já fiz por esse esporte, vocês estão sendo muito ingratos. Já financiei as custas de montagem de todos vocês...
— Por livre e espontânea pressão. – Tucker o interrompe.
John respira fundo.
— Entendam, esse esporte sempre vai ser desta forma. – Toddy argumenta, o grave da voz crescendo à cada sílaba dita – O dinheiro sempre vai ditar às nossas regras, os magnatas sempre serão os controladores de tudo.
— Por isso que ao invés de te delatar, nós vamos propor á você um único acordo. – Robertt é quem declara. – Cancele o envolvimento destes magnatas com o nosso campeonato e a Federação. Essa parceria é suja e de certo não deve ser burocrática para ser desfeita.
— Iremos à falência. – John informa – O capital do patrimônio destes homens é o que mantêm estes eventos vivos. Precisamos deles.
— Não precisamos que homens tradicionais, machistas, com pensamentos retrógrados nos digam o que fazer. – Zach diz, olhando significantemente para sua pilota. – Queremos uma competição justa, sem intromissão qualquer ou trapaças. E por isso nós é quem vamos investir, de nosso próprio patrimônio pessoal na Fórmula 1.
Liza arqueia as sobrancelhas em surpresa.
Quando Charlie junto à Fábio haviam conseguido convencer um à um dos chefes à estarem presentes no restaurante naquele dia para colocar o presidente contra a parede, ele não havia revelado á Liza que além de safar o seu problema com John, o que os 10 homens tinham concordado em fazer para tornar o campeonato justo.
Esta era a razão pela qual Charlie se submeteu à acordos bilionários com eles.
Até então, o sonho de tornar o campeonato limpo e justo parecia ser algo impossível. Só que não mais.
— Vocês vão investir? – John questiona aos risos.
— A sua falta de confiança na nossa capacidade patrimonial é ofensiva, Toddy. – diz Lawrence Spprol, pai de Lance e um dos homens mais ricos do mundo. – Garanto que, como eu, os demais têm ciência do que teremos que abrir mão aqui. Mas tudo vale a pena pela clareza e honestidade diante dos resultados para todos terem chances iguais.
— Quanta hipocrisia, Spprol. – John ri – Logo você quem mais quis comprar vitórias para seu filho.
— O “abrir mão” faz parte disso. – Lawrence contrapõe – E eu acredito na capacidade do meu garoto, que com certeza vai subir diante de índices igualitários.
— Isso é uma piada. – John exaspera – Vocês realmente acham que somente impor o seu dinheiro resolve tudo?
— Claro que não. — Frédéric Vancouver, CEO e diretor da Alfromeo, diz. – Teremos o retorno de 8,9 por cento cada sobre todos os lucros e 4 por cento destes vão ser investidos diretamente nos nossos próprios carros. Como investidores legais, abstendo todos os demais capitais que entrem ilegalmente.
— Mas isso me deixa com 2,1 da porcentagem. – Toddy diz abismado, seu rosto tão vermelho que faziam seus olhos parecerem a própria lava.
— É melhor do que não ter nada, se for destituído. Não é? – Zach diz cruzando os braços. – Mas não sinta que isso vai ser uma gratificação, vai ser a pior coisa que poderia acontecer. Vamos ficar na sua cola, supervisionando você, se sair um dedinho da linha no mesmo instante a Constituição ficará sabendo das suas negociações. E vai ser automaticamente jogado aos tubarões.
John abaixa a cabeça e Liza tem vontade de sair saltitando de felicidade.
Estava acabado.
— Podemos fazer o acordo. Como queiram. – o presidente diz por fim, ele não tinha outra opção.
(...)
15 de outubro
— Está nervoso?
— Não. Você está?
Liza e Charlie estavam na porta do anfiteatro do autódromo de Suzuka, onde acontecia uma reunião entre a diretoria da FIA, seu comitê e as equipes das escuderias. O encontro tinha o intuito de reestabelecer algumas regulamentações de seu código ético interno à meio de votos de todos os que faziam parte da Federação, membros e colaboradores.
Depois que a reunião com John fora finalizada e um acordo selado pelos chefes das escuderias, a primeira exigência de Zach foi abolir a regulamentação que proibia vínculos extracontratuais. Ela abrangia à liberdade na representação de marcas de roupas, tênis, apoiar esportes, causas, entre outras vertentes fora do contrato com a sua construtora, além de vínculos românticos, claro.
Por já terem declarado oficialmente ao regimento interno da federação sobre o seu relacionamento, ambos não tinham direito de fazer parte da votação. A sua permanência no restante da temporada se daria à decisão dos demais pilotos, engenheiros e chefes de equipe, e eles aguardavam pelo veredicto ansiosamente.
— Ma belle, — Charlie toma as suas mãos trêmulas e as acaricia delicadamente – mesmo que eles não concordem e sejamos suspensos por essa temporada, você vai ter as próximas para disputar. – ele a conforta – Não se preocupe. Vamos ficar bem.
— É verdade, mon cherri. – Cris se pronuncia – Agora você já está livre daquele monstro, não tem mais o que temer.
A italiana, a quem havia sido contida quando fora revelado pelo o que a sua cliente estava passando, ainda continuava com a opinião de que deveriam fazer justiça com as próprias mãos e, com o apoio de Fábio, queria descer o cacete em John.
— Quem tem o que temer é ele. – Fábio diz. – Basta uma piscada duvidosa que eu enfio uma tora do tamanho do Titanic no cu daquele chantageador.
Os quatro não conseguem evitar os risos.
Os dois tinham acabado por aceitar que as coisas fossem resolvidas de forma mais branda, mas a qualquer oportunidade voltariam à trás. E, sim, eles falavam sério.
O ódio era real e Liza os entendia completamente.
No entanto, sua preocupação agora era outra. Devidos aos tais acordos que Charlie teria que cumprir, ele poderia não ser mais o piloto titular da escuderia vermelha nos próximos anos. E Liza se sentia completamente culpada por isso.
— Se não for escolhida a opção que precisamos, você vai ser piloto reserva e isso não é justo.
— Eu não estou preocupado. – ele a interrompe – Você também não deveria.
Ela franze a testa.
— Como não?
— Por que, mesmo que eu não possa disputar por um tempo, vai valer a pena. – ele sorri – Um campeonato sem o controle e sem resultados esquematizados. Finalmente tudo vai ser justo. Até soa bem.
Liza suspira pesadamente.
— Não é justo. – ela repete – Fez isso para me livrar do John e agora quem não poderá competir vai ser você. Eu...
— Não tem culpa nenhuma disso. – ele a interrompe novamente – Eu quem tomei partido disso, eu quem decidi. E somente eu devo arcar com as minhas decisões. Sejam as consequências que for.
As palavras do monegasco são recebidas com encanto.
— Porra, moleque. – Fábio declara – Você dificulta a minha árdua missão como tio em odiar o namorado da sobrinha.
Charlie ri e Liza o puxa para um abraço.
— Só me prometa que independente de qualquer coisa seremos um time. – o monegasco pede, a voz abafada em meio aos cabelos dela – Que iremos resolver as coisas juntos, sem essa de nos separar nunca mais.
Charlie sabia que ela tinha feito o que fez para protegê-lo, Liza tinha um coração bondoso e muito emotivo. Ela agia conforme seus instintos, mas havia tomado uma decisão sobre eles sozinha e se tivesse confiado nele eles poderiam ter chegado á essa solução anteriormente, evitando muita dor e sofrimento.
Mas tudo aquilo fora mais um aprendizado e vê-la admitir e aceita-lo como parceiro, não só de cama como para a vida, era recompensador. Estavam em sintonia novamente.
— Eu prometo. – ela diz sem hesitações.
Quando a reunião é dada por encerrada o casal assiste os integrantes saírem pelas portas do anfiteatro casualmente, colegas conversavam entre si, uns corriam para cumprirem com seus compromissos enquanto outros, como Daniel Richarts seguiram em suas direções com um sorriso acolhedor.
— Porra, nunca pensei que um dia veria todos naquela sala votarem por uma questão e ter concordância unânime. – ele diz. – Tantas são as diferenças que temos.
— Unânime? – Liza repete com o coração acelerado. – E qual foi a decisão?
Danny olha de Charlie à Liza, prolongando dolorosamente a revelação.
— Que droga, Danny. – Liza lhe dá um tapa no braço – Fala logo.
— É, porra, a gente tá morrendo aqui. – Fábio complementa atônito.
— Vocês foram absolvidos! – a voz de Orlando exclama logo atrás de Daniel, pulado em cima dos amigos.
Charlie ri alegremente e pula junto à Orlando enquanto ela ainda assimilava aquela notícia.
— A galera realmente gosta de vocês, sabe, além de toda essa coisa de poder fechar parcerias fora. O que pesou mais na decisão não foi isso. – Daniel diz á Liza – Até o Max voltou à favor. – ele dá de ombros, para em seguida se tocar – Ah, é verdade, tinha esquecido que vocês também são amiguinhos agora.
Liza sorri feliz.
— Brincadeiras à parte, estou muito feliz por vocês. – o australiano diz.
— Isso aí! – Fábio comemora e bate na mão erguida de Charlie.
O monegasco puxa Liza em emoção e sela um beijo rápido em sua boca.
Agora eles não tinham mais o que esconder.
— Mas isso também não quer dizer que agora podem ficar grudados feito chiclete por aí. – Cris diz firme, os separando de repente. Eles olham em sua direção assustados, mas ela acaba por sorrir afetuosa. – Mas um beijinho ou outro não faz mal, não é? Estou feliz por vocês.
Eles se abraçam e é festejada a decisão por toda à tarde.
Pelo menos até terem que retornar aos compromissos usuais.
(...)
16 de outubro
— Estamos aqui na margem das garagens aguardando pelos vencedores da corrida. – a jornalista fala em frente à câmera ligada – Eles acabaram de deixar o palco e passaram por... Olhem, é Charlie Lacroix. – a mulher dos olhos puxados e inglês secamente pronunciado se alegra e chama a atenção do monegasco.
O rapaz, ensopado por champanhe, seca o rosto com a toalha que sua assessora lhe oferece antes de se aproximar da repórter com um sorriso gratificante no rosto.
— Oi Charlie! – ela salda. – Parabéns pelo segundo lugar, foi uma corrida realmente cheia de emoções.
— E se foi! – ele concorda alegremente – Muito obrigado, estou muito orgulhoso de toda a equipe por este resultado. Nós trabalhamos duro e nada mais justo que dois de seus pilotos no pódio, hein?! Estou realmente feliz. Muito feliz.
— Para quem chegou agora e não acompanhou a corrida, Houston teve a vitória do Grande Prêmio, enquanto Charlie ficou em segundo e Carlos Sánchez em terceiro. Um pódio diferenciado. – a mulher informa ás espectadores através da câmera. Depois ela se volta ao piloto – Hoje é seu aniversário, não é?
— É sim.
— E que forma mais maravilhosa de celebrá-lo, não?! – ela sorri.
— Realmente, da forma mais espetacular possível. – ele concorda.
— Meus parabéns! – ela deseja – Aproveitando essa deixa sobre tanta felicidade, ontem finalmente saiu um comunicado oficial de que você e a Eliza Benedetti estão juntos. E aliás ela ficou em P5 nesta corrida, que casal meus amigos! – a mulher relembra. – Devo dizer que a notícia deixou muitas de suas admiradoras tristes, mas outros complemente satisfeitos pelo casal que já era mais que evidente.
— Obrigado! – ele sorri verdadeiramente – Tentamos esconder por um tempo sim, mas chegamos à um ponto em que não achamos que seria justo guardar para nós. – ele declara – Estamos felizes e queremos compartilhar com quem nos apoia. Claro que isso não vai afetar a nossa relação profissional dentro das pistas, como nunca afetou, e por isso que a FIA foi condescendente e deu cartão verde para divulgarmos.
— Isso é maravilhoso, parabéns pelo casal! – ela diz – Eu sou uma das que shippa vocês totalmente, tenho que admitir.
— Obrigado, obrigado.
— Só mais uma pergunta, porque estou vendo que já estão te chamando ali. – a mulher diz ao ver a assessora do rapaz apontar para o relógio – Nesse aniversário pelo o que estará celebrando, a vitória ou por mais um ano de vida?
Charlie se põe a pensar, mas a resposta já estava explicitamente gritante em sua cabeça.
— O presente da Lizzie.
— O presente dela? – a mulher questiona com a testa franzida – E o que foi que ela te deu?
— Não. – ele ri – Não foi isso que eu quiser dizer.
— Mas ela te deu um presente, sim? – ele assente – Podemos saber o que um piloto de Fórmula 1 ganha de presente hoje em dia?
— Ela me deu um piano novo. – Charlie sorri. – Eu costumo tocar para relaxar e ela gosta de me assistir tocar. No entanto, quis dizer é que estarei celebrando por tê-la comigo, o que é um presente na minha vida. A vitória, mais um ano de vida, essas coisas não passariam de conquistas sem ter alguém que amplifique o significado de tudo. Alguém com quem você possa compartilhar a sua vida.
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