Race in Heels - Corrida em saltos
27 Epílogo
12 de novembro
Circuito de Interlagos – Brasil.
— “Dia de chuva na cidade de São Paulo e temos uma grande chance de deslizadas e escapadas na corrida de hoje. Esse autódromo histórico é um dos preferidos de nós, brasileiros, mas também de um grande público ao redor do mundo” – o comentarista narra. – “Eu sou Luciano Bezerra e estou acompanhado do meu colega, Felipe Gabriel. Qual a expectativa de hoje, Felipe?”
— “Vitória da brasileira Eliza Benedetti, claro. Essa grande pilota estreante que vem dando um show de pilotagem nessa temporada, quebrou inúmeros preconceitos, bateu recordes e está fazendo história. Ela teve alguns momentos ruins em algumas corridas passadas, mas isso acontece e agora está à todo vapor, mostrando que está pronta para lutar pelo primeiro lugar”.
— “Já tem um tempo que nós não ouvimos o hino brasileiro em um pódio aqui em Interlagos, serio muito bom. Não seria?” – Luciano questiona.
— “Seria, com toda certeza!” – Felipe afirme veemente – “Ainda assim, quem larga na pole position hoje é o Lance Spprol, que já não ganhava uma pole position há alguns bons meses e ela está em P8 hoje.”.
— “Ambos em boas posições. O Lance Spprol fez uma bela volta ontem. Os treinos classificatórios foram feitos debaixo do sol escaldante do meio dia e as condições eram completamente diferentes das de hoje.” – Luciano declara – “Hoje eles terão que usar pneus de chuva e torcer para não rodar muito.”.
Liza estava montada em seu cockpit já na pista, Thomas segurava um guarda-chuva sobre sua cabeça enquanto o mecânico Nick afivelava os cintos sobre o seu corpo. Outros membros da equipe faziam verificações aos ajustes feitos devido ao mal tempo, cobertos com capas de chuva e a antecipação era altamente sonora em todos os lados.
As máquinas de encaixe de pneus soava, o vento que soprava dos resfriadores portáteis grunhia, mas nada se comparava com o grito da torcida da sua nação.
Liza estava emocionada, suas mãos tremiam no ritmo do coro de OLE OLE OLE e sua cabeça vibrava junto àquelas vozes que a impulsionavam. Nada podia ser comparado, nem mesmo ao Japão.
O Brasil era sua casa e correr pela primeira vez naquela pista, pelo campeonato dos sonhos, com verídicas condições de uma vitória por ser uma ótima pilota em pista molhada... A sensação, era simplesmente indescritível.
Automaticamente ela se recorda da primeira vez que guiara naquele trajeto, há quase uma vida. Estava num carro histórico, aquele que uma vez fora de seu ídolo, usando a réplica de seu capacete e estava insegura.
Como soava bobo agora aquele medo que tinha de voltar a pilotar, quão idiota ela foi por ficar anos impedindo a si de se entregar à sua grande paixão.
Tanta coisa havia acontecido de lá para cá.
Caralho, quanta coisa.
Se lembra então do incentivo da melhor amiga, da força de vontade com que seu tio lutou para recoloca-la no mapa, do apoio de Fael, de seu pai e depois de sua mãe, coisa que ela pensara que nunca teria – mesmo que tenha sido em slowmotion.
Suas lembranças trazem todos aqueles que conheceu por meio do esporte, Mike, Cris, René, aquele que se tornara o melhor amigo Orlando, Zach, Andy, Carlos, Danny, Max e o grande amor da sua vida, Charlie. Quem havia a feito amadurecer, criar laços fortes e finalmente sentir o verdadeiro sentido do amor.
Com os últimos anos passando diante de seus olhos ela não consegue evitar lembrar-se dos maus tratos, as críticas, o preconceito, as chantagens e as pessoas que disseram na sua cara que ela não conseguiria.
Liza aperta os dedos em volta do volante. Os motores roncam.
Ela estava ali e já era vitoriosa por isso.
Eles estavam na antepenúltima corrida do campeonato e sua pontuação estava oito casas abaixo do líder, Houston, e nem se vencesse as três corridas finais ela conseguiria alcança-lo. Mas como ela queria, como ela sentia que podia vencer aquela corrida.
Naquela pista.
A sua pista.
Os técnicos saem da reta de largada e Thomas se retira com o guarda-chuva, permitindo que os finos pingos de água tocassem o seu capacete e macacão, molhando de leve a sua viseira e as luvas em suas mãos.
Aquele tempo era a sua melhor estatística, o melhor clima possível para se fazer em uma manhã de domingo na sua cidade de São Paulo.
Tudo estava casando, as coisas estavam propensas à um só resultado.
E ela se agarraria nessas possibilidades com todas as forças.
— “Agora é hora de ascender a luz vermelha, elas se apagam e vai começar a corrida.”.
— “Olha como eles saem deslizando, o Lance Spprol consegue segurar a posição e QUE LARGADA DA BENEDETTI!”— o comentarista esbraveja de emoção – “Benedetti jogou por fora e saiu da oitava posição para a sexta. Ela já vai brigar pela quarta, terceira, não, não. Ela já está disputando a segunda posição com os carros da Renou.”.
— “Roda o carro da Renou na primeira curva, roda a Alfa Toro do Gregov e o Korhonen. Ótima notícia para o Houston que também fez uma bela largada. Ele saiu da sexta posição e disputou pela quarta, passou o Lacroix e agora está na terceira posição.”.
— “É era claro que todo mundo ia largar patinando, escapando traseira, mas esses dois acharam um espaço ali e foram ganhando posição. A corrida de hoje tem tudo para ser uma das melhores da temporada, pista molhada sempre tem emoções e já de inicio isso foi comprovado aqui.”
(...)
— “Eliza, voltou a chover na curva oito” – Andy diz através do rádio.
A corrida estava a duas voltas para o final e Liza continuava em segunda posição. Na metade do trajeto, quando ela conseguira alcançar Lance, Houston abriu por fora e ultrapassou os dois, ganhando a primeira posição.
Desde que ele assumira a liderança, Liza ainda não havia conseguido encontrar brechas para passa-lo.
— “Como estão os seus pneus?” – o engenheiro pergunta.
— Estão bons, e mesmo se não estivessem eu evitaria o box. A entrada estava mega escorregadia na última parada. Meu problema mesmo é a potência. O motor fica mais lento á cada curva. – ela fiz apertando o botão de contenção de energia freneticamente. – O Manen tá colado em mim. Daqui a pouco eu perco posição.
— “Acabamos de saber que os pneus do Houston estão por um fio.” – ele informa – “Faltando duas voltas ele não vai arriscar uma parada e deixar que você passe.”.
— Não, ele vai até o final. Ela vai evitar o box também. – ela diz desacelerando para fazer a curva para em seguida aumentar as marchas novamente e acelerar na sua saída.
— “Exatamente. Acho que os pneus dele não aguentam. Segura a última volta na cola dele, guarda potência.”
— Já entendi. – Liza sorri e aproxima da traseira do adversário, com cuidado para não deixar espaço ao outro que já vinha atrás.
Liza segue o comando de Andy por alguns metros, no entanto, de súbito o pneu do seu colega da frente estoura e o carro roda na pista descontroladamente justo na entrada da curva.
A pilota tem que ser rápida e reduzir o carro com cuidado, para não ser atingida pela máquina da frente e nem pela de trás, que se aproximava em alta velocidade.
Era a sua hora.
Liza trava os pneus traseiros e faz o drift na parte seca da pista. A água escoa para os lados e o carro desliza com elegância. Ela desvia da pantera negra e meio segundo depois gira o volante para a direção contrária, estabilizando o carro na saída da curva.
A pilota acelera na reta e grita de emoção.
— AAAAAAAAAAH!
— “É ISSO AÍ, LIZZIE! ISSO FOI ESPETACULAR, GAROTA” – Andy esbraveja alegremente pelo rádio. – “Não que eu precise lembrar, mas isso é um P1!”.
Liza ri alegremente.
— “O que foi isso que a Benedetti acabou de fazer, Felipe?!” – o comentarista questiona impressionado.
— “Ela mostrou pleno controle dos pneus NA CHUVA!”.
— “Essa manobra me lembrou muito de Adalto Sampaio, Felipe.” — Luciano afirma convicto – “Todos esses anos os brasileiros se perguntaram qual seria o piloto que chegaria ao nível do nosso querido ídolo brasileiro. Colocaram pressão sobre o Roberto Reis, depositaram fé no Nelson Pessoa e até o Felipe Santos, que quero deixar claro, são ótimos pilotos. Cada um com sua essência. Maravilhosos, sou fã de cada um deles. Mas, vou te falar, é a primeira vez que eu vejo algo que pode ser comparado á ele.”
O sorriso no rosto da pilota está cada vez maior e radiante ela segue em primeira posição pelos últimos metros do trajeto.
— “Quem diria que o próximo Sampaio da nossa geração seria uma mulher. Não que alguém vai substituir ele, ninguém substitui ninguém. Mas o que queremos dizer é que agora, nós brasileiros que tanto acompanhávamos a Fórmula 1 com engajamento e vibrávamos de emoção todo domingo de manhã juntos, como se fosse jogo de copa, finalmente teremos o motivo de voltar a vibrar como naquela época. Porque temos uma jovem brasileira sensacional nas pistas que nos representa fortemente nesse esporte.” – Felipe pronuncia.
— “Ela tem um futuro promissor à sua frente. Nova, talentosa e vai se encaminhando para a sua primeira vitória na sua temporada de estreia.”— o comentarista vibra, nas imagens a McDraguen laranja voava na pista e transcendia energia – “Num resumo de uma corrida que teve o Spprol na ponta, que teve o Houston e Vandemanen como sérios candidatos à vitória, mas se chocaram faltando duas voltas para o final, que teve a Mustof pela primeira vez fora da pole position, teve os dois carros da Findspot muito bem, teve o Arthit sendo estrela, Orlando Noward com quinto lugar e... uma corrida história para colocar o primeiro ponto dourado na história dessa pilota.”
— “O primeiro de muitos que virão.”.
— “Com certeza, de muitos que virão.”— Luciano afirma veemente – “Eliza Benedetti, a pilota do olhar atento, que pensa se a entrada do box vai estar escorregadia, que olha pro céu e percebe se tem nuvem negra, se tem nuvem escura e se vai chover ou não vai, que usa as partes secas da pista e sabe se aproveitar das molhadas. A mulher que fora das pistas luta, batalha, é símbolo de diversidade, é símbolo de posicionamento, de cidadania, de feminismo. É Eliza Benedetti!”.
Liza cruza a faixa quadriculada com a bandeira balançando à sua frente em lágrimas.
— “O que você acabou de fazer, Lizzie?! Me diz o que você acabou de fazer.” – Andy esbraveja pelo rádio contente.
— Ganhamos a corrida. – ela diz em meio aos soluços.
Sua visão estava embaçada, os olhos ardiam e a garganta fechada pelo bolo de sentimentos.
— “Ganhamos a porra da corrida!” – ele grita em vibração – “E no Brasil!”.
— No Brasil. – ela repete com as mãos sob o volante guiando automaticamente enquanto escutava as explosões dos fogos de artifício, o público gritando pelo seu nome e toda a algazarra feita.
Ela tinha conseguido.
E agora ninguém poderia impedi-la de receber aquilo que era de seu mérito.
A emoção era tanta que ela demora para descer do carro, a tempo de tentar controlar o choro que há muito tempo estava contido dentro de si.
Ela é parabenizada pelas pessoas que passam pelo seu carro parado na placa de número 1 e quando finalmente recobra as forças salta do carro diretamente para os braços da sua equipe, que a erguem no ar, cantando um OLE OLE OLE gringatizado.
Liza mal se atenta quando é levada de um lugar à outro, até quando as pessoas secam o seu rosto, tiram o seu capacete, ajeitam o seu cabelo e colocam o seu boné de campeã em sua cabeça, de tão extasiada que estava por aquele conjunto de emoções.
Quando o seu nome é finalmente falado no palco ela sobe os degraus e é ovacionada pela multidão feroz e alegre, vibrando pelo seu triunfo. Ela sequer se preocupava em secar as lágrimas mais, de tantas que escorriam.
Os seus colegas ao seu lado, Sérgio González em segunda posição e Alessandro Arthit como terceira a aplaudem fortemente. E quando o hino do Brasil começa a tocar ela, junto das milhões de vozes ao redor do país, cantam a plenos pulmões.
Uma nação que tem em sua letra a adoração pela pátria, pela sua cultura e pela admiração à beleza dessa mistura genética.
O Brasil pode não ser um país de primeiro mundo com exemplo de política e economia, mas o seu povo era o mais saudoso e feliz que alguém poderia conhecer.
Ela recebe o seu troféu e ergue ao alto, dedicando à seu povo e à todos aqueles que acreditaram nela.
E na hora da chuva de champanhe?
Ela faz questão de jogar na plateia, que há muito esperava por uma vitória como aquela.
(...)
— Sério que depois de tudo isso você ainda vai ter energia para ir para a balada? – Orlando indaga quando finalmente chegam à casa do pai de Liza, que vinha acomodando cinco pilotos fora Liza e o próprio pai, depois de uma desgastante sessão de entrevistas, fotos e autógrafos.
— O que? Eu estou mais elétrica que nunca. A partir da meia noite é o seu aniversário e você está no melhor lugar para se comemorar um aniversário. – ela diz colocando o troféu na espaçosa bancada de mármore na cozinha enquanto o grupo de pessoas se espalhavam pela casa. – Vai ter uma festa chamada “Carnaval fora de época” e você vai adorar!
— Por favor, evitem sair em sites de fofoca descontroladamente bêbados e dançando em cima de mesas. – Cris choraminga sentando-se na banqueta de frente á Liza. – Eu sei que vocês têm muito o que comemorar hoje e não quero ser chata, mas não faz a titia ter que subornar paparazzi de novo.
— É, não suporto cuidar de gente bêbada. – Carlos declara assentindo.
Liza ri.
— Eles vão estar comigo desta vez. — Danny se pronuncia.
— Não sei o que tem de bom nessa frase. – Fábio provoca e o australiano lhe mostra o dedo do meio.
— Da última vez que isso aconteceu ela estava com o Vandemanen, e, vamos combinar, ele não é muito forte com bebidas, como o nosso mascote aqui. – Daniel abraça Orlando pelo ombro, que lhe dá um tapa na cabeça e faz com que seu boné voe ao chão. – Eu não vou ser o pai do rolê, mas sei maneirar as coisas. – ele diz recolhendo seu boné de volta.
— Ele vai encontrar com a gente lá. – Charlie diz jogando alguns amendoins que encontrou no pote da cozinha á boca. – O Manen.
— A Pri e o Fael também, eles só foram em casa para tomar um banho. – Liza informa.
— Então eu não tenho como prometer nada. – Daniel dá de ombros.
— Como se eu realmente fosse confiar em você, señor tequila. – Cris acentua e Daniel se retira de forma discreta em movimentos teatrais do lugar, causando risada em todos.
— Pai, vem com a gente também. – Liza se direciona ao patriarca – A minha mãe já fugiu no meio das entrevistas, usando a desculpa que tinha que fazer não sei o que não sei aonde, o que é bem típico dela, mas eu sei que você gosta de uma farra.
— Na verdade, querida, — o pai diz dando passadas até a parede. E ao alcançar o interruptor que iluminaria a sala ao lado, ele finaliza: — ela trouxe alguém especial para te parabenizar.
Quando a luz se acende Liza sente seu peito gelar, mas de uma forma maravilhosamente boa.
Ao lado de sua própria mãe estava ninguém mais ninguém menos que Emília Benedetti, sua querida e fodástica avó. Ela estava tão deslumbrante quanto Liza podia se lembrar, com os músculos torneados mesmo para a idade, os cabelos grisalhos escovados em ondas perfeitas, batom vermelho nos lábios e roupas modernas.
— Você vai ficar aí só me olhando ou vai vir dar um abraço na avó que você não vê há anos? – a mulher ralha com a voz grave.
— Vovó! – Liza esbraveja e corre de forma animada aos braços abertos da mulher. Elas se abraçam significantemente.
— Como eu senti saudade dessa completa falta de tato. – Fábio sopra ao fundo, suspirando de alegria.
— Quando acabar aqui eu também vou puxar a sua orelha, senhor Fábio. – a mulher diz sobre o ombro da neta – Semanas sem ligar para a mãe, que tipo de filho é você?
— Dona Emília, não ouse me culpar. Quando estive pelo Reino Unido te convidei umas três vezes por semana para me visitar na sede da McDraguen. – Liza diz separando-se minimamente – Mas disse que tinha clientes no paraquedismo toda semana.
— Eu não gosto de me intrometer no trabalho das pessoas, como não gosto quando se intrometem no meu. – a mulher explica.
— Acho que isso foi para mim. – Patrícia murmura de canto.
— Ela me tirou de lá na temporada em que se têm mais turistas na cidade. – Emília encara a filha com os olhos em fendas, mas sorri em seguida ao voltar os olhos para a neta. – Contudo, é completamente relevante porque vê-la novamente é muito recompensador. Minha pequena campeã.
Liza sorri agraciada.
— Como você cresceu e está mais linda que nunca. – Emília diz, girando-a pela mão para que desse uma volta em sua frente – Quase não me faz sentir falta da época que trocava suas fraldas. – a mulher ri – A quem quero enganar? Eu nunca gostei de trocar fraudas.
Elas riem.
— Temos tanta coisa para colocar em dia. Tantas novidades. – Liza diz entusiasmada. – Quero saber de tudo sobre a Fazenda Benedetti que você tanto me fala, parece ser um lugar esplêndido. Podemos combinar de ir lá nessas férias, depois que a temporada acabar e...
— Sim, sim, calma minha querida. – a mulher a interrompe sorrindo carinhosamente – Respire um pouco.
Liza ri.
— Desculpe, é que estou tão feliz que esteja aqui. – a jovem diz e volta a abraçar a avó.
Emília olha para a própria filha por cima dos ombros da neta, que está com os olhos marejados de emoção.
A família Benedetti realmente nunca havia sido tão unida, tantos traumas, limitações, repreensões, problemas, separações haviam os distanciado. No entanto eram uma família, e como toda família que brigam eles também faziam as pazes e eventualmente voltariam a ser unidos. Mesmo que demorassem mais anos que o usual para perceber, eles sabiam que a família era a chave para tudo. Como também a amizade, todos eram laços verdadeiros e reais.
— Vamos ter todo o tempo do mundo para nos atualizarmos das novidades e nos divertirmos juntas. – a mais velha diz, afastando-se para olhar nos olhos avelã marcantes da neta – Mas agora você vai ir comemorar com os seus amigos como já tinha combinado.
— O que? – Eliza questiona com a testa franzida – Não, eu não sabia que iria vir ao Brasil. Nós podemos combinar para depois, se não tiver problema, Lando... – ela se vira para o rapaz que sorri e balança a cabeça em concordância.
— Querida, querida. – a mulher a interrompe, chamando a atenção da neta de volta para si. – Não se preocupe, eu não vou fugir. Depois que sua mãe veio com todo aquele papo falando sobre o quanto devíamos ser mais próximos, como uma família, e que você havia a mostrado a importância do estar junto eu entendi que estava na hora de eu retornar para onde sempre pertenci. Mesmo que o meu companheiro não está mais aqui, tenho um pedacinho dele em todos vocês. E não quero perder mais nenhum instante de suas vidas.
Eliza olha da avó à mãe, estudando as suas expressões calmas e amorosas, e sorri por final.
— Não se importa mesmo que eu vá farrear? – ela questiona duvidosa.
— Claro que não, só não te acompanho porque não tenho mais a mesma energia que tinha na sua idade. Acabei de passar por um vôo de quinze horas, estou moída. – Emília ri – Vá farrear, dançar, se divertir, beber e soltar a franga. Do jeitinho que eu e seu avô fazíamos quando éramos jovens.
Eliza sorri verdadeiramente e volta a abraçar a avó.
— Pelo o que ouvi falar, você herdou nosso gênio de boêmios. – a mulher comenta com uma sobrancelha arqueada quando elas se separam.
— Com muito orgulho.
(...)
19 de Dezembro
Londres – Reino Unido.
A temporada havia sido finalmente dada como encerrada, tendo Luís Houston e Mustof como grandes campeões novamente, Findspot em segundo lugar no prêmio das construtoras e a McDraguen em terceiro.
As comemorações naquela última corrida celebravam além das conquistas uma temporada histórica, conturbada e, para Eliza, apenas o começo de um sonho.
Ah, sim, porque muito mais viria pelo caminho e ela já ansiava por isso.
No entanto eles haviam oficialmente entrado no período de férias das pistas e aquele era o último compromisso do ano como pilota.
Ela estava a desfilar pelo tapete vermelho do Prêmio Imprensa Automotiva promovida pela AutoEsporte e nunca se sentiu tanto como uma celebridade.
Trajada com um belo vestido longo laranja, para representar a sua construtora, com um farto decote em V e uma fenda de abertura na perna direita, ela sorria e pousava para fotos, vezes ao lado do parceiro de equipe e outras ao lado do namorado.
Concedeu algumas entrevistas breve nas margens da entrada do evento, mas logo se juntou à família, que era encaminhada à mesa reservada á eles.
Durante as apresentações ela vagava da mesa ao bar e encontrava um representante ou outro que a parabenizava pelo campeonato, alguns até se comprometeram a ligar á sua empresária para novos patrocínios, o que era muito animador.
Tudo era uma base para negócios, mas passada da metade da noite ela já estava sentada em outras mesas, batendo papo com seus amigos e bebericando uma bebida ou outra enquanto riam ao relembrar alguns momentos nos bastidores.
— Aquela competição de flexão nos boxes do Barein não teve cabimento algum. – Jorge reclama após dar uma golada na bebida em seu copo. – Orlando estava com Lizzie nas contas e eu com o Alessandro, que tem o triplo do peso dela. Foi roubada.
O grupo ri.
— Só não foi pior que aquela corrida solidária de kart no Canadá. – Danny relembra – Max fechou a Liza na curva e ela dá-lhe com uma pesada no braço dele. – os pilotos rirem – O moleque rodou que nem beyblade.
Orlando gargalha e empurra o ombro da parceira de leve.
— Como que cabe tanta raiva numa pessoa com menos de 1,65? – ele indaga. – Você nem tem tamanho e já peitou todo mundo do grid.
— Parece um pinscher. – Charlie concorda, cutucando as costelas da namorada carinhosamente – Cinquenta por cento tremedeira e cinquenta por cento raiva.
— Calem a boca. – a pilota diz aos risos, desviando das mãos do rapaz. Ele sabia que ela sentia cócegas nessa região.
— Apesar de tudo, e olha que teve muita coisa nessa temporada, acho que o melhor momento foi a festa no Brasil, comemorando o aniversário do Orlando. – Carlos destaca risonho – O Daniel tentou aprender os passos daquela dança lá...
— Samba. – Liza o interrompe para declarar.
— Isso, samba. E ele acabou arrastando Lando, que já estava louco na cachaça. – o espanhol completa. – A cena foi hilária.
— Aquela noite ele me deu o troco pelo meu vômito nos tênis dele em Holanda. – a pilota diz balançando a cabeça em decepção e dá uma bicada na taça de cerveja que o namorado a oferece – Vomitou na minha roupa todinha. Tive que me virar com um abadá que o Charlie comprou de um cara lá no meio da festa.
— Ele era grande, pelo menos ficou parecendo um vestido. – o monegasco ri, passando o braço por cima dos ombros da mulher. – Se não fosse isso, não tínhamos virado a noite na festa. A gente foi embora o sol já estava à pino.
— E só fomos embora porque o Lando estava sem condições. – Carlos ri – Ele estava apoiado em mim e no Daniel, dormindo em pé no meio daquela bagunça. Típico de Noward.
O grupo volta a rir em coro.
— Definitivamente foi uma das melhores festas que eu já fui. – Charlie declara.
— O festa foi ótima, sim, mas eu nunca mais bebo aquela bebida maldita. – Orlando diz com a voz engunhada ao se lembrar do gosto do líquido – Caipirinha é gostosa e por isso te mata lentamente. Quando você se dá conta já está bêbado, tentando conversar com as pessoas em outra língua e entrando no banheiro feminino. – Liza gargalha e o rapaz se vira em sua direção – Se você não tivesse me encontrado elas teriam me surrado.
— Pelo menos você não foi esquecido para trás. – Mike se pronuncia – Depois de meia hora sozinho essas pessoas que se dizem minhas amigas se deram conta de que faltava alguém e voltaram pra me buscar.
— E você estava bem mal, não é?! Comendo um belo de um pastel e tomando caldo de cana na feira. – Liza diz sarcástica. – Como disse que foi parar lá mesmo?
— Segui uns caras, eu estava muito bêbado. Acho que eles pensaram que eu era alguém do grupo deles e eu que eles eram vocês. – o alemão sorri alegre com a lembrança. – Aquela é uma comida maravilhosa, você tem que fazer qualquer dia para nós, Lizzie.
Eles continuam a rir com as lembranças. Isso, pelo menos, até Charlie ser chamado para apresentar uma categoria em que Liza, Mike, Tvald e Marcus concorriam.
O prêmio de novato do ano.
— Meu Deus que cara mais guapo é aquele subindo no palco. – Eliza diz espremendo os olhos e se abanando teatralmente – Ah, é. Aquele é o meu namorado.
Os rapazes riem.
— Por que o Fernando Rodríguez não está nos indicados como novato do ano? – Daniel questiona sugestivamente.
— O cara é bicampeão mundial. – Mike diz aos risos – Só porque retornou de um ano sabático, não faz dele um novato.
— Fora que ele já ganhou esse prêmio, quando realmente foi um novato. Mas seria engraçado se indicassem ele. – Orlando diz se levantando. Ele se direciona à Liza – Vamos, temos que retornar ao lugares porque eles filmam as reações.
Liza ri.
— Então eu acho que vou ficar por aqui, não quero que filmem a minha cara de perdedora quando o Mike levar o prêmio. – ela diz, mas se levanta junto ao ex-parceiro e sua namorada.
— E eu quero que eles me filmem mostrando o dedo para você quando você levar o prêmio. – o alemão diz e eles riem enquanto caminhavam lado a lado.
— Não, aposto que você leva essa. – ela para quando chega á própria mesa, Mike a encara com a sobrancelha arqueada.
— Então você quer apostar? Tudo bem. – ele dá de ombros e ergue a mão na direção dela – Se você não levar o prêmio, fico com a sua nova McDraguen 765LT por uma semana. Aquela máquina é animal.
— O carro da empresa? – Orlando ri. – Boa sorte.
— Tudo bem. – ela aperta a mão do alemão – Se eu não levar o prêmio, fico com aquela Porshe.
— Fechado. – ele diz e eles balançam as mãos.
Liza olha significantemente ao amigo.
— Mike, eu tenho que te agradecer. – ela sorri enquanto ele franze o cenho.
— Por que, exatamente?
Mirian, parceira do rapaz, percebe o clima de momento íntimo e se afasta gentilmente para dar-lhes privacidade, gesticulando disfarçadamente à Orlando, que faz o mesmo.
A jovem francesa, de 24 anos, era educada, simpática e adorou conhecer a famosa amiga de quem tanto o parceiro falava – surpreendendo Lizzie que achara que ela se incomodaria pelo fato dos dois serem tão próximos.
— Por você ter me acolhido de verdade na minha estreia. Isso me ajudou muito a crescer dentro da categoria. – Liza revela. – Você acreditou no meu potencial e me tratou de igual para igual.
— Por que, você é diferente de nós? – o rapaz se faz de desentendido por um momento, mas acaba sorrindo gentilmente. – Lizzie, você é tão decente quanto talentosa, seria impossível não gostar de você ou não me sentir ameaçado por você. – eles riem. – Apesar de duas coisas distintas, elas meio que se interligam. Trás admiração e carinho.
— Você é o irmão mais velho que eu nunca tive. – Liza sorri e o abraça rapidamente.
— E você é parecida com minha irmã, um pouco. Pelo menos na chatice. – eles tornam a rir. – Tô brincando, claro. Vou torcer por você.
— E eu por você.
Eles se afastam e se acomodam em suas mesas. Liza se senta ao lado de Priscilla e Fábio.
Todo aquele clima de celebração, agradecimentos, emoção, ou apenas pelo fato dela estar na TPM, deixava-a mais sentimental. E como ela ficava sentimental na TPM.
Mas independente do quanto seus hormônios influenciassem isso, ela sempre seria eternamente grata àqueles dois e não poderia deixar de expressar isso.
— Eu... – ela limpa a garganta, chamando a atenção dos dois ao pegar em suas mãos. – Eu não sei se já deixei claro o quanto eu sou agradecida por vocês. De verdade.
Priscilla põe a mão livre sobre o peito com a face amável enquanto Fábio fechava o semblante, se fazendo de durão quando, na verdade, todos sabiam que era o mais emotivo dali.
— Vocês foram os primeiros. Desde o início acreditaram em mim e lutaram pelo meu sonho quando eu estava em uma fase... Bom, completamente perdida na vida. – ela umedece os lábios, para ganhar tempo e o bolo descer pela garganta – Eu não sei o que faria da minha vida sem vocês dois, tiveram papéis muito importantes na minha história e na minha carreira e eu não poderia estar mais grata por ter vocês na minha vida. Amo vocês demais e... Bom, — ela suspira – só queria dizer obrigada por estarem comigo sempre.
Ela olha de um à outro e o trio se abraça carinhosamente.
O silêncio entre eles sendo acobertado pelo burburinho de conversas pelo salão.
Não era preciso dizer mais nada.
As luzes refletem e o título da categoria brilha no telão gigantesco do palco atrás de Charlie, trajado com um belo terno, com direito à gravata desenhada, sapatos requintados e um sozinho maravilhoso no rosto.
Liza havia perdido toda e introdução ao fazer seu pedido ao garçom para que trouxesse mais um copo do vinho depois do momento fofura com Fábio e Priscilla. No entanto, sua atenção é chamada por Cris quando o rapaz se reaproxima do microfone depois que passado os vídeos de cada indicado para revelar quem levaria a estatueta aclamada do esporte.
— Sobre o vencedor do prêmio como novato do ano, eu tenho muito o que falar. – o monegasco diz – Tenho a honra de dizer que o conheço muito bem e que é maravilhoso poder não só competir... como viver ao lado dela. – ele sorri significantemente na direção de Liza, todas as cabeças se voltam à ela – Para quem não a conhece eu vou dar leve uma ideia de como ela é. – o rapaz suspira apaixonado – Ela é aquela pessoa que conversa sobre tudo, que sempre tem um papo bom e os melhores conselhos, mesmo que não seja muito boa em segui-los. – a plateia ri – Ás vezes ela solta uma piada boba, faz uma gracinha nos momentos mais inapropriados para descontrair, e isso é uma das pequenas coisas que a torna tão cômica.
Liza sorri abertamente, o coração batendo à mil.
— A energia que ela transmite é tão boa e tão forte, que chega ao ambiente antes mesmo da própria chegar. – Charlie continua a declarar – Ela ama essa coisa de ser intensa, de ser humana, gente como a gente, de se preocupar com o próximo e mergulha de cabeça em tudo o que faz. Ela tem um coração lindo, aquele que é capaz de perdoar, além de ser um dos mais gentis e generosos que eu já vi. E ela o coloca em tudo o que faz. – Liza sente a mão de Fábio pousar sobre a sua por cima da mesa, ela entrelaça os seus dedos e sorri em sua direção – Infelizmente já tentaram se aproveitar desse coração, ela apanhou para cacete e já conheceu as partes mais sombrias da vida. – a pilota seca os olhos delicadamente com um guardanapo que Cris compartilha, não percebera quando ela mesma ou todos ao seu redor começaram a chorar – Caiu trezentas e setenta mil vezes e poderia ter se tornado uma pessoa amarga sim, mas ainda assim prefere ser doce. Ela é doce, sabe? – ele questiona retoricamente para a mesa à sua frente, coincidentemente onde Max estava, a quem concordava com a cabeça vagarosamente à cada palavra – Ela prefere ser a luz. – Charlie volta à olhar Liza – Ela é a minha luz. Senhoras e senhores, a vencedora do prêmio de novata do ano é o grande amor da minha vida, Eliza Benedetti.
Uma salva de palmas rompe por todo o salão, estrondosa e comovente.
Liza se levanta. Ela abraça o pai, Fábio, Priscilla, Fael, a mãe, Orlando e Zach rapidamente, e se depara com Mike aplaudindo saudosamente a sua nomeação.
Ela sorri verdadeiramente e se encaminha até o palco, apertando a mão de quem a parabenizava pelo caminho.
Suas mãos estavam meio trêmulas e seu coração faltava saltar pela boca.
Meu Deus, que momento!
Liza sobe ao palco segurando a barra do vestido longo para não tropeçar – o que seria a sua cara – e abraça Charlie com vontade.
— Filho da mãe, precisava me fazer chorar? – ela sopra em seu ouvido.
— Agora o público sabe quem você é de verdade, se já não soubessem. – ele diz e se afasta para entrega-la o prêmio dourado em suas mãos.
A luz dos refletores que apontavam para o palco fazia-o brilhar e resplendecer. Era realmente bonito e significante.
Liza se aproxima do microfone e todos se calam e se sentam, dando-a abertura para começar o seu discurso.
— Toma essa, Fernando Rodríguez. – ela solta descontraída e todos riem. – Tô brincando. – ela se adianta em esclarecer – Deus, como superar esse discurso maravilhoso agora? – ela sorri e seca as lágrimas nos cantos dos olhos.
Liza encara a plateia à sua frente e respira fundo.
— Caraca, sorte que minha maquiagem é à prova d’água.
O público ri.
— Eu não sei o que dizer, tinha todo um roteiro preparado na minha cabeça caso isso realmente acontecesse, mas ele simplesmente... – ela joga a mão ao ar, expressiva. A plateia ri novamente. – Bom, vamos começar com os agradecimentos então. – Liza suspira – Eu gostaria de agradecer à academia pelo prêmio maravilhoso, aos meus fãs que tanto me apoiam e especialmente à minha equipe. Cada um deles tem a sua dose significativa de energia que me impulsionou a estar onde estou hoje e quero agradecer principalmente à CasCris Ricci e Zachary Bowl, que acreditaram em mim quando eu mesma não estava a acreditar. Assim como Angél e René também, vocês me deram oportunidades, me protegeram e eu nunca, jamais, vou me esquecer disso. – ela olha diretamente para a mesa em que a empresária e o atual chefe estavam, mas não enxerga muito diante das luzes. – Quero agradecer também à meus amigos do Brasil, que estão aqui hoje, o meu amor, – ela olha sugestiva á Charlie – meu pai, meu tio, minha mãe e minha avó. Eles são minha base incondicional e linda. – ela respira fundo e percebe algumas pessoas nas margens do palco mostra-la o relógio – Eles ali estão avisando que meu tempo está acabando, Meu Deus.— ela abana as mãos rapidamente – Calma galera. – o sonoro som de risadas volta a soar – Ainda tenho que agradecer aos meus colegas de trabalho, os meus parceiros, rivais, adversários, como queiram chamar. Eles me mostraram que a Fórmula 1 pode ser maior que esse conceito de competição porque acabaram se tornando a minha família fora de casa. Eles cuidaram de mim, me apoiaram, me ensinaram, me aconselharam e eu só tenho a agradecer por ter tido esse privilégio de conhecer vocês. Fiz amizades realmente verdadeiras aqui dentro e... Bom, e eu adoro vocês, meninos. – ela sorri aos pilotos. Voltando-se á maior plateia, ela continua: – Sei que ainda existem os preconceitos de gênero nessa categoria, que as pessoas ainda vão levar tempo para se acostumar com esse novo modo, da mesma forma como sempre vai haver o dinheiro sujo que compra a alma dos bons e que o esporte ainda vai ser influenciado por isso, eu sei. – Liza suspira – Mas eu estou completamente satisfeita de poder mostrar o meu lugar, abrir esse espaço para que outras mulheres tenham oportunidade de vir também, e que juntas nós consigamos impor o respeito que merecemos. Muito obrigada. – ela finaliza erguendo o troféu e a plateia estronda em aplausos e assobios animados, levantando-se de seus assentos mais uma vez.
Quando está para sair do palco com Charlie, Liza é lembrada pela assessora que tem que apresentar um prêmio com Daniel, que caminha até ela em passadas animadas.
— Eu quase me esqueci. – ela confessa entregando o troféu á Charlie e encaminha ao lado do australiano sorridente de volta ao centro do palco.
As luzes miram os seus rostos e lado a lado eles leem a introdução da categoria na tela abaixo da câmera à sua frente.
— Estamos aqui para honrar o piloto que deu de tudo e fez um trabalho excepcional em pista. – Danny começa.
— Mas depois cometeu um erro que colocou tudo a perder. – Liza faz um cara sofrida.
— Este é a Anta de Ouro. – Daniel revela risonho e a plateia ri.
— Sabemos que nenhum de nós quer receber um prêmio como este. – Liza diz depois que as risadas cessam.
— Assim como assumir que nós fodemos tudo em um milésimo de segundo.
— Mas como a imprensa adora tirar um sarro de nós.
— Cá estamos com as piores manobras da temporada votadas pelo público da Fórmula 1. – Daniel diz e pega o cartão com a lista que a assistente de palco o entrega — Graças a Deus eu não estou nesta lista.
— Mas esteve no ano passado. – Liza relembra. O público volta a rir.
A organização da premiação escolhera exatamente a dupla para apresentar o prêmio, pois eram considerados uns dos pilotos mais engraçados do grid, Liza e Daniel já foram protagonistas de inúmeras brincadeiras nos bastidores e momentos divertidos que agradavam aos fãs do esporte.
— Não se prenda ao passado, Lizzie. Ano novo, vida nova. – ele diz – Vamos aos indicados.
O telão às suas costas mostravam imagens dos pilotos específicos.
— Max Vandemanen, pelo GP da Turquia. – o australiano diz.
— Charlie Lacroix, também pelo GP da Turquia. – a brasileira anuncia risonha.
— Essa corrida realmente foi uma droga para todos. – Daniel comenta – Exceto eu, claro. Que acabei no pódio. – ele sorri, fazendo a plateia rir.
— Alessandro Arthit, pelo GP de Mônaco.
— Orlando Noward, pelo GP do Japão.
Daniel passa o envelope para a pilota que sorri para a plateia.
— E o prêmio Anta de Ouro vai para... – Liza abre o cartão e ri, em seguida mostra a Daniel que também ri.
— Orlando Noward. – eles dizem juntos e o público aplaude enquanto o rapaz ria e se encaminhava até o palco.
Liza e Danny aplaudiam enquanto aguardavam a sua chegada, quando a jovem torce o nariz e o tapa disfarçadamente.
— Meu Deus, está sentindo esse cheiro? – ela pergunta na direção do australiano, já afastados do microfone e longe dos holofotes.
— Sim, eu peidei. – Daniel admite com repleta naturalidade e Liza arqueia as sobrancelhas, arregalando seus olhos, antes de cair na risada.
Liza põe a mão na frente da boca para não roubar a atenção que a caminhada de Orlando recebia.
— Caralho, Danny. – ela diz contida, ainda entre risos, enquanto se abanava com o cartão. – Seu podre.
O australiano ri contido e logo se adianta em receber Orlando, que finalmente chega ao palco, entregando-lhe o prêmio que a assistente havia o passado.
Liza abraça o parceiro ainda aos risos e se afasta para que ele discursasse.
O rapaz para de frente ao microfone e suspira olhando para a estatueta em suas mãos.
— Eu tive todo o trabalho de ir às compras de um terno elegante para vir até aqui hoje porque a Lizzie diz que me visto como uma criança casual e eu queria parecer um inteligente casual para levar para casa um prêmio como o piloto do ano e... isto acontece. – ele ri, indicando o prêmio em mãos. A plateia gargalha – A corrida correu bem, mas joguei tudo fora na última curva. Cometi um erro e reagi através do rádio, todo mundo pôde ouvir o quão frustrado eu fiquei. Mas essas coisas acontecem, é um momento de aprendizagem e um ponto de partida para crescer e voltar mais forte. Obrigado AutoEsporte, vou colocar esse prêmio entre meus troféus preferidos.
Os espectadores aplaudem enquanto eles são levados aos bastidores, onde diversas pessoas corriam de um lado ao outro para fazerem o evento continuar.
— Droga, esse queijo de búfalo que eles serviram não me fez bem. – Danny diz com a mão na barriga antes de disparar corredores adentro procurando pelos banheiros.
— Bem que senti um odor estranho no palco. – o britânico comenta. – Ele não...?
— Ele sim. Como sempre. – Liza afirma. – Ainda não superei a bomba que ele soltou em plena conferencia de imprensa no México.
— Aquela foi de alastrar, acho que aquele cheiro nunca mais vai sair de lá.
Liza e Orlando riem juntos.
— Colar novo, hein? O que é isso? – ele aponta a corrente nova e notória em volta o pescoço da amiga, que não havia reparado antes.
— É meio que presente de aniversário que o Charlie me deu. – ela diz passando a mão sob o colar – A história é longa.
— Com diamantes e tudo, ele gosta de se exibir. – Orlando ri, notando as pedras brilharem intensamente. No final, um pingente incomum – O que a chave quer dizer?
Liza suspira, mas sorri radiante.
— Essa é a cópia da chave da casa que nós compramos juntos.
Orlando arqueia as sobrancelhas e seus olhos azuis triplicam de tamanho.
— Compraram uma casa juntos? – questiona chocado – O que? Como isso aconteceu, quando aconteceu?
— Foi no final de semana do meu aniversário, fomos comemorar em Paris e percebemos que a França fica exatamente a duas horas daqui como da Itália. – ela conta sem tirar o sorriso do rosto – Pensamos ser uma ótima ideia e acabamos comprando uma casa em Limoges. Aí ele me deu esse colar para representar nossa primeira conquista juntos.
O britânico sorri, apesar de seu peito esmorecer.
Limoges ficava distante de Woking, apesar de não tanto quando os voos com escala até Dublin. Mas isso significava que ele ficaria sozinho mais uma vez.
Claro que o rapaz não a culpava, afinal Liza tinha a vida dela com o namorado e ela e Orlando eram bons parceiros de equipe, como grandes amigos, mas isso não interferiria na decisão dela.
Só que, poxa, ele já estava contando com os passeios que eles tanto haviam programado, as partidas de videogame na madrugada, as conversas divertidas, as competições infantis e as garotas que a amiga empurraria para ele, insistindo no quanto ele precisava de uma namorada.
— Eu fico feliz por vocês. Sério. É um grande passo. – ele diz. – Como é a casa?
— Tem um quintal grande, piscina, lareira, até campo de futebol, um espaço para golfe e uma cozinha com muitos eletrodomésticos modernos. – ela ri, recordando-se das definições impostas por ela e Charlie para os requisitos cumprirem com as metas de seus sonhos. – Exatamente do jeito que queríamos. Tem muito espaço.
— Isso é ótimo. – Orlando vibra, realmente feliz pela parceira – Por acaso vou ser convidado à ir, já que você nem me contou sobre essa novidade e está me abandonando aqui?
Orlando tinha que controlar a sua boca, ele se repreende mentalmente no mesmo instante.
Liza sorri.
— Claro que vai. – ela assente – Na verdade você tem até um quarto lá.
As sobrancelhas de Orlando entortam, a testa franze e ele está completamente perdido.
— Um quarto na sua casa nova?
— Sim. – Liza puxa o telefone da bolsa de mão que ele sequer notara que ela segurava, aperta em alguns lugares da tela e na galeria seleciona as fotos de um cômodo. Era um quarto espaçoso de paredes brancas, tinha uma varanda com portas de vidro que davam vista à uma paisagem cheia de arvoredos verdes, chão de madeira envernizada com algumas latas de tinta azuis nos cantos – Não te contei porque estamos decorando e eu queria mostrar pronto. Vamos colocar um simulador de corrida aqui no canto, — ela indica a parede lateral – e uma mesa espaçosa para você colocar o seu videogame e gravar as suas twitches quando precisar.
O rapaz mira o lugar no celular com os olhos vidrados.
— Realmente fez um quarto para mim? – ele questiona aos murmúrios.
— Claro, Lando. – ela afirma veemente, mirando seu rosto – Você acha que meu irmãozinho não teria um quarto na minha casa?
O britânico fica sem fala. Seus olhos azuis se tornam mais brilhantes.
— Nós combinamos que seríamos como Harry e Hermione. – ela pronuncia com um sorriso terno no rosto – Não achou que eu tinha me esquecido disso, achou?
Ele respira fundo, controlando o bolo crescente em sua garganta e aperta o nariz rapidamente, para negar com a cabeça.
— Sempre que ficar para baixo, se sentir sozinho ou estiver de bobeira, você pode ir lá para casa. – ela declara bloqueando a tela do celular e o guardando de volta na bolsa minúscula – Sabe, somos uma família. E cuidamos um do outro. Adoro a sua companhia, assim como Charlie, e queremos você por perto sempre.
Ele assente de cabeça baixa e é quando ela escuta ele fungar com o nariz.
— Oh, Lando!— Ela exclama, surpresa e o puxa para um abraço – Você está chorando?
— Eu não estou chorando, você está. – ele diz com a voz falha e limpando os olhos. Eles riem, a frase já era quase um bordão dos dois. Os olhos de Liza marejam automaticamente. – Obrigado, Lizzie. É realmente significativo para mim.
Eles ficam abraçados por alguns instantes.
— Claro que algumas vezes vai ter que dividi-lo com a Pri, com o Mike, o Joseph, Danny, Carlos... até o Max. – ela se interrompe – Acho que teremos que decorar os demais quartos. É muita gente.
Eles riem bem humorados.
— Que família grande a nossa.
Liza automaticamente se recorda da Eliza Benedetti de dois anos atrás. Com um grupo seleto de amigos, infeliz com a sua vida, afastada da família, com um romance sem muitas expectativas, apenas sobrevivendo para pagar as contas para, quem sabe, fazer alguma coisa memorável.
Hoje ela era memorável, ela era a própria história.
E tinha finalmente entendido que para isso ela teve que se aceitar e aceitar aos demais, cada qual sendo do jeito que é. Teve que impor, mas também respeitar, ter empatia e ser acessível, ao mesmo tempo em que se protegia e se resguardava.
Não tinha sido fácil, mas ela aprendeu que ninguém se torna alguém sozinho e tinha em mente que só estava naquela posição hoje devido aqueles que estiveram do seu lado, nos piores e melhores momentos.
Sim, ela se mostrou ser uma pessoa completamente apegada e sentimental. Mas, que se dane, ela não considerava aquilo como um defeito. Destes ela tinha inúmeros outros, e tudo bem também.
Não é só de qualidades que se monta o caráter de alguém.
Somos humanos. Falhos e emotivos.
E, talvez, essa é a sua maior virtude.
Ela havia amadurecido, havia se tornado uma mulher.
E como mulher madura sempre instigaria por mais.
“Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar no sonho que se tem, ou que os seus planos nunca vão dar certo, ou que você nunca vai ser alguém” [RUSSO]
“Quando tudo nos parece dar errado, acontecem coisas boas que não teriam acontecido se tudo tivesse dado certo.” [Autor desconhecido].
FIM.
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